terça-feira, 29 de setembro de 2009

Enough ou depois do título do último post é o fim

Alguém me disse recentemente, e com muita razão, que vinte anos não são uma vida são várias. Cheguei aqui com trinta e sete anos de vidas por desfiar, e elas jorraram por dois anos e seis meses, em trezentos e oitenta posts, com a intensidade das águas que rebentam a barragem inundando as terras a jusante. Julgo agora perceber que o manancial das águas acumuladas se esgotou. Ou será a vida que se faz mais presente e menos passado. Ou é mais um ciclo que se quer fechar. Ou o encanto que não se quer quebrado. Ou que não me posso ler. Ou tudo isto e mais tudo o mais que fica por dizer.
Agora vou respirar outro ar. Levo saudades, eu levo sempre saudades.

Cocó

Não sei bem quando é que se estabeleceu definitivamente o conceito de "cocó", na acepção de "aquele tipo é um cocó", ou "ela é um bocado cocó", ou "não sejas cocó", mas é certo que é um conceito perfeitamente definido e concreto, toda a gente sabe o que é um cocó embora possa não o saber explicar por palavras. Por mera aproximação, um cocó (ou uma cocó) pode ser assim uma espécie de queque, de betinho na aparência, a que se junta - e isso é que é interessante - uma característica psicológica: é um queque, ou um betinho, ou um conservador com manias, com pruridos de alguma espécie, nem que esses pruridos ou pudores se traduzam afinal e somente numa espécie de vaidade ou, pelo contrário, de timidez. Na verdade confesso que não sei bem dizer o que é um cocó, mas sei perfeitamente o que é: um cocó é isto aqui, nas palavras muito bem esgalhadas d' O Alfaiate Lisboeta “cocó mas não cagão o suficiente ao ponto de parecer um coninhas”.
E fico positivamente possessa quando alguém me tenta colar o epíteto.

domingo, 27 de setembro de 2009

Xutos


São 30 anos, foram 33 músicas no Estádio do Restelo, um mar de gente, uma noite para recordar.
Eram 21.00 e a fila para entrar para o relvado do Estádio do Restelo estendia-se serpenteando por 1 km de gente ordeira e tranquila, várias gerações sobrepostas em t-shirts pretas com o símbolo da maior banda portuguesa de rock. A hora passada na fila não incomodou os milhares de fãs que desaguaram naquele relvado e encheram o estádio para receber os Xutos & Pontapés, cuja chegada pudemos finalmente acompanhar nos ecrãs gigantes, incrédulos perante a ousadia daqueles 5 homens entrarem a pé, abrindo caminho por entre a multidão enquanto atravessavam o relvado até ao palco, por fim erguidos em braços pelos seguranças.
Foi uma mega produção, em termos de palco, som, efeitos visuais, equipamento, e mais. Os Xutos entraram a abrir com as músicas do novo album, e foi talvez por isso que, apesar da boa disposição dos 40 mil e do entusiasmo gerado por temas como Não Sou o Único, Mundo ao Contrário, Gritos Mudos, O Que Foi não Volta a Ser, o concerto, no que respeita ao público, demorou a descolar. Foram 3 horas - três - de música sem parar, e foi ao final da primeira hora e meia, quando soava a meia-noite, que o estádio chegou ao rubro, com a inesperada aparição de Camané para uma magnífica interpretação do Homem do Leme, dando novo sinal de partida para o concerto. Os Xutos reservaram para a segunda hora e meia, incluindo dois encores, os temas fortes como Esta Cidade, Circo de Feras, Chuva Dissolvente, À Minha Maneira, Contentores, Sem Eira Nem Beira (recado do Kalu ao Sr. Engenheiro em véspera de eleições), Submissão, Ai Se Ele Cai, Minha Casinha, Para Sempre, Para Ti Maria e outros que já não sei nomear. No relvado, a cinquenta metros do palco, pulou-se, dançou-se e cantou-se muito. Já passava da 1.30 da manhã quando Tim, Zé Pedro, Kalu, Zé Cabeleira e Gui, visivelmente emocionados e comovidos, agradeceram os 30 anos. Nós também.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Deambulações de uma noite de Verão tardio

Almocei com uma amiga a quem já aconteceram mil e uma daquelas pequenas e grandes coisas bastante más e muito chatas que fazem qualquer pessoa ficar de mal com a vida. Não obstante, ela mantém o mesmo optimismo inabalável dos nossos 16 anos - enfim, quando nos conhecemos os 16 anos eram de ambas, o optimismo mais dela. O optimismo, agora que penso sobre isso, é como um talento - e como qualquer talento, quando é extraordinário é de facto fora do comum, inato, inabalável e para sempre. E logo me salta a agulha para o talento extraordinário de um homem de 67 anos que na segunda-feira, no Coliseu, tocou piano com a perfeição e entrega reservadas aos que vivem uns centímetros acima do solo. Já tinha tido a sorte de assistir ao Daniel Barenboim, em São Paulo, a dirigir a Orquestra Sinfónica de Chicago e tive agora a sorte acrescida de testemunhar a outra faceta de um mesmo talento, já mítico. É caso para nos perguntarmos sobre as regras de distribuição dos dons, talentos e quejandos que tais, sendo certo que o pacote do talento - o talento genuíno e verdadeiro - reúne, tantas vezes, uma série de outras características que muito admiro: dedicação, entusiasmo, generosidade e por aí fora. Felizmente para os restantes, às vezes os deuses do Olimpo não esquecem de juntar ao talento os instrumentos necessários à partilha do mesmo com o comum dos mortais.
(aqui, à janela do costume, entra a brisa morna de uma noite de Verão, que juntamente com outras coisas me tira o sono e a vontade de ir dormir)

Da segunda adolescência, da (in)fidelidade e do poliamor

Só a leio de longe em longe, mas ela tem muita graça (reparo no paternalismo ridículo e corrijo-me: ela é muito boa nisto).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Pessoas

Pessoa # 1 : fechei à chave algumas divisões da casa para impedir-me de lá entrar. Outras estão escancaradas, podemos circular à vontade.

Pessoa # 2 : e o que é que se passa dentro das divisões fechadas?

Pessoa # 1 : prefiro não saber. Olha, guarda tu a chave.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Amoreiras

É evidente que não há só esquinas, também há cafés onde as pessoas se podem encontrar com hora marcada. Mas as esquinas da vida têm mais graça.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dr. José e Mr. Sócrates

O RAP em plena forma: para quem não viu ou quiser rever, a partir do mn 4:47.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Notes to self

Evitar afirmações do tipo falta muito ou demasiado tempo; ser menos impaciente/mais comedida, ou pelo menos parecê-lo, bolas, são quase 40 anos; permanecer qual estátua grega em vez de saltar sobre a mesa para agarrar o rebuçado.

domingo, 13 de setembro de 2009

Coisas giras

O de cinco anos (quase seis), que não cessa de me surpreender com o entusiasmo pelos desportos radicais, levou-me a acompanhá-lo ao Jardim da Estrela para a sua primeira experiência de skate (skate normal, diz ele, em oposição ao novos street surfers que bem sabe não serem - ainda - para o seu bico). Aqui devo explicar que o que me surpreende não é o entusiasmo em si, é a combinação com o tendencialmente inverso pendor intelectual - mas para que servem os filhos senão para nos estilhaçarem as ideias feitas? Depois de uma hora de descidas evolutivas, curvas progressivas e um joelho esfolado, ficámos para um merecido chill out nos confortáveis puffes que preparavam o entardecer de OutJazz nos Jardins. Este Domingo ouvimos o Júlio Resende 4tet. Por vezes, por cá, fazem-se coisas giras.

sábado, 12 de setembro de 2009

Inglourious Basterds

A história rocambolesca é um contínuo pretexto para diálogos brilhantes. But of course.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Está tudo lixado

Por três ou quatro vezes na minha vida fui confrontada com a iminência de uma brusca interrupção. Um carro que me colheu brutalmente aos 10 anos; um aquaplaning na A1 aos 20 e poucos; uma égua a quem não impus o devido respeito aos 26; um carro a voar na minha direcção aos 39. Em todas as vezes a possibilidade foi friamente avaliada e a sua inevitabilidade reconhecida, naqueles breves segundos que precederam ou sucederam o impacto iminente, sem ponta de emoção e sempre com o mesmo tipo de observação interna: "já está", "está tudo estragado", "está tudo lixado". Ainda me oiço internamente a admitir, às 10 horas da manhã de segunda-feira: "pronto, está tudo lixado". Nada de pieguices ou negações, revoltas, medos ou incredulidades. Quando as coisas se nos afiguram inteiramente inevitáveis, já o disse, não podemos mais do que acolhê-las. É então que a vida tem a inesgotável capacidade de nos surpreender.
Claro que também conta ter um anjo da guarda dedicado, a quem agradeço encarecidamente.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Synecdoche, New York

Totally fucked up - e sem qualquer justificação.
Não façam como eu: não vale o sacrifício por Philip Seymour Hoffman.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O programa segue dentro de poucos segundos

Este é o carro que hoje me apareceu a voar por cima do separador central no viaduto Duarte Pacheco:


Este é o candeeiro que se interpôs entre ele e eu:


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Pensamento recorrente

É como o fumador que acende o próximo cigarro na brasa do anterior.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Revolutionary Road

Passei na Blockbuster e trouxe o Revolutionary Road. Achei-o terrivelmente angustiante no retrato implacável da prisão burguesa feminina - ou seja, no que me respeita, o filme cumpriu inteiramente os seus desígnios.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Biografias possíveis

De criança ninguém nos ensina que há coisas que não são para ser questionadas, analisadas ou esmiuçadas. São para ser vividas, profundamente à flor da pele, como sorte rara, sem muitos porquês nem para quês nem para ondes (nem até quandos). Nada mais podemos do que rejeitá-las ou aceitá-las, e neste caso acolhê-las sem nos negarmos a nada, como barragem rebentada ou voragem animal. Integrá-las sem restrições, às vezes um bocadinho a medo, de tão oníricas, assombrosas que são, antes que a vida nos ultrapasse ou a realidade nos caia em cima.
Com sorte e à nossa custa, um dia percebemos que a lição foi dada e aprendida. Em tempo útil, se tivermos mesmo muita sorte.

He's back

Com a Lei Seca.

Back to school

Os meus filhos começaram as aulas absurdamente cedo este ano. A de 3 anos e 3/4 entrou na "escola do irmão" e, sendo a minha quarta experiência do género (2 filhos x 2 escolas cada um), consegui voltar-lhe as costas e ficar a ouvi-la gritar por mim enquanto me afastava em passo firme, sem que se me apertasse o coração.
Ocorreu-me que por uns instantes foi como se também ela fosse o quarto filho.
p.s.: quando voltei para a recolher estava radiante. É forte, a miúda.

Viagem

O Alfaiate Lisboeta está há um mês em viagem solitária por França e Itália. A não perder os retratos e os relatos. Como sempre.