terça-feira, 30 de junho de 2009

Still Alive

Uma das (poucas) desvantagens da idade é a perda gradual da capacidade de nos supreendermos. Quando alguém, ou algum evento, consegue ultrapassar a camada de dormência que se vai instalando, a maior surpresa é descobrirmos que, não só ainda existe quem nos surpreenda, como ainda somos capazes de nos surpreendermos a nós próprios.

domingo, 28 de junho de 2009

LFCL

Toda a noite foi música dos anos 80, presumivelmente em homenagem aos anciens, e enquanto dançava com os namoradinhos dos três, quatro e cinco anos pensava que o tempo é uma bolha e que ainda não percebi se conforme avança ela se expande ou contrai. Dentro da bolha circulavam frases perdidas: carvalhô-rôsa, assez de bavardage, je te mets en exil, exclamava a M.me Rocha com o seu gorro de lã, e logo entrava a admoestração quase diária do M. DiMarco: la ponctualité c'est la politesse des rois, enquanto fazia pontaria com tiros de giz aos conversadores lá de trás e a professora de Sciences Physiques (não me lembro o nome) repetia loucamente: dégagement de CO2 e já passara o M. Costa que insistia em chamar-me de Andrée e em dar aulas de educação sexual en classe de 9 eme para grande aflição das mães das criancinhas de 9 anos, e então chegava a hora da ginástica em que eu só exercitava a solidão e desse exercício não me libertei até hoje, mas antes, muito antes de tudo isso, alguém no Jardin d'Enfants ordenava: allez les enfants e logo um deles aparecia para me dar a mão en queue-leu-leu, aliás, deux-par-deux.
Essa bolha, no seu movimento de expansão ou contracção, verte por vezes pedaços de passado, que se misturam com o presente em novas realidades surpreendentes e cheias de encanto.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

We are the world

Foi a primeira coisa que ouvi no rádio logo de manhã. O de cinco anos perguntou lá de trás: porque é que a mamã fez "aaaaaahhh!" ? Era um tipo esquisito, repugnante no seu rosto desfigurado e fantasias de Peter Pan. Marcou o panorama musical dos anos 80, o que é o mesmo que dizer que foi um ícone da minha geração. Há três décadas que era um dado adquirido: com ou sem repugnância, sem nunca lhe ter comprado um disco ou visto um concerto, marcou-me também a mim, que faço parte do meu tempo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Fraquinhos desmedidos ou como usar oitenta e dois euros e trinta cêntimos em cinco minutos

Tenho um fraquinho por escritores lusófonos porque gosto do português em todos os estilos, cores, densidades e sotaques. Sou ecléctica em muitas coisas e também na literatura: gosto de conhecer os escritores que pensam, escrevem e vivem em português, sem olhar a Nóbeis ou pedantismos intelectuais. Prefiro ser eu a decidir se gosto ou não gosto, sendo certo que há os bons, os legíveis e os que se largam ao fim do primeiro capítulo. Munida deste fraquinho e a contra-relógio, entrei na Bulhosa das Amoreiras e agarrei o novo do Chico Buarque, logo seguido, é claro, do Agualusa. Foi então que reparei no Nuno Júdice cuja prosa queria conhecer. Contornando a mesa, deparei-me com o David Lodge, lado a lado com o Martin Amis. Ora eu tenho um fraquinho por um conjunto de escritores ingleses. Precipitei-me para o balcão com o leite derramado, o barroco tropical, os passos da cruz, a vida em surdina e o london fields, decidida a evitar outras tentações saídas do forno, e sorri estoicamente quando a senhora pronunciou oitenta e dois euros e trinta cêntimos, pensando nos descontos da Fnac e nos outros tantos por inaugurar na mesa de cabeceira.
Mas tenho uma boa desculpa: as férias estão à porta.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Prémio!

Agradeço à Luísa o simpático prémio (se bem que desconfio que "fofa" não é epíteto que me seja adequado, ainda bem que a Luísa não o reproduziu), que traz água no bico, sob a forma de inquérito:

Mania: a da provocação
Pecado capital: o da preguiça
Melhor cheiro do mundo: são dois, os dos meus dois filhos
Se dinheiro não fosse problema, eu: vivia no campo, com muito espaço
Caso de infância: "eu também vou"
Habilidade como dona de casa: mandar
O que não gosto de fazer em casa: discutir (hélàs, sempre o fiz e ainda faço)
Frase: por isso é que o mundo não se vira (não estamos todos do mesmo lado)
Passeio para o corpo: nadar no mar
Passeio para a alma: sonhar (a dormir ou acordada)
O que me irrita: a estupidez (alheia e minha)
Frase ou palavra que uso muito: exactamente
Palavrão mais usado: merda!
Desço do salto e subo o morro quando: me tomam por parva
Perfume que uso no momento: Blue, de Ralph Lauren (esta já sabiam)
Elogio favorito: gosto de ti
Talento oculto: não revelo a estranhos
Não importa que seja moda, não usaria nem no meu enterro: nessa matéria nunca digo desta água não beberei
Queria ter nascido sabendo: que não importa o que os outros pensam de mim

E o derradeiro segredo: não tenho 5 amigas, a corrente morre aqui.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Monstro

Há uns dias ouvi-me dizer que isto do blogue é uma escravatura, um monstro imperioso que me persegue nas vestes do permanente e cruel receio de perder a inspiração, o nível, o bom gosto, a gramática, os leitores e tal.
Que afirmação tão absurdamente blasé. E irrealista, to begin with.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Aragem

Eu aqui sentada no teu lugar, os copos vazios, as borras de café, a janela aberta sobre a cidade, a aragem redentora, enfim, a chegar. Queria ver-nos outra vez enfiados no carro a caminho do Algarve, em passeios de mota para a marina, jogando cartadas pela noite dentro, pingue-pongue pela tarde fora, espalhados pelo sofá a ler, comendo pão quente de madrugada, a mergulhar no mar, na piscina, na praia, no barco, a embirrar como irmãos, a conversar como amigos, a sonhar feitos cúmplices e a rir, a rir, a rir, a rir.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Castas senhoras

A Visão traz um daqueles inquéritos patetas, irritantes e pouco científicos, mas tratando-se de sexo, há que admiti-lo, é praticamente inevitável passar os olhos pelos resultados. Não saberia dizer até que ponto as pessoas inquiridas são honestas nas suas respostas. No que respeita às mulheres portuguesas, das duas uma: ou são chocantemente conservadoras ou tolamente pudicas na admissão anónima dos seus hábitos sexuais. Há uma terceira hipótese, que me custa a engolir: a anormal sou eu. Senão vejamos (e passo a patetice):
  • 52,4% dizem que só tiveram um parceiro sexual, a somar a outras 20% que só tiveram dois;
  • 63,4% dizem que nunca se masturbam;
  • cerca de 65% dizem nunca ter praticado sexo oral (concretamente, 64,2% nunca deram e 69,3% nunca receberam);
  • 12,2% dizem que nunca pensam em sexo, 18,3% apenas algumas vezes por ano, i.e., menos do que uma vez por mês e ainda 16,6% um máximo de duas vezes por semana. (adenda: os dados referentes a esta pergunta são afinal e aparentemente masculinos e não femininos)

Já os resultados respeitantes à frequência das relações sexuais não me chocam, estando equilibradamente distribuídos numa curva entre os extremos, de algumas vezes por ano a mais do que 4 vezes por semana, com epicentro não muito pronunciado em 1 ou 2 vezes por semana. Mas temo que isto se deva ao facto de, neste caso, já intervir a equipa masculina, não se distinguindo o género.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Postura da semana


Supta Virasana, para desenferrujar após uns dias de praia.

Sampa

De quem, para quem conheceu e aprendeu a amar.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nostalgias

De repente vem a saudade de me sentar na esplanada morna, tomando um chope e comendo uma comidinha boa, pasteis, bolinhos de arroz, quibes, e ficar olhando aquela gente alegre e quente, desfilando desfiando o seu riso a sua música. De repente, não mais que de repente, quando ouço o Prelúdio n.º 2 do Heitor Villa-Lobos.

domingo, 14 de junho de 2009

Meio caminho

Um abraço desajeitado é melhor do que nada: é meio caminho andado.

Tretas

Não obstante, as relações entre generosos e egoístas também têm o que se lhe diga. Funcionam lindamente até ao inevitável cansaço e ressentimento. Pensando bem, talvez as melhores relações sejam entre dois egoístas.
Certo, certo, é que todas as teorias sobre as relações não passam de meros exercícios da treta.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Equilíbrios

Há dois tipos de pessoas: as que essencialmente dão e as que essencialmente recebem; as fundamentalmente generosas e as fundamentalmente egoístas. Claro que ninguém, ou quase ninguém, se situa exclusivamente num dos lados, em todas as situações e ocasiões. Mas todas as pessoas, ou quase todas, se situam essencialmente de um dos lados, de forma constante, repetida e fundamental. E uma relação, de qualquer espécie que seja, entre duas pessoas que pertencem ao mesmo lado não funciona - mesmo, e isto é que é surpreendente, entre dois dos que dão: havendo assimetrias em todas as relações, um deles não vai saber ajustar-se ao lado maioritariamente receptor.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Casa, ou Tempo (III)

Esta casa algarvia e branca é um ninho, um berço, um refúgio. Tudo já passou por aqui e nessa medida é uma verdadeira cápsula do tempo: nela viajo para trás, para a frente, ou escolho ficar parada.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Tempo (II)

uma cerveja; um beijo; um riso; um olhar; um braço; um arrepio; um cigarro; um passeio; um jantar; um sorriso; um luar; uma música; um jardim; uma perna; uma boca; um roçar; uma praia de noite; um beijo molhado; uns pés descalços; um riso cristalino; um chão; um copo de vinho; um sofá; um disco; um lume; um nome; uma onda; uma espuma; um convés; um mergulho; um acordar; uma aragem; uma nuca; uns passos; um suspiro; uma canção; uma mão; uma língua; um ventre; um ninho; um caminho; uma caverna; um eco; um murmúrio; um sopro; uma carícia; um odor; um azul; um aceno; um colo; um segredo; uma casa; uma luz; uma sombra; uma flor; uma lágrima; um desgosto; um abraço; um lençol; um poema; um filme; um gesto; um prazer; uns olhos cerrados; um cabelo molhado; uns lábios salgados; uma gota; uns dedos; uma carícia; uma toalha; uma relva húmida; um céu estrelado; um grilo a cantar; uma dança; um transe; um sonho; um livro; uma viagem; uma ilha; uma carta; uma noite; uma estrada; um desejo; um grito; um sim; um não; um medo; um engano; uma certeza; uma palavra; uma ausência; uma esperança; uma saudade; um silêncio.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Tempo

De repente vejo-me chegada àquele patamar em que, mais vezes do que aquelas que seria de desejar, penso, às vezes digo: ena, caramba, há vinte anos que fui...; há onze anos que aconteceu...; há dez anos que continuo...; há cinco anos que não vou...; há três anos que não faço...; há tantos anos que quero...; há ano e meio que não te vejo.

O fim

O fim, os fins, são exactamente isto. Quem nunca passou por isto, levante o braço.

terça-feira, 2 de junho de 2009

No livro

A Miss Pearls publicou um post de índole política, sublinhando o carácter de excepção do tema. Revejo-me nisso: este blogue é íntimo e pessoal e as raras referências políticas reflectem, não um qualquer interesse folhetinesco na politiquice nacional, mas uma apreensão de fundo quanto ao estado da nação. No seu post, a Isabel remete para a seguinte referência ao Paulo Rangel: "Rangel tem uma lucidez que lhe vem do estudo e não do entusiasmo." Insisto que não sigo as lutas partidárias e as intrigas da nossa classe política; quanto a isto, invoco uma frase certeira, directa e irrefutável do bom amigo Jansenista, que muito me impressionou: isto está um nojo. Do Rangel pouco sei, pouco saberemos todos, por enquanto, mas guardo dele um episódio recente em que veio à televisão refutar os argumentos jurídicos que o nosso ilustre (e meu, em particular) Prof. Freitas do Amaral esgrimiu para defender a posição do outrora responsável pela pasta do ambiente, no caso "fripór". Rangel abriu o manual do eminente Professor e leu a passagem em que ele teorizava num sentido precisamente contrário aos argumentos apresentados neste infeliz caso. Gostei de ver. Remeteu-me para o meu pai e mestre que, sem me facilitar a preguiça nem fomentar o saber de pacotilha, desde o primeiro dia vem dizendo e respondendo, a instâncias minhas: está tudo no(s) livro(s).