segunda-feira, 30 de março de 2009

A saudade

Que dói, sempre, tanto, a todo o tempo. Que carregamos num simulacro de resignação sem nunca nos conformarmos. Que se nos espeta no peito ao acordar e geme fundo no adormecer. Que nos tira o fôlego no lampejo de uma recordação e nos faz querer ficar quietos, sós, enrolados por dentro, detidos à espera que a vida nos esqueça ou por milagre impossível nos leve ao bem que já não é, àqueles pedaços de instantes mágicos em que vislumbrámos a verdade e provámos a essência de tudo o que alguma vez ousámos querer.

domingo, 29 de março de 2009

Quem não chora...

Obrigada, Luis Serpa, do Don Vivo (um pequeno trabalho de pesquisa permitiu-me chegar-lhe à morada, que conheci com prazer) por se compadecer com o meu choradinho e incluir-me no círculo da corrente. Já não sei qual a frase nem qual a página que é suposto reproduzir, por isso sigo-lhe o exemplo e cito uma passagem de um livro que retirei da estante - ergo sempre à mão - uma das minhas melhores descobertas (tardias) de 2008. Convido quem quiser reconhecer o título e o autor - não vale googlar! - e até talvez me ponha a pensar num prémio adequado.

Quarenta e um anos é muito tempo. Reflectiste bem sobre isso, não é verdade?... Mas depois voltaste, porque não podias fazer de outra maneira. E eu estava à tua espera, porque não podia fazer de outra maneira. Ambos sabíamos que nos íamos encontrar mais uma vez e que depois tudo terminaria. A vida e naturalmente tudo que dava sentido às nossas vidas e mantinha a tensão até esse momento. Porque nos segredos que existem entre ti e mim, há a uma força singular. Queima o tecido da vida como uma radiação maligna, mas, ao mesmo tempo, também dá calor à vida e mantém a tensão. Obriga-te a viver... Uma pessoa vive enquanto tem coisas para fazer nesta terra. (...) A solidão também é uma coisa bastante curiosa... às vezes é como una selva, cheia de perigos e de surpresas. Conheço todas as suas variantes. O tédio que queres afastar em vão, com um modo de vida construído artificialmente. Depois as crises súbitas. (...) Mas é pior quando uma pessoa reprime essas emoções que foram acumuladas na alma pela solidão. Não corre para lado nenhum. Não mata ninguém. Que é que faz? Vive, espera, mantém a ordem. Vive, como os monges, segundo um regulamento pagão, laico... mas para o monge é fácil, porque tem fé. Essa pessoa que entregou a sua alma e o seu destino à solidão, não tem fé. Espera apenas. Espera aquele dia ou hora em que possa discutir mais uma vez, com a pessoa ou as pessoas que o levaram àquela situação, tudo o que o obrigou a aceitar a solidão. Prepara-se para o tal momento, durante dez ou quarenta anos, mais precisamente, durante quarenta e um anos, como se prepara para um duelo. Arruma tudo na sua vida, para depois não dever nada a ninguém, caso seja morto no duelo. E pratica todos os dias, como fazem os esgrimistas profissionais. Com que é que pratica? Com as suas recordações, para que a solidão e o fascínio do tempo não apazigue nada na sua alma e no seu coração. Porque existe um duelo na vida, sem espadas, para o qual vale a pena preparar-se bem. E esse é o mais perigoso. Mas um dia chega o momento. Tu também pensas assim? - pergunta delicadamente.
- Exactamente - diz o convidado. E olha para a cinza do charuto.
- Estou contente por tu também pensares assim - diz o o general. - É esta esperança que me mantém vivo. Naturalmente, também tem um limite, como tudo na vida. Se não soubesse que um dia voltavas, provavelmente era eu que, ontem ou vinte anos atrás, teria ido à tua procura, perto de Londres, na tua casa ou nos trópicos, entre os malaios, ou no fundo do inferno. Porque te teria procurado, sabes isso bem. Parece que uma pessoa sabe as coisas decisivas, verdadeiras.

Escrevo enquanto acabo a Super Bock com que acompanhei o caril de gambas do jantar, ao som do maravilhoso silêncio da casa adormecida.
E... passo a corrente ao PVM, leitor assíduo e autor esporádico d' O Buraco da Lua. Siga...

quinta-feira, 26 de março de 2009

O que é que o Twitter tem?

Não sei e, apesar da curiosidade, não arrisco saber: já comprimi a minha actividade profissional o bastante para manter este espaço de socialização esquizóide, lá em casa duas pequenas esponjas não me deixam reduzir o tempo de dedicação (uma questão de direitos adquiridos), tudo somado ao período de lazer que se cumpre nos poucos passeios em família, algumas leituras e meia dúzia de filmes, a reconquistada actividade física e, last but not least, os indispensáveis momentos de silêncio, solidão e devaneio - aqueles que verdadeiramente mantêm a minha sanidade mental - já vai sendo bastante.
Alguém disse que o twitter está para os blogues como os jornais para os livros. Este post, por exemplo, tem 1214 caracteres; se fosse no twitter, teria-se-ia interrompido nos 140 completados em esquizóide - e daí não viria mal ao mundo - mas eu diria que o twitter está para os blogues como os cabeçalhos estão para os corpos das notícias, as fotografia para os momentos, os postais para as viagens, os actos para os sentimentos, os retratos para as pessoas, os preconceitos para a realidade.
Por ora, fico-me pelos segundos, sendo certo que a minha pseudo-presença no facebook não conta para o campeonato: não atinjo o âmago da coisa, limitando-me a usá-lo à laia de email; e o email, tantas vezes, à laia de epístola.
Eu não me sei explicar numa frase (por mais comprida): se assim tiver que ser, prefiro o silêncio. Sobretudo, na maior parte do tempo, prefiro que ninguém saiba o que é que ando a fazer.

terça-feira, 24 de março de 2009

Assim tal e qual

Uma achega (áspera) ao que eu disse abaixo, no Controversa Maresia a propósito do Provedor de Justiça.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Do Direito

Alguém questionava porque é que tanta gente que passou por Direito tem tamanho horror ao curso. Olhando para trás, lembro-me de uns bichos exóticos que saltitavam de contentes por entre manuais, sebentas e aulas teóricas, casos práticos e conceitos abstractos - mas esses não eram, claramente, a maioria. Para a maior parte de nós, os "normais" - e note-se que "os normais" neste caso eram a elite dos estudantes de direito, fruto de apertada selecção via as horríficas médias - o curso era uma chatice pegada: qualquer tema potencialmente interessante era arrasado à partida pelo fastio das exposições prolongadas, y compris a evolução histórica, ou a inépcia de alguns assistentes, eles próprios tantas vezes alheados da realidade. Alguns deles, muito poucos é certo, até eram advogados mas nem um só se lembrou, numa qualquer aula de Processo Civil, de mostrar à massa estudantil um processo genuíno e verdadeiro, requerimentos e despachos cozidos com agulha e linha, como só vim a descobrir quando iniciei o estágio. Tudo era abstracto, tudo era teórico, como se o direito fosse uma realidade redonda, perfeita e alheada do mundo real: o declarante e o destinatário, o promitente e o promissário. Os romanos e os germanos.
Agora, sobretudo agora, compreendo a importância dos conceitos e do estudo teórico - ainda hoje me valem - mas confesso que o único entusiasmo que alguma vez senti era o que surgia inesperadamente no estudo solitário em vésperas de exames, eu a sós com os conceitos, que não me lembro da intermediação de um qualquer mestre ter motivado a aprendizagem. Se lá voltasse hoje, com mais de 15 anos de imersão na realidade jurídica/judiciária, iria seguramente munida de mil perguntas pertinentes e um interesse genuíno em debater os temas. Acontece que o curso é ministrado a jovens em fim de adolescência e não a juristas a entrar na casa dos 40: eis o busílis da questão.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Invídia

Circula por aí, outra vez, uma corrente que desafia o destinatário a reproduzir a frase # tal, da página # tal, do livro mais à mão. Mais valia perguntarem logo qual é o livro de cabeceira de cada um, que as frases não têm, evidentemente, qualquer espécie de interesse e cada qual responderia como bem lhe aprouvesse, a pergunta sobre o livro de cabeceira, para além de pretensiosa, já está um bocadinha vista, o que talvez justifique o arrebique.
Os suspeitos do costume lá vão desfiando as respostas e fazendo seguir a corrente, ao jeito do eu-indico-te-a-ti-e-um-dia-tu-hás-de-devolver-a-amabilidade-e-indicar-me-a-mim, típico de um certo círculo deste meio, sentido-se quem sabe muito espertos ou meio disparatados ou ambas as coisas, como um dia nos sentimos todos nós quando miúdos ao participar numa daquelas correntes dos envelopes que nos faria milionários, feita truque de magia para os eleitos que fossem mesmo muito espevitados.
Mas, claro, isto não passa de inveja da mais mesquinha, então não há por aí uma alminha que se compadeça e me envie a corrente pondo-me a circular no círculo do meio, ai o que eu às vezes me canso desta coisa do blogue e o poema do Cesariny aqui ao lado sempre tão actual e pertinente.

terça-feira, 17 de março de 2009

Os advogados, por Pedro Mexia

Agora é que o Pedro Mexia a fez boa e bonita. As generalizações são inevitavelmente injustas e disparatadas mas confesso que eu, que não enfio a carapuça, cruzo-me com tantos, assim tal e qual (a azia de ter que lidar com eles…). Haja quem faça uso da liberdade de opinião: a avaliar pelo meu secreto gozo, posso imaginar o gáudio com que o resto da população recebeu a crónica no Público, a contrastar com - e justificar o - escândalo manifestado pelas prima-donas da classe. Quem fala assim não é gago e imagino que tem pouco a perder, o que só por si é de admirar.
Apenas me quer parecer que o Mexia peca pela tendência de se dar com certas elites. Entre esses e os coçados de Lamego, ainda resta alguma boa gente. Ora aguce lá a vista, caro Mexia.

Thanks

Muito comovida e agradecida, caro Jansenista.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Dois

Este blogue comemora amanhã dois anos: fico logo angustiada a pensar que é a data perfeita para o encerramento. É difícil de explicar, mas manter um blogue é uma coisa um bocadinho maníaco-depressiva, um tanto ou quanto neurótica. Confundem-se prazer e obrigação, realização e frustração, domínio e escravidão.
Talvez seja caso para se dizer o seu a seu dono. Verifiquei, no entanto, que há outros que me compreendem, como a Ana de Amsterdam, a propósito do Pastoral Portuguesa.
Sosseguem-se as hostes (as if ): estou empenhada em sobreviver à data.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Erros meus...

Há conversas que são como um remake de um filme antigo com sucessivas versões: o guião é o mesmo com o devido espaço para improvisação, eu desempenho o mesmo papel, muda apenas o outro protagonista. Às vezes nem isso.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Madrigal

Imagino que estou finalmente a fazer alguma coisa bem quando a de 3 anos, olhando-me de alto a baixo antes de sairmos de casa pela manhã diz, com toda a espontaneidade (juro) : "A mamã está muito gila!".
Repare-se que para isto tive eu própria que fabricar uma pessoa.
Nem de propósito: passou na televisão o 84 Charing Cross Road, de 1987, com Anne Bancroft, Anthony Hopkins e Judi Dench. Um filme delicioso, envolto numa paixão comum pelos livros usados.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Registos

Não tive a oportunidade de dizer que a entrevista a Patti Smith na Ípsilon da sexta-feira passada era a não perder. Ficou uma forte impressão.
Aproveito para contrariar o comentário de Bárbara Reis, mais adiante, de que "os jornais em papel vão acabar" e "o online é o futuro". Ela desafia-nos a olhar à nossa volta (você é um ser raro, olhe à sua volta) e eu fiz isso mesmo: levantei a cabeça do jornal e constatei que, no pequeno café com quatro mesas ocupadas, três de nós estávamos a ler o (mesmo) jornal. Os outros dois, aliás, na mesma página, o que me fez sorrir, deliciada, e depois me levou a pensar nisto dos e-books. Sou e sempre tenho sido uma adepta das novas tecnologias mas há coisas que não entram e os e-books encabeçam a lista. Nunca experimentei - na verdade acho que nem nunca vi - um e-reader, mas fico angustiada só de imaginar a dor de cabeça provocada pelas horas acrescidas de luminosidade no monitor, o calor sintético a emanar do aparelho, o leve zumbido (?) a perturbar o silêncio. A ausência do toque e do cheiro. A ideia de que um livro passe incólume pelas minhas mãos, sem que disso guardemos - nem o livro nem eu - qualquer registo corpóreo. Como um sonho que se perde ao acordar.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Fogo

Um cálculo subestimado do tempo colocou-me sentada no carro à porta do colégio da minha filha com quase uma hora de espera. Peguei no livrinho de poesia e prosa de Maria Teresa Horta que saiu com a Visão e de uma assentada, gulosamente, li toda a poesia e grande parte da prosa, concluindo com um sorriso interior pela súbita reminiscência de uma tirada num filme de Manoel de Oliveira (Vale Abraão, se não me engano) : "Aquela mulher é uma fogueira!"
Ora as fogueiras, bem o sabia quem proferiu a tirada, ateiam fogos.

terça-feira, 3 de março de 2009

good cop / bad cop

Ontem participei numa reunião que remeti imediatamente para os anais da minha história profissional: de um lado, o advogado que tentava colmatar a excessiva juventude com agressividade; do outro lado, o advogado que tentava colmatar a excessiva fraqueza da posição que defendia com agressividade; no meio, eu, a tentar compensar o excesso de testosterona da sala enquanto pensava que a agressividade serve realmente para colmatar muitas falhas - mas não substituirá nunca a assertividade.
Foi giro e até produtivo a partir do momento em que, aproveitando a situação, imaginei que interpretava uma daquelas good cop/bad cop routines, saidas dos filmes policiais. Eu era a polícia boa, evidentemente.

Guiné-Bissau

O jornalista Pedro Cruz estava a explicar à SIC notícias o que é, hoje, a Guiné-Bissau. Ele explicou com simplicidade e sem floreados. Eu fiquei esclarecida. Coisa rara no jornalismo televisivo português.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Revolutionary Road

Estou cada vez mais indecisa entre ver o filme e ler o livro. O peso das críticas (respectivamente a desfavor e a favor) e a quantidade de filmes na calha fazem-me pender para o segundo. O único senão é que agora só se encontra o livro com a capa do filme - Leonardo Di Caprio and all.
Entretanto isto corre sérios riscos de se estar a tornar um blogue sobre cinema.