quarta-feira, 31 de março de 2010

A Cacetada: resposta à resposta

Aqui.
(abstenho-me de publicar a resposta à resposta da resposta, e por aí fora: entretanto, ficámos amigos - passo a hipérbole).

terça-feira, 30 de março de 2010

Resposta a uma caixa postal

Ex.mo Senhor J. Rentes de Carvalho,

Não sou, nunca fui, de achar que "há coisas que não se dizem", nem de crer em patetas superstições sobre a invocação da morte e de certas calamidades. Mas devo dizer-lhe que, embora com plena consciência do que me rodeia e apesar das enormidades que se dizem por aí, há muito tempo que uma afirmação não me chocava tanto. Não se trata de defender o direito à vida dos pulhas e trafulhas, ou por outro lado dos sofredores em geral, que isso cada ser humano vale pelo que vale, seja o meu vizinho do 5º esq. em Lisboa ou uma criança a morrer de fome em Africa: muito pouco, na imensidão das coisas, sendo certo que uns conseguem valer ainda menos do os restantes. Do que se trata nem vale a pena explicar-lhe, porque sabe com certeza. Talvez possa catalogar esse seu post (refiro-me à parte final) sob a etiqueta das "Grandes Imbecilidades". Sem ofensa, que grandes imbecilidades todos proferimos, nem que seja uma vez na vida. Que esta tenha sido a sua e que possa agora seguir caminho, com a qualidade e o interesse a que nos habituou.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Da verdade

A de quatro anos, quando se lhe acabam os argumentos para levar a sua avante, põe-me os braços à volta do pescoço e diz, soluçante: mas eu gosto taaaaanto da mamã. -lo sem ponta de malícia, eu sei, que a conheço bem. Os melhores argumentos são sempre os mais verdadeiros.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Apesar dos pesares... terás amigos

As palavras escritas a um amigo, muito amigo, evocaram-lhe o poema/canção. Aqui ao lado lho devolvo, ainda que sem a música do Paco Ibañez: Palabras para Julia.
(agora no Apoemário)

É fartar, vilanagem

As irmãs Medeiros já se passeavam no Liceu quais seres especiais, imbuídas de uma latente superioridade intelectual e cultural, compondo uma aura de excentricidade nas vestes e nas poses. Muito mais tarde, convivi um mês de perto com a irmã Maria e, tarantinizada que fora, agudizara-se-lhe a sobranceria. Agora, temos a outra a representar o povo português enquanto se permite impor-nos a pretensa singularidade. Já o disse, com a acutilância a que nos habitou, o Jansenista, e hoje remeto para a minha cronista preferida, a Helena Matos, que põe sempre o dedo na ferida. É que estamos todos mais do que fartos da vilanagem generalizada:
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Na verdade, a deputada Inês de Medeiros recorreu a um estratagema muito comum quando se quer iludir o Estado: dá-se outra morada. Há quem o faça para que os filhos vão para uma determinada escola pública ou para serem integrados num centro de saúde onde exista médico de família. Dando outra morada, Inês de Medeiros conseguiu eleger-se por Lisboa. Mas agora a senhora deputada quer ainda ser compensada por essa sua esperteza e diz que não paga as viagens que já efectuou. Os contribuintes portugueses é que não devem pagar certamente. E não é por o país estar em crise (...). É por uma questão de decência. Para a próxima legislatura, a senhora deputada pode beneficiar de ajudas de custo para viajar para Paris se concorrer pelo círculo da emigração, coisa que pelo menos a obrigaria a contactar mais com o povinho e, quiçá, de vez em quando sair da torre de marfim da classe executiva.
(no Público de hoje)

terça-feira, 23 de março de 2010

Who's gonna ride your wild horses?

Da segunda adolescência

(in Sushi Leblon)
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Tem uma certa razão, a Mónica, na sua forma brutal de pôr as coisas. Uma mulher, aos quarenta, agarra-se com unhas e dentes ao que lhe resta da possibilidade de ser gira, antes que não possa ser mais nada senão inteligente, interessante, competente, simpática, divertida e por aí fora. Pode ser tudo o resto indefinidamente, mas para ser gira sabe que lhe restam, com muita sorte e muito empenho, meia dúzia de anos.
(para provar a teoria, aproveitei a hora do almoço e comprei dois vestidos - tal como a Mónica, desde que vivi no Brasil ganhei alguns vícios: as cariocas e as paulistas não se coíbem de ser giras)

domingo, 21 de março de 2010

Planície

Acordo para o silêncio da planície alentejana, depois de uma noite de sono pesado e artificial. Um toque distraído no telefone e logo a realidade áspera, contundente, a entrar ao som de um pequeno bip, para repor a devida ordem, demarcar a linha no chão, retomem os vossos lugares, wake up and smell the coffee. Estúpida. Estúpida ideia, a da internet no telefone.
No regresso, paro no caminho. Hoje raramente paro no caminho, mas quando miúda, a caminho do Algarve, parávamos antes de tomar a serra. Sempre na "Sorte", nome que a família dava à bomba de gasolina logo a seguir a Ourique, onde, por cinco tostões, tentávamos a sorte a furar uma cartolina cheia de pequenos círculos numerados. Ganhávamos uma pastilha, um rebuçado, com pouca sorte nada e, com muita sorte, um pente de plástico. Eu ia furando cartolinas à espera da minha vez no grande jogo da vida, quando fosse crescida e livre e cheia de peças para jogar.
Paro agora e entro. Vem-me a vontade de uma sandes de paio, em pão alentejano. Eu, era sempre uma sandes de paio e um Trinaranjus de laranja. Mais tarde, os meus irmãos rapazes sempre fieis ao Sumol, e eu um Trinaranjus de maçã. A minha irmã, estranhamente, não tenho ideia.
Sento-me com a minha sandes de paio (em pão alentejano) e um galão a queimar os dedos, como é de direito. Algures no caminho deixei de beber refrigerantes. Penso na "Sorte" e na ingenuidade de pensar que um dia a vida começaria a sério, como se não tivesse começado logo no primeiro dia, sem treinos, nem ensaio geral. Que a vida é, desde logo, uma sandes de paio e um Trinaranjus de laranja, às vezes, um Trinaranjus de maçã. E uns furinhos em busca da pequena sorte, enquanto juntamos peças à espera do dia em que pudermos jogar à sorte grande.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Can you meet me half way

Chego a casa depois de ver "A Single Man". Diálogo com o rapaz da bilheteira:
- Um homem singular é o do Colin Firth, não é?
- Sim, deve ser. É de certeza.
- Não faz a mais pequena ideia pois não?
- Na verdade não.
- É que repare, há o homem singular e há o homem simples, está a ver o problema...
- Pois. São dois homens. Mas é só um bilhete?
(por isto e pela ausência de pipocas e por tudo o resto é que eu prefiro o Saldanha, mas as Amoreiras aqui tão próximas)
Chego a casa, dizia eu, a pensar numa cerveja. Hesito: são onze e meia, amanhã, como sempre, é às sete, e depois as alegações emperradas, a pilha de processos na secretária. Mas a sugestão no filme é potentíssima, perdi a conta às caricas abertas. Esteticamente magnífico. Mas é muito mais do que estética. Preciso de digerir. Oiço David Bowie, recuperado do fundo da estante, e bebo Super Bock. Olho pela janela. Às vezes somos todos invisíveis.
Ainda no outro dia dizia à Luísa (que não se perde por um bom filme) que a solidão é insidiosa.

terça-feira, 16 de março de 2010

Meus senhores, levo anos a dizer que não consigo achar uma pitada de graça à Gisele Bundchen. Olham para mim como se fosse daquelas que sempre dizem mal das mulheres bonitas. Nada disso. Como sempre tenho dito, a Adriana Lima é que é: com muito sal, que a vida não se quer ensossa.

domingo, 14 de março de 2010

Assinalo que

Este blogue faz hoje 3 anos.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Já agora

Só para ouvir (não se encontra "material antigo" decente no Youtube).

Maneis

O desfile da dupla Alves-Gonçalves na Moda Lisboa, o único a que, quando me sinto com coragem, vou assistir, começou e acabou da melhor forma, ao som de Young Americans, de David Bowie (houve uma época em que ouvia esta música, em repeat, todas as manhãs antes de sair de casa - mas isso é outra história). Pelo meio desfilaram os vestidos lindos, cheios de glamour e - o melhor de tudo - absolutamente vestíveis, a que o talento elegante desta dupla maravilha nos habituou. Deixo-vos alguns favoritos (faltam aqui um branco e um outro preto cujas fotografias não consegui arranjar), se bem que usaria com incomensurável prazer qualquer um deles.



quinta-feira, 11 de março de 2010

Sentei-me no sofá ao lado do José Eduardo Agualusa enquanto ele, simpático, mais pequeno e mais tímido do que as fotos deixam adivinhar, me autografava o livro. Trazia, pousado ao seu lado, o Verão, de Coetzee. Provavelmente uma boa sugestão de leitura.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Happiness is only real when shared

Tivesse eu disponibilidade e um número mais reduzido de filmes na calha e iria rever o Into the Wild, logo às 21.30 na Cinemateca de Lisboa. Choraria que nem uma madalena e saíria a matutar nessa coisa da liberdade individual. Se conseguisse bilhetes, claro, o que é tantas vezes impossível.

domingo, 7 de março de 2010

Recorrências

Às sete horas, já a tarde se veste de noite e o rio irradia o resto da luz, radiosa, brilhante, entornada do céu.
É ali que me encontro, a essa hora de mágicos cansaços*, quando o dia parece acabado mas persiste naquele rio, no corpo espesso de água de luz, silencioso, deslizante, inapagável.
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( * de empréstimo de Florbela Espanca)

sábado, 6 de março de 2010

The Reader

Não sei como é que tinha deixado escapar um filme tão fundamental.

(a Blockbuster está em processo de insolvência, e agora?)

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Público faz hoje vinte anos e é gratuito - o que se paga caro pela quantidade excerbada de publicidade que é preciso contornar para chegar às notícias.
Gostei das fotografias espalhadas por ali. E gostei do artigo sóbrio de Belmiro de Azevedo. Tivessemos nós mais Belmiros e haveria menos desnorte.

terça-feira, 2 de março de 2010

Trapos

E mais não disse. As palavras podem ser tão inúteis como os trapos.
(já o dizia Eugénio de Andrade)

Bonança

Na corrida vespertina ao longo do rio, são óbvios os sinais do temporal: a calçada esburacada, o asfalto rebentado, areia e canas pelo solo. Mas o rio desliza agora calmo e a noite surge tranquila, as luzes suaves na margem sul, o veleiro que vem a subir no vagar do motor.
Lembro-me da mais terrível noite de temporal no mar e da tarde do dia seguinte, quando, depois de um duche reparador no quartel dos bombeiros da Figueira da Foz (isto passou-se há duas décadas, no tempo em que as marinas não pululavam pelo país), me dei conta que havia passado o que eu receara não ter fim. Lembro-me do espelho embaciado, da pele macilenta, da ressaca de mar que provoca o falso embalar da terra firme, do momento solitário de percepção clara e aumentada, um daqueles instantes em que nos sentimos estranhamente despertos.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Domingo

Telefonou-me num Domingo de manhã a dizer que se ia separar. Talvez tenha estranhado a minha falta de surpresa, que não tivesse exclamado a sério?, que não tivesse lamentado. São muitos anos de prática profissional, a juntar, naquele caso, ao facto de o único comentário que me ocorreu ter sido até que enfim, que evidentemente me abstive de proferir: os comentários são perfeitamente dispensáveis em situações como esta. Alguém lhe disse que precisava de aconselhamento jurídico. As pessoas vêem muitos filmes americanos e acreditam que há estratégias a seguir, posições a aquartelar, ferozes settlements a negociar. Em regra, apenas se perfilam os medos, raivas e frustrações de cada um, o resto são armas de arremesso, cada vez menos válidas na medida em que a lei se torna cada vez mais minimalista. Passados anos, as pessoas nem se lembram do que a dado momento lhes pareceu tão angustiante e fundamental. Eu geralmente não me esqueço do que vou testemunhando, mas as lições de uns não servem aos outros: é a natureza de cada um que prevalece, num leque imprevisível de comportamentos e reacções. Nos piores casos, em conflitos armados cuja única utilidade é o desgaste, a la longue, das intenções mais aguerridas.