sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

(H)Asta la vista

E eu escapei-me por uma semana a viver a minha pequena vida em zona montanhosa.

A crise

Michel Wieviorka, reputado estudioso das ciências sociais, diz em entrevista ao Público de hoje, a propósito da crise, que na Europa "estamos a tentar salvar a banca, as indústrias clássicas, os empregos, etc. Não parecemos muito empenhados em criar uma nova era. (...) Estamos em crise. Claro que temos que salvar a vida de muita gente, o que significa salvar empregos. Mas podemos tentar investir a longo prazo."
Diz outras coisas tão lógicas quanto assustadoras, nomeadamente no que respeita à xenofobia. Verdadeiro arauto da desgraça, acrescenta que isto ainda não é nada: estamos na fase em que "as pessoas estão a viver a sua pequena vida e o barco já está a afundar."

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Be carefull with what you wish for

Na esteira de conversas recentes e de situações que venho observando, na minha cabeça surgem ecos sucessivos daquela máxima: be carefull with what you wish for (you might just get it).

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

De volta a Vicky e Cristina (com spoiler alert)

Reproduzo aqui (com revisão) os argumentos que apresentei ao seguinte comentário do NB:

"mas por que é que ninguém que eu conheça se lembra de falar da velha... sim, da velha casada, com um amante que é sócio do marido, que vive num palacete, tipo zombi, atávica na riqueza e aborrecimento em que mergulhou..."

Caro NB,
Por caso não falei mas pensei em fazê-lo e tê-lo-ia feito caso tivesse desenvolvido mais o meu post. Ela é a quarta versão feminina da história e o seu papel é tão importante quanto o das restantes: ela representa o futuro, a outra face da moeda em que Vicky quer apostar e aquela de que Cristina quer a todo o custo fugir. Ela é o futuro burguês gritantemente doloroso e assustador para todas elas: as mulheres do filme vivem em função desse medo, embora de formas diferentes. A Cristina vive-o pela negativa (só sabe que aquilo é precisamente o que não quer) o que não deixa de ser irónico. A Vicky é levada a reconhecer que receia aquilo que sempre buscou, quando confrontada com a possibilidade de si própria dali a vinte anos, e não mais se livrará desse amargo na boca. Quanto à mulher mais velha, sabe já o que as outras só podem tentar adivinhar e temer: essa é a prerrogativa e simultaneamente a maldição de quem já fez as suas opções e percorreu um caminho na vida. Mas, NB, chamar-lhe "a velha" parece-me um excesso de juventude. Quanto anos ela terá?? Quarenta e muitos, cinquenta, e repara que em boa forma.
Finalmente, quanto à Maria Elena, para mim é apenas o elemento sexy (muito sexy) e folclórico, o contraponto de intensidade e liberdade - note-se, nem por isso menos angustiada - que serve a história e as outras, como um catalizador, não sendo importante em si mesma. Às tantas ela vai à sua vida e nós estamo-nos pouco lixando para o que lhe vai acontecer. Ao contrário da cena final do aeroporto, onde partimos (ou talvez regressemos) com Vicky e Cristina, acompanhando-lhes as angústias.
Ou se calhar sou só eu...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

14 de Fevereiro

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora de mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca (Charneca em Flor)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Milk

Afinal fui ver o Milk. É quase um documentário: uma história daquelas só poderia ser contada com a substância e densidade desejáveis no dobro do tempo disponível. É pena, porque é uma grande história e Sean Penn é um grande actor.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Cutucar a onça com vara curta

Apreciadora que sou dos filmes de Clint Eastwood, venho exercendo a necessária contenção para evitar ir ver o Changeling (A Troca). Passo a explicar: tinha o meu primeiro filho uns quatro ou cinco meses de vida quando fui inesperadamente confrontada com uma conversa sobre rapto de crianças. O choque provocado pela súbita tomada de consciência desta realidade, na minha novíssima vulgo hipersensível qualidade de mãe - imersa nos desvelos de primípara e perfeitamente alheada da crueldade do mundo - foi de tal ordem que fiquei traumatizada. Por motivos que eu própria desconheço (que não sou dada a obsessões com a saúde e segurança dos meus filhos) fixei-me de forma insana na ideia do horror, tive noites de insónias e durante meses fui perseguida pelo medo irracional de perder um filho assim, da pior forma concebível. Desconfio, até hoje, que a semente de tudo foi o romance de Ian McEwan "A Criança no Tempo" que lera um par de anos antes e muito me impressionara, mas cujo verdadeiro alcance ficara em germinação até aquele momento. Fui tomada de uma ansiedade tão inexplicável quanto inconfessável relativamente ao assunto, que só o tempo conseguiu resolver. De lá para cá, os confrontos com os relatos públicos de crimes dessa natureza (e não têm sido poucos) são geridos com recurso a luvas de pelica.
Decidi pois, logo de início, não ver o Changeling. Mas, conforme o tempo passa, a tentação cresce. Será a cura definitiva ou estarei, como dizem os brasileiros, a querer cuturar a onça com vara curta?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Vicky Cristina Juan Antonio Maria Elena

Dizem que é o Woody Allen mais fraquinho: discordo. Falam em clichés: o universo woodyalleniano sempre foi feito de gente normal em situações banais. Afirmam que quando Penélope Cruz entra arrasa com as outras duas: essa é a prerrogativa da personagem Maria Elena e, ainda assim, só numa leitura muito imediata (todo o espalhafato latino não consegue, afinal, abafar a intensidade interior das americanas). Não percebem porque é que Scarlett Johansson é a nova musa do realizador: ele negou mas, se fosse, eu percebia. Queixam-se que não mostra Barcelona em todo o seu esplendor: so what?
Woody Allen nunca é tempo perdido. Não cessa de me espantar a forma como os actores encarnam o próprio realizador - é como se este "baixasse" sobre aqueles. Neste caso, muito sobre Cristina/Scarlett Johansson e fugazmente (que mais não se pretendia) sobre Vicky/Rebecca Hall.
E, depois, há o Javier Bardem.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Rigores

Cavaco Silva vetou a alteração à lei eleitoral que pretende pôr fim ao voto por correspondência dos emigrantes, nas eleições legislativas. Acho que fez muito bem e é pena que não possa também sugerir a alteração das normas estabelecidas no que respeita às eleições presidenciais. Quem, como eu, já se inseriu na diáspora portuguesa espalhada pelo mundo, conhece bem o pesadelo das deslocações ao Consulado, a começar, tantas vezes, pela distância e inacessibilidade do lugar e a terminar nas filas homéricas que esgotam a paciência a qualquer ser humano. Ao Consulado, só em caso de absoluta necessidade, o que não pode deixar de perverter a vontade e disponibilidade de cada português residente no estrangeiro para o exercício do direito/dever cívico de voto. Acontece que os deputados portugueses revelam grande preocupação com a possibilidade de fraude eleitoral quando, no que respeita ao voto dos emigrantes, não têm sido relatados, nem tão pouco invocados, quaisquer casos de fraude. Estarão, porventura, a ser mais papistas do que o papa e deveriam talvez empenhar-se em assegurar outro tipo de rigor, sendo certo que o que me preocupa a mim, quem sabe à maior parte dos eleitores, é a fraude pós-eleitoral - a que acontece no exercício dos altos cargos públicos e se traduz em favorecimento pessoal, corrupção, laxismo, et caetera.
A título de comparação, uma amiga americana residente em Londres contou-me como exercera o seu direito de voto nas presidenciais: por fax. Esta aparente ausência de rigor, no que respeita à expressão do voto pelo eleitorado (incluindo a possibilidade do voto antecipado por correspondência, dentro do país), é contraposta pela severidade com que os americanos exercem o escrutínio dos candidatos ou nomeados aos altos cargos da nação. Imaginemos se cada um dos ministros e secretários de estado portugueses indigitado fosse sujeito a averiguação e confirmação, à americana: isso sim seria bonito de se ver. Quem sabe, evitaria alguns dissabores.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sempre a bola

Que espaventosa chatice esta coisa dos gajos que mantêm blogues interessantes, agradáveis ou refrescantes não resistirem a discorrer sobre futebol, em longos posts intragáveis que os reconduzem (leia-se reduzem) ao modo básico macho lusitano e logo não interessam à outra metade da população e nem ao Menino Jesus, acaso tivesse nascido menina. Que se entreguem às transmissões televisivas, que se desloquem aos estádios, que discutam à mesa do café - vá - agora que discorram por escrito sobre a bola, mimoseando-se uns aos outros com elaborados argumentos do foro técnico-desportivo (leia-se troca de galhardetes), ultrapassa a minha humilde compreensão e cada vez mais curta paciência.