terça-feira, 29 de junho de 2010

A hora da bola: em má hora sucumbi

O Clube Ferroviário à hora do Portugal - Espanha. Valeu o entardecer sobre o rio - magnífico - as imperiais e os tremoços.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Gaivota

Atropelei uma gaivota na A5. Veio a ricochetear do pára-brisas do carro da frente e caiu na estrada mesmo à minha frente, a rebolar, uma asa muito comprida e aberta e a outra meio encolhida, viva ainda: nos olhos percebi-lhe a vida e li-lhe a incompreensão, naquela fracção de segundo antes de lhe passar por cima, sem uma hesitação, impiedosamente protegendo a minha prole. Senti as rodas a estraçalharem-lhe o corpo, primeiro as da frente, depois as de trás, o barulho seco de ossos a partir. Era um bicho grande. Não seria uma gaivota, talvez fosse um albatroz, ou outra ave qualquer que prefiro não imaginar, nem quero conceber que fosse uma cegonha. As gaivotas são mais do que muitas e têm aquele cheiro a peixe.

terça-feira, 22 de junho de 2010

VIII.
Agora vê-lhe a comoção nos olhos. Nos olhos dele fazem-se claras as emoções, mas não mais do que isso: não lhe chega aos pensamentos. Habituada a ler as pessoas, no caso dele nunca conseguiu. Nunca soube, com a certeza que outros lhe demonstraram, a dimensão e a nomenclatura dos sentimentos. Se e quanto a amara. Se e quanto a desejara. Os seus próprios sentimentos embotavam-lhe o discernimento - sempre assim fora e por isso refugiou-se, tantas vezes, em relações desapaixonadas. Para não perder o pé.
Talvez por isso insiste naquela amizade, talvez que um dia, liberta do fogo e da deformação do desejo, lhe chegue ao âmago. Ele é, sempre foi, absolutamente imprevisível, para o bem e para o mal. Ainda hoje, um gesto, uma palavra, uma intenção - nunca sabe bem qual - bastam para que lhe escorregue por entre os dedos; e ela que se fez prolífica em palavras. Mas há, milagrosamente, algo que permanece, que não se apaga, uma comunhão antiga, primária, visceral. Conhecem-se um ao outro, fundamentalmente, através dessa comunhão, desse laço que os une, incólume ao tempo e ao espaço, capaz de desfazer todos os nós.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

VII.
- Quando entrei na tua casa pela primeira vez foi como se tivesse entrado num universo paralelo. Olhando para trás, a recordação que tenho é a de um caleidoscópio de sensações, cores e sons, uma hiper-estimulação dos sentidos, como um sonho. O que encontrei lá dentro não tinha nada a ver com o exterior nem com aquilo que esperava encontrar - não que esperasse concretamente alguma coisa. Foi uma coisa estética, química, espiritual, física, eu sei lá. A casa, a luz, a música, os livros, os discos, tudo inesperado, tudo fascinante, e de repente a sensação de que o mundo se abria para me conduzir àquele lugar e aquele lugar, obviamente, como ficou claro depois, as tuas casas e o que lá criaste... és tu. Tu, como o vórtice de tudo. Inevitavelmente. Como te disse já um dia - aliás, escrevi - quando de lá saí só pensei: estou tramada.
Ri-se. Ele também. Continua:
- Foi como se finalmente chegasse ao lugar que nem sabia que procurava. Encontrei uma porta - a tua porta - e do outro lado esse tal mundo paralelo, sendo que a possibilidade de nele existir fez-me todo o sentido, muito mais sentido do que qualquer outra coisa que alguma vez tivesse tentado reproduzir. O anti-convencionalismo: posso resumir tudo, simplificadamente, nesta expressão. A possibilidade de ser eu, sem a tal camada exterior feita de convenções, de reproduções, de posta por ordem. Eu soube que eu era como tu. Mas eu estava enterrada, soterrada e não sabia como emergir - não a tempo. E então tu julgaste que eu queria o convencional e o convencional não me podias dar. Que ironia. Não queria nada.
- E o que veio a seguir?
- A capitulação. Fechou-se a porta e eu segui o caminho seguro: não podia com mais dor. Depois disso, demorei mais uma década a desenterrar-me, a descobrir-me. Tenho agora, pelo menos, a cabeça de fora. (Sorri): comigo a cabeça vai sempre à frente.
Pára. Conclui:
- Aquela porta era um atalho e eu, provavelmente, não estava preparada. Os atalhos, na vida, não funcionam.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Mas porquê?

Já a noite ia longa quando na mesa me reuni com amigos de há trinta e vinte anos, alguns conhecimentos recentes e outros acabados de apresentar. Um dos penúltimos dirigiu-me a pergunta directa, nada retórica já que foi precedida por qualquer coisa como "tenho querido perguntar-te": porque é que escreves num blogue?
Sentindo-me intimidada, saiu-me a resposta em jeito automático de castigo pelo atrevimento, decidindo, de forma quase inconsciente, penalizá-lo com uma resposta embaraçosa: por solidão.
Foi uma das muitas respostas possíveis, que explorei aqui, aqui e aqui, mas ele não desarmou, chegando ao cerne da questão, indubitavelmente presente na primeira pergunta: porque é que não escreves num diário privado? ou seja, exprimindo o que tantas vezes adivinho por trás dos comentários vagos ou silêncios inarticulados : porquê a exibição, leia-se exibicionismo, da intimidade?

terça-feira, 15 de junho de 2010

A hora da bola


(retomando a tradição)
A Rua Castilho à hora do Portugal - Costa do Marfim

I, II, III, IV, V, VI

Deve ser isto a que chamam bloqueio. Ou que me embrulhei de tal modo que já não encontro fio que conduza à saída. Voltarei a estes textos mais tarde. Ou não.

terça-feira, 8 de junho de 2010

VI.
- Repara que me aproximo agora da idade que tinhas quando nos conhecemos. Caramba, parecias-me então tão .... vivido. E simultaneamente encurralado. Sabendo claramente de onde vinhas mas com a dolorosa consciência de que o caminho era outro e que andar para trás já não era possível, que precisavas de te reinventar sem saber como, andar para a frente sem saber para onde.
- Deambulando pelo tempo, para trás e para a frente.*
- É nesse exacto lugar que me encontro agora. Sozinha, claro, tu já não estás lá, ninguém espera por ninguém. Vamos deixando cair os rituais em que não encontramos sentido, os amigos em que não nos revemos, as conquistas que já não nos motivam. Apeamo-nos, e nesse apeadeiro inevitavelmente deambulamos - é mesmo isso - sozinhos: cada um constrói o seu e nele se instala a ver os comboios passar, hesitando em qual seguir. Quando ali chegamos já perdemos a excitação da viagem pela viagem. Ninguém, que por lá tenha passado, deixou o mapa a indicar o caminho das pedras: por esta altura, já é suposto encontrarmos as respostas cá dentro.
Interrompe-se. Pega no copo e acaba a cerveja, pousa-o devagar, a revolver as ideias. Ele deixa cair o braço e faz-lhe uma festa quase imperceptível na curva interna do pé, que a sandália leve torna acessível. O gesto interrompe-lhe o turbilhão, alivia-lhe a tensão do discurso. Sorri-lhe, recebendo o afago com a naturalidade que tempo algum consegue apagar.

(*) d'O Jansenista

sábado, 5 de junho de 2010

V.
- Vais dizer-lhe que estiveste comigo?
- Não iria compreender.
- Pois. Mas não deixa de ser irónico. Os ciúmes acabam por tornar clandestino o que nem sequer precisava de ser. O problema é sabermos que não podemos controlar o que vai na alma dos outros.
Pega no copo gelado, bebe um gole, detém-se a observar a cor e a agitação dentro do copo.
- Possessividade já fiz, nas duas versões. Fiquei curada. Tive um namorado por quem estava incrivelmente apaixonada e tudo corria muito bem, naquelas primeiras semanas de deslumbramento. Só havia um problema: ele tinha uma ex-namorada neurótica, que lhe telefonava frequentemente - e ele contava-me tudo. Um dia, lembro-me perfeitamente, estávamos na praia, deitados um ao lado do outro, resolvi dizer-lhe que aquilo me incomodava, se não contava resolver o assunto. Enfim, não dessa forma abrupta, foi uma conversa. Quando a conversa acabou, o silêncio fez-me compreender, numa imediata, gelada certeza, que tinha acabado de estragar tudo. Percebi-o naquele exacto instante, como uma evidência. Foi de facto a partir desse dia que, aos poucos, começou a mentir-me, e nunca mais parou. A coisa ainda durou um par de anos - foi uma grande paixão - mas sempre on-and-off, por causa das mentiras, inicialmente motivadas pela maluca da ex-namorada, e a partir de certa altura instalou-se um ciclo vicioso por causa das cenas que tudo isso gerava. Um horror. Um desperdício, acima de tudo (...) As pessoas vêm com passado, vêm com bagagem, vêm com alma, e ainda bem. É um erro querer despi-las disso, ou sequer vistoriar-lhes as camadas. Quem é que quer um homem vazio de alegrias, de vivências, de recordações, de desgostos, de saudades - enfim, de amores? Passei a usar a política do não perguntes, não contes.
- Don´t ask, don´t tell.
- Exactamente. Vale para os dois lados. A experiência contrária já a tinha tido antes, aquela coisa clássica do namorado hiper-ciumento. Foi como tirarem-me o oxigénio, a alegria de viver. Nunca mais. Passamos o primeiro terço das nossas vidas a esforçarmo-nos por conquistar cada fatia de liberdade - eu esforcei-me imenso - e quando finalmente temos o bolo todo nas mãos, quando atingimos a plenitude, começamos a dispensá-lo. Entregamos um grande pedaço a tentar assegurar que não ficamos sós, um naco aqui e umas migalhas ali para preservar a harmonia, mais umas fatias para a troca: eu não faço isto para que tu não possas fazer aquilo.
(hesita)
- Tu, por exemplo, serias a última pessoa que eu imaginaria a fazer certas concessões. O grande lobo solitário... E no entanto, todos as fazemos, num momento ou noutro. Andamos para a frente e ainda bem, afinal pode acontecer-nos sermos mais felizes. Enfim, desculpa o discurso, isto é a crise dos quarenta, escarrapachada.
- Para o mês que vem?
- Sim, para o mês que vem.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

IV.
Dá a volta ao largo, lentamente, a espreitar os números das poucas portas, que distingue mal àquela hora da noite. Encontra o que procura e estaciona logo abaixo, em cima do passeio. Detém-se antes de sair do carro. Hesita. Sabe que é uma hesitação vã, é tarde para voltar atrás, mas questiona agora o impulso que antes lhe pareceu tão natural. Viram-se uma única vez, entre amigos, um encontro ocasional numa esplanada à saída da praia, nada de especial. Chega-lhe agora à porta. Pergunta-se que tipo de pessoa escolhe viver à margem da grande cidade, o evidente cosmopolitismo a contrastar com a rusticidade da vila. É o suficiente, só por si, para lhe despertar o interesse: são sempre as coisas inesperadas, incongruentes, fora da caixa. Falaram-se duas ou três noites atrás, um telefonema breve e conciso, ela de pé na sala (lembra-se como se fosse hoje) ele, no carro, num regresso de Domingo. Qualquer coisa aconteceu, então, qualquer coisa não perceptível nem equacionável, apenas suficientemente real para a fazer questionar, agora, a motivação prosaica da visita: foi a voz, ficou-lhe pregada à voz, a voz forte ressoando no habitáculo do carro a avançar pela noite. Decide-se a sair do carro, detém-se mais um pouco a apreciar o ar morno e tranquilo, o céu estrelado. Atravessa a rua, descobre a campainha, toca. Mais tarde, de si para si e com o humor que lhe é particular, passará a referir-se àquele momento como a chegada à gruta do Ali Babá.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

III.
- O que é que queres?
- Uma imperial.
- É estúpido, mas ainda me surpreendes com as coisas mais simples.
- Bem sei. Quem olha para mim classifica-me. E quem me conhece julga que me decifra. A minha forma de estar foi de tal modo condicionada que se tornou uma camada exterior inamovível, um verdadeiro disfarce. Com o tempo ganhou uma inesperada utilidade. Dá-me uma certa liberdade.
- Liberdade para...?
- Faço as coisas mais improváveis e ninguém percebe. Isso permite-me reservar a minha intimidade. Pequenas coisas, às vezes grandes pecados. As pessoas só vêem aquilo que estão à espera de ver. O preconceito é uma coisa incrível: é como um manto de invisibilidade.
Sorri, olha para o lago.
- Passei a ter um interesse quase científico pelo fenómeno. Ao princípio irritava-me. Tive um namorado que disse que quando me conheceu eu lhe pareci "toda posta por ordem". Existe comentário mais imbecil? Percebi depois que ele apenas verbalizava mal.
Riem-se ambos suavemente. Seguem os movimentos de um casal de patos.
- Confesso que não foi muito diferente da minha própria opinião.
- Pois: "com esta é que nunca", quanto te apareci lá em casa.
Ele sorri, não chega a ficar embaraçado. Hoje em dia fala menos, ela mais, como que a reporem o equilíbrio. Olha-a.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

II.
- Se calhar não somos e andamos enganados há muito tempo.
Ignorando a provocação - Repara: assiduidade zero, agora já nem Natal nem aniversários. Pomo-nos a par da vida um do outro umas duas vezes por ano, na melhor das hipóteses por telefone, de resto, uns sms aqui, uns emails ali, uma foto quando nos vem o impulso de partilhar qualquer coisa de muito concreta, tudo correndo o risco da censura ou da simples ausência de resposta. Há quanto tempo não nos víamos? Dois anos e meio?
- Embora não pareça.
- Aí está, é como se nunca deixássemos de nos acompanhar. Ao fim deste tempo todo cheguei à seguinte conclusão: a amizade não tem nada a ver com essas coisas. Alguém disse no outro dia que os verdadeiros amigos não são aqueles que aparecem nas grandes ocasiões - aniversários, casamentos, baptizados, funerais ou divórcios - mas os que sabemos sempre na outra ponta de uma chamada, de uma pergunta, de uma procura, mesmo que não as concretizemos, essa chamada ou procura: é o saber que podemos fazê-lo, sem nenhum motivo aparente, sem precisarmos de um pretexto e muito menos de uma justificação.
Sorri, olha para o lago.
- São também os que vêm ao nosso encontro, numa quarta-feira à tarde, numa esplanada como esta. Só porque sim.
- Nem todas as amizades sobrevivem à falta de assiduidade, à ausência.
- Pois não. É como os amores. Há amores que não sobrevivem à distância e paixões que não sobrevivem à passagem do tempo. Há outros que duram uma vida, sem sequer se concretizarem.
- Não será, precisamente, porque não se desgastam com a concretização diária? Não chega a haver desilusão.
- Sim, talvez a desilusão seja inevitável. Talvez os amores platónicos que duram uma vida inteira mantenham-se na teimosa esperança de virem a ser possíveis, mas exactamente porque isso não chega a acontecer. E as velhas paixões, na fantasia de que se tornem a realizar. Como antes, mas melhor do que antes. Assim se mantém a ilusão.

terça-feira, 1 de junho de 2010

I.
Atravessa o jardim breve, contorna o lago e chega à esplanada. Encontra-o sentado na mesa de há uma década, o mesmo cabelo macio agora com fios brancos, o mesmo olhar límpido, o sorriso franco que nunca sabe se levemente trocista ou tímido - possivelmente e por hábito, um a disfarçar o outro. Chega-lhe ao pé e ele levanta-se (aprecia-lhe o gesto), olham-se o olhar de sempre, de quem se vê. Quer perguntar-lhe se já merece um abraço, um dos antigos, daqueles em que a envolvia toda com os braços de que tanto gostava - tanto gosta. Cala a vontade e a pergunta e estende-lhe a cara para receber um beijo: dão-se sempre um beijo verdadeiro, sonoro, directamente na cara, em nada semelhante a um gesto formal de cortesia. Naquele beijo se condensam, há tanto tempo, todas as possibilidades impossíveis. Quando é ela a dar-lho, acontece passar-lhe em seguida os dedos no rosto a limpar a marca do bâton, num gesto intensamente contido.
Sentam-se e antes de mais nada dispara:
- Não sei por que raio de milagre ainda nos qualificamos como amigos.