quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Esperando por 2010

Alegoria

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.


Nuno Júdice

domingo, 27 de dezembro de 2009

Work in progress

Nasci com a década. A cada nova década, não posso evitar de pensar que é uma nova etapa que começa, uma troço novinho em folha da auto-estrada, o alcatrão lisinho e preto, sem sulcos nem relevés que influenciem a direcção. Sou eu, os meu passageiros e o porta-bagagens, meio cheio.
2009 fecha mais uma década. Portas a fecharem-se, janelas a abrirem-se, quartos bafientos a arejar, salas espanejadas, tudo em plena (des)arrumação. Este fim-de-ano não há balanços. O balanço é da década e ainda não fechei as contas à década.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Tobias

Numa das bed-time-stories preferidas dos miúdos, o Tobias diz, a páginas tantas: "sinto-me estranho por dentro". O sentimento dele é de impotência e, como miúdo que é, não o sabe expressar. Mas tem muita razão: o sentimento de impotência é dos mais estranhos que existem.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

All I want for Xmas...

Neste Natal apenas gostaria de dar um abraço apertado às três ou quatro pessoas que já sei que nem sequer vou ter a oportunidade de ver.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Da culpa

Todos já levámos e levaremos a cabo comportamentos censuráveis. Se tivermos alguma espécie de formação ou estrutura ética (prefiro a ética à moral), somos os primeiros a viver a culpa associada ao acto. A avaliação da culpa, sem querer entrar em conceitos jurídicos (embora a tendência seja grande), depende do grau de leviandade com que foi praticado a acto. A leviandade pura e inconsequente é um estado de espírito que me custa muito a engolir - e corresponde sempre à mais dura das auto-avaliações. Se nos vamos arriscar a magoar alguém, que sejamos suficientemente honestos para o fazermos com a plena consciência dessa possibilidade, ainda que não seja essa a nossa intenção directa. Se nos arriscamos a causar dano a outro, que o façamos porque os nossos actos correspondem, naquele momento, a uma verdade/motivação dentro de nós, e convictamente escolhemos agir de acordo com ela. E que cá estaremos, se se der o caso, para sofrer a culpa e as devidas consequências.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Nowhere Fast

É realmente muito simples: uma noite inteira a dançar vale por vários dias de férias, horas de conversa, caixas de ansiolíticos, noites de sono reparador, inumeras sessões de yoga, noitadas de copos, bunjie jumping ou qualquer outro método de descompressão ao alcance de um gajo. É assim desde os meus 15 anos, e espero que continue pelos quarenta adentro. E que esta continue a ser, sempre, indiscutivelmente, a melhor música para o efeito.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Uma questão de perspectiva

Parece que tenho esta característica exacerbadamente alfacinha na forma de falar: falo para dentro, como vogais, às vezes sílabas inteiras. No Brasil a comunicação era muito difícil, até que decidi deixar-me de pseudo superioridades culturais e passei a falar com sotaque brasileiro. Resultou de tal forma que as caixas do supermercado e empregadas de loja (eu tinha muito tempo livre no Brasil) largaram o incontornável "ôi?" e passaram a perguntar-me, verdadeiramente intrigadas com a minha cantoria: "você é de ooonde?". Uma das incontáveis vezes em que esclareci a minha origem, a moça achou graça: "mas fala tão bem o português!"
Os objectivos haviam sido claramente atingidos.
Lembrei-me disto porque às vezes os problemas de comunicação resumem-se a diferentes perspectivas sobre uma mesma realidade.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A perfeição da estupidez

A perfeição da estupidez, citada abaixo, é uma expressão que não me sai da cabeça: a estupidez na sua forma perfeita; perfeitamente estúpida; estupidamente perfeita; inusitadamente estúpida; absolutamente perfeita na sua estupidez; estúpida de uma forma única e insuperável.
Uma estupidez genial, portanto.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Alfa Pendular ou a chocolateira

A enxurrada dissolveu o enguiço tecnológico (no entretanto, benditos serviços complementares dos hotéis modernos) e o portátil voltou a funcionar às 00h10, quando de regresso ao hotel me preparava para usufruir dos confortos de uma cama XXXXL e perder-me entre os invólucros brancos de penugens. Não houve tremor de terra que despertasse a cidade do Porto e acordei para um dia inesperadamente luminoso e tranquilo, tornando pouco credível as quatro viagens ontem realizadas entre a Boavista e a Rua Conde do Alto Mearim, em Matosinhos (worth mentioning porque o nome da rua soou como um mistério para três taxistas e encerra possivelmente uma coincidência que reacções futuras poderão confirmar), debaixo do maior dilúvio dos últimos tempos - que me transportou directamente para São Paulo, quando ansiávamos pelas Chuvas de Verão que limpavam a atmosfera e nos permitiam respirar um ar mais livre de fumos, gases e poluição em geral, atenuando o cheiro agridoce da grande cidade, que jamais abandonará as minhas narinas sob a forma de memória olfactiva. Não há chuva como as chuvas brasileiras de verão e sorrio sempre perante a frustração do turista incauto que foge do Inverno europeu em busca do Verão no hemisfério sul - mal sabendo que as regras de cá não se aplicam lá.
A dissolução do enguiço permite-me agora, no regresso, navegar dentro desta chocolateira, cujos abanões em nada se assemelham ao movimento de um pêndulo, e recuperar do trauma da ida ao ver os meus companheiros de carruagem colados aos monitores, sendando, replyando, forwardando, ccando, bccando e, pior, reply-allando, numa teia de comunicações que invade as caixas de email de todos os colaboradores que, no sossego dos seus gabinetes, tentam, talvez, desenvolver algum trabalho, nos intervalos dos acessos colectivos de reúnite aguda.
Eu por mim só ansiava por condições mínimas para bloggar e interpelar os amigos, que isto de fugir à rotina diária sob pretexto de uma deslocação profissional é, para mim, uma festa. Agora regresso ao meu livro, Santa Apolónia não tardará.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

4

Nasceste, alegria mágica, doce e encantada.
E milagrosamente fomos duas,
de uma.

(à princesa mágica que completa hoje quatro anos)

Visão de futuro

Enquanto alternávamos os pés a bater no chão para enxotar o frio da noite de sexta-feira no bairro alto, tentando decidir onde beber um copo, a jovem de 30 anos, politicamente activa na esquerda moderada, bonita, sexy e presumivelmente inteligente, discorria acaloradamente sobre Salazar, atribuindo-lhe a suprema tacanhice da nossa história, verdadeiramente preocupada - eu diria traumatizada, não fosse o incontornável facto de ter nascido circa 1980 - com as repercussões da gestão financeira do estadista na miséria nossa de antanho e de hoje.
Foi, só vos digo, uma experiência altamente perturbadora.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Paris Review

Acabei as "Entrevistas da Paris Review", seleccionadas e traduzidas por Carlos Vaz Marques e editadas pela Tinta da China. Como bem referiu um comentador atento deste blogue, que me deu a preciosa dica, são entrevistas realizadas para a mencionada revista, entre 1953 e 1968, a dez gigantes da literatura do século XX (E.M Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrenve Durell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges e Jack Kerouac) e constituem uma extraordinária abordagem ao fenómeno literário do século. Sendo impossível escolher a melhor, tal o nível de interesse de cada uma delas, destaco a de Jorge Luis Borges, aos 68 anos, que me deixou absolutamente deliciada, pela pertinência, a inteligência, bom senso, grandeza e acessibilidade do escritor por detrás do autor, temperadas por um magnífico sentido de humor:
Recordo-me de uma piada de Oscar Wilde: um amigo dele tinha uma gravata com as cores amarela, vermelha e por aí adiante, e Wilde disse-lhe: oh, meu caro amigo, só um surdo poderia usar uma gravata assim. (...) Lembro-me de ter contado esta história a uma senhora que não a percebeu de todo. Disse-me ela: claro, deve ser porque, sendo surdo, ele não podia ouvir o que as pessoas diziam da gravata dele. Oscar Wilde havia de achar isto divertido, não lhe parece? (...) Nunca ouvi falar de um tão perfeito mal-entendido. A perfeição da estupidez.
A partir da metáfora da cor berrante, Borges extrapola em seguida:
Quando eu era jovem andava sempre à caça de novas metáforas. Descobri então que as metáforas verdadeiramente boas são sempre as mesmas. Quer dizer, compara-se o tempo com uma estrada, a morte com o sono, a vida com um sonho, e são essas as grandes metáfora da literatura porque correspondem a algo de essencial. Se inventarmos metáforas, elas são capazes de surpreender durante uma fracção de segundo, mas não provocam qualquer tipo de emoção profunda. Se pensarmos na vida como um sonho, isso é uma reflexão, uma reflexão que é real, ou pelo menos uma reflexão que a maioria das pessoas é levada a fazer, não é? "Quão frequentemente pensado, mas nunca tão brilhantemente expresso" ("What oft was thought, but ne'er so well expressed" citação de Alexander Pope). Acho isto melhor do que a ideia de chocar as pessoas, do que procurar ligações entre coisas que nunca antes tiveram qualquer ligação entre si, porque não há uma ligação real, portanto tudo não passa de uma espécie de malabarismo.
- Um malabarismo apenas de palavras?
De palavras, apenas.
Fica-me a vontade de oferecer este livro a todas as pessoas de quem gosto e que imagino que poderão apreciá-lo tanto quanto eu.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O princípio de Peter

Nunca percebi a excitação à volta dos romances de Paul Auster. A mim, sempre me exasperaram e ao fim de dois ou três arquivei o assunto decidindo que devia ser coisa de gajo, que me passava ao lado (pois eram sempre eles a discorrer deslumbradamente sobre a ironia, o desencantamento, o cepticismo e por aí fora). Aparentemente não era. Este homem arrasa com tudo - e, en passant, faz umas inesperadas referências a Saramago.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Do método

Leitura metódica: é coisa que venho tentando todos estes anos e já levo muitos com resultados sofríveis. Anualmente, são tantos os livros que abandono (não a meio mas logo no princípio, que eu não sou persistente, sou teimosa, o que não é a mesma coisa, não servindo a segunda característica para este propósito), quantos os que levo até ao fim. Para 2010 proponho-me, como todos os anos, ler mais alguns clássicos, desta feita preencher lacunas na língua inglesa: Faulkner, Conrad e alguns outros. Tenho o Ulisses na minha mesa de cabeceira. Em seguida, inevitavelmente, regressar aos franceses. Penso: porquê perder tempo com isto, se ainda não li aquilo? A justificação toma facilmente a forma de dois seres humanos pequenos, absorventes, esgotantes, associados a um aparelho rectangular e luminoso que me permite, em seguida, viajar mentalmente com um mínimo de esforço; ou de livros que se lêem ao correr dos olhos e se apagam logo de seguida. Ora, nesta matéria, como em tantas outras, o esforço bem orientado gera grandes compensações. É essencialmente uma questão de disponibilidade mental, que produz vontade, determinação, tempo e, a final, satisfação - que por sua vez gera mais vontade, and so on. Parece-me um bom plano.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Memory Lane: Don't Stop Believing

Passei pela nova série "hit" entre os adolescentes nos E.U. mesmo a tempo de me deparar com isto - e viajar até à adolescência. Quem se lembra dos "Journey"?
(façam click no link para o youtube)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Nocturno

O cérebro prega partidas, recompõe o mosaico, 610 pedaços de cerâmica guardados por cores, brilhos e texturas, explorados e remexidos e no final colados na parede da memória. Há peças que sobressaem, como a palavra perfeita no momento exacto, a resposta que só caberia nos sonhos, o gesto espontâneo e irrepetível, o primeiro impulso, esperado, inesperado, ansiado ou repentino que é sempre, sempre, aquele que fica. São as coisas mais simples que perduram: a caminhada nocturna de descoberta e redescoberta, a travessia alucinada na cumplicidade subtil, reminiscência infantil, de duas mãos dadas. Tudo o que foi suave e o que foi firme, doce ou ofegante, o proferido e o indizível, o subentendido, o mal entendido, as regras não escritas, os excessos que nunca foram demais, as contenções, prisões, aquilo que é e nunca poderia ser: passado longínquo e presente amalgamados, perfazendo uma soma acertada mas fora do tempo, uma equação clara mas não resolvida. No sonho, repetia a pergunta, a única que se permitia: tu penses à moi, souvent?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Espera

Estou sempre a dizer ao de seis anos para não ser impaciente, que crescer é saber esperar. Mas sou um pobre exemplo nessa matéria.