segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Recorde pessoal

Este mês bati o recorde absoluto (bem sei, recorde absoluto é, nas presentes circunstâncias, uma redundância, mas serve para reforçar a ideia) do número de posts por mês. Isto, meus amigos, não é uma coisa boa: é a simples ausência de coisas melhores para fazer (assim de repente, ocorrem-me três ou quatro ou cinco).
É como diz aqui a Sofia.

sábado, 28 de novembro de 2009

Manhã

Ao amanhecer as nuvens roçavam as janelas viradas a sul e este, brancas, densas, impenetráveis. O sol -las recuar e concentrou-as sobre o rio, como se um caudal branco e flutuante abraçasse a cidade e não houvesse margem de lá, apenas mais céu vertendo nuvens. Não fosse o topo da construção geométrica e avermelhada emergindo do algodão, julgaríamos que o mundo acabava aqui.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ORWELL: Diaries

O meu olhar foi imediatamente atraído para o título do volume grosso no escaparate logo à entrada da Bulhosa das Amoreiras: ORWELL Diaries. Nem precisava de ler a badana para me certificar que as minhas teorias da treta - in casu, a exposta nos comentários ao post infra "Notas para um Post" - são tantas vezes infundadas. Mas confirmei: George Orwell was an inveterate keeper of diaries. Ora toma.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Regina Spektor - Fidelity

Esta música a certa altura ficou no ar e só agora a reencontrei.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Yes Sir

  • que a melhor série da actualidade é Mad Men.
  • que Seinfeld foi, é e será, imbatível.

About Mad Men e os loucos anos 60: Para além disto tudo, episódio atrás de episódio, temos todos os clichés que esperamos ver. Fuma-se nos hospitais, no elevador, nas carruagens de metro, as mulheres grávidas bebem martinis, o lixo é deitado no chão, mesmo em Parques Nacionais, a secretária espera ser beliscada no rabo pelo chefe e não acha mal, as crianças não são bem pessoas e um estalo ocasional é muito natural para toda a gente. No meio disto e de tanto estilo e estética a série podia ser uma fotografia e não um filme.

(às sextas-feiras na RTP 2)

Notas para um post

- nunca mantive um diário, sempre achei uma coisa assim meio pateta, coisa de menina.
- a certa altura tive um "caderno de anotar a vida" que não passou das 15 ou 20 primeiras páginas: achei-o piegas e inútil.
- como se explica então isto?
- porque é que os homens assumiram sem preconceitos, logo à partida, a versão electrónica dos diários (não me refiro aos que se resumem ao comentário politico e da actualidade, mas aos de que o Pacheco Pereira não gosta, i.e., os intimistas)?
- como é que os conceitos de esfera pública / esfera intima ou confessional se misturam?
- como é que isso pode ser relacionado com a psicologia masculina / feminina?
- huuuummmmmmm.............

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ainda a caligrafia

Isto da caligrafia tem o que se lhe diga, e talvez não seja totalmente desprovida de sentido a professada relação com a personalidade do escrevedor. A minha mudou radicalmente ao longo dos anos, desde a busca da perfeição nos cadernos clairefontaine (são escassas as evidências, são sobretudo as imagens que guardo), passando pela indefinição insegura da adolescência, que redundou na incessante procura da forma que me corresponda. Está agora algures entre os gatafunhos de médico e umas figuras longilíneas e equilibradas, é conforme os dias. Psychoanalyze away.
O suporte físico desta observação resume-se quase exclusivamente aos livros onde fui apondo as três palavras que compõem parte do meu nome. Não há diários (nem nunca os houve, sublinho, enquanto reservo espaço mental para um post sobre o assunto), não sobram cadernos de escola, nem apontamentos de faculdade. Tenho reparado que não sou nada, mas mesmo nada, agarrada às recordações em forma de objectos. São-me perfeitamente inúteis e desprovidos de sentido, tão indiferentes que tanto calha deitá-los fora como não, e quando o faço é sem qualquer critério, primariamente motivada pela necessidade de arranjar espaço. Não guardo bilhetes nem bilhetinhos, cadernetas de notas ou desenhos, caixinhas da infância, bonecos, presentes ou lembrancinhas de qualquer espécie, tal como não passo os olhos pelos carimbos dos passaportes. No campo das lembranças corpóreas, tenho três excepções: (1) uma caixa da música que me deu uma família a que pertenci em tempos, (2) fotografias e (3) cartas de amor ou amizade, a que hoje correspondem alguns emails. As restantes coisas que às vezes emergem das gavetas são meros acasos à espera de um acesso de arrumação. Tudo isto, presumo, porque me agarro irredutivelmente às memórias emocionais e recordações mentais.
Podia ser também:

"Temos mantido em segredo as nossas mortes para tornar nossa vida possível."

As pequenas mortes que vamos acumulando até à morte derradeira, a final.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Heart

O recorte da margem sul do mar da palha é feito de pontinhos de luz amarela pulsante. Está uma noite limpa à janela do costume, tão escura quanto o vinho no meu copo ou o sangue injectado nas câmaras do meu coração remendado, que regurgita um bocadinho a cada batidela - não o suficiente para lhe prejudicar a funcionalidade, apenas o necessário para lembrar a imensidão da tarefa que lhe está confiada.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Caligrafia

Ontem, pela tardinha, num assomo de urgência inspirativa, deu-me para rabiscar, à mão, a primeira versão de umas alegações de direito que andavam a compor-se cá dentro. Hoje vejo-me em trabalhos para decifrar os rabiscos: é isto o que as novas tecnologias são capazes de fazer a uma caligrafia severamente formatada na infância. Imagine-se o que não farão pela das novas gerações.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Crónica da gripe A: dia 5

A mãe de uma coleguinha da de três anos garante-me, ao telefone, que a pediatra da filha dela lhe garantiu, ao telefone, que aquela febrinha com tosse que a filha e mais uma série de coleguinhas tiveram durante o fim-de-semana era gripe A, donde que aquela febre com muita tosse que a minha própria filha teve, de sexta a segunda-feira, não pode ter sido outra coisa senão gripe A, daí que aquela febre sem tosse nem mais nada que o de seis anos teve, domingo e segunda-feira, foi com toda a certeza gripe A, portanto esta febre baixinha com muitos espirros que tenho agora soa ser gripe A. Os meus filhos foram visitar o pediatra, que por acaso é aqui mesmo no prédio ao lado o que dá imenso jeito mas isso agora nem vem ao caso, que não lhes atestou na testa (passo o aparente pleonasmo) "gripe A",
SENDO CERTO QUE
a mãe da coleguinha da de três anos falou com a pediatra dela pelo telefone, o que, nesta realidade paralela em que vivemos hoje, pode constituir, sim senhora, informação muito mais relevante do que a minha. Fico portanto ansiosamente à espera do resultado da análise que a mãe da coleguinha de três anos da de três anos vai levá-la a fazer, amanhã. Entretanto se me encontrarem na rua (as crias já não estão doentes por isso a máquina já está em andamento), em vez de me espetarem um beijo ou dois passem-se discretamente para o passeio do outro lado. Um breve aceno me bastará.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carne Trémula


O meu ciclo caseiro do cinema de Almodóvar reconduziu-me agora a "Carne Trémula" - e deixou-me com um sabor amargo. É, para mim, um filme triste, na medida em que retrata, nos casais que gravitam em torno do pólo Victor-Elena, o tema das relações desequilibradas, em que as partes persistem até concluírem, às vezes tão tarde, que aquela não era a melhor expressão/combinação possível de amor. Como na carta final de David a Elena, em que ele reconhece, olhando para trás, que nunca lhe vira um riso de pura alegria.

sábado, 14 de novembro de 2009

Diálogos possíveis

Mãe: que absurdo. Mas porque é que eles fazem tanta questão de querer casar? Já ninguém quer casar. É só para chatear a malta.

Filha: A pergunta relevante é: mas porque é que nós não havemos de querer que eles casem?

Mãe: Quando eu não podia votar sem autorização do pai/marido, recusava-me a votar. Mas não andava aí de mão no ar a fazer barulho, nem a queimar soutiãs.

Filha: bem, ainda bem que alguém andou.

(finalmente aprendi a argumentar com a minha mãe, sem ter que a atacar directamente)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Resposta a uma caixa postal

(...) Não concebe a existência de um sexo aprazível, descontraído, carinhoso, sem medos nem exigências, emotivo mas não sentimental, intimo mas não possessivo, lúdico mas não leviano, enfim, amistoso e amigável? É difícil, concordo, impossível num estado de paixão assolapada, mas talvez possível noutros estados, não?
(...) Esse sexo não é mítico, pode ser conseguido, mas, como todos os fenómenos perfeitos, é efémero: as pessoas começam a querer mais ou diferente, a questionar o que não precisava de ser questionado, e o equilíbrio perde-se. “For everything that's lovely is / But a brief, dreamy, kind delight”, you know who. Mas que isso não nos impeça de tirar o melhor partido das coisas efémeras, mesmo ou precisamente sabendo que o são, em vez de perseguirmos eternamente o mito dos filões de ouro inesgotáveis.

Los Abrazos Rotos


Delicioso o piscar de olhos a Mujeres al Borde de un Ataque de Niervos, com Chicas e Maletas, a permitir a qualquer fã que se preze a oportunidade de jogar com referências, imagens e memórias velhas de vinte anos.

(Gosto de ir ao cinema no limite do timing, quando o público esgotado se resume a meia dúzia de pessoas separadas pela escuridão.)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Never give all the heart

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that's lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
O never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

W. B. Yeats

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Coisas

Quando alguém diz, não sem dramatismo, que "não tem nada a perder", não é que não tenha de facto nada a perder (todos temos sempre coisas a perder). É que está disposto, aliás predisposto, a perder algumas dessas coisas. Em bom rigor, pode estar simplesmente disposto a arriscar perder certas coisas. O que vem a dar no mesmo.

20 + 20

Durante a minha infância e juventude os meus pais viajavam bastante, muito mesmo, se considerarmos a realidade portuguesa dos anos 70 e 80. Traziam relatos de viagem que me fascinavam e que, desde tenra idade, me inculcaram a ânsia de viajar e conhecer o mundo, a vontade de, também eu, partir. Traziam fotografias e filmes de Super 8 e lembro-me distintamente da fotografia que mais me impressionou, teria eu uns doze ou treze anos: era uma foto da minha mãe à frente de um arame farpado que dividia as duas Alemanhas. Afligiu-me imenso imaginar um país inteiro de gente aprisionada por detrás daquele arame. Cresci com os relatos, as histórias e os filmes, às vezes romanceados, das fugas conseguidas e tentativas falhadas, que culminavam na morte. Com as imagens mentais das famílias divididas e dilaceradas pela separação. Com a consciência de que algures no mundo havia pessoas presas dentro dos seus países, das suas cidades.
Agora que se comemoram vinte anos, conto tantos anos de vida com a existência do muro como sem ela. Mas os primeiros vinte marcaram muito mais.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A minha graça

DISCLAIMER: agora vou discorrer sobre uma questão relativamente à qual nunca me alonguei com ninguém, mas que, malgré moi, me acompanha desde que nasci. Podem julgar-me terrivelmente narcisista, mas é como vos disse, uma e outra vez: este blogue serve também para que um dia os meus filhos possam penetrar no universo da mãe, e acontece que sou também, talvez mais do que muitas pessoas, o nome que me foi dado.

Dizem que o nosso nome é uma das pedras basilares da nossa identidade, o que, a ser assim, pode dizer muito da formação do ego de quem tem um nome invulgar - para o bem e para o mal. Por outro lado, há pequenos pormenores que inesperadamente se revelam muitíssimo mais significativas do que pareceriam à primeira vista. Acontece que a pequena nuance introduzida no meu nome próprio cedo se revelou ser uma dessas pequenas enormes coisas, e assim se tem mantido ao longo da minha existência.

Aconteceu, por capricho próprio de mãe, que me foi dado um nome que 99% das pessoas (noventa e nove por cento, eu vos garanto) escreve e pronuncia de forma errada. A alternativa corrente nunca foi alternativa a considerar, antes a rejeitar absolutamente: não deixa de ser irónico que a causadora do desafio nominal tenha sempre sido quem mais se insurgiu contra as suas consequências - ainda que não venha sendo, evidentemente, quem mais as sofre. Não se trata, aqui, de um desafio meramente gráfico ou fonético: são ambas as coisas em conjunto, o que aumenta geometricamente a margem de erro.
Confesso que não houve, que me lembre, dia da minha vida em que alguém (normalmente mais do uma pessoa, mais do que uma vez por dia) não tivesse introduzido o "i" no meu nome, na forma escrita ou falada (geralmente em ambas) e que perdi muitos minutos em cada um desses 365 dias de todos este anos a corrigir as pessoas - regra geral, com resultados próximos do nulo. De tal forma que passei a dividir as pessoas à minha volta em dois grandes grupos: de um lado, aquelas a quem deixo passar, em silêncio (silêncio irritado, confesso, mas o cansaço e o hábito já limaram as arestas) a adulteração do nome: são essas as que não conheço ou conheço mal e que não tenho qualquer perspectiva de, ou interesse em, vir a conhecer; do outro lado, aquelas a quem não posso permitir o engano, que são todos aqueles a quem me dirijo para tratar de questões oficiais, ou em quaisquer outras situações que obriguem ao registo escrito do meu nome. Os primeiros corrijo uma única, primeira vez, o que em 90% dos casos nada resolve (é uma questão nacional, o portugueses não estão habilitados a pronunciar o meu nome) e aos segundos explico, insisto, mostro, até me fazer entender, com resultados muitas vezes duvidosos, como quando passam a chamar-me Ândria (quando lêem - e reconheço que apor um acento no "e" talvez ajudasse) ou André (quando ouvem, por culpa do "a" final quase mudo). Ambas as coisas acontecem, juro, com mais frequência do que possam imaginar, ainda que, na maior parte dos casos, as pessoas se limitem a não perceber e olimpicamente passar por cima, insistindo no indisfarçável "i". E custa-lhes muito, custa-lhes sempre tanto riscar a excrescência depois de escrita, incrédulos perante tamanha minudência.

Aqui faço notar que na última década senti um pequeno alívio nesta problemática, na justa medida em que influências vindas de fora tornaram um pouco menos invulgar a grafia do nome. Antes disso, abençoado Liceu Francês, que na minha infância e adolescência foi o único local de tréguas, fora da família e, já depois de adulta, abençoados os (poucos) anos em que vivi no Brasil.

Mas voltando às pessoas: os amigos constituem um grupo à parte, no qual incluo, para efeitos de classificação, tanto os amigos-meros-conhecidos (amigos na acepção mais lata, tanta vezes enganada, do termo) como os amigos próximos (amigos com "A" grande). Ora aqui é que a coisa começa a ficar interessante. Regra geral, quando conheço pessoas relativamente às quais antevejo a possibilidade de um relacionamento continuado, faço notar, caso não se torne imediatamente perceptível, o modo correcto de me chamarem (não é mania, é que o outro não é o meu nome - mas imagino que só verdadeiramente perceba isto quem já viveu algo semelhante); faço-o notar uma só vez (sempre me pareceu ridículo ter que insistir na questão) e é praticamente inevitável que o falhanço em fazer passar a simples mensagem (ao qual me resigno para todo o sempre, relativamente à pessoa em questão) desqualifique o destinatário como candidato a amigo chegado ou íntimo - e isto, acreditem, não é nenhuma presunção ou sobranceria da minha parte, é antes algo de terrivelmente simples, objecto de quase 40 anos de experimentação: o facto de alguém, depois de informado, não atingir a importância de chamar a outra pelo nome correcto, revela uma de três coisas: (1) falta de inteligência (a mais flagrante e apesar de tudo a mais desculpável); (2) falta de subtileza ou; (3) falta de consideração - nenhuma das quais confere grande credibilidade ou interesse à pessoa em questão - e digo isto sem qualquer pejo, que me desculpem mas são muitos anos disto. Alguns chegam a redimir-se quando, através da convivência, acabam por perceber o erro e o corrigem por si, sem mais comentários. Quanto aos restantes, podem passar 10, 20 anos a insistir no erro, ainda que oiçam o meu nome mil vezes pronunciado e o vejam escrito na forma correcta, e quanto a isso não há nada a fazer: são naturalmente grunhos.

Mas o que eu gosto mesmo - passo o narcisismo - o que realmente me surpreende, é conhecer aquela pessoa que, depois de mo perguntar ou de eu lho oferecer, assimile o nome à primeira, ou tenha a delicadeza de pedir os devidos esclarecimentos; ou aquela que tem a subtileza de, ouvindo alguém próximo chamar-me, imediatamente registar a nuance; e ainda aquela que, através de carta, email ou qualquer outra forma escrita, note a grafia e me responda da mesma forma, logo à primeira.

Esta simples, mas rara, atenção, tornou-se de alguma forma aquela que, à partida, mais desperta o meu interesse e silencioso reconhecimento, e é talvez por isso que, de entre as pessoas que um dia a tiveram, se contam os meus amigos mais chegados, bem como todos os amores da minha vida. Mas não, não acho que seja por causa da correcta percepção do nome. É por causa da inteligência, da subtileza e da consideração. É por causa da atenção. Aquela que aproveito para agradecer a todos aqueles que bem saberão quem são.

Duas ou três histórias

There are only two or three human stories, and they go on repeating themselves as fiercely as if they had never happened before.

Willa Cather, 1873-1947

Un parfum de fin du monde (ou encontros improváveis)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Da falta de tempo

Não é uma questão de tempo, é uma questão de entusiasmo, sabes: sem entusiasmo o tempo mirra, como tudo o resto, aliás.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Esperança violenta (by inspiration)

E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade da dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. (...) Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado um gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, 1969.

Os (poucos) anos que vivi em São Paulo foram muito educativos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Por falar em virtudes

Enquanto a população se aparvalha, só queria dizer que Francisco Lobato, o velejador português de 25 anos, venceu a regata Transat La Rochelle - Salvador da Bahia, em solitário, na classe de série (i.e., num veleiro de série) de 21 pés, que se traduzem em 6,5 escassos metros com uma cabine onde não se pode andar de pé, a navegar na carta e pelas estrelas. Em 25 dias, 19 horas, 39 minutos e 18 segundos. Sozinho, já disse?

6

O de cinco fez seis anos. No acto de dar à luz percebi, numa estrondosa revelação, que ali estava uma pessoa, uma outra pessoa que não eu ou o produto de mim ou a combinação de eu com outro; que essa nova, terceira pessoa, me era dada para cuidar e amar e mais tudo aquilo de que fosse capaz, mas que não era minha. Não era, nem é. Fez seis anos e começa talvez a vislumbrar o que eu percebi naquela primeira hora (e espero não esquecer): que o mundo não é necessariamente intermediado pelas pessoas que cuidam dele - ainda que o façam com muito amor.
(comecei ali e acabei aqui)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Regresso

Sinto-me como aquelas pessoas de quem se diz que tentaram o suicídio para chamar a atenção.

Posteridade

A morte do radialista António Sérgio suscitou muitos agradecimentos póstumos - terá, espera-se, suscitado alguns outros em vida. Deve ser muito bom quando fazer por si é também fazer por tantos outros.

Apego

Aqui não se pratica o distanciamento emocional. Quando tentado, corre mal, muito mal. Um gajo já percebeu duas grandes coisas: que não houve desgosto que não valesse a pena; que arrependimento foi ter-se poupado aos desgostos.