sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Neurose Tropical

Mónica Marques é a autora do livro de que se fala: Transa Atlântica. Aos 38 anos, portuguesa a viver no Rio de Janeiro, um marido e dois filhos, escreveu sobre "o tédio burguês feminino". Diz a autora, em entrevista à Ípsilon, e não sem ironia (sic) , que o livro "é o sonho de uma mulher burguesa. É sobre o que acontece quando se chega a uma certa altura da vida. E nesse sentido é autobiográfico, porque chega um momento em que pensas: "Que raio de merda é esta que estou a viver?""
Pois.

Hoje, na costa ocidental

Tempo cinzento. Vento forte. Mar encrespado. Chuva. O raio da chuva.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A arte de conversar

Saber conversar é qualidade rara e difícil de encontrar. De entre todas as pessoas que fui conhecendo ao longo da vida, algumas impressionaram-me verdadeiramente por possuírem o dom da conversa, pela forma equilibrada como conseguem conjugar a vontade de expor as suas impressões e o interesse em ouvir as dos outros. O bom conversador é aquele que, não só tem coisas interessantes para dizer, como tem genuíno interesse em ouvir e conhecer a outra parte, criando um fluxo de interacção e curiosidade mútua capaz de gerar um diálogo espontâneo, agradável e gratificante. O bom conversador faz-nos sentir seguros, interessantes, cultos e inteligentes, revelando as nossas melhores capacidades de comunicação. Exactamente o oposto do que produz a arrogância intelectual e/ou social de quem se exibe, abafando ou diminuindo o seu interlocutor.
Quanto a mim, passei a maior parte da vida do lado passivo da conversa, o que nunca fez de mim uma boa conversadora, apenas uma excelente ouvinte. Ao fim de muitos anos, quando comecei a reverter o sentido da comunicação, esbarrei, em alguns casos sintomáticos, com a incompreensão e a incapacidade de aceitar a alteração das circunstâncias - o que inevitavelmente conduziu à reformulação de certos parâmetros de amizade. E, quem sabe, à criação deste blogue.
Tudo isto vem a propósito de um artigo de Paul Johnson no Spectator, sobre sofisticação. É que a arte de conversar tem tudo a ver com sofisticação: aquela sofisticação natural, inata e despretensiosa que é só de alguns.
Ide, pois, e conversai. Com interesse, abertura, honestidade e a dose certa de humildade. Há poucas coisas mais agradáveis do que uma boa conversa.

I, Barack Hussein Obama


Cheguei à televisão nos minutos iniciais do discurso e ali fiquei agarrada, horas, colada ao estado de graça.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Estado civil

Em 15 anos de profissão já acompanhei o divórcio de dezenas de casais. Não me compete, nem quero, pronunciar-me sobre as questões éticas que envolvem as recentes alterações legislativas ao divórcio. Só sei que agora o processo é muito mais fácil e muito mais civilizado - tão fácil e tão célere que não sobra tempo aos casais para debaterem ad nauseam os pecadilhos, as motivações, as mágoas e os desamores, arrastando durante meses/anos a intermediação dos advogados, que ali estavam também para aliviar tensões. Agora, a sua (nossa) intervenção, a acontecer, torna-se, na maior parte dos casos, tão simples, rápida e fria quanto o próprio processo. A temida conferência de divórcio perdeu, aparentemente, aquela carga de tensões que tinha outrora, quando se realizava perante um Juiz e acontecia no culminar de um longo processo judicial. Aparentemente, porque não me é dado a conhecer o estado psicológico dos cônjuges naqueles dez minutos que comparecem perante o(a) Conservador(a), e não lhes acompanhei as dúvidas e ansiedades durante meses sem fim. O certo é que a facilidade da via "amigável" desmotiva, em grande medida, a sede litigiosa dos casais em vias de divórcio, o que não pode deixar de ser considerado um benefício para todos os envolvidos.
As alterações mais recentes reflectem-se até na nomenclatura: O "divórcio litigioso" passou a "divórcio sem consentimento do outro cônjuge" e o "poder paternal" passou a "responsabilidades parentais". Tudo muito politicamente correcto e civilizado.
As alterações legislativas reflectem a percepção/aceitação social do divórcio e simultaneamente influenciam-na. Estas são as consequências imediatamente perceptíveis.
Só não é possível estabelecer, por ora, as consequências profundas desta alterações, a nível psicológico, cultural e civilizacional.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Timing (it's a bitch)

Nada, ou quase nada, é irreversível - disse.
E ela, que tanto lhe queria falar em reversão, emudeceu.

Erros crassos

Na LER deste mês, uma pequena chamada fazia referência à gralha que constava da capa da LER do mês passado e que, apesar de todo o trabalho de edição, passou em branco, só vindo a ser denunciada por alguns (poucos) leitores mais atentos: faltou o "l", na palavra "última", na frase "a última entrevista de António Barahona." Eu própria não a vi.
Fiquei um bocadinho aliviada ao perceber que até os profissionais cometem enganos como este. Um bocadinho só, porque há muito pior: de cada vez que me calha reler um post antigo deste blog, descubro não só gralhas como, horror dos horrores, alguns erros ortográficos que me passaram completamente desapercebidos e ali ficaram plantados - de forma tão estridente e dolorosamente evidente. Parece haver dias em que o meu léxico interno funciona a meio gás. É um caso de polícia, para quem foi educada em duras penitências por cada erro ortográfico.
Depois de quase dois anos a resmungar pela inexistência de corrector ortográfico no Blogger, só agora descobri para que serve aquele botão ali em cima, aquele que diz ABC - e que eu, míope, julgava até à semana passada que dizia REC. Irra.
Prometo, daqui para a frente, textos cientificamente editados no que respeita à ortografia. Quanto ao resto, nada a fazer. E vão continuar a levar com uma quantidade injustificável de anglicismos. É mais forte do que eu.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Acerca da guerra

Uma vez esgotadas todas as perguntas que lhe ocorreram, ao longo dos últimos meses, sobre a morte, o meu filho de cinco anos passou agora à análise e decomposição do conceito de guerra. Pergunta-me, a propósito das brincadeiras que aprende no recreio, das histórias que ouve ler ou dos desenhos animados que vê na televisão - e apesar da minha criteriosa intermediação - porque é que os reis lutavam uns contra os outros; porque é que os príncipes usavam espadas e lutavam entre si; porque é que conduziam os seus soldados para as batalhas; porque é que os cowboys lutavam com os índios e queriam matá-los, e assim por diante, sempre conjugado no passado, porque desde logo fui esclarecendo que isso era dantes. Tento explicar-lhe (tarefa ingrata) que essa lutas, batalhas e guerras aconteciam porque os reis, os príncipes, os cowboys e os povos em geral queriam conquistar e/ou preservar os territórios, desenvolvendo e tirando proveito das terras (não me atrevendo a entrar, por ora, na questão religiosa). E agora, pergunta ele, e eu respondo que agora estamos mais evoluídos, que os territórios, os estados, as nações já estão devidamente delimitados e regulamentados por leis a que todos devem obediência, servindo os exércitos para manter esses limites e fazer cumprir essas leis. Então agora já não há guerras, quer saber, e eu, engolindo os discursos sobre o crescimento individual e civilizacional, a aprendizagem do diálogo com o outro, do respeito pelo outro e do estabelecimento de regras de sã convivência entre as pessoas e os povos, sou obrigada a dizer que sim, que as há, ainda que e felizmente para nós, longe, em terras distantes. Obrigada a confessar que nem todas as pessoas crescidas aprenderam e praticam tudo aquilo que eu gostaria que os rapazinhos de cinco anos, a seu tempo, aprendessem e praticassem. Que continuam a fazer a guerra, sim, e pelas mesmas razões (e não me atrevo, por ora, a entrar na questão religiosa).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Shirshasana

Uma das características do Yoga é permitir uma evolução gradual e muito pessoal das nossas capacidades físicas e mentais enquanto, ao ritmo e de acordo com a motivação de cada um, trabalhamos os dois nobres instrumentos que nos são concedidos à nascença: o corpo e a mente.
No Hatha Yoga, trabalhamos para conseguir realizar os asanas, termo que designa um conjunto de posturas do corpo que proporcionam diversos benefícios a nível físico e orgânico. As posturas requerem um treino rigoroso de flexibilidade, alongamento e equilíbrio, exercitando músculos, tendões e articulações. É também fundamental o controle da respiração (e controle não significa interrupção, muito pelo contrário), que é desenvolvido através de um conjunto de exercícios próprios designados por pranayama. O contributo da mente é igualmente importante na medida em que, para além do treino fundamental ao nível da consciência e controle do corpo, é preciso vencer o medo: o medo da dor física, o que não significa, de modo nenhum, ignorar a dor ou desconforto físicos. As posturas devem ser praticadas até ao limiar do desconforto, e nunca para além dele. Na medida em que o medo da dor é um mecanismo de defesa que actua antes da dor efectiva, e a medida da distância entre ambos varia amplamente de pessoa para pessoa, o desafio é empurrar a fasquia do medo, desenvolvendo a confiança nas nossas capacidades físicas. No meu caso, tenho a sorte de ser muito pouco dada a medos físicos, o que é meio caminho andado.
Uma vez conseguida a postura, o desafio seguinte é mantê-la, aumentando gradualmente o tempo até ao limiar do desconforto. E é precisamente esse o terceiro desafio: tornar a postura natural e confortável, acomodando-nos a ela por meio da descontracção física e mental, por forma a tirar inteiro partido do bem-estar e benefícios que proporciona. A sensação que obtemos quando atingimos o conforto absoluto é quase indescritível. As possibilidades são praticamente infinitas e cada um deve procurar desenvolver as posturas que melhor se adaptem às suas necessidades, dentro do programa que se propõe seguir e mediante adequada orientação.
Foi assim que, ontem, cheguei à postura que tanto ambicionava: a invertida sobre a cabeça, ou shirshasana, que alguns consideram a rainha das posturas. Por agora, na versão contra a parede, o que não diminuiu em nada o estado de satisfação quase eufórico que a sua concretização, inesperadamente leve e simples, me proporcionou (sendo que, com ou sem o apoio da parede, a postura em si é precisamente a mesma). Quem sabe um dia - próximo ou distante, não interessa - conseguirei sair de junto da parede e, no meio da sala, colocar-me e permanecer assim:


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Red Bus

Na minha mais recente visita a Londres, fui fazer um tour com o meu filho no tão tradicional hop-on-hop-off Big Red Bus e, entre subidas e descidas, andei em vários dos mais antigos autocarros vermelhos de dois andares, daqueles muito gastos e usados, nada desses confortos modernos de climatização inteligente e amortecimento dinâmico. Tal qual os verdinhos que circulavam em Lisboa quando eu era miúda e há muito passaram à história, quando Portugal acelerou rumo à modernidade. Ocorreu-me que, de facto, somos tristemente novos-ricos (sem sequer o sermos), quando fazemos tanta questão em permamentemente exibir os mais recentes modelos de todo o tipo de equipamentos, não vá alguém pensar que o desenvolvimento nos passou ao lado. Os britânicos, pelo contrário, tão discretamente old money e livres de complexos, não parecem minimamente incomodados por se deixarem transportar e aos milhões de turistas numa frota de autocarros onde pontificam tantos exemplares dos anos setenta.

Muito recentemente e depois de aberto concurso para a reedição do clássico Red Bus em versão environmentally-friendly, foi eleita esta pequena maravilha do design, by Aston Martin & Foster Partners:

sábado, 3 de janeiro de 2009

E venha mais um

Este blogue tem destas coisas: permite-me concluir que, apesar da aparente imobilidade, estou num lugar muito diferente daquele em que estava há um ano atrás. Mas já não caio no erro grosseiro de tentar avaliar se melhor, se pior. Para já, só posso constatar o óbvio: que estou mais à frente. O resto só me será dado a saber lá na frente de tudo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Psicodrama

O Pedro Mexia parece estar a pôr um ponto final no Estado Civil. Durante mais de um ano veio escarrapachando o seu desgosto amoroso, primeiro por entre outros assuntos de maior, digamos, elevação intelectual, por fim como se já nada mais importasse. Vimo-lo apaixonado, dramático, romântico, ressabiado, raivoso, patético, vingativo, cruel (sobretudo consigo próprio), humilde e humilhante. Assim se vivem os desgostos de amor. Raro é vê-los expostos de semelhante forma. Nua e cruamente. Corajosamente.
Mas ai de quem nunca viveu o seu.