sexta-feira, 30 de abril de 2010

As andorinhas

Sei que o Inverno chegou ao fim quando oiço o coro das andorinhas, ao entardecer, voltejando em torno do prédio feito promontório, voos planados e picados em dança alegre e barulhenta que me chama ao balcão de onde, ano após ano, consoladamente, aplaudo a Primavera.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Concluindo sobre a infidelidade e outras coisas: divagações dignas de La Palisse

Na sequência de posts recentes, confesso que a infidelidade é um tema pelo qual me interesso há muito tempo. Provavelmente desde que, razoavelmente cedo, a experimentei na forma passiva e percebi algumas coisas fundamentais, nomeadamente o facto de o acto em si incomodar muito menos do que as mentiras associadas. Que me tomem por parva é que sempre me foi difícil de tolerar, pois quis a natureza dotar-me de um mitómetro bastante eficaz. No resto, a minha crescente intolerância à possessividade - no sentido passivo como activo, que estas coisas têm que valer para os dois lados - fez com que abandonasse a veleidade de querer saber tudo o que se passa na vida ou na cabeça de um parceiro (ou de um amigo, ou mesmo de um filho). Não é útil, nem saudável. Cada um sabe de si e manterá sempre a sua esfera de reserva íntima: não há nada que alguém possa fazer para impedir outro alguém de sentir e viver aquilo que lhe aprouver, nem que seja interiormente. O nosso mundo interior e o que gira à nossa volta estão aí para o provar. Observo com inexcedível interesse as relações humanas, acompanho dramas familiares (ossos do ofício), sou depositária de confissões, vivo através das infinitas possibilidades do dia a dia e da literatura. Interesso-me pelo fenómeno, vejo a abundância das suas manifestações e surpreendo-me com a amplitude das atitudes e a variação dos resultados produzidos, que podem ir da total indiferença à catástrofe mais destruidora. Concluo que é possível controlar, aprisionar, ameaçar, mas o desrespeito pela esfera de liberdade e privacidade do outro é uma luta sem quartel que cansa, desgasta, destroi. O melhor é lidar com as situações quando elas se apresentem e na justa medida em que nos afectem. O que não nos afecta não nos deve preocupar - e aqui remeto para a etimologia da palavra: pré-ocupar ou ocupar previamente. Isso não significa que não se estabeleçam regras, que não devam existir consensos, desde que se seja honesto relativamente às expectativas e se perceba que aquilo que funciona para uns não funciona necessariamente para outros. Estabelecem-se regras, expressas ou não, em todos os sistemas de relacionamento, sejam sociais, profissionais, amorosos ou filiais. Depois fazem-se escolhas. Ser livre não é mais do que conhecer as regras e decidir, a cada momento, agir dentro ou fora delas, sabendo que qualquer uma das opções tem consequências e estando disposto a arcar com elas. Ser livre é igualmente saber viver com o comportamento alheio, ter a força de aceitar ou simplesmente rejeitar o outro tal como ele é, e não forçá-lo a preencher um molde, vivendo depois na ilusão permanente de que isso foi conseguido ou no medo constante de que não tenha sido. É, em suma, reconhecer aquilo que se é, procurar aquilo que se quer e estar preparado para viver com aquilo que se tem.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Dia da Terra and all that crap


Logo de manhãzinha tirei meia hora para acabar de ler a cómica e deliciosamente cínica descrição da viagem de Michael Beard ao Árctico, atirado para o meio de um grupo de artistas e intelectuais inconsequentemente preocupados com o aquecimento global, com o objectivo de observar, com os próprios olhos, o derretimento dos glaciares - objectivo que não puderam cumprir por o tempo estar demasiadamente frio.
(Michael Beard é o novo protagonista de Ian McEwan, em Solar)

domingo, 18 de abril de 2010

Da traição ou Henry James, esse grande fingidor, por J.M. Coetzee

Quanto à experiência em si, (quero dizer, a experiência da infidelidade, que foi o que a experiência foi, predominantemente, para mim), foi mais estranha do que eu esperava, e acabou-se antes de eu me habituar ao seu carácter estranho. No entanto foi excitante, disso não há duvida, do princípio ao fim. O meu coração não parava de bater descompassadamente. Não é coisa que eu esqueça, nunca. Voltando a Henry James, não faltam traições em James, mas não me lembro de nada acerca da sensação de excitação, da exarcebada autoconsciência, durante o acto e si: o acto da traição, quero eu dizer. O que me dá a entender que, embora James gostasse de se apresentar como um grande traidor, nunca tinha na verdade executado o acto em si, fisicamente.

J.M. Coetzee, Verão

Nota: é surpreendente um romance auto-biográfico em que o autor se retrata a si próprio na terceira pessoa, por meio das palavras dos outros (como se fosse uma biografia e não uma auto-biografia) ou seja, ignorando as suas próprias impressões e recorrendo exclusivamente ao entendimento que faz da forma como os outros o viram, em determinados períodos/episódios da sua vida. Surpreendente e muitíssimo interessante, como exercício.

sábado, 17 de abril de 2010

Agradecimentos

Grata a todos pelo esforço de leitura da frase de duzentas e vinte e duas palavras, abaixo, e ao Jansenista (que chegou perto) pela inspiração para a foto.
Uma nota final de reconhecimento ao universo em geral, pelos reencontros.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Georgia Clooney

Até o mais precavido e obsessivamente pontual dos viajantes pode perder um avião, um comboio, um barco, ou qualquer outro meio de transporte colectivo que, por definição, não se compadece com os acidentes de viação no percurso a caminho de... Sentada na cadeira mais desconfortável de que tenho memória, na sala que se pressupõe de espera da Estação de Campanhã (não consigo dizer isto sem pensar no Monopólio), concluo que aquilo que sempre digo - só se atrasa quem não corre o risco de chegar cedo - não é uma verdade absoluta, ainda que o oposto tenha funcionado comigo até hoje. Duas horas para o próximo Alfa é a consequência de a margem de segurança habitual não ter sido suficientemente segura para prevenir uma calamidade (é uma questão de perspectiva) na Via de Cintura Interna.
Mas não era nada disto. Sentada na sala de espera, no meu disfarce profissional "de combate", a saber, fato preto risca de giz quase imperceptível, de corte masculino mas indubitavelmente feminino, camisa de punhos dobrados e saltos agulha de dez centímetros, indumentária que só sai do armário nas raríssimas ocasiões em que julgo necessário (um par de vezes por ano, no últimos anos, o que interpreto como um bom sinal), associado à memória recente de George Clooney no Up in the air, regresso às elucubrações de ontem, no átrio do hotel, quando alguns olhares menos distraídos me alertaram para as possibilidades decorrentes das deslocações profissionais, e da consequente passagem ou permanência solitária em átrios e bares de hotel, sendo o número de computadores portáteis per capita e a sonoridade dos avisos de email dos Blackberry, respectivamente, os adereços e banda sonora desse "filme", em que invariavelmente me sinto como a figurante ocasional a quem emprestaram algumas peças do guarda roupa.
Foi pois com a noção dessas possibilidades que me deitei, portátil ao colo, atenta ao horário do Flashforward no canal AXN, na cama extra king imaculadamente feita e inteiramente minha.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Num dia igual aos outros

O encenador é Marco Martins, o dramaturgo é o americano John Kolvenbach e a peça, que já correu mundo, "on an average day", aqui numa tradução que me pareceu muito bem sucedida, na medida em que deixa adivinhar os termos correspondentes na língua original, estando simultâneamente perfeitamente adequada à expressão portuguesa (isto é importante para quem é obcecado pelo valor intrínseco das palavras). Um só diálogo entre dois irmãos (Gonçalo Waddington e Nuno Lopes), decorrido em tempo real, com um texto (lá está) arrebatador, momentos de génio no puzzle das palavras aparentemente perturbadas mas estranhamente lúcidas do irmão mais novo, Robert. A sala estúdio do D. Maria II proporciona momentos de uma intensidade alarmante, mais ainda na primeira fila, com os dois irmãos a debaterem-se entre a ternura contida, o humor cúmplice e a violência fraterna, até ao auge da luta corpo a corpo, rojando-se aos nossos pés, com realismo tamanho que tive que me conter para não os tentar separar e até, num pequeníssimo instante, para não chorar. Bravo aos três, actores e encenador, e uma nota de apreciação pela cenografia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Comprovadamente verdadeiro

You can kick out a dangerous thought, you know, if you put another in its place.
(daqui)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

As notícias da tua morte

Recebo um telefonema a perguntar se sei o que aconteceu ao filho da L., mãe de um amigo, muito amigo. Não sei nada, digo, o que é que aconteceu, pergunto. Morreu, dizem. Pausa. Não sinto nada, nem sequer medo. Pergunto: qual deles? O filho, o filho rapaz, respondem. Qual deles, torno a perguntar. Não sabem, pois nem sabem que são três: dois rapazes, uma rapariga, ou melhor, dois homens, uma mulher. Pergunto novamente: o que é que aconteceu? Não sabem, sabem muito pouco, por isso me telefonam, a mim que sou amiga do filho da L., para saber. Eu não sei nada, excepto que não pode ser, pois cá dentro, nem um batimento a mais, nem um batimento a menos. Respiro e concluo: só pode ser o irmão (perdoe-se-me o egoísmo). Digo: só pode ter sido o G. Agradeço, desligo, telefono ao único amigo comum. Não sabe de nada, vai tentar saber. Desligo, estou chocada, mas estranhamente calma. Ainda no outro dia lhe devolvi o poema, e ele aqui permanece, aqui mesmo ao lado. Não foi, se fossse eu saberia, cá dentro. Espero tranquilamente, com a tranquilidade das coisas inevitáveis, pois não foi, pois não pode ser. Espero. Telefonam-me duas horas depois. Foi o P., dizem, pedindo desculpa pela notícia dada assim, a mim que sou amiga. Enfarte, dizem. Não foi, respondo, não pode ser, ou eu saberia, cá dentro - e cá dentro não se passa nada, nem um aperto, nem um tremor, nem um batimento a mais, nem um batimento a menos. Se tivesse sido, o meu coração já teria disparado, explodido, ou simplesmente parado, como o dele. Garantem-me que sim, que foi, que a missa amanhã. Agradeço, desligo, ligo ao amigo comum e digo-lhe, dizendo-lhe que não foi, que não pode ser, que cá dentro todavia não se passa nada. Peço-lhe para confirmar, que eu não consegui. Telefona-me logo em seguida. Não foi. Foi o irmão.
Não foi; se tivesse sido, eu saberia. Cá dentro, onde se sabem as coisas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Nêsperas

Compro dois quilos de nêsperas à beira da estrada, juntamente com as tangerinas e as laranjas, mornas do sol algarvio. Sento-me à mesa da cozinha, de frente para a janela grande por onde entram os raios do sol poente, filtrados pelas copas dos pinheiros bravos. Descasco e como, enquanto penso na mesa de pedra da cozinha da quinta das rosas, a avó Fernanda a descascar e nós a comermos as nêsperas colhidas de manhã. Ela descascava, nós comíamos, cuspindo os caroços gordos e escorregadios, até já não caberem cascas nem caroços no prato. Descasco e como, cinco, dez, vinte, cuspindo os caroços gordos e escorregadios, até me encher de nêsperas e me esvaziar de saudades.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Estado do tempo

Céu azul. Como as férias. Como o vazio.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Complexo geracional

Encontrei-o já no parque de estacionamento, nunca o vira por ali. Pouco faltava para as oito da noite e ele sentiu a necessidade de se justificar: "aproveitei o facto desta semana ser mais parada e saí mais cedo para vir correr. "
Resquícios da geração yuppie, que infelizmente custam a curar.