sábado, 30 de janeiro de 2010

O Carnaval no Rio - 2002

Um amigo querido reenviou-me ontem este email que eu enviara a alguns familiares e amigos há oito anos atrás, relatando a minha experiência no Carnaval do Rio, em 2002, que eu não me lembrava - de todo - de ter escrito. É um simples email, daqueles em que me alongava e tornava a alongar para suprir a distância geográfica e despejar as palavras, na falta, então, de outro suporte.
Transcrevo-o tal como o escrevi e enviei em 2002, sem bem o reler, para não o sujeitar ao que suspeito seria uma feroz edição e revisão, que lhe retiraria toda a autenticidade.
Confirmo que, passados oito anos, esta permanece uma daquelas experiências de antologia.
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-----Original Message-----

From: Andrea Carvalho Rosa
Sent: quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2002 19:06
Subject: O Carnaval no Rio
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Parto do princípio que ninguém teve paciência de esperar até às duas e tal da manhã, hora local de Lisboa, para assistir ao desfile da Unidos da Tijuca. Mas comecemos pelo principio:
Recebemos as fantasias no próprio dia, umas horas antes de partirmos para o sambódromo... e ainda bem! Imagino que não dormiria se a tivesse recebido de véspera, tal a dimensão, complexidade e principalmente, peso da coisa. Foram-nos entregues 13 fantasias (éramos um grupo dessa ordem), que enchiam completamente uma van, a típica "pão-de-forma" cá do Brasil. Demorámos uns bons momentos para compreender como aquilo se vestia, e tivemos que recorrer à ajuda do rapaz que as entregou. A dita fantasia era unisexo e composta por umas ridículas calças de lycra amarelo fluorescente, uma espécie de saia de veludo azul cheia de bordados, atada atrás com uns cordões e umas bolas vermelhas penduradas, e em cima (com um intervalo para a barriga de fora, quer para os homens, quer para as mulheres) uma estrutura rígida constituída por uma ombreiras muito largas do mesmo veludo azul, que chegavam abaixo do peito, com duas asas douradas a sair dos ombros, plumas vermelhas e, para arrematar, uma estrutura de metal que se prendia na parte de trás das ombreiras e de onde saiam umas enormes labaredas feitas de esponja que se elevavam acima da cabeça para depois caírem a arrastar pelo chão. Finalmente, um capacete tipo elmo prateado de onde partia a cabeça de pássaro. Ah, e mais umas braçadeiras amarelo fluorescente e umas sapatilhas do mesmo tecido e cor. Assim era o "Fénix da Malaca" da "Unidos da Tijuca".
O rapaz da escola insistiu muito para que não vestíssemos nada que se visse por baixo, aconselhando as senhoras a usar um soutien azul escuro, ou, melhor ainda, nada! Visto que os ombros eram pesadíssimos e tínhamos que sair fantasiados de casa porque depois não haveria onde deixar as roupas, fomos a correr a uma feira do bairro e conseguimos comprar uns tops curtos azuis escuros, que nos permitiram sair de casa sem ter que levar vestida a estrutura das ombreiras com as asas e as chamas. Ora imaginem lá a figura de 13 tugas, femininos e masculinos, a sair de casa em Ipanema, de calças de lycra meio transparentes amarelo fluorescente (estava muito calor para vestir desde logo as saias de veludo), sapatilhas da mesma cor, os homens de tronco nu e as mulheres quase. Metemo-nos todos, mais os acessórios, dentro de duas vans e lá fomos, com o samba-enredo aos altos berros, enquanto tentávamos decorar pelo menos o refrão.
Deixaram-nos no lugar onde a escola se preparava, às portas do sambódromo, duas horas antes da hora prevista. Na primeira meia hora estivemos a tentar perceber e colocar os restantes acessórios das fantasias e depois, debaixo de chuva ocasional, mais duas horas à espera da grande hora, com aquele coisa toda vestida e montada. Felizmente o bom humor não faltava, falava-se e comentavam-se os vizinhos e tiravam-se fotografias.
Quando finalmente chegou a nossa vez e as 4.500 pessoas que, em cortejo, compunham a escola, começaram a avançar para as portas do sambódromo conduzidas por um punhado de coordenadores, a impaciência já era muita, os pés ávidos de samba mas já cansados de tantas horas em pé. Os coordenadores gritavam, antes de entrarmos: - cantem e dancem, cantem e dancem! O samba enredo invadiu o ar, uma e outra vez, recomeçando assim que acabava. A entrada no sambódromo é um momento cheio de expectativa, seguido da surpresa de descobrir o público tão perto, não havendo aquela sensação de se estar no meio de um estádio, ou num verdadeiro palco. Estávamos numa ponta, de forma que o público das primeiras filas estendendo os braços poderia tocar-nos. Observados por milhares de olhos, mas nem por isso nos sentindo como estrelas, sabemos que temos que dar o máximo, dançar e cantar o quando pudermos e soubermos (ou pelo menos fingir que cantamos, nas partes que não sabemos de cor). É fascinante olhar para aqueles milhares de pessoas, de todas as idades, raças e estratos sociais. Bonitas, feias, magras e gordas, elegantes ou pavorosas, passamos pelos camarotes, pelas frisas, pela geral, pelas bancadas inundadas de gente e em todos eles a mesma energia, tudo a dançar, a cantar e a vibrar.
Encaixados entre dois gigantescos carros alegóricos, não temos a noção da evolução da escola, de tal forma que, pelo menos comigo, deu-se uma inversão de papéis: senti que eu era o público e que o verdadeiro espectáculo decorria nas bancadas. Pela Marquês de Sapucaí abaixo, era um desfile de público e eu ia pensando: "Aquelas sabem a letra toda. Olha aquele a tirar-nos uma fotografia. Aquela miúda ali em cima, como samba! Aquele é o camarote da Bhrama, deve ser onde está a Bush. Mas onde raio estará o júri? Deixa-me ver se o resto da malta está a aguentar este ritmo. Espero que ninguém repare que não sei sambar. Tantas caras, não vou conseguir distinguir ninguém. Raios, partiu-se-me uma asa! Será que isto penaliza a escola? Mas como é que esta gente tem energia para dançar e cantar e saudar 10 escolas por noite, se nem o meu próprio samba-enredo consegui decorar?" E por entre encontrões das asas, muito agitar de braços e algum ritmo, lá fomos desfilando... e desfilando... e desfilando. Olhávamos uns para os outros e riamos das nossas figuras, enquanto nos encorajávamos a continuar. Tinham-nos dito que passava num instante mas lembro-me de a meio do desfile, com a língua de fora e o sorriso já quase colado à cara, pensar: Céus, devemos estar mesmo a chegar - e com desespero espreitar para a frente para descobrir que ainda íamos a meio. Felizmente a energia do público dá-nos forças para prosseguir. E embora sem compreender bem o significado de tudo aquilo - porque a verdade é que, não sendo brasileiros, há qualquer coisa que nos impede de entrar plenamente naquele estado de euforia colectiva - lá vamos sambando avenida abaixo.
Passámos momentos difíceis quando, sem saber porquê (depois viemos a saber que um dos carros encravou) ficámos 15 minutos parados, a meio da avenida. Quinze longos minutos a ter que dançar em frente das mesmas pessoas, a verdade sobre a nossa real incapacidade de sambar posta a nu - é que enquanto se avança é mais fácil de improvisar! Uma longa hora depois, com as fantasias tortas e meio partidas, cobertos de suor e com as energias esgotadas, lá fomos chegando à praça da apoteose, onde tudo acaba. No final já ninguém dança, apressando-se e espremendo-se em direcção à saída.
Transpostos os portões do sambódromo, descobrimos uma montanha colorida de vários metros de altura: era o cemitério de fantasias, para onde os passistas se desembaraçavam do seu peso, das suas plumas, da sua cor e alegria. Assim nos aliviámos também, regressando aos trajos menores, as ditas calças amarelo fluorescente, agarradas às pernas de tanto suor, os troncos nus ou semi-nus, transpirados e cansados, o capacete debaixo do braço como recordação e, por entre uma agitação pacífica, fomo-nos retirando, compreendendo afinal porque é que Carnaval é a festa de todos, não distinguindo condição social, raça ou credo - e nem nacionalidade.
É uma experiência que se vai revivendo ao longo dos dias seguintes, juntamente com o samba-enredo que não sai da cabeça. No momento em que desfilamos é difícil de abarcar tanta confusão e a partir de certo momento só pensamos em não desiludir o público e conseguir chegar ao fim. Só mais tarde se revive os detalhes, se saboreia verdadeiramente a excepcionalidade da ocasião. Esta é a matéria de que são feitas as grandes recordações.
A.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Blackbird


Blackbird, uma história fortíssima do dramaturgo escocês David Harrower, envolve-nos no tema incómodo do abuso sexual de menores, e fá-lo de uma forma simultâneamente brutal e humana, tão humana que quase nos faz esquecer a torpeza do acto, para logo a seguir, com a violência de um coice, voltar a lembrar-nos. Miguel Guilherme e Isabel Abreu fazem um belo trabalho, se bem que nunca nos permitam esquecer que ali estão dois actores a dizer um texto. Para mim, o teatro é sempre um bocadinho isto e talvez seja por isso que, antes de tudo o mais, vale o texto. Neste caso, um texto brilhante e perturbador.

Em exibição na sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Samba do recomeço (ao estilo de Vinicius)

Queria lhe dizer que tudo vai ficar bem, mas não sei, não sei como tudo ficará, como ter tanto sem tudo dar e tudo querer, sem nada perder, não sei, você não sabe, ninguém sabe, faria tudo outra vez, faria tudo diferente, faria tudo igual, de que vale a vida estúpida e morta e desaproveitada e fechada, trancafiada, sem a chave sem a pele sem o desejo sem o encontro, o reencontro e a saudade, sem a pureza e o pecado, sem a essência e o sorriso e o abraço, os beijos, as mãos, o riso, a voz, a descoberta, a luz, a entrega, a rosa e os espinhos. Não sabe como poderia ter sido, nem o que não chegou a ser, não sabe o que pode, se pode, vir um dia a ser quem sabe, a vida dá a vida tira a vida torna a dar, só a vida sabe, você só sabe a pura verdade que essa vida vivida lhe dá a viver, a sentir e a querer, o que fez e não se desfaz, já dizia o poeta mais vale morrer de dor do que viver num paraíso sem amor, e por isso lhe deixo pra ouvir, uma e outra vez, que só assim é bom de ouvir, o samba da rosa e da esperança.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

... do mundo.

E na paixão feita alheamento beberam a vida, e do tanto que puderam e do tudo que quiseram a vida cobrou o seu preço, o da realidade concreta, brutal e consequente, o do paraíso perdido - onde tudo acaba, mas tudo começa.

... ao fim ...

Seguiram caminho de mãos dadas, como se até ao fim do mundo, tornaram a beijar-se na esquina, e no passeio a seguir, deslumbrados e livres de pecado, mergulhados na sintonia do momento, alheados da serpente, da árvore e da maçã.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Até ...

Beijaram-se à porta do cemitério, ía alta a madrugada, as mãos dele subindo-lhe pelo vestido curto, sentiam-se vivos, encantados, inteiros no seu atrevimento, inocentes perante os mortos e os vivos.

Fragmentos

O regresso do sol coincidiu com a possibilidade do meu retorno à actividade física. Feliz coincidência que ontem pela tardinha me permitiu sentir o sol na cara enquanto corria ao longo do rio espelhado de azul. São esses pequenos momentos que nos permitem sentir vivos, aqui, agora. Pequenos fragmentos que nem sempre abundam nas nossas vidas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Insónia

Como é que se desliga a cabeça? é a pergunta de uma vida inteira de insónias.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Energia vital

Há uns bons anos atrás, alguém, que percebe muito de psicologia, disse-me isto mesmo. Não tornei, até hoje, a ouvir esta teoria que faz todo o sentido. Divulgar um ideia em fermentação, publicitar uma intenção, esmiuçar perante terceiros uma vontade, esgota, pelo menos em parte, a energia necessária à sua concretização. Quem não conhece aquelas pessoas que falam permanentemente de projectos que nunca levam a cabo? Isto vale também para as decisões que precisam de ser remoídas e sofridas antes de ser comunicadas, cumprindo-se o tempo de maturação em silêncio, sob pena de se volatilizarem quando expostas à luz. Talvez por isso, tantas vezes, as decisões mais radicais na vida das pessoas são solitárias, apanhando os que as rodeiam de surpresa. Ou não chegam a ser decisões, esgotando-se em desabafos pontuais que aliviam e simultâneamente dissipam o poder regenerador. Talvez também por isso, em caso de sofrimento emocional, não resistimos, mais cedo ou mais tarde, a partilhá-lo com alguém, de forma a libertar um pouco da energia transformada em dor.
Não é que devêssemos guardar toda a energia, seja ela positiva ou negativa. Deveríamos, isso sim, canalizá-la de forma útil e produtiva, ou seja, para as acções em vez das palavras. Falar é bom? Muitas vezes, mas nem sempre.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Crónica

Não pude evitar a lágrima furtiva ao pequeno almoço, os olhos marejando-se-me enquanto lia a crónica de José Luís Peixoto, na Visão de ontem. O relato não tem, nem pretende ter, grandes predicados literários, senão o de abordar de forma simples e corriqueira o coisa mais simples, corriqueira e comovente que existe: o amor parental. Sou um alvo muito fácil no que respeita a este tema.
É curioso perceber que quem escreveu "Uma Casa na Escuridão", um romance que contém as descrições mais tétricas que alguma vez li, tenha uma vivência simultaneamente tão normal. É talvez isto o de ser escritor.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A gota de água

Mudando de assunto (já é tempo), uma pequena passagem da crónica de Inês Pedrosa na Única de 9 de Janeiro captou a minha atenção:
Para o melhor e para o pior, a gota de água importa. A gota de água pode ser uma frase lançada em forma de faca. Uma frase que, mesmo inadvertidamente, corta. Todos temos um historial de gotas de água que nos transformaram.
É bem verdade, e esse historial existe tanto na forma passiva como activa, ou seja, tanto somos quem ouviu como quem disse. Há coisas que depois de proferidas não têm retorno. Pode haver perdão, mas o que foi dito continuará a existir, ressoará para todo o sempre na camada atmosférica e far-se-á presente uma e outra vez, assim o convoquemos.
Um destes dias alguém que me conhece há vinte anos, e que muito respeito, comentou que sou capaz de uma grande violência verbal. Foi mesmo este o termo que usou: violência verbal. Não existe expressão mais adequada. Sou. Não é algo de que me orgulhe: que meia dúzia de palavras impulsivas possam ter sido, ou venham a ser, a gota de água de alguém.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O poder de escolha

In casu, resume-se a escolher entre a dor sem analgésicos e a dor com embotamento mental produzido pelo excesso de analgésicos. Em qualquer dos casos, trabalhar é uma tarefa árdua mas necessária, tanto mais que todos os magistrados do país decidiram iniciar o ano de 2010 proferindo, agendando, mandando notificar, dando andamento aos processos eternizados e emperrados. É nestas ocasiões que o profissional liberal sonha com um emprego, no qual a baixa médica seja um direito protegido e exequível.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Cervicobraquialgia

Regresso paulatinamente ao universo terreno. Uma visitinha ao inferno relativiza os problemas mundanos: a dor é o lugar mais ermo que existe.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A seguir

Comecei o ano a tentar ignorar a dor nas costas, mas parece que ela veio para demonstrar que neste ano de 2010 não vale tentar descartar os problemas, ignorando-os. Já não consigo ajudar os miúdos seja no que for, nem conduzir, e nem ficar sentada em frente ao computador, o que, en bref, significa que neste estado não sirvo para grande coisa. A medicina tradicional descartou-se com uma radiografia benigna e duas horas de poderosos analgésicos por via intravenosa. Resta-me, pois, entregar-me a alguém que não se limite a estudar e conhecer o sistema músculo-esquelético, mas também tenha aprendido a dominá-lo com as próprias mãos.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Nas calendas de 2010 (*)

No 1º de Janeiro deste ano que começa li, de ponta a ponta, um livro que andava pela minha mesa de cabeceira desde Setembro do ano passado, e que trouxe comigo para o habitual retiro algarvio. É, quem sabe (e diz a Luísa) um bom prenúncio. É certo que para além disso, e tratando-se de 339 páginas, não fiz mais do que o habitual: cuidar e beijocar os meus filhos; sonhar acordada.
Escrevo este post já na madrugada do segundo dia, depois da costumeira voltinha pela blogosfera - não sei se conta.