domingo, 19 de dezembro de 2010

That I would be good

A casa arrumada e silenciosa. Passeia-se pelos canais à procura de um pouco de nada que a distraia do imenso. Nada. Pensa no pequeno presente guardado no envelope no fundo de uma gaveta, for a rainy day. Não chove, agora. Vai buscá-lo ao fundo da gaveta, reúne os velhos CDs. Acende duas velas no chão, senta-se ao lado no chão. Fuma sorvendo conscienciosamente. Nada. Como se nada. É assim há muito tempo, senta-se no chão, ouve os velhos CDs, na casa arrumada e silenciada. As pessoas vieram, falaram e partiram. Esteve fora e não entrou. Esteve e ficou de fora, lá no fundo de dentro, olhando o mundo pela janela do carro que avança pela noite, no silêncio do banco de jardim. Apetece-lhe dizer isto, é isto mesmo que lhe quer dizer. Dizer-lho todos os dias, que sim, que sabe o que isto é, que sempre soube o que era isto. De viver. De viver e ficar de fora. E que quando fica de fora, do lado de fora onde os outros não estão, é ele que fica ali com ela. Em silêncio, no banco do jardim.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Such joy and happiness



À princesa mágica que completou ontem cinco anos.

Contas

O que isto do blogue tem de bom e de mau é que me obriga a prestar contas a mim própria.

Tolerância

Paciência e tolerância não são a mesma coisa. A tolerância tem uma vertente ética que determina a sua medida, devendo ampliar-se quando os valores em causa assim o peçam e reduzir-se, ao zero se preciso for, no caso contrário. A dificuldade ou, por assim dizer, a virtude, reside em saber qual a medida apropriada a cada situação, tarefa que se revela tão mais fácil quanto mais claros e firmes são os valores de cada um. Talvez por isso nunca tive grandes dúvidas quanto à tolerância: se praticá-la e desenvolvê-la é mote e tarefa para uma vida inteira, é também essencial não esquecer que tolerar actos intoleráveis não faz de nós pessoas melhores.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Paciência

Verifico que, com o tempo, vim a adquirir uma característica que nunca foi minha: a paciência. Faltou-me em muitas ocasiões, mas agora que a conheço melhor começo a duvidar que seja, inequivocamente, uma virtude: são muito ténues as linhas que a dividem, em certos momentos, de outras atitudes, como o comodismo ou o conformismo.

Out of Africa

Sempre que o apanho a dar na televisão fico a ver. É um excelente filme, de outro modo não me teria sido possível revê-lo meia dúzia de vezes, desde 1985 até à data. Há quem embirre com a coisa, a mim sempre me conseguiu prender e cada vez que o revejo vejo-o de outro modo, alternando as empatias, perfilando-me ora com um, ora com o outro, fabricando novas entrelinhas, fazendo outras descobertas, tudo ao ritmo das minhas próprias andanças. Entre os 15 e os 40 anos um gajo muda um bocado, e tudo reside, afinal, na interpretação do sujeito.

domingo, 31 de outubro de 2010

Este blogue está em hibernação.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Viagem

Vais partir e eu vou ficar sem te acenar adeus, feliz que um de nós vá e regresse, depois, para contar como foi, mesmo que não chegue a fazê-lo: basta que volte transformado, só mais um bocadinho, naquilo que é.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Prazer lânguido

Subscrevo inteiramente esta ideia e pratico-a, no que respeita aos livros. Entretanto, impressionou-me a premissa de que a felicidade não deve requerer um esforço.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Lobo Antunes

Volto às entrevistas a António Lobo Antunes com a da revista do Expresso do passado fim-de-semana. O entrevistado é igual a si próprio, eu mantenho-me entre o riso incrédulo e a comoção, a jornalista aproveita para o confrontar com o que sobressai de todas as entrevistas (Repete-se muito. Em todas as entrevistas há coisas que diz exactamente da mesma maneira. E é aí que se nota a construção da sua personagem). No preâmbulo, define-o: esquivo; arrogante; gentil; inseguro; terno; brutal. Confesso que sempre gostei de homens assim.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O amanhecer do Outono

O choque do Outono, para além das primeiras chuvas, é passar a acordar de noite. Mas depois, na cozinha, um amanhecer assim. A seguir, o dia luminoso. E na tarde do mesmo dia, o pôr do sol, junto ao rio.

Não comprei caramelos

Seis horas de carro hoje, e eis-me de volta ao ponto de partida. Fico a imaginar onde poderia estar com seis horas de viagem: nas autoestradas europeias, são muitos quilómetros. A A6, para e de Espanha, deserta: a mentira do TGV, mais uma de tantas. À entrada, fizeram-me parar na berma uns senhores do SEF, coletes verdes por cima da roupa civil a dizer: POLÍCIA. Examinaram-me atentamente o Cartão de Cidadão, não sei o que procuravam: não era a mim.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Apontar o dedo

Ontem, pela manhã, no café, a televisão sem som mostrava um excerto de uma entrevista de Judite de Sousa a um homem grisalho e eu fui seguindo a conversa pelas legendas, enquanto tentava ligar a cara ao nome. Uma centelha de memória visual (péssima para caras embora excelente para detalhes estéticos), aliada ao contexto, fizeram-me crer que era escritor e de língua espanhola. Mario Vargas Llosa, a notícia tornou evidente, falava sobre os mortos vivos, aqueles que estão vivos mas não vivem, não lutam, não sonham, não acreditam. Não amam. Estes, dizia, causam-lhe horror. É bem verdade, horrorizam-nos a todos, e esta visão do horror, como tantas outras, serve também de contraponto. Horrorizamo-nos e ao mesmo tempo tiramos consolo do facto de não chegarmos a tanto ou, melhor, da certeza de que nunca lá chegaremos. É de outros que fala. Olhamos à nossa volta e, sem nos comprazermos da miséria alheia, animamo-nos um bocadinho sabendo que não somos nós, nós, apesar dos pesares, seguimos vivos. A nós, não nos cabe o horror, não nos serve a comiseração. Vargas Llosa conclui, afirmando que esses que estão mortos não sabem que o estão.
E os outros, saberão?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Dos personagens

Na má literatura, os personagem são criados em duas pinceladas, tinta preta em papel branco: são inteiramente bons ou inteiramente maus; levam vidas cabalmente boas, fáceis e alegres ou penam vivências difíceis, obscuras, sofridas; os seus actos traduzem a soma de duas ou três emoções dominantes, de cor negra ou cor-de-rosa; perfilam-se pela rectidão do carácter ou movimentam-se sinuosamente na completa ausência de valores morais; são vencedores ou vencidos; alcançam ou soçobram; quando desiludidos, são rancorosos; quando sofrem por amor, deixam de acreditar nele; quando são solitários, estão sós.
Na boa literatura, não é nada disto. Na vida, graças a Deus, também não.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Das qualidades domésticas: reedição da resposta à Luísa

As minhas qualidades domésticas não derivam de uma qualquer vocação ou devoção, mas da irracional necessidade. Não suporto a desarrumação, nem a desarmonia, nem a falta de organização dos objectos à minha volta, porque para erráticas já bastam a minha mente e as minhas emoções. A minha única estabilidade advém, tantas vezes, de viver num lugar onde os objectos com que convivo estão nos devidos lugares, da tranquilidade que essa estética (cada vez mais minimalista) me dá, sendo a desorganização e anarquia visuais extremamente agressivas para mim. É pouco, bem sei, mas é o que se tem podido arranjar: a obsessão pela arrumação como último reduto da sanidade. Esta propensão (chamemos-lhe graciosamente assim) espraia-se por todas as dimensões da minha vida, incluindo a profissional, onde faço por manter a organização férrea com que fui intelectualmente treinada, e explicará também o cuidado que tenho com a minha aparência: para além da vaidade feminina, que não nego, tranquiliza-me a ideia de que a harmonia exterior e a disciplina estética contenham e resguardem a turbulência interior. Momentos há, mais difíceis, em que toda esta organização se mantém presa por invisíveis fios de seda: as portas do roupeiro escondendo o caos que contém, as crianças limpas, cuidadas e a horas na escola disfarçando a atenção alheada, a secretária arrumada iludindo as tarefas por cumprir. Por vezes, são estes e apenas estes os frágeis fios que impedem o edifício de soçobrar e me mantêm à tona em meio à tormenta, enquanto luto por chegar a uma ilha onde consiga recuperar o pé.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pontos finais

Desde que por aqui ando verifico que a ideia de acabar com isto é latente, quase incontornável. Salvo raras excepções, não há quem não a expresse nem quem, em determinada ocasião, não a tente executar, mas todos, salvas outras tantas raras excepções, acabamos por falhar o intento, retornando e retomando.
Há ocasiões - mais introspectivas do que expansivas - em que pouco mais faço do que arrastar-me por aqui, mas por cá vou andando. Para além do mais que já aqui disse, isto tem sido um precioso exercício de desassombro e humildade, que influenciou profundamente a minha postura na vida lá fora: perdi, por assim dizer, a vergonha, não havendo hoje em dia grande coisa que me coíba de expressar. Curiosamente, tornou-se cada vez mais óbvio que as palavras libertam - libertam profundamente - mas não nos conduzem necessariamente onde queremos: haverá sempre muito mais para além delas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Poemas e Caminhantes

O meu poemário esteve quatro meses cristalizado em "Uma mulher quase nova", de Mário Dionísio, em parte por falta de tempo para incursões poéticas, em parte porque se manteve o estado de espírito correspondente. Segue aquele, finalmente, para o arquivo (para e por onde, como sabem, podem viajar) para dar lugar a um que me foi "oferecido" e que agora devolvo ao ofertante, na versão integral.
Que nunca deixemos de caminhar e, quando possível, o façamos lado a lado com os que nos são queridos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Airplanes

Ao entardecer, noite após noite dentro, os aviões fazem-se à minha varanda como se fossem entrar-me pela sala, o farol brilhante que precede o frémito abafado dos motores que também de madrugada, após madrugada, entra-me pelo sono leve e faz-me saber que é quase amanhecer, que é chegada a hora em que tantas vezes cheguei, a noite mal dormida, a alvorada sobre as praias da Caparica, o Cabo Espichel ao fundo, o eterno retorno. Antes, sempre, o desejo de partir, a euforia de me erguer do chão que me colava à terra, o alívio de me libertar do que permanecia. Os aviões como estrelas viajantes que num relance me concediam o desejo de soltura. A possibilidade infinita do desconhecido. A latitude para inverter papeis, reescrever guiões, trocar constelações. Havia, ainda há, qualquer coisa de intoxicante na ideia de partir: a ínfima possibilidade de não voltar.

Can we pretend that airplanes in the night sky are like shooting stars (I could really use a wish right now)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Da perversão da Justiça

Depois de várias semanas de alheamento completo, no Sábado dispus-me a fazer a ronda dos noticiários (que há muito e por regra substituí pela leitura do jornal, para bem da minha digestão nocturna, abrindo mui raras excepções para assuntos muito concretos), deparando com José Maria Martins, Advogado de Carlos Silvino. No seu tom de advogado de província, que muitos tenderão a menosprezar, mas com a tranquilidade dos que nada têm a perder ou recear, apontou Jaime Gama, Ferro Rodrigues e, claro, Paulo Pedroso, como indiciados no processo Casa Pia que, atendendo às provas reunidas, deveriam ter ido a julgamento, ao lado dos agora condenados, acusando o PS de, por motivos políticos, defender aqueles que terão praticados actos pessoais indefensáveis. Lembrei-me logo da cena vergonhosa de apoteótica recepção de Paulo Pedroso na Assembleia da Republica, quando saiu da cadeia. Ninguém, em consciência, pode tomar posição relativamente à culpa ou inocência de um homem apenas porque lhe conhece a personalidade: as perversões de cada um, é bem sabido, correm fundas e ocultas - até as mais inócuas. Ao confundir apoio pessoal com apoio político e, mais ainda, querendo sobrepor ambos à Justiça, o que é totalmente inadmissível, tantos homens e mulheres (sobretudo homens, repare-se) perverteram o sistema judicial, dificultaram o apuramento da verdade e, acima de tudo, viraram a cara e as costas às vitimas - que são bem reais - tornando-se, em diversos graus, cúmplices dos crimes perpetrados. O mesmo se diga relativamente aos que pontuam na campanha pública de defesa de Carlos Cruz. Tão revoltante quanto a prática dos actos pelos quais este homem foi a final condenado, tem sido a permanente atitude de virgem ofendida e perseguida que, para cúmulo, o seu advogado se predispõe a mimetizar junto da comunicação social, indo muito além da defesa processual que lhe compete.
Noutro país, que não este, a turba reunir-se-ia para insultar, perseguir, quem sabe apedrejar os indiciados, os acusados, os pronunciados e os condenados, não para os apoiar, e as personalidades públicas, políticas e outras, abster-se-iam de tomar posição e sobretudo de manobrar as instâncias do poder legislativo e judicial, de forma calculista e amoral, com grave prejuízo para a Justiça, que lhes cumpre respeitar e salvaguardar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Antes de ir de férias faltou-me referir isto:

CÓDIGO PENAL

LIVRO II - Parte especial

TÍTULO I - Dos crimes contra as pessoas

CAPÍTULO VII - Dos crimes contra a reserva da vida privada

Artigo 194.º - Violação de correspondência ou de telecomunicações

1 - Quem, sem consentimento, abrir encomenda, carta ou qualquer outro escrito que se encontre fechado e lhe não seja dirigido, ou tomar conhecimento, por processos técnicos, do seu conteúdo, ou impedir, por qualquer modo, que seja recebido pelo destinatário, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 240 dias.
2 - Na mesma pena incorre quem, sem consentimento, se intrometer no conteúdo de telecomunicação ou dele tomar conhecimento.
3 - Quem, sem consentimento, divulgar o conteúdo de cartas, encomendas, escritos fechados, ou telecomunicações a que se referem os números anteriores, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 240 dias.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Férias

Este blogue vai de férias e eu também: vamos de férias separados e quer-me parecer que o blogue só volta em Setembro. Fiquem bem.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Mas Porquê? - resposta a um email

O post que referiu (Mas Porquê?) descreve uma das reacções típicas que tenho tido à escrita do meu blogue e que, suponho, se estende à escrita de qualquer blogue pessoal: há pessoas que o vêm como uma simples narrativa de histórias pessoais, enquanto eu o encaro muito mais como um exercício de escrita e simultaneamente um exercício de auto-libertação e de auto-conhecimento. As pequenas histórias pessoais são apenas alguns dos tijolos de uma construção muito maior.

(Aproveito para, com a mesma resposta, comentar este post da Luísa)

Entretanto, o melhor banho do ano já ninguém me tira

Compensou largamente os 10 km de sprint nocturno.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

XI.
- Bem vistas as coisas, quem é que entrega a alma a alguém num só olhar, num só beijo? Até que ponto estas coisas são reais, de tão inverosímeis, tão resplandecentes de fantasia? Como podem, simultaneamente, ser tão profundamente verdadeiras? E se são, e se um dia puderam ser, como é que nos entregamos depois ao dia-a-dia? À rotina? Em que é que cedemos? O que é que matamos?
A esplanada está agora deserta, sugerindo a agitação produtiva de um princípio de tarde na cidade, confinada aos edifícios refrigerados, tecidos de comunicações. O silêncio veio repousar aqui, juntando-se à ausência e ao calor. Julho chegou quente, como outros julhos, e nem o espelho de água, nem a visão do Tejo, ao fundo, dissipam a envolvência quente que lhe embala a memória. Os patos, indolentes, agitam-se num repente à chegada do grupo de adolescentes que vem contornando o lago, em alegres gargalhadas.
O copo está vazio em cima da mesa. Com um gesto breve da mão, chama o empregado.

FIM

segunda-feira, 12 de julho de 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

X.
- Não me digas uma coisa dessas. Há cinquenta e tal anos que me sinto terrivelmente real. A não ser que sejas Deus - e mesmo assim (sorri) - não sei como poderia ser obra tua.
- Vá, percebes o que eu quero dizer. Preenchemos os vazios, as frustrações, as ausências, tudo aquilo que não conseguimos alcançar, fantasiando. Recriamos as vivências e as pessoas, acrescentamos a vida, reconstruímos o real. Fincamo-nos nos momentos de deslumbramento e vivemos a partir daí. Tomemos o nosso primeiro beijo: na praia, de noite, saídos do mar, encharcados, semi-nus. Isto é coisa de filme. Como o amanhecer em que me conduziste ao aeroporto, a estrada sinuosa sobre o mar. Ou o entardecer no Solstício de Verão, caminhando pela cidade de braço dado, vestidos de branco. Ou quando nos beijámos, de madrugada, à porta do cemitério, eu de vestido preto, curto. Tudo cinematográfico, pedaços de cenas gravadas na película da memória. Mas a memória, é honesta como suporte de gravação?
- Espera aí, a maior parte do que dizes não se passou comigo.
- O que é que eu te estou a dizer? Entra um terceiro personagem. Talvez um quarto e talvez um quinto, ou um sexto. Ou talvez um só. Talvez eu seja, afinal, pessoa única neste enredo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

IX.
- Não sei o que te dizer.
- Não me digas nada. Nada que respeite ao passado. Fala-me do presente, fala-me do futuro. Faz como eu: o passado condenso-o na alma - passo a lamechice - e na escrita, é para isso que ele serve. Não serve para viver, não se pode viver revivendo o passado. O caminho faz-se andando, esta é uma expressão que alguém me deu a conhecer aos vinte anos e de que gosto muito. O passado é uma amálgama que misturo e amasso e misturo novamente e com ela crio novas formas. Ontem vi um filme em que os amigos de um escritor tentam incessantemente que ele confirme que a personagem principal do livro que escreveu é a sua mulher. O escritor vai dando respostas evasivas até que, confrontado pela própria mulher, responde, exasperado, que aquela personagem é a mistura de todas as mulheres da sua vida, incluindo a sua mãe. Quando penso em ti, ou quando escrevo sobre ti, tu és também a condensação de todos os homens da minha vida. E no entanto continuas a ser tu. É também assim com o resto das coisas: as experiências são únicas mas todas juntas formam uma amálgama e é através dela que nós passamos a experimentar a vida. Umas contribuem muito, outras muito pouco, para essa condensação de vida. Mas todas, até aquelas que esquecemos, contribuem um bocadinho.
Faz uma pausa, finalmente olha-o nos olhos.
- Ou seja: tu já não és tu. És, na verdade, obra minha.

Julho

Julho é calor. Foi nascimento, paixões, mortes e renascimentos. É sempre, vá-se lá saber porquê, um mês de coisas importantes. A ver este ano.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A hora da bola: em má hora sucumbi

O Clube Ferroviário à hora do Portugal - Espanha. Valeu o entardecer sobre o rio - magnífico - as imperiais e os tremoços.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Gaivota

Atropelei uma gaivota na A5. Veio a ricochetear do pára-brisas do carro da frente e caiu na estrada mesmo à minha frente, a rebolar, uma asa muito comprida e aberta e a outra meio encolhida, viva ainda: nos olhos percebi-lhe a vida e li-lhe a incompreensão, naquela fracção de segundo antes de lhe passar por cima, sem uma hesitação, impiedosamente protegendo a minha prole. Senti as rodas a estraçalharem-lhe o corpo, primeiro as da frente, depois as de trás, o barulho seco de ossos a partir. Era um bicho grande. Não seria uma gaivota, talvez fosse um albatroz, ou outra ave qualquer que prefiro não imaginar, nem quero conceber que fosse uma cegonha. As gaivotas são mais do que muitas e têm aquele cheiro a peixe.

terça-feira, 22 de junho de 2010

VIII.
Agora vê-lhe a comoção nos olhos. Nos olhos dele fazem-se claras as emoções, mas não mais do que isso: não lhe chega aos pensamentos. Habituada a ler as pessoas, no caso dele nunca conseguiu. Nunca soube, com a certeza que outros lhe demonstraram, a dimensão e a nomenclatura dos sentimentos. Se e quanto a amara. Se e quanto a desejara. Os seus próprios sentimentos embotavam-lhe o discernimento - sempre assim fora e por isso refugiou-se, tantas vezes, em relações desapaixonadas. Para não perder o pé.
Talvez por isso insiste naquela amizade, talvez que um dia, liberta do fogo e da deformação do desejo, lhe chegue ao âmago. Ele é, sempre foi, absolutamente imprevisível, para o bem e para o mal. Ainda hoje, um gesto, uma palavra, uma intenção - nunca sabe bem qual - bastam para que lhe escorregue por entre os dedos; e ela que se fez prolífica em palavras. Mas há, milagrosamente, algo que permanece, que não se apaga, uma comunhão antiga, primária, visceral. Conhecem-se um ao outro, fundamentalmente, através dessa comunhão, desse laço que os une, incólume ao tempo e ao espaço, capaz de desfazer todos os nós.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

VII.
- Quando entrei na tua casa pela primeira vez foi como se tivesse entrado num universo paralelo. Olhando para trás, a recordação que tenho é a de um caleidoscópio de sensações, cores e sons, uma hiper-estimulação dos sentidos, como um sonho. O que encontrei lá dentro não tinha nada a ver com o exterior nem com aquilo que esperava encontrar - não que esperasse concretamente alguma coisa. Foi uma coisa estética, química, espiritual, física, eu sei lá. A casa, a luz, a música, os livros, os discos, tudo inesperado, tudo fascinante, e de repente a sensação de que o mundo se abria para me conduzir àquele lugar e aquele lugar, obviamente, como ficou claro depois, as tuas casas e o que lá criaste... és tu. Tu, como o vórtice de tudo. Inevitavelmente. Como te disse já um dia - aliás, escrevi - quando de lá saí só pensei: estou tramada.
Ri-se. Ele também. Continua:
- Foi como se finalmente chegasse ao lugar que nem sabia que procurava. Encontrei uma porta - a tua porta - e do outro lado esse tal mundo paralelo, sendo que a possibilidade de nele existir fez-me todo o sentido, muito mais sentido do que qualquer outra coisa que alguma vez tivesse tentado reproduzir. O anti-convencionalismo: posso resumir tudo, simplificadamente, nesta expressão. A possibilidade de ser eu, sem a tal camada exterior feita de convenções, de reproduções, de posta por ordem. Eu soube que eu era como tu. Mas eu estava enterrada, soterrada e não sabia como emergir - não a tempo. E então tu julgaste que eu queria o convencional e o convencional não me podias dar. Que ironia. Não queria nada.
- E o que veio a seguir?
- A capitulação. Fechou-se a porta e eu segui o caminho seguro: não podia com mais dor. Depois disso, demorei mais uma década a desenterrar-me, a descobrir-me. Tenho agora, pelo menos, a cabeça de fora. (Sorri): comigo a cabeça vai sempre à frente.
Pára. Conclui:
- Aquela porta era um atalho e eu, provavelmente, não estava preparada. Os atalhos, na vida, não funcionam.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Mas porquê?

Já a noite ia longa quando na mesa me reuni com amigos de há trinta e vinte anos, alguns conhecimentos recentes e outros acabados de apresentar. Um dos penúltimos dirigiu-me a pergunta directa, nada retórica já que foi precedida por qualquer coisa como "tenho querido perguntar-te": porque é que escreves num blogue?
Sentindo-me intimidada, saiu-me a resposta em jeito automático de castigo pelo atrevimento, decidindo, de forma quase inconsciente, penalizá-lo com uma resposta embaraçosa: por solidão.
Foi uma das muitas respostas possíveis, que explorei aqui, aqui e aqui, mas ele não desarmou, chegando ao cerne da questão, indubitavelmente presente na primeira pergunta: porque é que não escreves num diário privado? ou seja, exprimindo o que tantas vezes adivinho por trás dos comentários vagos ou silêncios inarticulados : porquê a exibição, leia-se exibicionismo, da intimidade?

terça-feira, 15 de junho de 2010

A hora da bola


(retomando a tradição)
A Rua Castilho à hora do Portugal - Costa do Marfim

I, II, III, IV, V, VI

Deve ser isto a que chamam bloqueio. Ou que me embrulhei de tal modo que já não encontro fio que conduza à saída. Voltarei a estes textos mais tarde. Ou não.

terça-feira, 8 de junho de 2010

VI.
- Repara que me aproximo agora da idade que tinhas quando nos conhecemos. Caramba, parecias-me então tão .... vivido. E simultaneamente encurralado. Sabendo claramente de onde vinhas mas com a dolorosa consciência de que o caminho era outro e que andar para trás já não era possível, que precisavas de te reinventar sem saber como, andar para a frente sem saber para onde.
- Deambulando pelo tempo, para trás e para a frente.*
- É nesse exacto lugar que me encontro agora. Sozinha, claro, tu já não estás lá, ninguém espera por ninguém. Vamos deixando cair os rituais em que não encontramos sentido, os amigos em que não nos revemos, as conquistas que já não nos motivam. Apeamo-nos, e nesse apeadeiro inevitavelmente deambulamos - é mesmo isso - sozinhos: cada um constrói o seu e nele se instala a ver os comboios passar, hesitando em qual seguir. Quando ali chegamos já perdemos a excitação da viagem pela viagem. Ninguém, que por lá tenha passado, deixou o mapa a indicar o caminho das pedras: por esta altura, já é suposto encontrarmos as respostas cá dentro.
Interrompe-se. Pega no copo e acaba a cerveja, pousa-o devagar, a revolver as ideias. Ele deixa cair o braço e faz-lhe uma festa quase imperceptível na curva interna do pé, que a sandália leve torna acessível. O gesto interrompe-lhe o turbilhão, alivia-lhe a tensão do discurso. Sorri-lhe, recebendo o afago com a naturalidade que tempo algum consegue apagar.

(*) d'O Jansenista

sábado, 5 de junho de 2010

V.
- Vais dizer-lhe que estiveste comigo?
- Não iria compreender.
- Pois. Mas não deixa de ser irónico. Os ciúmes acabam por tornar clandestino o que nem sequer precisava de ser. O problema é sabermos que não podemos controlar o que vai na alma dos outros.
Pega no copo gelado, bebe um gole, detém-se a observar a cor e a agitação dentro do copo.
- Possessividade já fiz, nas duas versões. Fiquei curada. Tive um namorado por quem estava incrivelmente apaixonada e tudo corria muito bem, naquelas primeiras semanas de deslumbramento. Só havia um problema: ele tinha uma ex-namorada neurótica, que lhe telefonava frequentemente - e ele contava-me tudo. Um dia, lembro-me perfeitamente, estávamos na praia, deitados um ao lado do outro, resolvi dizer-lhe que aquilo me incomodava, se não contava resolver o assunto. Enfim, não dessa forma abrupta, foi uma conversa. Quando a conversa acabou, o silêncio fez-me compreender, numa imediata, gelada certeza, que tinha acabado de estragar tudo. Percebi-o naquele exacto instante, como uma evidência. Foi de facto a partir desse dia que, aos poucos, começou a mentir-me, e nunca mais parou. A coisa ainda durou um par de anos - foi uma grande paixão - mas sempre on-and-off, por causa das mentiras, inicialmente motivadas pela maluca da ex-namorada, e a partir de certa altura instalou-se um ciclo vicioso por causa das cenas que tudo isso gerava. Um horror. Um desperdício, acima de tudo (...) As pessoas vêm com passado, vêm com bagagem, vêm com alma, e ainda bem. É um erro querer despi-las disso, ou sequer vistoriar-lhes as camadas. Quem é que quer um homem vazio de alegrias, de vivências, de recordações, de desgostos, de saudades - enfim, de amores? Passei a usar a política do não perguntes, não contes.
- Don´t ask, don´t tell.
- Exactamente. Vale para os dois lados. A experiência contrária já a tinha tido antes, aquela coisa clássica do namorado hiper-ciumento. Foi como tirarem-me o oxigénio, a alegria de viver. Nunca mais. Passamos o primeiro terço das nossas vidas a esforçarmo-nos por conquistar cada fatia de liberdade - eu esforcei-me imenso - e quando finalmente temos o bolo todo nas mãos, quando atingimos a plenitude, começamos a dispensá-lo. Entregamos um grande pedaço a tentar assegurar que não ficamos sós, um naco aqui e umas migalhas ali para preservar a harmonia, mais umas fatias para a troca: eu não faço isto para que tu não possas fazer aquilo.
(hesita)
- Tu, por exemplo, serias a última pessoa que eu imaginaria a fazer certas concessões. O grande lobo solitário... E no entanto, todos as fazemos, num momento ou noutro. Andamos para a frente e ainda bem, afinal pode acontecer-nos sermos mais felizes. Enfim, desculpa o discurso, isto é a crise dos quarenta, escarrapachada.
- Para o mês que vem?
- Sim, para o mês que vem.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

IV.
Dá a volta ao largo, lentamente, a espreitar os números das poucas portas, que distingue mal àquela hora da noite. Encontra o que procura e estaciona logo abaixo, em cima do passeio. Detém-se antes de sair do carro. Hesita. Sabe que é uma hesitação vã, é tarde para voltar atrás, mas questiona agora o impulso que antes lhe pareceu tão natural. Viram-se uma única vez, entre amigos, um encontro ocasional numa esplanada à saída da praia, nada de especial. Chega-lhe agora à porta. Pergunta-se que tipo de pessoa escolhe viver à margem da grande cidade, o evidente cosmopolitismo a contrastar com a rusticidade da vila. É o suficiente, só por si, para lhe despertar o interesse: são sempre as coisas inesperadas, incongruentes, fora da caixa. Falaram-se duas ou três noites atrás, um telefonema breve e conciso, ela de pé na sala (lembra-se como se fosse hoje) ele, no carro, num regresso de Domingo. Qualquer coisa aconteceu, então, qualquer coisa não perceptível nem equacionável, apenas suficientemente real para a fazer questionar, agora, a motivação prosaica da visita: foi a voz, ficou-lhe pregada à voz, a voz forte ressoando no habitáculo do carro a avançar pela noite. Decide-se a sair do carro, detém-se mais um pouco a apreciar o ar morno e tranquilo, o céu estrelado. Atravessa a rua, descobre a campainha, toca. Mais tarde, de si para si e com o humor que lhe é particular, passará a referir-se àquele momento como a chegada à gruta do Ali Babá.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

III.
- O que é que queres?
- Uma imperial.
- É estúpido, mas ainda me surpreendes com as coisas mais simples.
- Bem sei. Quem olha para mim classifica-me. E quem me conhece julga que me decifra. A minha forma de estar foi de tal modo condicionada que se tornou uma camada exterior inamovível, um verdadeiro disfarce. Com o tempo ganhou uma inesperada utilidade. Dá-me uma certa liberdade.
- Liberdade para...?
- Faço as coisas mais improváveis e ninguém percebe. Isso permite-me reservar a minha intimidade. Pequenas coisas, às vezes grandes pecados. As pessoas só vêem aquilo que estão à espera de ver. O preconceito é uma coisa incrível: é como um manto de invisibilidade.
Sorri, olha para o lago.
- Passei a ter um interesse quase científico pelo fenómeno. Ao princípio irritava-me. Tive um namorado que disse que quando me conheceu eu lhe pareci "toda posta por ordem". Existe comentário mais imbecil? Percebi depois que ele apenas verbalizava mal.
Riem-se ambos suavemente. Seguem os movimentos de um casal de patos.
- Confesso que não foi muito diferente da minha própria opinião.
- Pois: "com esta é que nunca", quanto te apareci lá em casa.
Ele sorri, não chega a ficar embaraçado. Hoje em dia fala menos, ela mais, como que a reporem o equilíbrio. Olha-a.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

II.
- Se calhar não somos e andamos enganados há muito tempo.
Ignorando a provocação - Repara: assiduidade zero, agora já nem Natal nem aniversários. Pomo-nos a par da vida um do outro umas duas vezes por ano, na melhor das hipóteses por telefone, de resto, uns sms aqui, uns emails ali, uma foto quando nos vem o impulso de partilhar qualquer coisa de muito concreta, tudo correndo o risco da censura ou da simples ausência de resposta. Há quanto tempo não nos víamos? Dois anos e meio?
- Embora não pareça.
- Aí está, é como se nunca deixássemos de nos acompanhar. Ao fim deste tempo todo cheguei à seguinte conclusão: a amizade não tem nada a ver com essas coisas. Alguém disse no outro dia que os verdadeiros amigos não são aqueles que aparecem nas grandes ocasiões - aniversários, casamentos, baptizados, funerais ou divórcios - mas os que sabemos sempre na outra ponta de uma chamada, de uma pergunta, de uma procura, mesmo que não as concretizemos, essa chamada ou procura: é o saber que podemos fazê-lo, sem nenhum motivo aparente, sem precisarmos de um pretexto e muito menos de uma justificação.
Sorri, olha para o lago.
- São também os que vêm ao nosso encontro, numa quarta-feira à tarde, numa esplanada como esta. Só porque sim.
- Nem todas as amizades sobrevivem à falta de assiduidade, à ausência.
- Pois não. É como os amores. Há amores que não sobrevivem à distância e paixões que não sobrevivem à passagem do tempo. Há outros que duram uma vida, sem sequer se concretizarem.
- Não será, precisamente, porque não se desgastam com a concretização diária? Não chega a haver desilusão.
- Sim, talvez a desilusão seja inevitável. Talvez os amores platónicos que duram uma vida inteira mantenham-se na teimosa esperança de virem a ser possíveis, mas exactamente porque isso não chega a acontecer. E as velhas paixões, na fantasia de que se tornem a realizar. Como antes, mas melhor do que antes. Assim se mantém a ilusão.

terça-feira, 1 de junho de 2010

I.
Atravessa o jardim breve, contorna o lago e chega à esplanada. Encontra-o sentado na mesa de há uma década, o mesmo cabelo macio agora com fios brancos, o mesmo olhar límpido, o sorriso franco que nunca sabe se levemente trocista ou tímido - possivelmente e por hábito, um a disfarçar o outro. Chega-lhe ao pé e ele levanta-se (aprecia-lhe o gesto), olham-se o olhar de sempre, de quem se vê. Quer perguntar-lhe se já merece um abraço, um dos antigos, daqueles em que a envolvia toda com os braços de que tanto gostava - tanto gosta. Cala a vontade e a pergunta e estende-lhe a cara para receber um beijo: dão-se sempre um beijo verdadeiro, sonoro, directamente na cara, em nada semelhante a um gesto formal de cortesia. Naquele beijo se condensam, há tanto tempo, todas as possibilidades impossíveis. Quando é ela a dar-lho, acontece passar-lhe em seguida os dedos no rosto a limpar a marca do bâton, num gesto intensamente contido.
Sentam-se e antes de mais nada dispara:
- Não sei por que raio de milagre ainda nos qualificamos como amigos.

domingo, 30 de maio de 2010

El secreto de sus ojos


A Buenos Aires dos anos setenta sem uma panorâmica, a linguagem deliciosa, os diálogos espantosos, o humor certeiro, a paixão que o tempo e a inexequibilidade não matam, a amizade incondicional, a retribuição, todos os olhares, o Benjamim Esposito novo, o Benjamim Esposito velho, a Irene em qualquer idade e o magnífico, magnífico Sandoval.
(e a cena de Esposito a coser o manuscrito tal como os processos judiciais)
Vão ver, sobretudo não deixem de ir ver.

Da literatura

Num certo sentido, mesmo a prosa mais complexa é na verdade bastante simples - devido à determinação matemática pela qual uma frase perfeita não pode suportar um número infinito de variações, não pode ser transformada sem adoecer esteticamente; a sua perfeição é a solução do seu próprio puzzle; não pode ser melhorada.
.
A mecânica da ficção, por James Wood, com tradução de Rogério Casanova.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Horas Extraordinárias ponto blogs

Quando parece estar a disseminar-se a epidemia de encerramento ou suspensão de um número considerável de blogues (femininos na sua maioria e desconfio que encadeadamente, como os dominós), eis que surge um novo, pela pena de uma senhora que exerce a profissão que eu tenho a mania que gostava de exercer, e que ainda por cima o faz com um nível, bom gosto e discrição assinaláveis: a visitar regularmente, com o risco único de frustração por tudo aquilo que não conseguimos ler.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Cerejas

Hoje comi as primeiras cerejas do ano, compradas na mercearia do Sr. Francisco quando saí com o de seis anos à procura da caderneta dos cromos do mundial (ainda não lhe expliquei que lá em casa não se vê futebol). Gordas e vermelhas, sabor médio-mais e preço ainda não muito recomendável. Hoje vesti a mesmíssima roupa que num dia do verão passado, um dia muito mais quente do que este, valeu-me o casaco, e afligi-me com a chegada de Junho, ao virar do fim-de-semana, já outro depois do anterior. Entre ambos, um ano inteirinho, que desconsolo.

Domingo cinzento no rio

domingo, 23 de maio de 2010

A Tempestade da Terra

Entrou-me no gabinete ao cair da tarde, como era habitual acontecer. Parece que o estou a ver, a velha eterna pasta azul ao ombro contendo projectos e orçamentos, papéis velhos, preciosos e amarrotados. Afobado, diria ele, abrindo muito o "a", na mistura de vidas que não saberia disfarçar. Chamava-me andréazinha quando queria convencer-me de qualquer coisa, na familiaridade descomplexada com que me tratava desde a primeira tarde em que me entrara no gabinete. Era, e ensinou-me que podia ser-se, profundamente indiferente às interpretações dúbias e comentários maldosos - a nós o que nos importava, nós éramos os primos distantes encontrados, como irmãos tardios. Andréazinha, disse, sem chegar a instalar-se na cadeira habitual, isto vai mal: o técnico adoeceu, não há legendas, quer dizer, há mas não estão inseridas, amanhã Cannes e o filme sem legendas, é preciso legendas, a porra das legendas para os franceses. Pensei logo em ti, pois claro, em francês, pois então, vamos lá, vem daí. Lá fomos, afundados nos bancos do velho citroën, por entre papéis, livros, guiões e os brinquedos esquecidos dos filhos pequenos a lembrarem que a vida já não se fazia de sonhos e um escritório dentro de um carro. Chegados ao laboratório, apresentou-me a mesa e os rudimentos da legendagem: mínimo de x segundos por fala, aqui entram as legendas, ali passa o filme, o botão que insere umas no outro, carregas, largas, carregas, largas, vais fazendo assim, eu controlo ali. Anoiteceu. Trabalhámos sem parar pela noite dentro, lendo, inserindo, voltando atrás, debatendo a adequação da expressão, a pertinência da palavra, o contexto e o subtexto, corrigindo onde necessário, tudo somando muito, tanto tempo. Pelas quatro da manhã pesou-lhe a idade, mais vinte e tantos anos do que eu, quem sabe seria já a doença, vou deitar-me aqui um bocadinho, no chão só um minutinho, são as costas, vou só esticar as costas. Estendeu-se ao comprido no soalho velho e ressequido, em trinta segundos estava a ressonar. Já o dia rompia quando o acordei, dizendo, está pronto. Separámo-nos à porta do carro, ele em pressas pelo avião que o desembarcaria, e às preciosas bobines, na Croisette, eu para casa tomar um duche, não sem antes agarrar-me na mão, de novo parece que o vejo, à janela do carro, simplesmente: obrigado, minha querida, acentuando o "e".
Obrigada eu, Fernando, valeu.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ossos

Sonhei que estava a morrer de cancro nos ossos. Não consegui, pelos vistos, inventar forma mais apropriada de me desfazer de mim própria, certamente influenciada pelo mal que anda a rondar tantos dos que me são próximos, nestes últimos anos. A perspectiva da morte iminente (foi-me comunicado que era iminente) não me impressionou particularmente: como de costume, espantei-me com a minha frieza perante o supremo acontecimento.
Já o sonho ía longo quando, de súbito, tomei consciência da existência dos meus dois filhos pequenos. Só então ele se tornou incómodo o bastante para me fazer acordar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso"

Meu Caro Jansenista, essa é uma reflexão que faço tantas vezes, um comentário que não cesso de fazer na intimidade ou sempre que alguém me pergunta se gostei de viver no Brasil. Elaborei mentalmente e por diversas vezes um post (dos quilométricos, talvez) sobre o tema, mas nunca ousei escrevê-lo, por não me achar no direito de "falar de alto": é que a primeira coisa que aprendi lá, em São Paulo, a primeira e definitiva lição, foi a de não cair na tentação fácil do paternalismo. O Brasil é um país incrivelmente grande, os brasileiros são um povo desmesuradamente numeroso e, como tal, de uma diversidade extraordinária - como nós, aqui plantados neste cantinho, nem somos capazes de começar a imaginar. Vinte milhões só na grande São Paulo. Chegámos nós (e tornámos a chegar) e foram chegando os outros, em revoadas, fugidos, exilados, aventurados, em busca da terra nova, de melhores oportunidades e mais liberdade. Europeus, orientais, árabes e judeus, japoneses, italianos, espanhóis, polacos, alemães, holandeses, sírios, libaneses, coreanos, indianos, angolanos e moçambicanos, de todos os cantos e nações do mundo, trazendo cultura, tradição, história, alma. Encheram quase um continente, uma nação com 26 estados e um distrito federal. O melting pot é ali. Nem que seja pela força dos números, mas também pela diversidade, o que é bom, lá, é do melhor. O que é bonito, é magnífico. O que é culto, intelectual, literato, artístico ou profissional é, tantas vezes, cada uma ou todas estas coisas admiravelmente. Tudo é em grande escala, tudo é exacerbado, a começar pela natureza e pelo clima. Os ricos são inconcebivelmente ricos e os pobres miseravelmente pobres - mas talvez não mais pobres do que os nossos pobres, são é muitos mais; já os ricos, para além de tantos mais, são muitíssimo mais ricos do que o mísero punhado dos nossos. Entre uns e outros, floresceu uma classe média dinâmica, criativa, talentosa. Os brasileiros produzem mais, muito mais cultura, arte, literatura, música, filosofia, ciência, industria, do que conseguimos abarcar. Da má, da assim-assim, da boa e da excelente - e esta é tanta e tão abrangente. Produzem, e depois expõem, falam, escrevem, divulgam, vêm, viajam, aprendem e conhecem mais, mas tanto mais, em números relativos e absolutos, do que as nossas parcas, esgotadas, ditas elites. Importamos o que a nossa limitada capacidade permite, exportamos turismo de segunda (porque não conseguimos enxergar para além da costa nordestina) e bacalhau, e ficamo-nos com o nosso paternalismo ancestral em punhos de renda esgaçada e esburacada. Eles, de tão imensos e tão ocupados, tão colossais, nem reparam.

(Tive a sorte de ter meia dúzia de encontros excepcionais e de ver coisas e conhecer lugares extraordinários. Talvez, considerando os números, devesse dizer "a inevitabilidade")

José Mindlin 1914-2010

Foi num dos muitos voos Lisboa - São Paulo (ou seria São Paulo - Lisboa?). Calhou-me o lugar ao seu lado, um senhor brasileiro de avançada idade, com um ar distinto mas nada presunçoso, muito amável e bem educado. Conversou muito, pausadamente, sem deixar de respeitar os tempos dedicados às actividades próprias dos voos de longo curso: comer, ler, pensar, dormir. Interessou-se, quis saber, perguntou bastante mas nunca demais, como fazem as pessoas que se interessam verdadeiramente pelas pessoas. Descobrimos logo à partida a comunhão na actividade profissional e na diversidade de interesses paralelos. Conversámos sobre o Direito, as histórias de vida, as respectivas experiências nos respectivos países. Aparentava uns setenta e tantos anos (vejo agora que eram quase noventa), nitidamente cheio de mundo e cultura, mas sem o exibir, preferindo ficar a saber pequenas coisas acerca do pequeno universo de quem com ele partilhou onze horas de voo. No desembarque, estendeu-me um cartão e a amável disponibilidade para um futuro contacto.
Era José Mindlin, advogado e, vim a saber, editor, escritor, mas acima de tudo bibliófilo, membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira n.º 29, possuidor da mais importante biblioteca privada do Brasil: quase trinta mil títulos, dos quais dez mil em edições raras. Uma bela vida dedicada aos livros, cuja paixão definiu como "uma loucura mansa". Não esqueci o encontro nem o nome, impresso no cartão que guardei. Um pequeno artigo na Ler fez-me agora saber que morreu a 28 de Fevereiro, em São Paulo, aos noventa e cinco anos. Procurei-lhe a vida, ontem à noite. Naturalmente, nunca lhe telefonei.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Papamóvel está em movimento (e eu nem por isso)

Quando João Paulo II passou por Lisboa, em 1982, avisei a minha mãe e fui num pulinho - de um quarteirão - vê-lo passar na Av. da Républica. Nunca fomos verdadeiramente praticantes, mas aquilo emocionou-me, guardo até hoje a imagem nítida de o ver passar.
(hoje, em directo do bloqueio rodoviário: é curioso, ninguém apita nem reclama)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

As andorinhas

Sei que o Inverno chegou ao fim quando oiço o coro das andorinhas, ao entardecer, voltejando em torno do prédio feito promontório, voos planados e picados em dança alegre e barulhenta que me chama ao balcão de onde, ano após ano, consoladamente, aplaudo a Primavera.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Concluindo sobre a infidelidade e outras coisas: divagações dignas de La Palisse

Na sequência de posts recentes, confesso que a infidelidade é um tema pelo qual me interesso há muito tempo. Provavelmente desde que, razoavelmente cedo, a experimentei na forma passiva e percebi algumas coisas fundamentais, nomeadamente o facto de o acto em si incomodar muito menos do que as mentiras associadas. Que me tomem por parva é que sempre me foi difícil de tolerar, pois quis a natureza dotar-me de um mitómetro bastante eficaz. No resto, a minha crescente intolerância à possessividade - no sentido passivo como activo, que estas coisas têm que valer para os dois lados - fez com que abandonasse a veleidade de querer saber tudo o que se passa na vida ou na cabeça de um parceiro (ou de um amigo, ou mesmo de um filho). Não é útil, nem saudável. Cada um sabe de si e manterá sempre a sua esfera de reserva íntima: não há nada que alguém possa fazer para impedir outro alguém de sentir e viver aquilo que lhe aprouver, nem que seja interiormente. O nosso mundo interior e o que gira à nossa volta estão aí para o provar. Observo com inexcedível interesse as relações humanas, acompanho dramas familiares (ossos do ofício), sou depositária de confissões, vivo através das infinitas possibilidades do dia a dia e da literatura. Interesso-me pelo fenómeno, vejo a abundância das suas manifestações e surpreendo-me com a amplitude das atitudes e a variação dos resultados produzidos, que podem ir da total indiferença à catástrofe mais destruidora. Concluo que é possível controlar, aprisionar, ameaçar, mas o desrespeito pela esfera de liberdade e privacidade do outro é uma luta sem quartel que cansa, desgasta, destroi. O melhor é lidar com as situações quando elas se apresentem e na justa medida em que nos afectem. O que não nos afecta não nos deve preocupar - e aqui remeto para a etimologia da palavra: pré-ocupar ou ocupar previamente. Isso não significa que não se estabeleçam regras, que não devam existir consensos, desde que se seja honesto relativamente às expectativas e se perceba que aquilo que funciona para uns não funciona necessariamente para outros. Estabelecem-se regras, expressas ou não, em todos os sistemas de relacionamento, sejam sociais, profissionais, amorosos ou filiais. Depois fazem-se escolhas. Ser livre não é mais do que conhecer as regras e decidir, a cada momento, agir dentro ou fora delas, sabendo que qualquer uma das opções tem consequências e estando disposto a arcar com elas. Ser livre é igualmente saber viver com o comportamento alheio, ter a força de aceitar ou simplesmente rejeitar o outro tal como ele é, e não forçá-lo a preencher um molde, vivendo depois na ilusão permanente de que isso foi conseguido ou no medo constante de que não tenha sido. É, em suma, reconhecer aquilo que se é, procurar aquilo que se quer e estar preparado para viver com aquilo que se tem.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Dia da Terra and all that crap


Logo de manhãzinha tirei meia hora para acabar de ler a cómica e deliciosamente cínica descrição da viagem de Michael Beard ao Árctico, atirado para o meio de um grupo de artistas e intelectuais inconsequentemente preocupados com o aquecimento global, com o objectivo de observar, com os próprios olhos, o derretimento dos glaciares - objectivo que não puderam cumprir por o tempo estar demasiadamente frio.
(Michael Beard é o novo protagonista de Ian McEwan, em Solar)

domingo, 18 de abril de 2010

Da traição ou Henry James, esse grande fingidor, por J.M. Coetzee

Quanto à experiência em si, (quero dizer, a experiência da infidelidade, que foi o que a experiência foi, predominantemente, para mim), foi mais estranha do que eu esperava, e acabou-se antes de eu me habituar ao seu carácter estranho. No entanto foi excitante, disso não há duvida, do princípio ao fim. O meu coração não parava de bater descompassadamente. Não é coisa que eu esqueça, nunca. Voltando a Henry James, não faltam traições em James, mas não me lembro de nada acerca da sensação de excitação, da exarcebada autoconsciência, durante o acto e si: o acto da traição, quero eu dizer. O que me dá a entender que, embora James gostasse de se apresentar como um grande traidor, nunca tinha na verdade executado o acto em si, fisicamente.

J.M. Coetzee, Verão

Nota: é surpreendente um romance auto-biográfico em que o autor se retrata a si próprio na terceira pessoa, por meio das palavras dos outros (como se fosse uma biografia e não uma auto-biografia) ou seja, ignorando as suas próprias impressões e recorrendo exclusivamente ao entendimento que faz da forma como os outros o viram, em determinados períodos/episódios da sua vida. Surpreendente e muitíssimo interessante, como exercício.

sábado, 17 de abril de 2010

Agradecimentos

Grata a todos pelo esforço de leitura da frase de duzentas e vinte e duas palavras, abaixo, e ao Jansenista (que chegou perto) pela inspiração para a foto.
Uma nota final de reconhecimento ao universo em geral, pelos reencontros.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Georgia Clooney

Até o mais precavido e obsessivamente pontual dos viajantes pode perder um avião, um comboio, um barco, ou qualquer outro meio de transporte colectivo que, por definição, não se compadece com os acidentes de viação no percurso a caminho de... Sentada na cadeira mais desconfortável de que tenho memória, na sala que se pressupõe de espera da Estação de Campanhã (não consigo dizer isto sem pensar no Monopólio), concluo que aquilo que sempre digo - só se atrasa quem não corre o risco de chegar cedo - não é uma verdade absoluta, ainda que o oposto tenha funcionado comigo até hoje. Duas horas para o próximo Alfa é a consequência de a margem de segurança habitual não ter sido suficientemente segura para prevenir uma calamidade (é uma questão de perspectiva) na Via de Cintura Interna.
Mas não era nada disto. Sentada na sala de espera, no meu disfarce profissional "de combate", a saber, fato preto risca de giz quase imperceptível, de corte masculino mas indubitavelmente feminino, camisa de punhos dobrados e saltos agulha de dez centímetros, indumentária que só sai do armário nas raríssimas ocasiões em que julgo necessário (um par de vezes por ano, no últimos anos, o que interpreto como um bom sinal), associado à memória recente de George Clooney no Up in the air, regresso às elucubrações de ontem, no átrio do hotel, quando alguns olhares menos distraídos me alertaram para as possibilidades decorrentes das deslocações profissionais, e da consequente passagem ou permanência solitária em átrios e bares de hotel, sendo o número de computadores portáteis per capita e a sonoridade dos avisos de email dos Blackberry, respectivamente, os adereços e banda sonora desse "filme", em que invariavelmente me sinto como a figurante ocasional a quem emprestaram algumas peças do guarda roupa.
Foi pois com a noção dessas possibilidades que me deitei, portátil ao colo, atenta ao horário do Flashforward no canal AXN, na cama extra king imaculadamente feita e inteiramente minha.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Num dia igual aos outros

O encenador é Marco Martins, o dramaturgo é o americano John Kolvenbach e a peça, que já correu mundo, "on an average day", aqui numa tradução que me pareceu muito bem sucedida, na medida em que deixa adivinhar os termos correspondentes na língua original, estando simultâneamente perfeitamente adequada à expressão portuguesa (isto é importante para quem é obcecado pelo valor intrínseco das palavras). Um só diálogo entre dois irmãos (Gonçalo Waddington e Nuno Lopes), decorrido em tempo real, com um texto (lá está) arrebatador, momentos de génio no puzzle das palavras aparentemente perturbadas mas estranhamente lúcidas do irmão mais novo, Robert. A sala estúdio do D. Maria II proporciona momentos de uma intensidade alarmante, mais ainda na primeira fila, com os dois irmãos a debaterem-se entre a ternura contida, o humor cúmplice e a violência fraterna, até ao auge da luta corpo a corpo, rojando-se aos nossos pés, com realismo tamanho que tive que me conter para não os tentar separar e até, num pequeníssimo instante, para não chorar. Bravo aos três, actores e encenador, e uma nota de apreciação pela cenografia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Comprovadamente verdadeiro

You can kick out a dangerous thought, you know, if you put another in its place.
(daqui)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

As notícias da tua morte

Recebo um telefonema a perguntar se sei o que aconteceu ao filho da L., mãe de um amigo, muito amigo. Não sei nada, digo, o que é que aconteceu, pergunto. Morreu, dizem. Pausa. Não sinto nada, nem sequer medo. Pergunto: qual deles? O filho, o filho rapaz, respondem. Qual deles, torno a perguntar. Não sabem, pois nem sabem que são três: dois rapazes, uma rapariga, ou melhor, dois homens, uma mulher. Pergunto novamente: o que é que aconteceu? Não sabem, sabem muito pouco, por isso me telefonam, a mim que sou amiga do filho da L., para saber. Eu não sei nada, excepto que não pode ser, pois cá dentro, nem um batimento a mais, nem um batimento a menos. Respiro e concluo: só pode ser o irmão (perdoe-se-me o egoísmo). Digo: só pode ter sido o G. Agradeço, desligo, telefono ao único amigo comum. Não sabe de nada, vai tentar saber. Desligo, estou chocada, mas estranhamente calma. Ainda no outro dia lhe devolvi o poema, e ele aqui permanece, aqui mesmo ao lado. Não foi, se fossse eu saberia, cá dentro. Espero tranquilamente, com a tranquilidade das coisas inevitáveis, pois não foi, pois não pode ser. Espero. Telefonam-me duas horas depois. Foi o P., dizem, pedindo desculpa pela notícia dada assim, a mim que sou amiga. Enfarte, dizem. Não foi, respondo, não pode ser, ou eu saberia, cá dentro - e cá dentro não se passa nada, nem um aperto, nem um tremor, nem um batimento a mais, nem um batimento a menos. Se tivesse sido, o meu coração já teria disparado, explodido, ou simplesmente parado, como o dele. Garantem-me que sim, que foi, que a missa amanhã. Agradeço, desligo, ligo ao amigo comum e digo-lhe, dizendo-lhe que não foi, que não pode ser, que cá dentro todavia não se passa nada. Peço-lhe para confirmar, que eu não consegui. Telefona-me logo em seguida. Não foi. Foi o irmão.
Não foi; se tivesse sido, eu saberia. Cá dentro, onde se sabem as coisas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Nêsperas

Compro dois quilos de nêsperas à beira da estrada, juntamente com as tangerinas e as laranjas, mornas do sol algarvio. Sento-me à mesa da cozinha, de frente para a janela grande por onde entram os raios do sol poente, filtrados pelas copas dos pinheiros bravos. Descasco e como, enquanto penso na mesa de pedra da cozinha da quinta das rosas, a avó Fernanda a descascar e nós a comermos as nêsperas colhidas de manhã. Ela descascava, nós comíamos, cuspindo os caroços gordos e escorregadios, até já não caberem cascas nem caroços no prato. Descasco e como, cinco, dez, vinte, cuspindo os caroços gordos e escorregadios, até me encher de nêsperas e me esvaziar de saudades.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Estado do tempo

Céu azul. Como as férias. Como o vazio.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Complexo geracional

Encontrei-o já no parque de estacionamento, nunca o vira por ali. Pouco faltava para as oito da noite e ele sentiu a necessidade de se justificar: "aproveitei o facto desta semana ser mais parada e saí mais cedo para vir correr. "
Resquícios da geração yuppie, que infelizmente custam a curar.

quarta-feira, 31 de março de 2010

A Cacetada: resposta à resposta

Aqui.
(abstenho-me de publicar a resposta à resposta da resposta, e por aí fora: entretanto, ficámos amigos - passo a hipérbole).

terça-feira, 30 de março de 2010

Resposta a uma caixa postal

Ex.mo Senhor J. Rentes de Carvalho,

Não sou, nunca fui, de achar que "há coisas que não se dizem", nem de crer em patetas superstições sobre a invocação da morte e de certas calamidades. Mas devo dizer-lhe que, embora com plena consciência do que me rodeia e apesar das enormidades que se dizem por aí, há muito tempo que uma afirmação não me chocava tanto. Não se trata de defender o direito à vida dos pulhas e trafulhas, ou por outro lado dos sofredores em geral, que isso cada ser humano vale pelo que vale, seja o meu vizinho do 5º esq. em Lisboa ou uma criança a morrer de fome em Africa: muito pouco, na imensidão das coisas, sendo certo que uns conseguem valer ainda menos do os restantes. Do que se trata nem vale a pena explicar-lhe, porque sabe com certeza. Talvez possa catalogar esse seu post (refiro-me à parte final) sob a etiqueta das "Grandes Imbecilidades". Sem ofensa, que grandes imbecilidades todos proferimos, nem que seja uma vez na vida. Que esta tenha sido a sua e que possa agora seguir caminho, com a qualidade e o interesse a que nos habituou.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Da verdade

A de quatro anos, quando se lhe acabam os argumentos para levar a sua avante, põe-me os braços à volta do pescoço e diz, soluçante: mas eu gosto taaaaanto da mamã. -lo sem ponta de malícia, eu sei, que a conheço bem. Os melhores argumentos são sempre os mais verdadeiros.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Apesar dos pesares... terás amigos

As palavras escritas a um amigo, muito amigo, evocaram-lhe o poema/canção. Aqui ao lado lho devolvo, ainda que sem a música do Paco Ibañez: Palabras para Julia.
(agora no Apoemário)

É fartar, vilanagem

As irmãs Medeiros já se passeavam no Liceu quais seres especiais, imbuídas de uma latente superioridade intelectual e cultural, compondo uma aura de excentricidade nas vestes e nas poses. Muito mais tarde, convivi um mês de perto com a irmã Maria e, tarantinizada que fora, agudizara-se-lhe a sobranceria. Agora, temos a outra a representar o povo português enquanto se permite impor-nos a pretensa singularidade. Já o disse, com a acutilância a que nos habitou, o Jansenista, e hoje remeto para a minha cronista preferida, a Helena Matos, que põe sempre o dedo na ferida. É que estamos todos mais do que fartos da vilanagem generalizada:
.
Na verdade, a deputada Inês de Medeiros recorreu a um estratagema muito comum quando se quer iludir o Estado: dá-se outra morada. Há quem o faça para que os filhos vão para uma determinada escola pública ou para serem integrados num centro de saúde onde exista médico de família. Dando outra morada, Inês de Medeiros conseguiu eleger-se por Lisboa. Mas agora a senhora deputada quer ainda ser compensada por essa sua esperteza e diz que não paga as viagens que já efectuou. Os contribuintes portugueses é que não devem pagar certamente. E não é por o país estar em crise (...). É por uma questão de decência. Para a próxima legislatura, a senhora deputada pode beneficiar de ajudas de custo para viajar para Paris se concorrer pelo círculo da emigração, coisa que pelo menos a obrigaria a contactar mais com o povinho e, quiçá, de vez em quando sair da torre de marfim da classe executiva.
(no Público de hoje)

terça-feira, 23 de março de 2010

Who's gonna ride your wild horses?

Da segunda adolescência

(in Sushi Leblon)
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Tem uma certa razão, a Mónica, na sua forma brutal de pôr as coisas. Uma mulher, aos quarenta, agarra-se com unhas e dentes ao que lhe resta da possibilidade de ser gira, antes que não possa ser mais nada senão inteligente, interessante, competente, simpática, divertida e por aí fora. Pode ser tudo o resto indefinidamente, mas para ser gira sabe que lhe restam, com muita sorte e muito empenho, meia dúzia de anos.
(para provar a teoria, aproveitei a hora do almoço e comprei dois vestidos - tal como a Mónica, desde que vivi no Brasil ganhei alguns vícios: as cariocas e as paulistas não se coíbem de ser giras)

domingo, 21 de março de 2010

Planície

Acordo para o silêncio da planície alentejana, depois de uma noite de sono pesado e artificial. Um toque distraído no telefone e logo a realidade áspera, contundente, a entrar ao som de um pequeno bip, para repor a devida ordem, demarcar a linha no chão, retomem os vossos lugares, wake up and smell the coffee. Estúpida. Estúpida ideia, a da internet no telefone.
No regresso, paro no caminho. Hoje raramente paro no caminho, mas quando miúda, a caminho do Algarve, parávamos antes de tomar a serra. Sempre na "Sorte", nome que a família dava à bomba de gasolina logo a seguir a Ourique, onde, por cinco tostões, tentávamos a sorte a furar uma cartolina cheia de pequenos círculos numerados. Ganhávamos uma pastilha, um rebuçado, com pouca sorte nada e, com muita sorte, um pente de plástico. Eu ia furando cartolinas à espera da minha vez no grande jogo da vida, quando fosse crescida e livre e cheia de peças para jogar.
Paro agora e entro. Vem-me a vontade de uma sandes de paio, em pão alentejano. Eu, era sempre uma sandes de paio e um Trinaranjus de laranja. Mais tarde, os meus irmãos rapazes sempre fieis ao Sumol, e eu um Trinaranjus de maçã. A minha irmã, estranhamente, não tenho ideia.
Sento-me com a minha sandes de paio (em pão alentejano) e um galão a queimar os dedos, como é de direito. Algures no caminho deixei de beber refrigerantes. Penso na "Sorte" e na ingenuidade de pensar que um dia a vida começaria a sério, como se não tivesse começado logo no primeiro dia, sem treinos, nem ensaio geral. Que a vida é, desde logo, uma sandes de paio e um Trinaranjus de laranja, às vezes, um Trinaranjus de maçã. E uns furinhos em busca da pequena sorte, enquanto juntamos peças à espera do dia em que pudermos jogar à sorte grande.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Can you meet me half way

Chego a casa depois de ver "A Single Man". Diálogo com o rapaz da bilheteira:
- Um homem singular é o do Colin Firth, não é?
- Sim, deve ser. É de certeza.
- Não faz a mais pequena ideia pois não?
- Na verdade não.
- É que repare, há o homem singular e há o homem simples, está a ver o problema...
- Pois. São dois homens. Mas é só um bilhete?
(por isto e pela ausência de pipocas e por tudo o resto é que eu prefiro o Saldanha, mas as Amoreiras aqui tão próximas)
Chego a casa, dizia eu, a pensar numa cerveja. Hesito: são onze e meia, amanhã, como sempre, é às sete, e depois as alegações emperradas, a pilha de processos na secretária. Mas a sugestão no filme é potentíssima, perdi a conta às caricas abertas. Esteticamente magnífico. Mas é muito mais do que estética. Preciso de digerir. Oiço David Bowie, recuperado do fundo da estante, e bebo Super Bock. Olho pela janela. Às vezes somos todos invisíveis.
Ainda no outro dia dizia à Luísa (que não se perde por um bom filme) que a solidão é insidiosa.

terça-feira, 16 de março de 2010

Meus senhores, levo anos a dizer que não consigo achar uma pitada de graça à Gisele Bundchen. Olham para mim como se fosse daquelas que sempre dizem mal das mulheres bonitas. Nada disso. Como sempre tenho dito, a Adriana Lima é que é: com muito sal, que a vida não se quer ensossa.

domingo, 14 de março de 2010

Assinalo que

Este blogue faz hoje 3 anos.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Já agora

Só para ouvir (não se encontra "material antigo" decente no Youtube).

Maneis

O desfile da dupla Alves-Gonçalves na Moda Lisboa, o único a que, quando me sinto com coragem, vou assistir, começou e acabou da melhor forma, ao som de Young Americans, de David Bowie (houve uma época em que ouvia esta música, em repeat, todas as manhãs antes de sair de casa - mas isso é outra história). Pelo meio desfilaram os vestidos lindos, cheios de glamour e - o melhor de tudo - absolutamente vestíveis, a que o talento elegante desta dupla maravilha nos habituou. Deixo-vos alguns favoritos (faltam aqui um branco e um outro preto cujas fotografias não consegui arranjar), se bem que usaria com incomensurável prazer qualquer um deles.



quinta-feira, 11 de março de 2010

Sentei-me no sofá ao lado do José Eduardo Agualusa enquanto ele, simpático, mais pequeno e mais tímido do que as fotos deixam adivinhar, me autografava o livro. Trazia, pousado ao seu lado, o Verão, de Coetzee. Provavelmente uma boa sugestão de leitura.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Happiness is only real when shared

Tivesse eu disponibilidade e um número mais reduzido de filmes na calha e iria rever o Into the Wild, logo às 21.30 na Cinemateca de Lisboa. Choraria que nem uma madalena e saíria a matutar nessa coisa da liberdade individual. Se conseguisse bilhetes, claro, o que é tantas vezes impossível.

domingo, 7 de março de 2010

Recorrências

Às sete horas, já a tarde se veste de noite e o rio irradia o resto da luz, radiosa, brilhante, entornada do céu.
É ali que me encontro, a essa hora de mágicos cansaços*, quando o dia parece acabado mas persiste naquele rio, no corpo espesso de água de luz, silencioso, deslizante, inapagável.
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( * de empréstimo de Florbela Espanca)

sábado, 6 de março de 2010

The Reader

Não sei como é que tinha deixado escapar um filme tão fundamental.

(a Blockbuster está em processo de insolvência, e agora?)

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Público faz hoje vinte anos e é gratuito - o que se paga caro pela quantidade excerbada de publicidade que é preciso contornar para chegar às notícias.
Gostei das fotografias espalhadas por ali. E gostei do artigo sóbrio de Belmiro de Azevedo. Tivessemos nós mais Belmiros e haveria menos desnorte.

terça-feira, 2 de março de 2010

Trapos

E mais não disse. As palavras podem ser tão inúteis como os trapos.
(já o dizia Eugénio de Andrade)

Bonança

Na corrida vespertina ao longo do rio, são óbvios os sinais do temporal: a calçada esburacada, o asfalto rebentado, areia e canas pelo solo. Mas o rio desliza agora calmo e a noite surge tranquila, as luzes suaves na margem sul, o veleiro que vem a subir no vagar do motor.
Lembro-me da mais terrível noite de temporal no mar e da tarde do dia seguinte, quando, depois de um duche reparador no quartel dos bombeiros da Figueira da Foz (isto passou-se há duas décadas, no tempo em que as marinas não pululavam pelo país), me dei conta que havia passado o que eu receara não ter fim. Lembro-me do espelho embaciado, da pele macilenta, da ressaca de mar que provoca o falso embalar da terra firme, do momento solitário de percepção clara e aumentada, um daqueles instantes em que nos sentimos estranhamente despertos.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Domingo

Telefonou-me num Domingo de manhã a dizer que se ia separar. Talvez tenha estranhado a minha falta de surpresa, que não tivesse exclamado a sério?, que não tivesse lamentado. São muitos anos de prática profissional, a juntar, naquele caso, ao facto de o único comentário que me ocorreu ter sido até que enfim, que evidentemente me abstive de proferir: os comentários são perfeitamente dispensáveis em situações como esta. Alguém lhe disse que precisava de aconselhamento jurídico. As pessoas vêem muitos filmes americanos e acreditam que há estratégias a seguir, posições a aquartelar, ferozes settlements a negociar. Em regra, apenas se perfilam os medos, raivas e frustrações de cada um, o resto são armas de arremesso, cada vez menos válidas na medida em que a lei se torna cada vez mais minimalista. Passados anos, as pessoas nem se lembram do que a dado momento lhes pareceu tão angustiante e fundamental. Eu geralmente não me esqueço do que vou testemunhando, mas as lições de uns não servem aos outros: é a natureza de cada um que prevalece, num leque imprevisível de comportamentos e reacções. Nos piores casos, em conflitos armados cuja única utilidade é o desgaste, a la longue, das intenções mais aguerridas.