segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

J.

O J. é o novo professor de yoga. As aulas são na sua casa, mais bem preparada para o efeito do que qualquer ginásio, e vai-se a pé, o que é uma vantagem incomensurável. Na casa do J., encontra-se um grupo discreto, descontraído mas empenhado de mulheres e homens, tantos homens quantas mulheres, que é coisa pouco habitual de encontrar. A sala de prática do J. está sempre limpa, quentinha e preparada, e apetece lá entrar e apetece lá ficar. O J. dá cabo de nós: depois de nos colocar em posturas difíceis de suportar pelo tanto que exigem de músculos e tendões, vem e puxa mais a perna ou empurra mais o braço, estica e torce quando já não cabia em nós esticarmo-nos ou torcermo-nos mais, e carrega onde dói, exactamente onde mais dói. O J. puxa por nós e responde com humor quando protestamos e, mentalmente, lhe chamamos nomes feios. Obriga-nos a reposicionarmo-nos quando o corpo cede, a aguentarmo-nos quando a confiança afrouxa. Ele sabe até onde pode ir e sabe, melhor do que qualquer um de nós, até onde podemos chegar. Por isso, o J. puxa por nós e não nos deixa desistir, a nenhum de nós. Faz-nos transpirar, até aos que nunca transpiram, pede-nos o litro e mais um litro a seguir, enquanto o gato gordo, o gato mais gordo que já vimos, dorme refastelado junto ao aquecedor. Quando aparecemos a experimentar, praxa-nos, não sem avisar, em sessões que não se aguentam, que quase não se aguentam e então pensamos em não voltar, mas voltamos e ainda bem, porque logo a seguir fazemos algo de extraordinário, como ficarmos pendurados de pernas para o ar, o sangue a correr para a cabeça. O J. puxa por nós e fá-lo, a cada vez, de uma forma diferente, de uma nova maneira de nos surpreendermos. É por isso que nós vamos, é por isso que nós voltamos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Porto - 1

Desço no elevador ao piso -1 do hotel, rumo ao ginásio. É pequeno, mas bem equipado, percebo que não é exclusivo dos hóspedes: encontro meia dúzia de homens pelos quarenta, cinquenta anos, numa convivência discreta, familiarizados com o treinador. A segunda coisa em que reparo é que sou a única mulher. Instintivamente penso que talvez devesse ter vestido uns shorts mais compridos, uma t-shirt menos justa. Sacudo o instinto milenar sorrindo interiormente, honestamente, sinto-me bem assim, entre homens, os homens são claros e benevolentes. Não penso mais no assunto enquanto subo para a passadeira e dispo o casaco. Tomo o meu tempo e examino atentamente as funções, não sou, notoriamente, frequentadora de ginásios. Ponho-a em marcha lenta, vou experimentando botões, espreito os vizinhos, hesito, carrego no stop, desço, dirijo-me ao encarregado que, diligente, me oferece uns auriculares. Torno a subir, escolho um canal de música, ponho a passadeira em marcha, coloco os auriculares, acelero até aos 8km/h e começo a correr. Abarco a sala com o olhar, através do grande espelho. São 18.30, entram novos candidatos às passadeiras alinhadas frente ao espelho, colocam faixas à volta do peito, trocam comentários breves que mal distingo por sobre a música. Fazem como se eu ali não estivesse. Se os encaro através do reflexo, sorriem-me abertamente. Aumento o volume e desligo o olhar. Corro, deixando a música entrar-me pelos ouvidos e sair-me pela planta dos pés, torno-me leve, ainda mais leve sobre a faixa de borracha musical que se desenrola sob os meus pés. Penso que vou comprar um i-pod, para usar junto ao rio. Eles andam, eu corro em ritmo brando e contínuo. São 18.45 e reparo que se puseram em corrida, espreito-lhes a velocidade, 10, 11 km/h. Noto o suor a impregnar-lhes as t-shirts escuras, o esforço nas caras crispadas, prolongam-no até não poder e depois tornam ao passo. Nos meus 8 km/h e passado o esforço inicial, aumento a música e desligo o olhar, corro e começo a cantar, suprimindo o som ao sair-me dos lábios. A música, a regularidade da passadeira e a costumeira ausência de transpiração combinam-se para que me alheie do desempenho físico e, pelas 19.00, uma euforia tranquila leva-me a aumentar a velocidade para os 9 km/h. Os meus vizinhos vão intercalando entre o passo e a carga brutal. São homens. Empenham-se cerrando os dentes, dão o máximo, acusam o esforço, soltam longos sopros, trocam conversas soltas quando regressam à marcha. Não são particularmente jovens, não têm porte atlético, mas são cuidados, as pernas musculadas, os braços firmes, cabelos bem cortados, rostos polidos, pais e maridos dedicados. São 19.15, corro a 130 batidas por minuto e canto, suprimindo a voz.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As horas

Ano novo, blá, blá.
Não me ocorre nada para dizer que não tenha dito já: esgotei-me do que dizer. Resta, talvez, esperar.