domingo, 30 de outubro de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Nem todos os anos que passam se vivem: uma coisa é contar os anos, outra é vivê-los.

Padre António Vieira, citado pel' O Jansenista

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sine Die

Este blog completou 4 anos no dia 14, o que se comprova pelo arquivo junto.
Está visivelmente interrompido: limito-me a reconhecê-lo, não sem a ponta de amargura com que aceito outras inevitabilidades.

segunda-feira, 14 de março de 2011


Fui respirar e já voltei.

quarta-feira, 2 de março de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ao Jansenista: da consciência, da perda da mesma e, possivelmente, da insconsciência

Não estou, de facto, segura, de como se processa o pensamento consciente no momento em que se esvai a própria consciência. Sem querer teorizar sobre a situação limite que é o momento da morte, o fim da existência tal como a conhecemos, atenho-me à questão concreta da perda de consciência: quanto a esta, servi-me de doses equivalentes de efabulação e experiência (e, também, como tão pertinentemente refere, de empatia). De facto, já me aconteceram perdas quase totais de consciência e percebi que as sensações ligadas aos estímulos externos - a visual, primeiro, e a auditiva, em seguida - são as primeiras a desligar, ficando a pairar, como que num limbo negro e silencioso, o pensamento, a consciência de nós e do nosso corpo - pensamento que, no meu caso, se traduziu em linguagem pensada, muito concreta, coisas como estou tonta, vou cair, vou desmaiar. Houvesse caído efectivamente - em sentido literal como figurado - e desconfio que sim, que me acompanharia na queda até ao momento do apagamento completo (ainda que sem a capacidade visual). Mas não cheguei a tanto. Por outro lado também já experimentei o estado de choque e aí, curiosamente, é bem o contrário: desaparece o pensamento consciente, restando apenas as sensações e reacções primárias, sendo que a memória posterior (reconstruída muito devagar e ao longo de muito tempo) é composta por flashes de imagens e sensações (luz, movimento, vozes, sensações físicas), desprovidos de qualquer pensamento ou raciocínio consciente. A vivências destas experiências, assaz perturbadoras e intensamente fascinantes, serviram-me de referência na construção do TEXTO e a introdução de um narrador/observador, como elemento externo e, simultâneamente, interno (vantagens da ficção) permitiu-me contornar a questão técnica que colocou, sem a resolver inteiramente. Tudo isto, confesso, foi feito de forma inconsciente, pelo que agradeço agora, caro Jansenista, a oportunidade que abracei, de desconstrução.
*
p.s. e aviso à navegação: os termos usados foram-no nas suas acepções correntes.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Manhã

Com a queda, a face direita colou-se-lhe ao chão. Sentiu a frescura da tijoleira da cozinha e, sem saber porquê, soube-lhe bem. Um ligeiro formigueiro percorreu-lhe o corpo, quis mexer-se e não conseguiu. Passados os instantes de aflição, entregou-se à paz anestesiada que veio embalá-la, num aconchego que lhe lembrou o da avó paterna, lá muito longe, quando era menina. Era manhã, uma aragem fresca vertia-se pelas frinchas das janelas e tomava o espaço silencioso, teimando contra os primeiros raios do sol. Os canários ensaiavam trinados na marquise. Ao longe ouvia-se o rumor do dia a levantar, os carros a acelerar no viaduto, uma criança nas escadas.
Não chegara a casar, nem tivera filhos. Saiu intempestivamente da aldeia quando o noivo lhe deu um estalo por ter entrado sozinha no café, à sua procura. Este pequeno incidente alterou-lhe a vida, foi a gota a mais que a fez largar um futuro que não queria para nada e desaguar em Lisboa, para o pé da irmã. Foi a melhor coisa que fez, disse-o pela vida fora. Em Lisboa, empregou-se numa casa de família, fez seus os filhos dos patrões, que recebia com mimos e pão-de-ló, quando chegavam do colégio. Nas manhãs soalheiras de Sábado, cantava alegremente, as cantigas que ouvia na rádio, os meninos entrando-lhe na cozinha a cheirar o almoço, a provar da massa dos rissóis que estendia, rindo-se das suas cantorias. Namorar era complicado, não lhe sobrava tempo para tais assuntos. Os Domingos passava-os em casa da irmã, faziam croché no sofá, junto à janela, e ajudava na lida da casa, que a irmã trabalhava para fora.
Não tinha medo de morrer. Assim como assim, a vida trazia-lhe já poucas alegrias, os dias sucedendo-se iguais, da cama para a cozinha para o televisor. Juntara-se, tarde, a um senhor viúvo, partilharam a casa meia dúzia de anos, meia dúzia de anos de sossego conjugado, depois a doença levou-o, havia já tanto tempo A partir daí custara-lhe, sobretudo, o silêncio. Sentia, ao final dos anos, a falta das tarefas que se encadeavam nas seguintes e não lhe deixavam tempo para pensar na vida. De pouco lhe serviam agora as mãos, outrora habilidosas. Quando as pernas fraquejaram deixou de sair e, com o tempo, deixara de se importar com isso, afinal, sair era uma trabalheira, para ela e para quem fosse que a levasse. Ultimamente vivia mergulhada no passado, as memórias e as novelas ocupavam-lhe os dias, os bichos faziam-lhe companhia. Não, não tinha receio da morte. Sentia a tranquilidade das coisas inevitáveis e a irmã, serena, do lado de lá.
Soube da presença do cão, lá longe, junto de si, mas já não pôde sentir-lhe a língua quente nas mãos apaziguadas. Sorriu, percebendo na boca o gosto dos quadrados de noz que os meninos tanto gostavam e que comia no dia seguinte, ao pequeno-almoço, com o café aguado da cafeteira de esmalte. Veio-lhe à memória aquela canção que cantarolava nas manhãs de sol, quando a casa se aquietava e se entregava à lida. Como é que era? Ah, sim, começava assim:
*
Escrevi este texto a convite e para o Delito de Opinião. Agradeço à Ana Vidal o voto de confiança.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Delito de Opinião

Hoje, por via de um gentil convite, vou estar ali.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

J.

O J. é o novo professor de yoga. As aulas são na sua casa, mais bem preparada para o efeito do que qualquer ginásio, e vai-se a pé, o que é uma vantagem incomensurável. Na casa do J., encontra-se um grupo discreto, descontraído mas empenhado de mulheres e homens, tantos homens quantas mulheres, que é coisa pouco habitual de encontrar. A sala de prática do J. está sempre limpa, quentinha e preparada, e apetece lá entrar e apetece lá ficar. O J. dá cabo de nós: depois de nos colocar em posturas difíceis de suportar pelo tanto que exigem de músculos e tendões, vem e puxa mais a perna ou empurra mais o braço, estica e torce quando já não cabia em nós esticarmo-nos ou torcermo-nos mais, e carrega onde dói, exactamente onde mais dói. O J. puxa por nós e responde com humor quando protestamos e, mentalmente, lhe chamamos nomes feios. Obriga-nos a reposicionarmo-nos quando o corpo cede, a aguentarmo-nos quando a confiança afrouxa. Ele sabe até onde pode ir e sabe, melhor do que qualquer um de nós, até onde podemos chegar. Por isso, o J. puxa por nós e não nos deixa desistir, a nenhum de nós. Faz-nos transpirar, até aos que nunca transpiram, pede-nos o litro e mais um litro a seguir, enquanto o gato gordo, o gato mais gordo que já vimos, dorme refastelado junto ao aquecedor. Quando aparecemos a experimentar, praxa-nos, não sem avisar, em sessões que não se aguentam, que quase não se aguentam e então pensamos em não voltar, mas voltamos e ainda bem, porque logo a seguir fazemos algo de extraordinário, como ficarmos pendurados de pernas para o ar, o sangue a correr para a cabeça. O J. puxa por nós e fá-lo, a cada vez, de uma forma diferente, de uma nova maneira de nos surpreendermos. É por isso que nós vamos, é por isso que nós voltamos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Porto - 1

Desço no elevador ao piso -1 do hotel, rumo ao ginásio. É pequeno, mas bem equipado, percebo que não é exclusivo dos hóspedes: encontro meia dúzia de homens pelos quarenta, cinquenta anos, numa convivência discreta, familiarizados com o treinador. A segunda coisa em que reparo é que sou a única mulher. Instintivamente penso que talvez devesse ter vestido uns shorts mais compridos, uma t-shirt menos justa. Sacudo o instinto milenar sorrindo interiormente, honestamente, sinto-me bem assim, entre homens, os homens são claros e benevolentes. Não penso mais no assunto enquanto subo para a passadeira e dispo o casaco. Tomo o meu tempo e examino atentamente as funções, não sou, notoriamente, frequentadora de ginásios. Ponho-a em marcha lenta, vou experimentando botões, espreito os vizinhos, hesito, carrego no stop, desço, dirijo-me ao encarregado que, diligente, me oferece uns auriculares. Torno a subir, escolho um canal de música, ponho a passadeira em marcha, coloco os auriculares, acelero até aos 8km/h e começo a correr. Abarco a sala com o olhar, através do grande espelho. São 18.30, entram novos candidatos às passadeiras alinhadas frente ao espelho, colocam faixas à volta do peito, trocam comentários breves que mal distingo por sobre a música. Fazem como se eu ali não estivesse. Se os encaro através do reflexo, sorriem-me abertamente. Aumento o volume e desligo o olhar. Corro, deixando a música entrar-me pelos ouvidos e sair-me pela planta dos pés, torno-me leve, ainda mais leve sobre a faixa de borracha musical que se desenrola sob os meus pés. Penso que vou comprar um i-pod, para usar junto ao rio. Eles andam, eu corro em ritmo brando e contínuo. São 18.45 e reparo que se puseram em corrida, espreito-lhes a velocidade, 10, 11 km/h. Noto o suor a impregnar-lhes as t-shirts escuras, o esforço nas caras crispadas, prolongam-no até não poder e depois tornam ao passo. Nos meus 8 km/h e passado o esforço inicial, aumento a música e desligo o olhar, corro e começo a cantar, suprimindo o som ao sair-me dos lábios. A música, a regularidade da passadeira e a costumeira ausência de transpiração combinam-se para que me alheie do desempenho físico e, pelas 19.00, uma euforia tranquila leva-me a aumentar a velocidade para os 9 km/h. Os meus vizinhos vão intercalando entre o passo e a carga brutal. São homens. Empenham-se cerrando os dentes, dão o máximo, acusam o esforço, soltam longos sopros, trocam conversas soltas quando regressam à marcha. Não são particularmente jovens, não têm porte atlético, mas são cuidados, as pernas musculadas, os braços firmes, cabelos bem cortados, rostos polidos, pais e maridos dedicados. São 19.15, corro a 130 batidas por minuto e canto, suprimindo a voz.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As horas

Ano novo, blá, blá.
Não me ocorre nada para dizer que não tenha dito já: esgotei-me do que dizer. Resta, talvez, esperar.