quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Dos personagens

Na má literatura, os personagem são criados em duas pinceladas, tinta preta em papel branco: são inteiramente bons ou inteiramente maus; levam vidas cabalmente boas, fáceis e alegres ou penam vivências difíceis, obscuras, sofridas; os seus actos traduzem a soma de duas ou três emoções dominantes, de cor negra ou cor-de-rosa; perfilam-se pela rectidão do carácter ou movimentam-se sinuosamente na completa ausência de valores morais; são vencedores ou vencidos; alcançam ou soçobram; quando desiludidos, são rancorosos; quando sofrem por amor, deixam de acreditar nele; quando são solitários, estão sós.
Na boa literatura, não é nada disto. Na vida, graças a Deus, também não.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Das qualidades domésticas: reedição da resposta à Luísa

As minhas qualidades domésticas não derivam de uma qualquer vocação ou devoção, mas da irracional necessidade. Não suporto a desarrumação, nem a desarmonia, nem a falta de organização dos objectos à minha volta, porque para erráticas já bastam a minha mente e as minhas emoções. A minha única estabilidade advém, tantas vezes, de viver num lugar onde os objectos com que convivo estão nos devidos lugares, da tranquilidade que essa estética (cada vez mais minimalista) me dá, sendo a desorganização e anarquia visuais extremamente agressivas para mim. É pouco, bem sei, mas é o que se tem podido arranjar: a obsessão pela arrumação como último reduto da sanidade. Esta propensão (chamemos-lhe graciosamente assim) espraia-se por todas as dimensões da minha vida, incluindo a profissional, onde faço por manter a organização férrea com que fui intelectualmente treinada, e explicará também o cuidado que tenho com a minha aparência: para além da vaidade feminina, que não nego, tranquiliza-me a ideia de que a harmonia exterior e a disciplina estética contenham e resguardem a turbulência interior. Momentos há, mais difíceis, em que toda esta organização se mantém presa por invisíveis fios de seda: as portas do roupeiro escondendo o caos que contém, as crianças limpas, cuidadas e a horas na escola disfarçando a atenção alheada, a secretária arrumada iludindo as tarefas por cumprir. Por vezes, são estes e apenas estes os frágeis fios que impedem o edifício de soçobrar e me mantêm à tona em meio à tormenta, enquanto luto por chegar a uma ilha onde consiga recuperar o pé.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pontos finais

Desde que por aqui ando verifico que a ideia de acabar com isto é latente, quase incontornável. Salvo raras excepções, não há quem não a expresse nem quem, em determinada ocasião, não a tente executar, mas todos, salvas outras tantas raras excepções, acabamos por falhar o intento, retornando e retomando.
Há ocasiões - mais introspectivas do que expansivas - em que pouco mais faço do que arrastar-me por aqui, mas por cá vou andando. Para além do mais que já aqui disse, isto tem sido um precioso exercício de desassombro e humildade, que influenciou profundamente a minha postura na vida lá fora: perdi, por assim dizer, a vergonha, não havendo hoje em dia grande coisa que me coíba de expressar. Curiosamente, tornou-se cada vez mais óbvio que as palavras libertam - libertam profundamente - mas não nos conduzem necessariamente onde queremos: haverá sempre muito mais para além delas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Poemas e Caminhantes

O meu poemário esteve quatro meses cristalizado em "Uma mulher quase nova", de Mário Dionísio, em parte por falta de tempo para incursões poéticas, em parte porque se manteve o estado de espírito correspondente. Segue aquele, finalmente, para o arquivo (para e por onde, como sabem, podem viajar) para dar lugar a um que me foi "oferecido" e que agora devolvo ao ofertante, na versão integral.
Que nunca deixemos de caminhar e, quando possível, o façamos lado a lado com os que nos são queridos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Airplanes

Ao entardecer, noite após noite dentro, os aviões fazem-se à minha varanda como se fossem entrar-me pela sala, o farol brilhante que precede o frémito abafado dos motores que também de madrugada, após madrugada, entra-me pelo sono leve e faz-me saber que é quase amanhecer, que é chegada a hora em que tantas vezes cheguei, a noite mal dormida, a alvorada sobre as praias da Caparica, o Cabo Espichel ao fundo, o eterno retorno. Antes, sempre, o desejo de partir, a euforia de me erguer do chão que me colava à terra, o alívio de me libertar do que permanecia. Os aviões como estrelas viajantes que num relance me concediam o desejo de soltura. A possibilidade infinita do desconhecido. A latitude para inverter papeis, reescrever guiões, trocar constelações. Havia, ainda há, qualquer coisa de intoxicante na ideia de partir: a ínfima possibilidade de não voltar.

Can we pretend that airplanes in the night sky are like shooting stars (I could really use a wish right now)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Da perversão da Justiça

Depois de várias semanas de alheamento completo, no Sábado dispus-me a fazer a ronda dos noticiários (que há muito e por regra substituí pela leitura do jornal, para bem da minha digestão nocturna, abrindo mui raras excepções para assuntos muito concretos), deparando com José Maria Martins, Advogado de Carlos Silvino. No seu tom de advogado de província, que muitos tenderão a menosprezar, mas com a tranquilidade dos que nada têm a perder ou recear, apontou Jaime Gama, Ferro Rodrigues e, claro, Paulo Pedroso, como indiciados no processo Casa Pia que, atendendo às provas reunidas, deveriam ter ido a julgamento, ao lado dos agora condenados, acusando o PS de, por motivos políticos, defender aqueles que terão praticados actos pessoais indefensáveis. Lembrei-me logo da cena vergonhosa de apoteótica recepção de Paulo Pedroso na Assembleia da Republica, quando saiu da cadeia. Ninguém, em consciência, pode tomar posição relativamente à culpa ou inocência de um homem apenas porque lhe conhece a personalidade: as perversões de cada um, é bem sabido, correm fundas e ocultas - até as mais inócuas. Ao confundir apoio pessoal com apoio político e, mais ainda, querendo sobrepor ambos à Justiça, o que é totalmente inadmissível, tantos homens e mulheres (sobretudo homens, repare-se) perverteram o sistema judicial, dificultaram o apuramento da verdade e, acima de tudo, viraram a cara e as costas às vitimas - que são bem reais - tornando-se, em diversos graus, cúmplices dos crimes perpetrados. O mesmo se diga relativamente aos que pontuam na campanha pública de defesa de Carlos Cruz. Tão revoltante quanto a prática dos actos pelos quais este homem foi a final condenado, tem sido a permanente atitude de virgem ofendida e perseguida que, para cúmulo, o seu advogado se predispõe a mimetizar junto da comunicação social, indo muito além da defesa processual que lhe compete.
Noutro país, que não este, a turba reunir-se-ia para insultar, perseguir, quem sabe apedrejar os indiciados, os acusados, os pronunciados e os condenados, não para os apoiar, e as personalidades públicas, políticas e outras, abster-se-iam de tomar posição e sobretudo de manobrar as instâncias do poder legislativo e judicial, de forma calculista e amoral, com grave prejuízo para a Justiça, que lhes cumpre respeitar e salvaguardar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010