domingo, 30 de maio de 2010

El secreto de sus ojos


A Buenos Aires dos anos setenta sem uma panorâmica, a linguagem deliciosa, os diálogos espantosos, o humor certeiro, a paixão que o tempo e a inexequibilidade não matam, a amizade incondicional, a retribuição, todos os olhares, o Benjamim Esposito novo, o Benjamim Esposito velho, a Irene em qualquer idade e o magnífico, magnífico Sandoval.
(e a cena de Esposito a coser o manuscrito tal como os processos judiciais)
Vão ver, sobretudo não deixem de ir ver.

Da literatura

Num certo sentido, mesmo a prosa mais complexa é na verdade bastante simples - devido à determinação matemática pela qual uma frase perfeita não pode suportar um número infinito de variações, não pode ser transformada sem adoecer esteticamente; a sua perfeição é a solução do seu próprio puzzle; não pode ser melhorada.
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A mecânica da ficção, por James Wood, com tradução de Rogério Casanova.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Horas Extraordinárias ponto blogs

Quando parece estar a disseminar-se a epidemia de encerramento ou suspensão de um número considerável de blogues (femininos na sua maioria e desconfio que encadeadamente, como os dominós), eis que surge um novo, pela pena de uma senhora que exerce a profissão que eu tenho a mania que gostava de exercer, e que ainda por cima o faz com um nível, bom gosto e discrição assinaláveis: a visitar regularmente, com o risco único de frustração por tudo aquilo que não conseguimos ler.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Cerejas

Hoje comi as primeiras cerejas do ano, compradas na mercearia do Sr. Francisco quando saí com o de seis anos à procura da caderneta dos cromos do mundial (ainda não lhe expliquei que lá em casa não se vê futebol). Gordas e vermelhas, sabor médio-mais e preço ainda não muito recomendável. Hoje vesti a mesmíssima roupa que num dia do verão passado, um dia muito mais quente do que este, valeu-me o casaco, e afligi-me com a chegada de Junho, ao virar do fim-de-semana, já outro depois do anterior. Entre ambos, um ano inteirinho, que desconsolo.

Domingo cinzento no rio

domingo, 23 de maio de 2010

A Tempestade da Terra

Entrou-me no gabinete ao cair da tarde, como era habitual acontecer. Parece que o estou a ver, a velha eterna pasta azul ao ombro contendo projectos e orçamentos, papéis velhos, preciosos e amarrotados. Afobado, diria ele, abrindo muito o "a", na mistura de vidas que não saberia disfarçar. Chamava-me andréazinha quando queria convencer-me de qualquer coisa, na familiaridade descomplexada com que me tratava desde a primeira tarde em que me entrara no gabinete. Era, e ensinou-me que podia ser-se, profundamente indiferente às interpretações dúbias e comentários maldosos - a nós o que nos importava, nós éramos os primos distantes encontrados, como irmãos tardios. Andréazinha, disse, sem chegar a instalar-se na cadeira habitual, isto vai mal: o técnico adoeceu, não há legendas, quer dizer, há mas não estão inseridas, amanhã Cannes e o filme sem legendas, é preciso legendas, a porra das legendas para os franceses. Pensei logo em ti, pois claro, em francês, pois então, vamos lá, vem daí. Lá fomos, afundados nos bancos do velho citroën, por entre papéis, livros, guiões e os brinquedos esquecidos dos filhos pequenos a lembrarem que a vida já não se fazia de sonhos e um escritório dentro de um carro. Chegados ao laboratório, apresentou-me a mesa e os rudimentos da legendagem: mínimo de x segundos por fala, aqui entram as legendas, ali passa o filme, o botão que insere umas no outro, carregas, largas, carregas, largas, vais fazendo assim, eu controlo ali. Anoiteceu. Trabalhámos sem parar pela noite dentro, lendo, inserindo, voltando atrás, debatendo a adequação da expressão, a pertinência da palavra, o contexto e o subtexto, corrigindo onde necessário, tudo somando muito, tanto tempo. Pelas quatro da manhã pesou-lhe a idade, mais vinte e tantos anos do que eu, quem sabe seria já a doença, vou deitar-me aqui um bocadinho, no chão só um minutinho, são as costas, vou só esticar as costas. Estendeu-se ao comprido no soalho velho e ressequido, em trinta segundos estava a ressonar. Já o dia rompia quando o acordei, dizendo, está pronto. Separámo-nos à porta do carro, ele em pressas pelo avião que o desembarcaria, e às preciosas bobines, na Croisette, eu para casa tomar um duche, não sem antes agarrar-me na mão, de novo parece que o vejo, à janela do carro, simplesmente: obrigado, minha querida, acentuando o "e".
Obrigada eu, Fernando, valeu.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ossos

Sonhei que estava a morrer de cancro nos ossos. Não consegui, pelos vistos, inventar forma mais apropriada de me desfazer de mim própria, certamente influenciada pelo mal que anda a rondar tantos dos que me são próximos, nestes últimos anos. A perspectiva da morte iminente (foi-me comunicado que era iminente) não me impressionou particularmente: como de costume, espantei-me com a minha frieza perante o supremo acontecimento.
Já o sonho ía longo quando, de súbito, tomei consciência da existência dos meus dois filhos pequenos. Só então ele se tornou incómodo o bastante para me fazer acordar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso"

Meu Caro Jansenista, essa é uma reflexão que faço tantas vezes, um comentário que não cesso de fazer na intimidade ou sempre que alguém me pergunta se gostei de viver no Brasil. Elaborei mentalmente e por diversas vezes um post (dos quilométricos, talvez) sobre o tema, mas nunca ousei escrevê-lo, por não me achar no direito de "falar de alto": é que a primeira coisa que aprendi lá, em São Paulo, a primeira e definitiva lição, foi a de não cair na tentação fácil do paternalismo. O Brasil é um país incrivelmente grande, os brasileiros são um povo desmesuradamente numeroso e, como tal, de uma diversidade extraordinária - como nós, aqui plantados neste cantinho, nem somos capazes de começar a imaginar. Vinte milhões só na grande São Paulo. Chegámos nós (e tornámos a chegar) e foram chegando os outros, em revoadas, fugidos, exilados, aventurados, em busca da terra nova, de melhores oportunidades e mais liberdade. Europeus, orientais, árabes e judeus, japoneses, italianos, espanhóis, polacos, alemães, holandeses, sírios, libaneses, coreanos, indianos, angolanos e moçambicanos, de todos os cantos e nações do mundo, trazendo cultura, tradição, história, alma. Encheram quase um continente, uma nação com 26 estados e um distrito federal. O melting pot é ali. Nem que seja pela força dos números, mas também pela diversidade, o que é bom, lá, é do melhor. O que é bonito, é magnífico. O que é culto, intelectual, literato, artístico ou profissional é, tantas vezes, cada uma ou todas estas coisas admiravelmente. Tudo é em grande escala, tudo é exacerbado, a começar pela natureza e pelo clima. Os ricos são inconcebivelmente ricos e os pobres miseravelmente pobres - mas talvez não mais pobres do que os nossos pobres, são é muitos mais; já os ricos, para além de tantos mais, são muitíssimo mais ricos do que o mísero punhado dos nossos. Entre uns e outros, floresceu uma classe média dinâmica, criativa, talentosa. Os brasileiros produzem mais, muito mais cultura, arte, literatura, música, filosofia, ciência, industria, do que conseguimos abarcar. Da má, da assim-assim, da boa e da excelente - e esta é tanta e tão abrangente. Produzem, e depois expõem, falam, escrevem, divulgam, vêm, viajam, aprendem e conhecem mais, mas tanto mais, em números relativos e absolutos, do que as nossas parcas, esgotadas, ditas elites. Importamos o que a nossa limitada capacidade permite, exportamos turismo de segunda (porque não conseguimos enxergar para além da costa nordestina) e bacalhau, e ficamo-nos com o nosso paternalismo ancestral em punhos de renda esgaçada e esburacada. Eles, de tão imensos e tão ocupados, tão colossais, nem reparam.

(Tive a sorte de ter meia dúzia de encontros excepcionais e de ver coisas e conhecer lugares extraordinários. Talvez, considerando os números, devesse dizer "a inevitabilidade")

José Mindlin 1914-2010

Foi num dos muitos voos Lisboa - São Paulo (ou seria São Paulo - Lisboa?). Calhou-me o lugar ao seu lado, um senhor brasileiro de avançada idade, com um ar distinto mas nada presunçoso, muito amável e bem educado. Conversou muito, pausadamente, sem deixar de respeitar os tempos dedicados às actividades próprias dos voos de longo curso: comer, ler, pensar, dormir. Interessou-se, quis saber, perguntou bastante mas nunca demais, como fazem as pessoas que se interessam verdadeiramente pelas pessoas. Descobrimos logo à partida a comunhão na actividade profissional e na diversidade de interesses paralelos. Conversámos sobre o Direito, as histórias de vida, as respectivas experiências nos respectivos países. Aparentava uns setenta e tantos anos (vejo agora que eram quase noventa), nitidamente cheio de mundo e cultura, mas sem o exibir, preferindo ficar a saber pequenas coisas acerca do pequeno universo de quem com ele partilhou onze horas de voo. No desembarque, estendeu-me um cartão e a amável disponibilidade para um futuro contacto.
Era José Mindlin, advogado e, vim a saber, editor, escritor, mas acima de tudo bibliófilo, membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira n.º 29, possuidor da mais importante biblioteca privada do Brasil: quase trinta mil títulos, dos quais dez mil em edições raras. Uma bela vida dedicada aos livros, cuja paixão definiu como "uma loucura mansa". Não esqueci o encontro nem o nome, impresso no cartão que guardei. Um pequeno artigo na Ler fez-me agora saber que morreu a 28 de Fevereiro, em São Paulo, aos noventa e cinco anos. Procurei-lhe a vida, ontem à noite. Naturalmente, nunca lhe telefonei.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Papamóvel está em movimento (e eu nem por isso)

Quando João Paulo II passou por Lisboa, em 1982, avisei a minha mãe e fui num pulinho - de um quarteirão - vê-lo passar na Av. da Républica. Nunca fomos verdadeiramente praticantes, mas aquilo emocionou-me, guardo até hoje a imagem nítida de o ver passar.
(hoje, em directo do bloqueio rodoviário: é curioso, ninguém apita nem reclama)