Não estou, de facto, segura, de como se processa o pensamento consciente no momento em que se esvai a própria consciência. Sem querer teorizar sobre a situação limite que é o momento da morte, o fim da existência tal como a conhecemos, atenho-me à questão concreta da perda de consciência: quanto a esta, servi-me de doses equivalentes de efabulação e experiência (e, também, como tão pertinentemente refere, de empatia). De facto, já me aconteceram perdas quase totais de consciência e percebi que as sensações ligadas aos estímulos externos - a visual, primeiro, e a auditiva, em seguida - são as primeiras a desligar, ficando a pairar, como que num limbo negro e silencioso, o pensamento e a consciência de nós, e do nosso corpo - pensamento que, no meu caso, se traduziu em linguagem pensada, muito concreta, coisas como estou tonta, vou cair, vou desmaiar. Houvesse caído efectivamente - em sentido literal como figurado - e desconfio que sim, que me acompanharia na queda até ao momento do apagamento completo (ainda que sem a capacidade visual). Mas não cheguei a tanto. Por outro lado também já experimentei o estado de choque e aí, curiosamente, é bem o contrário: desaparece o pensamento consciente, restando apenas as sensações e reacções primárias, sendo que a memória posterior (reconstruída muito devagar e ao longo de muito tempo) é composta por flashes de imagens e sensações (luz, movimento, vozes, sensações físicas), desprovidos de qualquer pensamento ou raciocínio consciente. A vivências destas experiências, assaz perturbadoras e intensamente fascinantes, serviram-me de referência na construção do TEXTO e a introdução de um narrador/observador, como elemento externo e, simultâneamente, interno (vantagens da ficção) permitiu-me contornar a questão técnica que colocou, sem a resolver inteiramente. Tudo isto, confesso, foi feito de forma inconsciente, pelo que agradeço agora, caro Jansenista, a oportunidade que abracei, de desconstrução.
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p.s. e aviso à navegação: os termos usados foram-no nas suas acepções correntes.
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