Desço no elevador ao piso -1 do hotel, rumo ao ginásio. É pequeno, mas bem equipado, percebo que não é exclusivo dos hóspedes: encontro meia dúzia de homens pelos quarenta, cinquenta anos, numa convivência discreta, familiarizados com o treinador. A segunda coisa em que reparo é que sou a única mulher. Instintivamente penso que talvez devesse ter vestido uns shorts mais compridos, uma t-shirt menos justa. Sacudo o instinto milenar sorrindo interiormente, honestamente, sinto-me bem assim, entre homens, os homens são claros e benevolentes. Não penso mais no assunto enquanto subo para a passadeira e dispo o casaco. Tomo o meu tempo e examino atentamente as funções, não sou, notoriamente, frequentadora de ginásios. Ponho-a em marcha lenta, vou experimentando botões, espreito os vizinhos, hesito, carrego no stop, desço, dirijo-me ao encarregado que, diligente, me oferece uns auriculares. Torno a subir, escolho um canal de música, ponho a passadeira em marcha, coloco os auriculares, acelero até aos 8km/h e começo a correr. Abarco a sala com o olhar, através do grande espelho. São 18.30, entram novos candidatos às passadeiras alinhadas frente ao espelho, colocam faixas à volta do peito, trocam comentários breves que mal distingo por sobre a música. Fazem como se eu ali não estivesse. Se os encaro através do reflexo, sorriem-me abertamente. Aumento o volume e desligo o olhar. Corro, deixando a música entrar-me pelos ouvidos e sair-me pela planta dos pés, torno-me leve, ainda mais leve sobre a faixa de borracha musical que se desenrola sob os meus pés. Penso que vou comprar um i-pod, para usar junto ao rio. Eles andam, eu corro em ritmo brando e contínuo. São 18.45 e reparo que se puseram em corrida, espreito-lhes a velocidade, 10, 11 km/h. Noto o suor a impregnar-lhes as t-shirts escuras, o esforço nas caras crispadas, prolongam-no até não poder e depois tornam ao passo. Nos meus 8 km/h e passado o esforço inicial, aumento a música e desligo o olhar, corro e começo a cantar, suprimindo o som ao sair-me dos lábios. A música, a regularidade da passadeira e a costumeira ausência de transpiração combinam-se para que me alheie do desempenho físico e, pelas 19.00, uma euforia tranquila leva-me a aumentar a velocidade para os 9 km/h. Os meus vizinhos vão intercalando entre o passo e a carga brutal. São homens. Empenham-se cerrando os dentes, dão o máximo, acusam o esforço, soltam longos sopros, trocam conversas soltas quando regressam à marcha. Não são particularmente jovens, não têm porte atlético, mas são cuidados, as pernas musculadas, os braços firmes, cabelos bem cortados, rostos polidos, pais e maridos dedicados. São 19.15, corro a 130 batidas por minuto e canto, suprimindo a voz.
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4 comentários:
Ahaha...vai ser necessário verificar a veracidade desse post. Para a próxima, troco um jantar por uma corrida à beira do rio. Fica o desafio de saber quem canta melhor em silêncio.
GrAuLi
Desafio aceite. E porque não à beira do teu lago em vez do meu rio?
Terminada a maratona e sem uma gota de suor... canto sem suprimir a minha voz ;)
http://www.youtube.com/watch?v=tXBNHDu2x7M
Gostei.
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