terça-feira, 27 de março de 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Balneário

Estão as janelas rasgadas e o sol radioso, a humidade pegajosa, as cadeiras enfileiradas de mães enfastiadas, e o calor. O calor. Tu não estás, na cadeira amarela, nem na encarnada, nem na azul, na fila das cadeiras atrás de mim, com livro, sem livro, staring, not staring. Sorrindo, sorrindo sempre o sorriso à hora marcada, o teu corpo esguio a sair do carro e eu a espreitar-te, a esperar-te à janela imensa, a eternidade no espaço que levas a subir as escadas, o cronómetro em marcha, dez, quinze minutos para me dizer, as mãos amarradas, bem mandadas, um toque só, um toque hoje, não, talvez na hora da semana que vem.
E agora uma imitação barata de ti sentado no chão, no mesmo exacto pedaço de chão, no corredor comprido uma sombra de ti, a procurar-me a vontade, a olhar-me sem sorrir o teu sorriso meu, uma mera sombra que dissolvo aos pontapés até aos confins da memória, sacudindo a sede e as mãos vazias amarradas atrás das costas.