quarta-feira, 29 de abril de 2009

Do pudor

Um par de comentários e telefonemas depois, pergunto-me se terei ultrapassado aquela linha invisível do pudor. Mas este espaço é feito de liberdade e assim o gosto, o uso e o entendo.
Quando vierem, mesmo silenciosos, usem e fruam do atrevimento de dizer, comentar, imaginar e ousar sonhar, que aqui se misturam eu com outros e vós comigo, se entrelaçam pessoas e personagens e pessoais e colectivos, numa amálgama de instantes, filmes, livros e sonhos, feita de possíveis e impossíveis, medos e desejos, verdades, meias verdades e ilusões.

terça-feira, 28 de abril de 2009

The truth will set you free

Triste falácia, por vezes.

sábado, 25 de abril de 2009

Vai passar (já passou)

Do amor passa-se num pulinho para o tema da amizade e então daqui de baixo lá para cima vai esta outra do Chico, em homenagem ao nosso amigo comum, Fernando (perdoe-me o Chico Buarque, de tanto o ouvir falar d"o Chico" ficou-me a intimidade), que entre dois chopes e muitas conversas um dia me explicou a alegria de sambar - ensinamento que muito me serviu quando, alguns anos depois, desfilei no sambódromo do Rio de Janeiro.
São mais de 6 minutos de ritmo contínuo, que merecem a devida apreciação, sambando sem parar (ora fechem lá a porta e desviem a cadeira um bocadinho).

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Hipótese

Então, quer dizer que estás bem... e os rapazes ?... óptimo, sim, o tempo passa a correr. Sim, bem também... os miúdos estão óptimos, lindos como sempre, eles são lindos, sabes bem. O resto, sim, enfim, sabes como é, a rotina. Mas tu pareces bem, como é que está a correr essa nova etapa? Pois, acho que sim, espero que se entendam. Claro, nada é irreversível, ou quase nada, e é preciso arriscar...
A propósito, já agora queria dizer-te, enfim, tenho isto para te dizer estes anos todos e digo sempre outras coisas mas não isto e agora, olha, se calhar não muda nada, portanto aqui vai: foste o grande amor da minha vida, sabes. Bem, na verdade, és o grande amor da minha vida. Todos os dias penso nisto. Se tivesses querido então, ou se mo tivesses dito um qualquer dia deste anos todos, enfim, de quase todos, aqui me tinhas. Sempre fui doida por ti, sabes bem. Se quisesses hoje, agora, na semana que vem. Depois disso, bem, depois não sei, sabes que estas coisas mudam nem se percebe bem porquê. Um dia acordas e já passou. Ou se calhar, não - não passa nunca e depois viveste uma vida arrependida. Olha, não digas nada, eu percebo, acredita, eu sei que é difícil, desculpa. A culpa é minha. Tenho que ir. Fica bem. Depois falamos. Adeus, adeus.

Ontem houve cozido


quarta-feira, 22 de abril de 2009

ninguém o pode ouvir. Só espero que ninguém se esqueça de ir votar quando chegar a hora. O homem não se empoleirou sozinho.

N.B.: não há dúvida, prefiro um milhão de vezes falar sobre Ian McEwan.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ian McEwan (II)

Perante um escritor feito, aquilo que, regra geral, queremos saber, é de onde lhe vêm as palavras. Ele falou, inicialmente, em dois elementos fundamentais: a solidão (solitude) e a imaginação (imagination).
Mais à frente, quase no fim, surgiu um outro elemento, muito mais inesperado: a hesitação (hesitation). Ian McEwan disse que começa um romance por tentativas, sem saber exactamente o que pretende realizar: simplesmente vai tentando vários começos (já não sei se não disse primeiros parágrafos) e, entre tentativas e hesitações, acaba por surgir aquele que finalmente o satisfaz.
One of the most important elements in creativity is hesitation: foi mais ou menos isto que ele disse - desculpem a insistência. (I don't get out much).

domingo, 19 de abril de 2009

Ian McEwan (I)

Ele disse, a propósito dos happy endings já não serem condição sine qua non dos romances, qualquer coisa como isto:
Things start up badly, and then they get worse, and then even more so, and then it ends. And somehow you get a satisfaction from this.
E será só nos romances? - pergunto eu.

Ian McEwan

Ontem desloquei-me ao CCB para ouvir Ian McEwan.
Quando me falam nos grandes romancistas americanos da actualidade, penso sempre - muito bem - mas não consigo, num Paul Auster ou num Phillip Roth, discernir a sensibilidade e subtileza, quase femininas, que me transmitem os seus congéneres ingleses. Ian McEwan é, para mim, o exemplo acabado dessa sensibilidade, sendo candura o termo que mais me ocorreu, também, perante a pessoa real. Foi um grande prazer e uma lição de humanidade.
Obrigada, Alex, pelo telefonema oportuno. E obrigada à Tia Ester que há quase 20 anos me iniciou nesta viagem dando-me a ler Jardim de Cimento, Primeiro Amor, Últimos Ritos e Cães Pretos.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Última palavra

Foram precisos muitos anos para finalmente compreender a beleza e inteligência de não ter a última palavra.

Do direito à greve

A comunicação social não tem feito caso da greve dos pilotos da PGA. Mas hoje o Público vem dar notícia dos últimos 4 dias de greve agendados, com chamada na primeira página, não para esclarecer as motivações, mas para passar a mensagem de que a greve "pode pôr em causa a sobrevivência da empresa."
Se isto não é uma forma de pressão moralmente inadmissível, não sei o que será.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Mulheres

Ontem ouvi na televisão que uma pesquisa realizada pela marca "Dove" revelou que apenas 2% das mulheres se consideram bonitas. Isto pode surpreender os homens, mas dificilmente surpreenderá qualquer mulher.
Enfim, não surpreende mas não deixa de impressionar.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sonhos interrompidos

Esta noite acordei cem vezes por conta da entorse nas costas que por culpa de uma sessão de yoga (a contenção não é o meu forte) voltou a doer como tudo. Esta noite sonhei que vivia ainda ou outra vez em São Paulo, mas São Paulo era o Algarve, imagine-se, e eu pasmava que nunca tinha reparado nos pinheiros. Esta noite sonhei-me outra vez grávida, aflita que não estava nos meus planos enquanto me deliciava de tão grávida que já o sentia a mexer-se dentro de mim - e não existe sensação mais desconcertante.

Vendaval

Esta foto, tirada nos finais dos anos setenta, foi retirada de um livro sobre o Algarve publicado no início dos anos 80. Trata-se da pequena enseada que carinhosamente apelidávamos de "bidé dos fascistas" (hoje o anteporto da Marina de Albufeira) , um dos únicos portos naturais de abrigo do vento predominante, o sudoeste. Lá está o Vendaval, respeitável sloop em madeira dos anos 40 que, de 1977 a 1981, nos ensinou os princípios básicos da arte de navegar. À lupa, é possível identificar a figura magricela dos meus 8/9 anos.
Nos tempos em que o Algarve era um pequeno paraíso...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Bitching

A Ana de Amsterdam, que subitamente revelou o seu nome completo (timing curioso visto eu andar a pensar inaugurar, com atraso, o terceiro ano de vida deste blog saindo do anonimato de trazer por casa que nunca o foi), referiu que não há gato-pingado que, por estes dias, não fale do escritor russo Nikolai Gogol.
Eu realmente passei os olhos pela crónica da Clara Ferreira Alves já não sei em que revista do Expresso (está aqui) e fiquei desconcertada com a quantidade de nomes complicados, russos e não russos, que ela conseguiu referir em duas ou três colunas, destacando-se o referido Gogol, com uma pequena listagem da obra, ao melhor estilo didáctico (ou seria kitsh?). Tamanha erudição deixou-me com os olhos em bico (coisa que julgara anatomicamente impossível).

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Gesubambino

Um recado ao Jansenista: esta música do Chico impede-me, e deveria impedir-nos a todos, de ler os posts publicados, porque é absolutamente inevitável ficarmos enredados na letra - mesmo se a soubermos de cor e salteado.

domingo, 12 de abril de 2009

Páscoa

Páscoa é perdão. Já escrevi sobre o perdão aqui e mantenho, sendo certo que continuo com dois - os mesmos dois - perdões solitários e dolorosos alojados na garganta.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Outras dores

Queria falar sobre a amizade e os desgostos, ou os desgostos na amizade ou, melhor, o desgosto de descobrir a ausência de amizade. Mas percebo (percebo constantemente) que, uma década depois, ainda se me aperta a garganta e dói como o raio.
O que me dificulta as palavras.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Dor

Umas cambalhotas na relva com os miúdos tornaram dolorosamente evidente que já não tenho 20 anos. Ao fim de 10 horríveis minutos para conseguir tornar a pôr-me de pé, passei a caminhar à bolina, o pescoço torcido de uma forma muito pouco elegante e natural. Mas nem tudo são desgraças: o incidente teve o condão de, como por encanto, dissipar a maior telha dos últimos tempos. Nada como uma dor física lancinante para repor todas as coisas na devida perspectiva.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Sul

Retirei-me para o sul. Entre o sol, o céu azul por entre as copas dos pinheiros, a praia (deserta!), os passeios e os gelados, cessam as palavras.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Vida de bairros

Muito se fala dos pequenos prazeres da vida de bairro, naqueles onde se vai a pé da tabacaria para o café, da padaria para o talho, da mercearia para a farmácia, e por aí fora. Para quem tenha muita sorte como eu, do jardim até à praça, ao sábado logo pela manhã. Mas eu tenho ainda mais sorte do que isso porque vivo simultaneamente em vários bairros: onde moro, onde trabalho e onde os meus filhos vão à escola. Para muitos, o ideal seria que se reunissem todos num só, mas eu adoro o privilégio de ter três tabacarias onde compro o jornal pela manhã e troco dois dedos de conversa sobre o tempo, sabendo que serei devidamente avisada quando sair a Ler; três cafés onde me basta entrar e dizer bom dia sem precisar de mencionar ao que venho, e vou seguindo as pequenas histórias dos clientes habituais; duas farmácias onde me perguntam pelos meninos e, se vou com eles, os recebem com carinho e atenção; duas mercearias onde me tratam pelo nome e oferecem morangos à pequenina (o mais velho prefere bananas), e por aí fora; de poder tratar pelo nome todas estas pessoas que me atendem com um sorriso e recebem o meu bom dia como um cumprimento pessoal e não uma sensaborona formalidade. E de poder frequentar todas estes lugares alternadamente, sem regras muito certas porque os meus dias também nunca o são, nem eu gostaria que fossem.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O diabo está nos detalhes

Sentou-se para o pequeno almoço na mesa ao meu lado, todo aprumado, o polo encarnado ajeitado dentro das calças. Estendeu o Correio da Manhã, lado a lado com o meu Público. No final, pediu ao empregado um copinho de água.

Alberto

Chegou logo pela manhã, de passagem, entrando só para dizer olá. Encorajado pelo abraço efusivo com que o recebi, instalou-se do outro lado da secretária coberta de processos e papeis. Tem a idade do meu pai (70 e poucos anos) mas sempre foi, para cada um de nós, o companheiro sem idade dos longos anos de aventuras náuticas da família. Depois de desabafar sobre as maleitas da idade, coisa que nunca lhe ouvira e em que incluiu um recente internamento hospitalar de que eu nem tivera conhecimento, passámos a falar do mar, tema recorrente nas memórias conjuntas e experiências individuais. A páginas tantas divagámos sobre "o barulho do mar", aquele som só perceptível na completa imersão de um mergulho: os estalinhos cadenciados intercalados de profundos silêncios, o gemido quase imperceptível da massa viva, o sopro abafado da imensidão de água em contínuo movimento. Foi aqui que, repescando memórias, ele recordou um episódio que eu tantas vezes evoco, numa manhã de calmaria a meio caminho entre as ilhas do Porto Santo e da Madeira, em que num rompante de espontaneidade nos atirámos ao mar e ficámos a flutuar no azul mais intenso e envolvente de que tenho memória, sentindo a emoção dos 3 km de profundidade sob os nossos corpos subitamente livres do peso de todas as coisas. Guardo, algures, um instantâneo que pretendeu registar o momento e capturar o azul, ainda que, para aquele episódio no mês de Agosto de 1997, nenhum de nós precisará jamais de auxiliares de memória.
Saiu já quase pela hora do almoço e depois de o ver sair alguém comentou que estaria mesmo a precisar de conversar. Embora o comentário se referisse a ele - coisa de velho - serviu-me a mim que nem uma luva.

Gran Torino

Finalmente fui, já um bocado a medo por causa das expectativas trazidas pelo eco dos comentários, que evitei ler (a unanimidade torna-me desconfiada). Mas Gran Torino cumpriu e excedeu todas as possibilidades. Abrindo com aquele rosnar de Clint Eastwood com que poucos, além do próprio, sairiam impunes, fui literalmente carregada em braços pela eloquência galopante. Ri, ri muito (a cena na barbearia entre o polaco, o italiano e o chinês é irrepetível) e, quando chorei, foram lágrimas grossas que escorreram até ao queixo.
O que mais se pode querer?