quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ao Jansenista: da consciência, da perda da mesma e, possivelmente, da insconsciência

Não estou, de facto, segura, de como se processa o pensamento consciente no momento em que se esvai a própria consciência. Sem querer teorizar sobre a situação limite que é o momento da morte, o fim da existência tal como a conhecemos, atenho-me à questão concreta da perda de consciência: quanto a esta, servi-me de doses equivalentes de efabulação e experiência (e, também, como tão pertinentemente refere, de empatia). De facto, já me aconteceram perdas quase totais de consciência e percebi que as sensações ligadas aos estímulos externos - a visual, primeiro, e a auditiva, em seguida - são as primeiras a desligar, ficando a pairar, como que num limbo negro e silencioso, o pensamento, a consciência de nós e do nosso corpo - pensamento que, no meu caso, se traduziu em linguagem pensada, muito concreta, coisas como estou tonta, vou cair, vou desmaiar. Houvesse caído efectivamente - em sentido literal como figurado - e desconfio que sim, que me acompanharia na queda até ao momento do apagamento completo (ainda que sem a capacidade visual). Mas não cheguei a tanto. Por outro lado também já experimentei o estado de choque e aí, curiosamente, é bem o contrário: desaparece o pensamento consciente, restando apenas as sensações e reacções primárias, sendo que a memória posterior (reconstruída muito devagar e ao longo de muito tempo) é composta por flashes de imagens e sensações (luz, movimento, vozes, sensações físicas), desprovidos de qualquer pensamento ou raciocínio consciente. A vivências destas experiências, assaz perturbadoras e intensamente fascinantes, serviram-me de referência na construção do TEXTO e a introdução de um narrador/observador, como elemento externo e, simultâneamente, interno (vantagens da ficção) permitiu-me contornar a questão técnica que colocou, sem a resolver inteiramente. Tudo isto, confesso, foi feito de forma inconsciente, pelo que agradeço agora, caro Jansenista, a oportunidade que abracei, de desconstrução.
*
p.s. e aviso à navegação: os termos usados foram-no nas suas acepções correntes.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Manhã

Com a queda, a face direita colou-se-lhe ao chão. Sentiu a frescura da tijoleira da cozinha e, sem saber porquê, soube-lhe bem. Um ligeiro formigueiro percorreu-lhe o corpo, quis mexer-se e não conseguiu. Passados os instantes de aflição, entregou-se à paz anestesiada que veio embalá-la, num aconchego que lhe lembrou o da avó paterna, lá muito longe, quando era menina. Era manhã, uma aragem fresca vertia-se pelas frinchas das janelas e tomava o espaço silencioso, teimando contra os primeiros raios do sol. Os canários ensaiavam trinados na marquise. Ao longe ouvia-se o rumor do dia a levantar, os carros a acelerar no viaduto, uma criança nas escadas.
Não chegara a casar, nem tivera filhos. Saiu intempestivamente da aldeia quando o noivo lhe deu um estalo por ter entrado sozinha no café, à sua procura. Este pequeno incidente alterou-lhe a vida, foi a gota a mais que a fez largar um futuro que não queria para nada e desaguar em Lisboa, para o pé da irmã. Foi a melhor coisa que fez, disse-o pela vida fora. Em Lisboa, empregou-se numa casa de família, fez seus os filhos dos patrões, que recebia com mimos e pão-de-ló, quando chegavam do colégio. Nas manhãs soalheiras de Sábado, cantava alegremente, as cantigas que ouvia na rádio, os meninos entrando-lhe na cozinha a cheirar o almoço, a provar da massa dos rissóis que estendia, rindo-se das suas cantorias. Namorar era complicado, não lhe sobrava tempo para tais assuntos. Os Domingos passava-os em casa da irmã, faziam croché no sofá, junto à janela, e ajudava na lida da casa, que a irmã trabalhava para fora.
Não tinha medo de morrer. Assim como assim, a vida trazia-lhe já poucas alegrias, os dias sucedendo-se iguais, da cama para a cozinha para o televisor. Juntara-se, tarde, a um senhor viúvo, partilharam a casa meia dúzia de anos, meia dúzia de anos de sossego conjugado, depois a doença levou-o, havia já tanto tempo A partir daí custara-lhe, sobretudo, o silêncio. Sentia, ao final dos anos, a falta das tarefas que se encadeavam nas seguintes e não lhe deixavam tempo para pensar na vida. De pouco lhe serviam agora as mãos, outrora habilidosas. Quando as pernas fraquejaram deixou de sair e, com o tempo, deixara de se importar com isso, afinal, sair era uma trabalheira, para ela e para quem fosse que a levasse. Ultimamente vivia mergulhada no passado, as memórias e as novelas ocupavam-lhe os dias, os bichos faziam-lhe companhia. Não, não tinha receio da morte. Sentia a tranquilidade das coisas inevitáveis e a irmã, serena, do lado de lá.
Soube da presença do cão, lá longe, junto de si, mas já não pôde sentir-lhe a língua quente nas mãos apaziguadas. Sorriu, percebendo na boca o gosto dos quadrados de noz que os meninos tanto gostavam e que comia no dia seguinte, ao pequeno-almoço, com o café aguado da cafeteira de esmalte. Veio-lhe à memória aquela canção que cantarolava nas manhãs de sol, quando a casa se aquietava e se entregava à lida. Como é que era? Ah, sim, começava assim:
*
Escrevi este texto a convite e para o Delito de Opinião. Agradeço à Ana Vidal o voto de confiança.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Delito de Opinião

Hoje, por via de um gentil convite, vou estar ali.