domingo, 31 de maio de 2009

Nevoeiro

Quando subi a rua, recolhendo a casa, vi o nevoeiro a entrar, uma parede cinzenta empurrada pelo vento. Ao chegar à janela já cobria tudo: tudo escondeu, veloz, silencioso e frio, só para mostrar que nada é garantido, nem mesmo a luz dourada de um fim de tarde de quase Verão.

Calidez

Um longo passeio pelas ruas apaziguadas numa noite morna em Lisboa é outra das melhores formas de celebrar o Verão.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Calar

Há poucas coisas mais deleitosas do que o silêncio nocturno de uma casa adormecida: talvez o acordar para o silêncio de uma casa calada, para a voluptuosidade de uma manhã quieta, vagarosa, com absoluta ausência de sons vocais. Hélàs, não haverá muitas pessoas juntas capazes de apreciar este grande pequeno requinte.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Branco

Lisboa não é branca, mas é... e esta linda foto da Luísa ilustra bem o que eu quero dizer.
Aproveitem enquanto lá estiverem para ouvir a igualmente linda música da Joni Mitchell: eu tenho ido lá todos os dias ouvi-la. I could drink a case of you, darling, still I'd be on my feet é uma afirmação a todos os títulos magnífica.

Proposta

20.25: lá vem a luz dourada despedir-se das paredes brancas e telhados vermelhos rompidos de pináculos de igrejas (são tantas as igrejas). Proponho-me sentar-me aqui todos os dias a esta mesma hora mágica, saudando o Verão.
Celebrar o Verão é uma coisa importante. Ancestral. Essencial.

Rompido é um termo que não existe; mas existe romper, e rompida, e rompente. E rompidos é como os telhados estão, não rotos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sequência

Era uma da manhã quando olhei pela janela para a bandeira inerte da embaixada, pensando nem uma agulha bulia e logo toda ela se agitou e enfunou, como que convocada pela força do meu olhar. Voltei para junto da aparelhagem e prossegui a actividade que noutros tempos me preenchia as noites insones e agora exerço de forma rara e ritualista: procurando por entre os CDs aquela música específica, que logo me conduz a uma outra num outro, e num outro, e num outro, numa sequência intuitiva que acaba quando a pilha no chão já ameaça cair ou o sono vence a nostalgia.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Luz boa

O dia amanheceu tão frio e cinzento e vem agora despedir-se derramando luz sobre o casario em degraus até ao rio liso de azul. São 20.30 de um restinho de dia numa janela sobre Lisboa.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Supostalegadamente

Li esta semana no Público um pequeno artigo que referia Leonor Cipriano como "a mulher que cumpre pena de cadeia por, supostamente, ter participado na morte e consequente ocultação de cadáver da filha Joana." Imagino que na cabeça deste ou desta jornalista a sentença que condenou Leonor Cipriano e cravou para todo o sempre a radical fronteira entre alegadamente e supostamente, rezava qualquer coisa como isto:
«Analisadas as provas produzidas contra a arguida pela alegada participação nos alegados crimes, este Tribunal acha, salvo melhor opinião e salvaguardando todos os recursos possíveis e imaginários, que ela é supostamente capaz de ter praticado os alegados actos que, ao que parece, tipificam os ditos crimes, na forma participada. Assim, por uma questão de segurança e sem prejuízo de algum dia podermos vir a ter a certeza absoluta, decidimos metê-la na cadeia. Sem se conceder e no entanto, salvadas as devidas distâncias, adverte-se a população em geral que deverá continuar a abster-se de proferir julgamentos em praça pública ou, Deus nos livre e guarde, por qualquer meio, persecutório/cabilístico/outros:________, atentar contra a honra ou bom nome da senhora.»
Não sei se leram, espero que tenham lido, o excelente artigo de opinião de Helena Matos, também no Público, há uma semana atrás. Nesta terra de gente magnífica, longe de qualquer um de nós julgar alguém em praça pública, ou em qualquer outra praça, sala ou parede de WC, pois - vá saber-se - é bem possível, é mesmo quase provável, que todos sejamos inocentes até ao dia do juízo final. E nunca se sabe quando é que vamos precisar que quem agora condenamos nos dê uma mãozinha depois. Porreiro, pá.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O presente perfeito

É aquele que conjuga timing e oportunidade; exige atenção e sensibilidade; mostra empenho e amizade; envolve equilíbrio e generosidade. É dado e recebido com alegria e simplicidade.
Como um cartuxo beige de morangos vermelhos 21 anos antes. Ou um frasco azul de perfume blue 21 anos depois.

p.s.: thank you thank you thank you thank you thank you thank you thank you thank you thank you thank you thank you

domingo, 17 de maio de 2009

Perfume

Estou órfã de perfume. Ando órfã de perfume há um par de meses, e a notícia recebi-a assim de chofre, quando a senhora aperaltada do free-shop me comunicou, em tom neutro, que o meu perfume fora descontinuado. Usei as últimas gotas com a parcimónia de um ritual, amaldiçoando-me por já não ir a tempo de criar um stock. Pode parecer uma frivolidade, e será, mas o desgosto é proporcional à importância do olfacto nas minhas construções sensoriais. Desde pequena que me relaciono intensamente com os odores. Nas manhãs de Sábado, muito criança, gostava de me deitar numa das camas desfeita lá de casa e envolver-me no cheiro de um qualquer membro da família, e assim os aprendi a distinguir a todos. Não há memória importante que não tenha um cheiro associado e não há sentido que melhor desperte lembranças: o cheiro a mar e madeira de tantas aventuras náuticas, a pinheiros e flores das incontáveis férias felizes, a móveis e tapetes na casa dos pais a cada visita, o odor forte e adocicado do ar de São Paulo que me tomava de assalto à saída do avião, e por aí fora, sem esquecer o aroma quente e envolvente de uns tantos perfumes e after-shaves. Quando recebo um abraço, fica-me o cheiro que guardo como lenço rendado escondido no bolso. Portugal não é um país de abraços: até os abraços fraternos entre os homens parecem cair em desuso. O Brasil é: ao segundo ou terceiro encontro, os brasileiros vão logo abraçando, numa espécie de credencial da amizade. Abraçam-se pela alegria simples do reencontro e na saudade antecipada da despedida, homens, mulheres, mulheres e homens, o abraço como sinal de humana fraternidade. Tenho saudades dos abraços dos amigos brasileiros. Tenho saudades de todos os abraços que não dei e não recebi, e mais ainda dos que não posso dar. Abraço os meus filhos sob qualquer pretexto, com o adicional propósito de lhes sentir o cheiro único e reconfortante.
Sou fiel aos meus perfumes. Uso-os enquanto me completam e largo-os quando já nada me dizem, como amor monógamo mas não eterno. O meu perfume abandonou-me a meio do amor, deixou-me órfã, órfã de perfume.


N.B.: dão-se alvíssaras a quem encontrar um frasco de Blue da Ralph Lauren, para mulher, esquecido numa qualquer perfumaria do país ou arredores.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Transmutação

- As pessoas morrem para dar espaço à novas que nascem: senão depois não cabíamos todos no mundo.
- Mas em vez de morrer podiam transformar-se em animais ou plantas.

Lógica

(Depois de ajudar o de cinco anos a contar até 100) :
- Mamã, os números não acabam nunca?
- Não. São infinitos.
- Então porque é que as pessoas morrem?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Futuro passado

Bem sei que ninguém - mais uma vez - me perguntou, e por isso não vou apregoar a lista que tinha aqui preparadinha não fosse alguém lembrar-se de me perguntar, mas queria só observar o seguinte: como é que se explica que, nas listas das séries que marcaram a "nossa" geração (no que respeita ao círculo do costume diria que os perguntados vão dos 30 aos 50 anos de idade) ninguém se lembrou de mencionar o Espaço 1999? Então e a Maya?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Toga

Passado o auge da tensão, entro num estado de euforia patética e disparatada. Que o diga quem tem o privilégio (hesitei entre "azar" e "sorte" e decidi-me pelo privilégio, em itálico, porque pode ser assim uma espécie de pesadelo) de me apanhar mesmo à saída de um julgamento, acabadinha de me libertar dos constrangimentos corporais e psicológicos do uso da toga. No dia seguinte é garantido que nego tudo quanto possa ter dito ou feito naquela meia hora de estado de consciência alterado.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Canto

Canto debaixo do chuveiro, as músicas que trago do tempo em que as aprendi de cor. Canto enrolada na toalha, em frente ao lavatório, escolhendo a roupa, calçando os sapatos. Canto canções que adultero com o tempo e desafino com a voz. Canto quando dou banho aos miúdos, enquanto lavo a loiça, dou comigo a cantar passeando na rua. Recolho-me a entoar, evado-me a trautear, nem tudo está perdido quando dou por mim a cantar. Canto no carro ao som da rádio, permanentemente, e continuo a decorar e continuo a cantar. Mesmo quando a de três anos exclama lá de trás: "pála com isso, mamã!". Sei que vale a pena quando a oiço, no quarto, a cantarolar.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Então adeus, então até logo, então até já

Os adeus eram sempre até amanhã, os até amanhã até logo, os até logo até já. A comunicação tornou-se um fio ininterrupto. Por fim, já não comunicava: era.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Ananases

Eu, sozinha à mesa do almoço no restaurante cheio de gente a não conseguir parar de rir alto, o mais baixinho que podia, lendo a crónica do Pedro Mexia na Ler de Maio.

Adenda

Nélson Rodrigues (Brasil 1912-1980)
Escreveu: Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).

A vida como ela era...

As coisas eram como eram e não havia nada a fazer. Mas isso é o tipo de coisa que só podiam compreender e aceitar a posteriori. Só as crianças pequenas aceitam a realidade tal como se apresenta e representa, sem a questionarem ou interpretarem, e por isso são tão vulneráveis à exploração dos adultos que lhes dão a conhecer as regras do jogo e lhes estendem o tabuleiro. Nós, os grandes, podemos elaborar tratados d' a vida como ela é..., mas só o sabemos fazer a frio, com o desprendimento próprio de quem abriu uma distância, emocional ou temporal, sobre as coisas.
As coisas podiam bem ser como eram, mas a vertigem dos acontecimentos e o emaranhado de passado, presente e futuro que colocam as pessoas no tempo impediam-nos de as ver como eram, as coisas. Ainda bem. O cinismo próprio da distância emocional não era bem vindo. E depois, só às crianças é possível dizer-se: Proíbo-te de ... - com resultados úteis, pelo menos. Se assim não fosse, seria ela quem, de dedo em riste, lho teria dito a ele. Ou a si própria, talvez.


A vida como ela é... é o titulo das crónicas que Nélson Rodrigues escreveu no jornal carioca "Última Hora".

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Empatia

Etimologia da palavra empatia: em + pathos, sendo pathos o termo grego que designa um dos três modelos de retórica, o de persuadir pela emoção. Pathos significa também paixão, excesso, catástrofe, passagem, sofrimento. Empatia será assim a identificação entre duas pessoas pela partilha de todas essas coisas: paixões, excessos, catástrofes, passagens, sofrimentos.
Em termos prosaicos, empatia é aquele apelo de comunicação que surge inexplicavelmente e nos faz despejar o que nos vai na alma. Em cascata de palavras. Num instante de silêncio.