quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Esperando por 2010

Alegoria

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.


Nuno Júdice

domingo, 27 de dezembro de 2009

Work in progress

Nasci com a década. A cada nova década, não posso evitar de pensar que é uma nova etapa que começa, uma troço novinho em folha da auto-estrada, o alcatrão lisinho e preto, sem sulcos nem relevés que influenciem a direcção. Sou eu, os meu passageiros e o porta-bagagens, meio cheio.
2009 fecha mais uma década. Portas a fecharem-se, janelas a abrirem-se, quartos bafientos a arejar, salas espanejadas, tudo em plena (des)arrumação. Este fim-de-ano não há balanços. O balanço é da década e ainda não fechei as contas à década.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Tobias

Numa das bed-time-stories preferidas dos miúdos, o Tobias diz, a páginas tantas: "sinto-me estranho por dentro". O sentimento dele é de impotência e, como miúdo que é, não o sabe expressar. Mas tem muita razão: o sentimento de impotência é dos mais estranhos que existem.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

All I want for Xmas...

Neste Natal apenas gostaria de dar um abraço apertado às três ou quatro pessoas que já sei que nem sequer vou ter a oportunidade de ver.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Da culpa

Todos já levámos e levaremos a cabo comportamentos censuráveis. Se tivermos alguma espécie de formação ou estrutura ética (prefiro a ética à moral), somos os primeiros a viver a culpa associada ao acto. A avaliação da culpa, sem querer entrar em conceitos jurídicos (embora a tendência seja grande), depende do grau de leviandade com que foi praticado a acto. A leviandade pura e inconsequente é um estado de espírito que me custa muito a engolir - e corresponde sempre à mais dura das auto-avaliações. Se nos vamos arriscar a magoar alguém, que sejamos suficientemente honestos para o fazermos com a plena consciência dessa possibilidade, ainda que não seja essa a nossa intenção directa. Se nos arriscamos a causar dano a outro, que o façamos porque os nossos actos correspondem, naquele momento, a uma verdade/motivação dentro de nós, e convictamente escolhemos agir de acordo com ela. E que cá estaremos, se se der o caso, para sofrer a culpa e as devidas consequências.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Nowhere Fast

É realmente muito simples: uma noite inteira a dançar vale por vários dias de férias, horas de conversa, caixas de ansiolíticos, noites de sono reparador, inumeras sessões de yoga, noitadas de copos, bunjie jumping ou qualquer outro método de descompressão ao alcance de um gajo. É assim desde os meus 15 anos, e espero que continue pelos quarenta adentro. E que esta continue a ser, sempre, indiscutivelmente, a melhor música para o efeito.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Uma questão de perspectiva

Parece que tenho esta característica exacerbadamente alfacinha na forma de falar: falo para dentro, como vogais, às vezes sílabas inteiras. No Brasil a comunicação era muito difícil, até que decidi deixar-me de pseudo superioridades culturais e passei a falar com sotaque brasileiro. Resultou de tal forma que as caixas do supermercado e empregadas de loja (eu tinha muito tempo livre no Brasil) largaram o incontornável "ôi?" e passaram a perguntar-me, verdadeiramente intrigadas com a minha cantoria: "você é de ooonde?". Uma das incontáveis vezes em que esclareci a minha origem, a moça achou graça: "mas fala tão bem o português!"
Os objectivos haviam sido claramente atingidos.
Lembrei-me disto porque às vezes os problemas de comunicação resumem-se a diferentes perspectivas sobre uma mesma realidade.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A perfeição da estupidez

A perfeição da estupidez, citada abaixo, é uma expressão que não me sai da cabeça: a estupidez na sua forma perfeita; perfeitamente estúpida; estupidamente perfeita; inusitadamente estúpida; absolutamente perfeita na sua estupidez; estúpida de uma forma única e insuperável.
Uma estupidez genial, portanto.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Alfa Pendular ou a chocolateira

A enxurrada dissolveu o enguiço tecnológico (no entretanto, benditos serviços complementares dos hotéis modernos) e o portátil voltou a funcionar às 00h10, quando de regresso ao hotel me preparava para usufruir dos confortos de uma cama XXXXL e perder-me entre os invólucros brancos de penugens. Não houve tremor de terra que despertasse a cidade do Porto e acordei para um dia inesperadamente luminoso e tranquilo, tornando pouco credível as quatro viagens ontem realizadas entre a Boavista e a Rua Conde do Alto Mearim, em Matosinhos (worth mentioning porque o nome da rua soou como um mistério para três taxistas e encerra possivelmente uma coincidência que reacções futuras poderão confirmar), debaixo do maior dilúvio dos últimos tempos - que me transportou directamente para São Paulo, quando ansiávamos pelas Chuvas de Verão que limpavam a atmosfera e nos permitiam respirar um ar mais livre de fumos, gases e poluição em geral, atenuando o cheiro agridoce da grande cidade, que jamais abandonará as minhas narinas sob a forma de memória olfactiva. Não há chuva como as chuvas brasileiras de verão e sorrio sempre perante a frustração do turista incauto que foge do Inverno europeu em busca do Verão no hemisfério sul - mal sabendo que as regras de cá não se aplicam lá.
A dissolução do enguiço permite-me agora, no regresso, navegar dentro desta chocolateira, cujos abanões em nada se assemelham ao movimento de um pêndulo, e recuperar do trauma da ida ao ver os meus companheiros de carruagem colados aos monitores, sendando, replyando, forwardando, ccando, bccando e, pior, reply-allando, numa teia de comunicações que invade as caixas de email de todos os colaboradores que, no sossego dos seus gabinetes, tentam, talvez, desenvolver algum trabalho, nos intervalos dos acessos colectivos de reúnite aguda.
Eu por mim só ansiava por condições mínimas para bloggar e interpelar os amigos, que isto de fugir à rotina diária sob pretexto de uma deslocação profissional é, para mim, uma festa. Agora regresso ao meu livro, Santa Apolónia não tardará.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

4

Nasceste, alegria mágica, doce e encantada.
E milagrosamente fomos duas,
de uma.

(à princesa mágica que completa hoje quatro anos)

Visão de futuro

Enquanto alternávamos os pés a bater no chão para enxotar o frio da noite de sexta-feira no bairro alto, tentando decidir onde beber um copo, a jovem de 30 anos, politicamente activa na esquerda moderada, bonita, sexy e presumivelmente inteligente, discorria acaloradamente sobre Salazar, atribuindo-lhe a suprema tacanhice da nossa história, verdadeiramente preocupada - eu diria traumatizada, não fosse o incontornável facto de ter nascido circa 1980 - com as repercussões da gestão financeira do estadista na miséria nossa de antanho e de hoje.
Foi, só vos digo, uma experiência altamente perturbadora.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Paris Review

Acabei as "Entrevistas da Paris Review", seleccionadas e traduzidas por Carlos Vaz Marques e editadas pela Tinta da China. Como bem referiu um comentador atento deste blogue, que me deu a preciosa dica, são entrevistas realizadas para a mencionada revista, entre 1953 e 1968, a dez gigantes da literatura do século XX (E.M Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrenve Durell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges e Jack Kerouac) e constituem uma extraordinária abordagem ao fenómeno literário do século. Sendo impossível escolher a melhor, tal o nível de interesse de cada uma delas, destaco a de Jorge Luis Borges, aos 68 anos, que me deixou absolutamente deliciada, pela pertinência, a inteligência, bom senso, grandeza e acessibilidade do escritor por detrás do autor, temperadas por um magnífico sentido de humor:
Recordo-me de uma piada de Oscar Wilde: um amigo dele tinha uma gravata com as cores amarela, vermelha e por aí adiante, e Wilde disse-lhe: oh, meu caro amigo, só um surdo poderia usar uma gravata assim. (...) Lembro-me de ter contado esta história a uma senhora que não a percebeu de todo. Disse-me ela: claro, deve ser porque, sendo surdo, ele não podia ouvir o que as pessoas diziam da gravata dele. Oscar Wilde havia de achar isto divertido, não lhe parece? (...) Nunca ouvi falar de um tão perfeito mal-entendido. A perfeição da estupidez.
A partir da metáfora da cor berrante, Borges extrapola em seguida:
Quando eu era jovem andava sempre à caça de novas metáforas. Descobri então que as metáforas verdadeiramente boas são sempre as mesmas. Quer dizer, compara-se o tempo com uma estrada, a morte com o sono, a vida com um sonho, e são essas as grandes metáfora da literatura porque correspondem a algo de essencial. Se inventarmos metáforas, elas são capazes de surpreender durante uma fracção de segundo, mas não provocam qualquer tipo de emoção profunda. Se pensarmos na vida como um sonho, isso é uma reflexão, uma reflexão que é real, ou pelo menos uma reflexão que a maioria das pessoas é levada a fazer, não é? "Quão frequentemente pensado, mas nunca tão brilhantemente expresso" ("What oft was thought, but ne'er so well expressed" citação de Alexander Pope). Acho isto melhor do que a ideia de chocar as pessoas, do que procurar ligações entre coisas que nunca antes tiveram qualquer ligação entre si, porque não há uma ligação real, portanto tudo não passa de uma espécie de malabarismo.
- Um malabarismo apenas de palavras?
De palavras, apenas.
Fica-me a vontade de oferecer este livro a todas as pessoas de quem gosto e que imagino que poderão apreciá-lo tanto quanto eu.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O princípio de Peter

Nunca percebi a excitação à volta dos romances de Paul Auster. A mim, sempre me exasperaram e ao fim de dois ou três arquivei o assunto decidindo que devia ser coisa de gajo, que me passava ao lado (pois eram sempre eles a discorrer deslumbradamente sobre a ironia, o desencantamento, o cepticismo e por aí fora). Aparentemente não era. Este homem arrasa com tudo - e, en passant, faz umas inesperadas referências a Saramago.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Do método

Leitura metódica: é coisa que venho tentando todos estes anos e já levo muitos com resultados sofríveis. Anualmente, são tantos os livros que abandono (não a meio mas logo no princípio, que eu não sou persistente, sou teimosa, o que não é a mesma coisa, não servindo a segunda característica para este propósito), quantos os que levo até ao fim. Para 2010 proponho-me, como todos os anos, ler mais alguns clássicos, desta feita preencher lacunas na língua inglesa: Faulkner, Conrad e alguns outros. Tenho o Ulisses na minha mesa de cabeceira. Em seguida, inevitavelmente, regressar aos franceses. Penso: porquê perder tempo com isto, se ainda não li aquilo? A justificação toma facilmente a forma de dois seres humanos pequenos, absorventes, esgotantes, associados a um aparelho rectangular e luminoso que me permite, em seguida, viajar mentalmente com um mínimo de esforço; ou de livros que se lêem ao correr dos olhos e se apagam logo de seguida. Ora, nesta matéria, como em tantas outras, o esforço bem orientado gera grandes compensações. É essencialmente uma questão de disponibilidade mental, que produz vontade, determinação, tempo e, a final, satisfação - que por sua vez gera mais vontade, and so on. Parece-me um bom plano.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Memory Lane: Don't Stop Believing

Passei pela nova série "hit" entre os adolescentes nos E.U. mesmo a tempo de me deparar com isto - e viajar até à adolescência. Quem se lembra dos "Journey"?
(façam click no link para o youtube)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Nocturno

O cérebro prega partidas, recompõe o mosaico, 610 pedaços de cerâmica guardados por cores, brilhos e texturas, explorados e remexidos e no final colados na parede da memória. Há peças que sobressaem, como a palavra perfeita no momento exacto, a resposta que só caberia nos sonhos, o gesto espontâneo e irrepetível, o primeiro impulso, esperado, inesperado, ansiado ou repentino que é sempre, sempre, aquele que fica. São as coisas mais simples que perduram: a caminhada nocturna de descoberta e redescoberta, a travessia alucinada na cumplicidade subtil, reminiscência infantil, de duas mãos dadas. Tudo o que foi suave e o que foi firme, doce ou ofegante, o proferido e o indizível, o subentendido, o mal entendido, as regras não escritas, os excessos que nunca foram demais, as contenções, prisões, aquilo que é e nunca poderia ser: passado longínquo e presente amalgamados, perfazendo uma soma acertada mas fora do tempo, uma equação clara mas não resolvida. No sonho, repetia a pergunta, a única que se permitia: tu penses à moi, souvent?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Espera

Estou sempre a dizer ao de seis anos para não ser impaciente, que crescer é saber esperar. Mas sou um pobre exemplo nessa matéria.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Recorde pessoal

Este mês bati o recorde absoluto (bem sei, recorde absoluto é, nas presentes circunstâncias, uma redundância, mas serve para reforçar a ideia) do número de posts por mês. Isto, meus amigos, não é uma coisa boa: é a simples ausência de coisas melhores para fazer (assim de repente, ocorrem-me três ou quatro ou cinco).
É como diz aqui a Sofia.

sábado, 28 de novembro de 2009

Manhã

Ao amanhecer as nuvens roçavam as janelas viradas a sul e este, brancas, densas, impenetráveis. O sol -las recuar e concentrou-as sobre o rio, como se um caudal branco e flutuante abraçasse a cidade e não houvesse margem de lá, apenas mais céu vertendo nuvens. Não fosse o topo da construção geométrica e avermelhada emergindo do algodão, julgaríamos que o mundo acabava aqui.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ORWELL: Diaries

O meu olhar foi imediatamente atraído para o título do volume grosso no escaparate logo à entrada da Bulhosa das Amoreiras: ORWELL Diaries. Nem precisava de ler a badana para me certificar que as minhas teorias da treta - in casu, a exposta nos comentários ao post infra "Notas para um Post" - são tantas vezes infundadas. Mas confirmei: George Orwell was an inveterate keeper of diaries. Ora toma.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Regina Spektor - Fidelity

Esta música a certa altura ficou no ar e só agora a reencontrei.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Yes Sir

  • que a melhor série da actualidade é Mad Men.
  • que Seinfeld foi, é e será, imbatível.

About Mad Men e os loucos anos 60: Para além disto tudo, episódio atrás de episódio, temos todos os clichés que esperamos ver. Fuma-se nos hospitais, no elevador, nas carruagens de metro, as mulheres grávidas bebem martinis, o lixo é deitado no chão, mesmo em Parques Nacionais, a secretária espera ser beliscada no rabo pelo chefe e não acha mal, as crianças não são bem pessoas e um estalo ocasional é muito natural para toda a gente. No meio disto e de tanto estilo e estética a série podia ser uma fotografia e não um filme.

(às sextas-feiras na RTP 2)

Notas para um post

- nunca mantive um diário, sempre achei uma coisa assim meio pateta, coisa de menina.
- a certa altura tive um "caderno de anotar a vida" que não passou das 15 ou 20 primeiras páginas: achei-o piegas e inútil.
- como se explica então isto?
- porque é que os homens assumiram sem preconceitos, logo à partida, a versão electrónica dos diários (não me refiro aos que se resumem ao comentário politico e da actualidade, mas aos de que o Pacheco Pereira não gosta, i.e., os intimistas)?
- como é que os conceitos de esfera pública / esfera intima ou confessional se misturam?
- como é que isso pode ser relacionado com a psicologia masculina / feminina?
- huuuummmmmmm.............

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ainda a caligrafia

Isto da caligrafia tem o que se lhe diga, e talvez não seja totalmente desprovida de sentido a professada relação com a personalidade do escrevedor. A minha mudou radicalmente ao longo dos anos, desde a busca da perfeição nos cadernos clairefontaine (são escassas as evidências, são sobretudo as imagens que guardo), passando pela indefinição insegura da adolescência, que redundou na incessante procura da forma que me corresponda. Está agora algures entre os gatafunhos de médico e umas figuras longilíneas e equilibradas, é conforme os dias. Psychoanalyze away.
O suporte físico desta observação resume-se quase exclusivamente aos livros onde fui apondo as três palavras que compõem parte do meu nome. Não há diários (nem nunca os houve, sublinho, enquanto reservo espaço mental para um post sobre o assunto), não sobram cadernos de escola, nem apontamentos de faculdade. Tenho reparado que não sou nada, mas mesmo nada, agarrada às recordações em forma de objectos. São-me perfeitamente inúteis e desprovidos de sentido, tão indiferentes que tanto calha deitá-los fora como não, e quando o faço é sem qualquer critério, primariamente motivada pela necessidade de arranjar espaço. Não guardo bilhetes nem bilhetinhos, cadernetas de notas ou desenhos, caixinhas da infância, bonecos, presentes ou lembrancinhas de qualquer espécie, tal como não passo os olhos pelos carimbos dos passaportes. No campo das lembranças corpóreas, tenho três excepções: (1) uma caixa da música que me deu uma família a que pertenci em tempos, (2) fotografias e (3) cartas de amor ou amizade, a que hoje correspondem alguns emails. As restantes coisas que às vezes emergem das gavetas são meros acasos à espera de um acesso de arrumação. Tudo isto, presumo, porque me agarro irredutivelmente às memórias emocionais e recordações mentais.
Podia ser também:

"Temos mantido em segredo as nossas mortes para tornar nossa vida possível."

As pequenas mortes que vamos acumulando até à morte derradeira, a final.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Heart

O recorte da margem sul do mar da palha é feito de pontinhos de luz amarela pulsante. Está uma noite limpa à janela do costume, tão escura quanto o vinho no meu copo ou o sangue injectado nas câmaras do meu coração remendado, que regurgita um bocadinho a cada batidela - não o suficiente para lhe prejudicar a funcionalidade, apenas o necessário para lembrar a imensidão da tarefa que lhe está confiada.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Caligrafia

Ontem, pela tardinha, num assomo de urgência inspirativa, deu-me para rabiscar, à mão, a primeira versão de umas alegações de direito que andavam a compor-se cá dentro. Hoje vejo-me em trabalhos para decifrar os rabiscos: é isto o que as novas tecnologias são capazes de fazer a uma caligrafia severamente formatada na infância. Imagine-se o que não farão pela das novas gerações.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Crónica da gripe A: dia 5

A mãe de uma coleguinha da de três anos garante-me, ao telefone, que a pediatra da filha dela lhe garantiu, ao telefone, que aquela febrinha com tosse que a filha e mais uma série de coleguinhas tiveram durante o fim-de-semana era gripe A, donde que aquela febre com muita tosse que a minha própria filha teve, de sexta a segunda-feira, não pode ter sido outra coisa senão gripe A, daí que aquela febre sem tosse nem mais nada que o de seis anos teve, domingo e segunda-feira, foi com toda a certeza gripe A, portanto esta febre baixinha com muitos espirros que tenho agora soa ser gripe A. Os meus filhos foram visitar o pediatra, que por acaso é aqui mesmo no prédio ao lado o que dá imenso jeito mas isso agora nem vem ao caso, que não lhes atestou na testa (passo o aparente pleonasmo) "gripe A",
SENDO CERTO QUE
a mãe da coleguinha da de três anos falou com a pediatra dela pelo telefone, o que, nesta realidade paralela em que vivemos hoje, pode constituir, sim senhora, informação muito mais relevante do que a minha. Fico portanto ansiosamente à espera do resultado da análise que a mãe da coleguinha de três anos da de três anos vai levá-la a fazer, amanhã. Entretanto se me encontrarem na rua (as crias já não estão doentes por isso a máquina já está em andamento), em vez de me espetarem um beijo ou dois passem-se discretamente para o passeio do outro lado. Um breve aceno me bastará.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carne Trémula


O meu ciclo caseiro do cinema de Almodóvar reconduziu-me agora a "Carne Trémula" - e deixou-me com um sabor amargo. É, para mim, um filme triste, na medida em que retrata, nos casais que gravitam em torno do pólo Victor-Elena, o tema das relações desequilibradas, em que as partes persistem até concluírem, às vezes tão tarde, que aquela não era a melhor expressão/combinação possível de amor. Como na carta final de David a Elena, em que ele reconhece, olhando para trás, que nunca lhe vira um riso de pura alegria.

sábado, 14 de novembro de 2009

Diálogos possíveis

Mãe: que absurdo. Mas porque é que eles fazem tanta questão de querer casar? Já ninguém quer casar. É só para chatear a malta.

Filha: A pergunta relevante é: mas porque é que nós não havemos de querer que eles casem?

Mãe: Quando eu não podia votar sem autorização do pai/marido, recusava-me a votar. Mas não andava aí de mão no ar a fazer barulho, nem a queimar soutiãs.

Filha: bem, ainda bem que alguém andou.

(finalmente aprendi a argumentar com a minha mãe, sem ter que a atacar directamente)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Resposta a uma caixa postal

(...) Não concebe a existência de um sexo aprazível, descontraído, carinhoso, sem medos nem exigências, emotivo mas não sentimental, intimo mas não possessivo, lúdico mas não leviano, enfim, amistoso e amigável? É difícil, concordo, impossível num estado de paixão assolapada, mas talvez possível noutros estados, não?
(...) Esse sexo não é mítico, pode ser conseguido, mas, como todos os fenómenos perfeitos, é efémero: as pessoas começam a querer mais ou diferente, a questionar o que não precisava de ser questionado, e o equilíbrio perde-se. “For everything that's lovely is / But a brief, dreamy, kind delight”, you know who. Mas que isso não nos impeça de tirar o melhor partido das coisas efémeras, mesmo ou precisamente sabendo que o são, em vez de perseguirmos eternamente o mito dos filões de ouro inesgotáveis.

Los Abrazos Rotos


Delicioso o piscar de olhos a Mujeres al Borde de un Ataque de Niervos, com Chicas e Maletas, a permitir a qualquer fã que se preze a oportunidade de jogar com referências, imagens e memórias velhas de vinte anos.

(Gosto de ir ao cinema no limite do timing, quando o público esgotado se resume a meia dúzia de pessoas separadas pela escuridão.)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Never give all the heart

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that's lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
O never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.

W. B. Yeats

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Coisas

Quando alguém diz, não sem dramatismo, que "não tem nada a perder", não é que não tenha de facto nada a perder (todos temos sempre coisas a perder). É que está disposto, aliás predisposto, a perder algumas dessas coisas. Em bom rigor, pode estar simplesmente disposto a arriscar perder certas coisas. O que vem a dar no mesmo.

20 + 20

Durante a minha infância e juventude os meus pais viajavam bastante, muito mesmo, se considerarmos a realidade portuguesa dos anos 70 e 80. Traziam relatos de viagem que me fascinavam e que, desde tenra idade, me inculcaram a ânsia de viajar e conhecer o mundo, a vontade de, também eu, partir. Traziam fotografias e filmes de Super 8 e lembro-me distintamente da fotografia que mais me impressionou, teria eu uns doze ou treze anos: era uma foto da minha mãe à frente de um arame farpado que dividia as duas Alemanhas. Afligiu-me imenso imaginar um país inteiro de gente aprisionada por detrás daquele arame. Cresci com os relatos, as histórias e os filmes, às vezes romanceados, das fugas conseguidas e tentativas falhadas, que culminavam na morte. Com as imagens mentais das famílias divididas e dilaceradas pela separação. Com a consciência de que algures no mundo havia pessoas presas dentro dos seus países, das suas cidades.
Agora que se comemoram vinte anos, conto tantos anos de vida com a existência do muro como sem ela. Mas os primeiros vinte marcaram muito mais.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A minha graça

DISCLAIMER: agora vou discorrer sobre uma questão relativamente à qual nunca me alonguei com ninguém, mas que, malgré moi, me acompanha desde que nasci. Podem julgar-me terrivelmente narcisista, mas é como vos disse, uma e outra vez: este blogue serve também para que um dia os meus filhos possam penetrar no universo da mãe, e acontece que sou também, talvez mais do que muitas pessoas, o nome que me foi dado.

Dizem que o nosso nome é uma das pedras basilares da nossa identidade, o que, a ser assim, pode dizer muito da formação do ego de quem tem um nome invulgar - para o bem e para o mal. Por outro lado, há pequenos pormenores que inesperadamente se revelam muitíssimo mais significativas do que pareceriam à primeira vista. Acontece que a pequena nuance introduzida no meu nome próprio cedo se revelou ser uma dessas pequenas enormes coisas, e assim se tem mantido ao longo da minha existência.

Aconteceu, por capricho próprio de mãe, que me foi dado um nome que 99% das pessoas (noventa e nove por cento, eu vos garanto) escreve e pronuncia de forma errada. A alternativa corrente nunca foi alternativa a considerar, antes a rejeitar absolutamente: não deixa de ser irónico que a causadora do desafio nominal tenha sempre sido quem mais se insurgiu contra as suas consequências - ainda que não venha sendo, evidentemente, quem mais as sofre. Não se trata, aqui, de um desafio meramente gráfico ou fonético: são ambas as coisas em conjunto, o que aumenta geometricamente a margem de erro.
Confesso que não houve, que me lembre, dia da minha vida em que alguém (normalmente mais do uma pessoa, mais do que uma vez por dia) não tivesse introduzido o "i" no meu nome, na forma escrita ou falada (geralmente em ambas) e que perdi muitos minutos em cada um desses 365 dias de todos este anos a corrigir as pessoas - regra geral, com resultados próximos do nulo. De tal forma que passei a dividir as pessoas à minha volta em dois grandes grupos: de um lado, aquelas a quem deixo passar, em silêncio (silêncio irritado, confesso, mas o cansaço e o hábito já limaram as arestas) a adulteração do nome: são essas as que não conheço ou conheço mal e que não tenho qualquer perspectiva de, ou interesse em, vir a conhecer; do outro lado, aquelas a quem não posso permitir o engano, que são todos aqueles a quem me dirijo para tratar de questões oficiais, ou em quaisquer outras situações que obriguem ao registo escrito do meu nome. Os primeiros corrijo uma única, primeira vez, o que em 90% dos casos nada resolve (é uma questão nacional, o portugueses não estão habilitados a pronunciar o meu nome) e aos segundos explico, insisto, mostro, até me fazer entender, com resultados muitas vezes duvidosos, como quando passam a chamar-me Ândria (quando lêem - e reconheço que apor um acento no "e" talvez ajudasse) ou André (quando ouvem, por culpa do "a" final quase mudo). Ambas as coisas acontecem, juro, com mais frequência do que possam imaginar, ainda que, na maior parte dos casos, as pessoas se limitem a não perceber e olimpicamente passar por cima, insistindo no indisfarçável "i". E custa-lhes muito, custa-lhes sempre tanto riscar a excrescência depois de escrita, incrédulos perante tamanha minudência.

Aqui faço notar que na última década senti um pequeno alívio nesta problemática, na justa medida em que influências vindas de fora tornaram um pouco menos invulgar a grafia do nome. Antes disso, abençoado Liceu Francês, que na minha infância e adolescência foi o único local de tréguas, fora da família e, já depois de adulta, abençoados os (poucos) anos em que vivi no Brasil.

Mas voltando às pessoas: os amigos constituem um grupo à parte, no qual incluo, para efeitos de classificação, tanto os amigos-meros-conhecidos (amigos na acepção mais lata, tanta vezes enganada, do termo) como os amigos próximos (amigos com "A" grande). Ora aqui é que a coisa começa a ficar interessante. Regra geral, quando conheço pessoas relativamente às quais antevejo a possibilidade de um relacionamento continuado, faço notar, caso não se torne imediatamente perceptível, o modo correcto de me chamarem (não é mania, é que o outro não é o meu nome - mas imagino que só verdadeiramente perceba isto quem já viveu algo semelhante); faço-o notar uma só vez (sempre me pareceu ridículo ter que insistir na questão) e é praticamente inevitável que o falhanço em fazer passar a simples mensagem (ao qual me resigno para todo o sempre, relativamente à pessoa em questão) desqualifique o destinatário como candidato a amigo chegado ou íntimo - e isto, acreditem, não é nenhuma presunção ou sobranceria da minha parte, é antes algo de terrivelmente simples, objecto de quase 40 anos de experimentação: o facto de alguém, depois de informado, não atingir a importância de chamar a outra pelo nome correcto, revela uma de três coisas: (1) falta de inteligência (a mais flagrante e apesar de tudo a mais desculpável); (2) falta de subtileza ou; (3) falta de consideração - nenhuma das quais confere grande credibilidade ou interesse à pessoa em questão - e digo isto sem qualquer pejo, que me desculpem mas são muitos anos disto. Alguns chegam a redimir-se quando, através da convivência, acabam por perceber o erro e o corrigem por si, sem mais comentários. Quanto aos restantes, podem passar 10, 20 anos a insistir no erro, ainda que oiçam o meu nome mil vezes pronunciado e o vejam escrito na forma correcta, e quanto a isso não há nada a fazer: são naturalmente grunhos.

Mas o que eu gosto mesmo - passo o narcisismo - o que realmente me surpreende, é conhecer aquela pessoa que, depois de mo perguntar ou de eu lho oferecer, assimile o nome à primeira, ou tenha a delicadeza de pedir os devidos esclarecimentos; ou aquela que tem a subtileza de, ouvindo alguém próximo chamar-me, imediatamente registar a nuance; e ainda aquela que, através de carta, email ou qualquer outra forma escrita, note a grafia e me responda da mesma forma, logo à primeira.

Esta simples, mas rara, atenção, tornou-se de alguma forma aquela que, à partida, mais desperta o meu interesse e silencioso reconhecimento, e é talvez por isso que, de entre as pessoas que um dia a tiveram, se contam os meus amigos mais chegados, bem como todos os amores da minha vida. Mas não, não acho que seja por causa da correcta percepção do nome. É por causa da inteligência, da subtileza e da consideração. É por causa da atenção. Aquela que aproveito para agradecer a todos aqueles que bem saberão quem são.

Duas ou três histórias

There are only two or three human stories, and they go on repeating themselves as fiercely as if they had never happened before.

Willa Cather, 1873-1947

Un parfum de fin du monde (ou encontros improváveis)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Da falta de tempo

Não é uma questão de tempo, é uma questão de entusiasmo, sabes: sem entusiasmo o tempo mirra, como tudo o resto, aliás.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Esperança violenta (by inspiration)

E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade da dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. (...) Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado um gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, 1969.

Os (poucos) anos que vivi em São Paulo foram muito educativos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Por falar em virtudes

Enquanto a população se aparvalha, só queria dizer que Francisco Lobato, o velejador português de 25 anos, venceu a regata Transat La Rochelle - Salvador da Bahia, em solitário, na classe de série (i.e., num veleiro de série) de 21 pés, que se traduzem em 6,5 escassos metros com uma cabine onde não se pode andar de pé, a navegar na carta e pelas estrelas. Em 25 dias, 19 horas, 39 minutos e 18 segundos. Sozinho, já disse?

6

O de cinco fez seis anos. No acto de dar à luz percebi, numa estrondosa revelação, que ali estava uma pessoa, uma outra pessoa que não eu ou o produto de mim ou a combinação de eu com outro; que essa nova, terceira pessoa, me era dada para cuidar e amar e mais tudo aquilo de que fosse capaz, mas que não era minha. Não era, nem é. Fez seis anos e começa talvez a vislumbrar o que eu percebi naquela primeira hora (e espero não esquecer): que o mundo não é necessariamente intermediado pelas pessoas que cuidam dele - ainda que o façam com muito amor.
(comecei ali e acabei aqui)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Regresso

Sinto-me como aquelas pessoas de quem se diz que tentaram o suicídio para chamar a atenção.

Posteridade

A morte do radialista António Sérgio suscitou muitos agradecimentos póstumos - terá, espera-se, suscitado alguns outros em vida. Deve ser muito bom quando fazer por si é também fazer por tantos outros.

Apego

Aqui não se pratica o distanciamento emocional. Quando tentado, corre mal, muito mal. Um gajo já percebeu duas grandes coisas: que não houve desgosto que não valesse a pena; que arrependimento foi ter-se poupado aos desgostos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Devagarinho e aos poucos

Há duas coisas que tenho muita dificuldade em gerir: uma delas, já o disse aqui, é o silêncio alheio. Nesse silêncio cabe tudo aquilo que pudermos imaginar, a começar pelos nossos piores receios, que nos perseguem, que nos vão consumindo até ao ponto de passarmos a agir para provocar uma reacção, mesmo que seja aquela que não queremos testemunhar.
A outra coisa, que por vezes vem com a primeira, é o desencanto. O desencanto é a coisa mais triste do mundo, considerando que o encantamento é a força mágica que mantém e renova a nossa vontade de participar, de fazer, de explorar, de conhecer - em suma, de viver. O desencantamento - nosso ou alheio - é o fim do sonho, é aquele golpe na esperança que sofremos pela vida fora.
Estas considerações trazem-me de novo aqui. Disse a alguém, muito recentemente, que sou masoquista porque gosto de acabar com as coisas que me dão prazer. Não é verdade, não podia estar mais longe da verdade e não sei porque é que o disse. Tenho, sempre tive, uma grande dificuldade em acabar com as coisas que me dão prazer (ou que me acabem com elas): porque são poucas e tenho a perfeita e desolada noção de que deveriam ser muitas mais.
Este blogue deu-me muito prazer durante muito tempo, um prazer comparável e directamente proporcional ao encanto que por ele senti. Depois veio o desencanto e, com ele, a noção de prisão que tantas vezes lhe está associada. A liberdade é, sempre foi, a minha maior aspiração e senti que já tinha prisões suficientes, tantas quanto a maioria de nós, é certo, mas que a mim me vêm pesando sempre muito. E esta era a mais fácil de encerrar, ou a que estava mais à mão.
Depois de um mês de carência, cheguei a duas conclusões: que o meu próprio silêncio também se tornou difícil de gerir, de tal forma que passei a intervir de forma repetida, quase inconveniente, nos blogues alheios. E que por vezes é preciso afastarmo-nos das coisas ou pessoas para recuperarmos a capacidade de nos encantarmos com elas. Esta, claro, é bem sabida, mas por motivos que me abstenho de esmiuçar, o afastamento ou distanciamento emocional é um instrumento, chamemos-lhe assim, de que não sei fazer uso voluntário ou inteligente - por mais que venha tentando ao longo da vida. Ele acontece sempre e somente de forma inevitável, definitiva e irreversível, no culminar de longos processos de insistência incrédula, sofrida e frustrada. Talvez esta seja então a minha primeira excepção.
Um blogue intimista é tão incongruente, volúvel e instável quanto o seu dono. É impossível manter-lhe o nível de qualidade que se espera de uma publicação técnica, profissional, temática, etc. Num blogue intimista, as nossas falhas, inconsistências, insuficiências e futilidades colocam-se à vista de todos, e isso é muito difícil de reconhecer e aceitar - por nós como pelos outros. Escrever um blogue deste tipo é um exercício simultâneo de vaidade e humildade. É o permanente confronto connosco, com o melhor e o pior de nós. Que os outros conheçam os nosso defeitos e fraquezas enche-nos de medo e embaraço, mas tentar fazer menos do que isso é perfeitamente inglório.
Um fellow bloguer que muito admiro e cujo nome me abstenho de mencionar, disse a certa altura (por outras palavras) que já não sabia se começara a escrever um blogue intimista quando perdera os amigos íntimos ou se perdera os amigos íntimos quando começara a escrever um blogue intimista. Parece-me evidente que só os solitários mantêm blogues intimistas: refiro-me aos solitários de alma, que não são necessáriamente os que vivem sós. Um blogue intimista somos nós a fazermos companhia a nós próprios, a conversarmos, rirmos, descobrirmo-nos e desencantarmo-nos connosco. E a sentirmo-nos mais reais.
Percebi que ainda preciso deste refúgio aqui dentro, que isto lá fora é dificil. Preciso também, é certo, de uma nova disciplina e de um novo registo, mas isso é cá comigo. Para todos os efeitos, devagarinho e aos poucos (o rabo entre as pernas, poder-se-á dizer), volto. Sem trunfos na manga.

sábado, 17 de outubro de 2009

Talking Heads - Once in a lifetime

And you may find yourself living in a shotgun shack
And you may find yourself in another part of the world
And you may find yourself behind the wheel of a large automobile
And you may find yourself in a beautiful house, with a beautiful wife
And you may ask yourself - well...how did I get here?

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the moneys gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

And you may ask yourself
How do I work this?
And you may ask yourself
Where is that large automobile?
And you may tell yourself
This is not my beautiful house!
And you may tell yourself
This is not my beautiful wife!

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the moneys gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

Same as it ever was...same as it ever was...same as it ever was...
Same as it ever was...same as it ever was...same as it ever was...
Same as it ever was...same as it ever was...

Water dissolving...and water removing
There is water at the bottom of the ocean
Carry the water at the bottom of the ocean
Remove the water at the bottom of the ocean!

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/in the silent water

Under the rocks and stones/there is water underground.
Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the moneys gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

And you may ask yourself
What is that beautiful house?
And you may ask yourself
Where does that highway go?
And you may ask yourself
Am I right? ...am I wrong?
And you may tell yourself
My god!...what have I done?

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/in the silent water
Under the rocks and stones/there is water underground.

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the moneys gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

Same as it ever was...same as it ever was...same as it ever was...
Same as it ever was...same as it ever was...same as it ever was...
Same as it ever was...same as it ever was...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Enough ou depois do título do último post é o fim

Alguém me disse recentemente, e com muita razão, que vinte anos não são uma vida são várias. Cheguei aqui com trinta e sete anos de vidas por desfiar, e elas jorraram por dois anos e seis meses, em trezentos e oitenta posts, com a intensidade das águas que rebentam a barragem inundando as terras a jusante. Julgo agora perceber que o manancial das águas acumuladas se esgotou. Ou será a vida que se faz mais presente e menos passado. Ou é mais um ciclo que se quer fechar. Ou o encanto que não se quer quebrado. Ou que não me posso ler. Ou tudo isto e mais tudo o mais que fica por dizer.
Agora vou respirar outro ar. Levo saudades, eu levo sempre saudades.

Cocó

Não sei bem quando é que se estabeleceu definitivamente o conceito de "cocó", na acepção de "aquele tipo é um cocó", ou "ela é um bocado cocó", ou "não sejas cocó", mas é certo que é um conceito perfeitamente definido e concreto, toda a gente sabe o que é um cocó embora possa não o saber explicar por palavras. Por mera aproximação, um cocó (ou uma cocó) pode ser assim uma espécie de queque, de betinho na aparência, a que se junta - e isso é que é interessante - uma característica psicológica: é um queque, ou um betinho, ou um conservador com manias, com pruridos de alguma espécie, nem que esses pruridos ou pudores se traduzam afinal e somente numa espécie de vaidade ou, pelo contrário, de timidez. Na verdade confesso que não sei bem dizer o que é um cocó, mas sei perfeitamente o que é: um cocó é isto aqui, nas palavras muito bem esgalhadas d' O Alfaiate Lisboeta “cocó mas não cagão o suficiente ao ponto de parecer um coninhas”.
E fico positivamente possessa quando alguém me tenta colar o epíteto.

domingo, 27 de setembro de 2009

Xutos


São 30 anos, foram 33 músicas no Estádio do Restelo, um mar de gente, uma noite para recordar.
Eram 21.00 e a fila para entrar para o relvado do Estádio do Restelo estendia-se serpenteando por 1 km de gente ordeira e tranquila, várias gerações sobrepostas em t-shirts pretas com o símbolo da maior banda portuguesa de rock. A hora passada na fila não incomodou os milhares de fãs que desaguaram naquele relvado e encheram o estádio para receber os Xutos & Pontapés, cuja chegada pudemos finalmente acompanhar nos ecrãs gigantes, incrédulos perante a ousadia daqueles 5 homens entrarem a pé, abrindo caminho por entre a multidão enquanto atravessavam o relvado até ao palco, por fim erguidos em braços pelos seguranças.
Foi uma mega produção, em termos de palco, som, efeitos visuais, equipamento, e mais. Os Xutos entraram a abrir com as músicas do novo album, e foi talvez por isso que, apesar da boa disposição dos 40 mil e do entusiasmo gerado por temas como Não Sou o Único, Mundo ao Contrário, Gritos Mudos, O Que Foi não Volta a Ser, o concerto, no que respeita ao público, demorou a descolar. Foram 3 horas - três - de música sem parar, e foi ao final da primeira hora e meia, quando soava a meia-noite, que o estádio chegou ao rubro, com a inesperada aparição de Camané para uma magnífica interpretação do Homem do Leme, dando novo sinal de partida para o concerto. Os Xutos reservaram para a segunda hora e meia, incluindo dois encores, os temas fortes como Esta Cidade, Circo de Feras, Chuva Dissolvente, À Minha Maneira, Contentores, Sem Eira Nem Beira (recado do Kalu ao Sr. Engenheiro em véspera de eleições), Submissão, Ai Se Ele Cai, Minha Casinha, Para Sempre, Para Ti Maria e outros que já não sei nomear. No relvado, a cinquenta metros do palco, pulou-se, dançou-se e cantou-se muito. Já passava da 1.30 da manhã quando Tim, Zé Pedro, Kalu, Zé Cabeleira e Gui, visivelmente emocionados e comovidos, agradeceram os 30 anos. Nós também.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Deambulações de uma noite de Verão tardio

Almocei com uma amiga a quem já aconteceram mil e uma daquelas pequenas e grandes coisas bastante más e muito chatas que fazem qualquer pessoa ficar de mal com a vida. Não obstante, ela mantém o mesmo optimismo inabalável dos nossos 16 anos - enfim, quando nos conhecemos os 16 anos eram de ambas, o optimismo mais dela. O optimismo, agora que penso sobre isso, é como um talento - e como qualquer talento, quando é extraordinário é de facto fora do comum, inato, inabalável e para sempre. E logo me salta a agulha para o talento extraordinário de um homem de 67 anos que na segunda-feira, no Coliseu, tocou piano com a perfeição e entrega reservadas aos que vivem uns centímetros acima do solo. Já tinha tido a sorte de assistir ao Daniel Barenboim, em São Paulo, a dirigir a Orquestra Sinfónica de Chicago e tive agora a sorte acrescida de testemunhar a outra faceta de um mesmo talento, já mítico. É caso para nos perguntarmos sobre as regras de distribuição dos dons, talentos e quejandos que tais, sendo certo que o pacote do talento - o talento genuíno e verdadeiro - reúne, tantas vezes, uma série de outras características que muito admiro: dedicação, entusiasmo, generosidade e por aí fora. Felizmente para os restantes, às vezes os deuses do Olimpo não esquecem de juntar ao talento os instrumentos necessários à partilha do mesmo com o comum dos mortais.
(aqui, à janela do costume, entra a brisa morna de uma noite de Verão, que juntamente com outras coisas me tira o sono e a vontade de ir dormir)

Da segunda adolescência, da (in)fidelidade e do poliamor

Só a leio de longe em longe, mas ela tem muita graça (reparo no paternalismo ridículo e corrijo-me: ela é muito boa nisto).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Pessoas

Pessoa # 1 : fechei à chave algumas divisões da casa para impedir-me de lá entrar. Outras estão escancaradas, podemos circular à vontade.

Pessoa # 2 : e o que é que se passa dentro das divisões fechadas?

Pessoa # 1 : prefiro não saber. Olha, guarda tu a chave.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Amoreiras

É evidente que não há só esquinas, também há cafés onde as pessoas se podem encontrar com hora marcada. Mas as esquinas da vida têm mais graça.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dr. José e Mr. Sócrates

O RAP em plena forma: para quem não viu ou quiser rever, a partir do mn 4:47.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Notes to self

Evitar afirmações do tipo falta muito ou demasiado tempo; ser menos impaciente/mais comedida, ou pelo menos parecê-lo, bolas, são quase 40 anos; permanecer qual estátua grega em vez de saltar sobre a mesa para agarrar o rebuçado.

domingo, 13 de setembro de 2009

Coisas giras

O de cinco anos (quase seis), que não cessa de me surpreender com o entusiasmo pelos desportos radicais, levou-me a acompanhá-lo ao Jardim da Estrela para a sua primeira experiência de skate (skate normal, diz ele, em oposição ao novos street surfers que bem sabe não serem - ainda - para o seu bico). Aqui devo explicar que o que me surpreende não é o entusiasmo em si, é a combinação com o tendencialmente inverso pendor intelectual - mas para que servem os filhos senão para nos estilhaçarem as ideias feitas? Depois de uma hora de descidas evolutivas, curvas progressivas e um joelho esfolado, ficámos para um merecido chill out nos confortáveis puffes que preparavam o entardecer de OutJazz nos Jardins. Este Domingo ouvimos o Júlio Resende 4tet. Por vezes, por cá, fazem-se coisas giras.

sábado, 12 de setembro de 2009

Inglourious Basterds

A história rocambolesca é um contínuo pretexto para diálogos brilhantes. But of course.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Está tudo lixado

Por três ou quatro vezes na minha vida fui confrontada com a iminência de uma brusca interrupção. Um carro que me colheu brutalmente aos 10 anos; um aquaplaning na A1 aos 20 e poucos; uma égua a quem não impus o devido respeito aos 26; um carro a voar na minha direcção aos 39. Em todas as vezes a possibilidade foi friamente avaliada e a sua inevitabilidade reconhecida, naqueles breves segundos que precederam ou sucederam o impacto iminente, sem ponta de emoção e sempre com o mesmo tipo de observação interna: "já está", "está tudo estragado", "está tudo lixado". Ainda me oiço internamente a admitir, às 10 horas da manhã de segunda-feira: "pronto, está tudo lixado". Nada de pieguices ou negações, revoltas, medos ou incredulidades. Quando as coisas se nos afiguram inteiramente inevitáveis, já o disse, não podemos mais do que acolhê-las. É então que a vida tem a inesgotável capacidade de nos surpreender.
Claro que também conta ter um anjo da guarda dedicado, a quem agradeço encarecidamente.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Synecdoche, New York

Totally fucked up - e sem qualquer justificação.
Não façam como eu: não vale o sacrifício por Philip Seymour Hoffman.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O programa segue dentro de poucos segundos

Este é o carro que hoje me apareceu a voar por cima do separador central no viaduto Duarte Pacheco:


Este é o candeeiro que se interpôs entre ele e eu:


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Pensamento recorrente

É como o fumador que acende o próximo cigarro na brasa do anterior.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Revolutionary Road

Passei na Blockbuster e trouxe o Revolutionary Road. Achei-o terrivelmente angustiante no retrato implacável da prisão burguesa feminina - ou seja, no que me respeita, o filme cumpriu inteiramente os seus desígnios.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Biografias possíveis

De criança ninguém nos ensina que há coisas que não são para ser questionadas, analisadas ou esmiuçadas. São para ser vividas, profundamente à flor da pele, como sorte rara, sem muitos porquês nem para quês nem para ondes (nem até quandos). Nada mais podemos do que rejeitá-las ou aceitá-las, e neste caso acolhê-las sem nos negarmos a nada, como barragem rebentada ou voragem animal. Integrá-las sem restrições, às vezes um bocadinho a medo, de tão oníricas, assombrosas que são, antes que a vida nos ultrapasse ou a realidade nos caia em cima.
Com sorte e à nossa custa, um dia percebemos que a lição foi dada e aprendida. Em tempo útil, se tivermos mesmo muita sorte.

He's back

Com a Lei Seca.

Back to school

Os meus filhos começaram as aulas absurdamente cedo este ano. A de 3 anos e 3/4 entrou na "escola do irmão" e, sendo a minha quarta experiência do género (2 filhos x 2 escolas cada um), consegui voltar-lhe as costas e ficar a ouvi-la gritar por mim enquanto me afastava em passo firme, sem que se me apertasse o coração.
Ocorreu-me que por uns instantes foi como se também ela fosse o quarto filho.
p.s.: quando voltei para a recolher estava radiante. É forte, a miúda.

Viagem

O Alfaiate Lisboeta está há um mês em viagem solitária por França e Itália. A não perder os retratos e os relatos. Como sempre.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

In Memoriam

Também eu me lembro dele com frequência. Também eu me saturava ciclicamente, apenas o suficiente para o evitar de vez em quando e isso pesar-me na consciência. Felizmente nunca levou a mal as vezes em que não respondia aos telefonemas e continuava a procurar-me para almoçarmos, para breves encontros em que conversava sem parar. Por detrás dos demónios e para lá dos desvarios havia uma das pessoas mais íntegras, mais amigas e mais leais que conheci. No seu último ano e por entre vários internamentos encontrámos-nos algumas vezes: aparecia-me em casa ao fim-de-semana, almoçámos duas ou três vezes. Tomo conforto nessas lembranças. Estava terrivelmente só, mas não se queixava, apenas lamentava que as pessoas o tomassem por estúpido – que ele não era de todo. Era esse, aliás, o seu grande tormento: não conseguir dominar, nem fazer uso adequado do cérebro outrora tão eficaz. Disparatava sem querer, antagonizava sem pretender, testava à exaustão a tolerância e compreensão alheias, que tantas, tão repetidas vezes lhe falharam. Tinha a perfeita, lúcida consciência das suas limitações e sofria muito com isso, mas mantinha uma fé inabalável, tendo a coragem de viver o melhor que sabia e podia.
Tenho-o muito presente, às vezes até me esqueço que já não está.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

La Chanson des Vieux Amants

Sorry, não há versão ao vivo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Férias

Uma semana sem pegar no carro, a dormir a 30 metros da rebentação e totalmente alheada da silly season portuguesa é aquilo a que eu chamo férias.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

(cont.)

Vim a Lisboa passar a semana mais quente do ano. Agora se não se importam vou acabar as minhas férias ali para os lados de Africa.
Sem portátil.
Volto já.

No need to argue

Só queria dizer que este continua a ser um grande album. Ontem à noite ouvi-o in toto, a poltrona chegada à varanda, as pernas do lado de fora *, a vista privilegiada sobre Lisboa**, uma mini pousada no chão***, o pensamento a esvoaçar.
Prazeres. Simples.
* 1 metro de profundidade, a varanda
** não passa dia nem noite sem que abençoe a vista
*** super bock 20 cl, estupidamente gelada

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Coisas boas para se fazer numa tarde de canícula em Lisboa

Aquelas que são boas a qualquer hora, não importando o estado atmosférico.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Seal

O Verão no Algarve (allgarve, insistem eles) é tempo de mini-concertos de estrelas cadentes, em ascensão, ou semi-reformadas. Fui desafiada numa tarde de praia para ir ver o Seal, perto de Albufeira. Num programa absolutamente espontâneo (são sempre os melhores) e reunindo, muito a propósito, um grupinho de amigos do antigamente que não se juntava há duas décadas, partimos rumo aos Salgados, comprámos os bilhetes à porta do recinto quando soava a hora do concerto e fomos andando descontraidamente até nos encostarmos ao palco, mesmo a tempo de ver surgir a figura um pouco envelhecida, engordada mas ainda com muito estilo, que ali mesmo a dois metros nos manteve ocupados nas duas horas seguintes. Foi, no mínimo, divertido. No fim do concerto voltámos em busca da velha fábrica do pão quente. Tudo junto fez-me duvidar da real passagem do tempo.

Aqui fica a inevitável foto via telemóvel:


domingo, 26 de julho de 2009

Risos

Os vizinhos, a 50 metros, para lá da sebe, não param de rir e conversar à volta da mesa. Tenho saudades das noites algarvias de conversas e risos à volta da mesa. Tenho saudades das noites algarvias de risos e conversas. Tenhos saudades das conversas e risos à volta da mesa. Tenho saudades das noites. Tenho saudades das conversas. Tenho saudades dos risos.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

I have (very briefly) joined a Conga Line

O Lourenço, do Complexidade e Contradição, menciona isto. Quem nunca, nem brevemente, o fez - nem mesmo depois de todo o espumante, vinho e whisky de malte no casamento da prima da namorada - é alguém que tem um medo desmedido do ridículo. O medo do ridículo (conheço-o bem, mas de fora, de fora) é a coisa mais castradora, redutora e - como dizê-lo? - empertigadora da história. Uma vida empertigada é uma vida mal vivida. Uma vida sem ridículo não é uma vida completa, nem verdadeira.

Interrompi as minhas férias para escrever esta pérola. O de cinco anos tem um galo na testa a atestar que já sabe andar de bicicleta sem rodinhas, a de três anos trouxe da rua para casa um gato bébé que já tomou conta do espaço (horror, horror, I am a dog person), já tive a grande discussão do Verão, já apanhámos Levante, Poniente e chuva na praia, hoje jantei fora pela primeira vez e bebi meia garrafa de vinho. São as férias.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Até logo

Vou de férias grandes.
O portátil está sempre à mão, mas haverá mais com que me entreter: ouvir os grilos e olhar as estrelas. Comer bolas de berlim. Atentar num par de crianças com menos de 6 anos.

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

Só para terminar: a propósito da incessante busca, por parte dos leitores, estudiosos e críticos, de elementos biográficos e alter egos nos protagonistas masculinos da sua obra, Philip Roth terá dito que os seus romances são falsas biografias.
É uma excelente resposta. Salvadas as devidas imensas desmedidas distâncias, acho que vou aplicá-la aqui a partes deste meu casulo. É melhor, e mais rigorosa, do que a da escrita criativa. E ainda assim deixa, como convém, uma certa ambiguidade no ar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Repitam comigo: Nathan Zuckerman

Alguns so called críticos de cinema, nos comentários a Elegy, insistem em referir o personagem de David Kepesh como sendo o alter ego de Philip Roth, aquele que aparece repetidamente nos seus romances. Erro. É verdade que Kepesh aparece em duas outras obras do autor, para além do agora adaptado The Dying Animal. São elas The Beast e The Professor of Desire, publicadas nos já longínquos anos 70 - e duvido que haja muito quem as tenha lido recentemente. O alter ego de Philip Roth não é outro senão Nathan Zuckerman, o escritor (não o professor), que protagoniza abundantemente os seus trabalhos entre 1979 e 1986, e depois novamente nos anos 90 e 2000, na trilogia: The American Pastoral, The Human Stain e Exit Ghost.
Nathan Zuckerman é, aliás, um personagem bem mais profundo e interessante do que David Kepesh, ou não fosse ele o espelho do autor - ou so it is said. Alguns (americanos) consideram-no mesmo uma das grandes criações da literatura. Nathan Zuckerman foi interpretado por Gary Sinise (esse mesmo, do CSI) na adaptação cinematográfica de The Human Stain, que conta também com Anthony Hopkins, Nicole Kidman e Ed Harris - por sinal um bom filme, baseado numa história fantástica.
Se vão fazer crítica, façam os trabalhos de casa. Se vão pretender ter lido mais livros do que aqueles que leram, façam os trabalhos de casa. Vão à Wikipédia, vá, não copiem uns pelos outros. Irra, que já me estavam a conseguir baralhar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Consideremos as mãos

E, pegando-lhe nas mãos, ela diria: pois eu gosto das tuas mãos. Em primeiro lugar, porque não aprecio homens com mãos macias e efeminadas. Depois, porque gosto da ideia de que as usas para trabalhar, isso confere-lhes uma nobreza especial. A seguir, porque gostei da forma subtil como, pelas nossas mãos, te aproximaste de mim. Finalmente, porque olhando para elas ponho-me a imaginar aquilo que são capazes de fazer. Era nisso que estava a pensar quando me perguntaste em que é que estava a pensar. Bem vês que era inconfessável.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Para esquecer

By the way, O Leite Derramado, apesar de lido em dois sopros, tem pouco interesse: é fundamentalmente tempo perdido.
E abstenham-se, como eu, de tentações patetas relativamente ao novo quase-romance do MST: como se não bastasse o percurso anterior, depois disto não podemos dizer que não fomos avisados. Livra.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Elegy


aqui e aqui debati a questão das adaptações cinematográficas. Fui ver o Elegy, e devo dizer que é, de longe, aquela que mais me enche as medidas. Concedo que The Dying Animal - o livro - não me convencera inteiramente, confesso que Philip Roth, apesar das inegáveis qualidades, raramente conseguiu atingir-me no âmago (ou vice-versa). Ao terceiro ou quarto romance, finalmente percebi que o que me faz falta é aquela dimensão feminina da sensibilidade de que os seus personagens masculinos são áspera e intencionalmente desprovidos. Elegy - o filme - recupera essa qualidade, sem dúvida através das mulheres que nele intervêm: realizadora e actriz. Não me espanta pois que os críticos, sempre homens, possam desprezar aquilo que talvez considerem a adulteração ou softening do personagem David Kepesh. Injustamente, porque Elegy resulta num filme muito tocante, com uma representação imaculada de Ben Kingsley e Penélope Cruz (e eu que embirro com a senhora) e uma fotografia belíssima.
Alguém comentou que é um filme muito triste sobre a solidão de um homem. Discordo inteiramente. É um filme muito bonito sobre o amor apaixonado (a forma mais complexa e difícil de amor), sobre as difíceis incongruências do envelhecimento e, sim, sobre a solidão, mas a solidão de todos nós. A solidão de David Kepesh não é mais pungente do que a de todos aqueles que o rodeiam, incluindo Consuela. É, sim, mais exposta, porque é assumida. É, no termo que ele finalmente encontra para se definir frente ao filho, mais honesta.

On our feet

Agradeço ao Jansenista a oportunidade de tornar ao A Case of You, de Joni Mitchell: foi uma forma muito agradável de terminar o dia. Ainda mais quando conjugada com relatos de independência, que animam qualquer alma. Cheers!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Thunder Road

As deambulações desta noite conduziram-me muito longe: os 15 anos foram um ano de transição e aos 15 anos eu ouvia muito Springsteen. Thunder Road será sempre uma faixa emblemática do Boss: puro e duro - e não me venham falar em "performers". Surpreendeu-me perceber que ainda hoje sei a letra de fio a pavio.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Da inelutabilidade

Há coisas inelutáveis - disse ela, e a percepção da inevitabilidade cria momentos de absoluta liberdade, pequenos espaços no tempo em que respiramos ar livre de ponderação, de culpa, de juízos. No momento - por muito breve - em que nos entregamos à inevitabilidade de uma coisa, somos livres, inteiramente.

domingo, 5 de julho de 2009

Do amor

Ontem fui a um casamento, coisa que já não fazia há alguns anos: a minha geração já casou, pelo menos uma vez, e a dos filhos ainda está longe de o fazer. Durante o jantar, o senhor que me calhou do lado esquerdo comentou que é curioso como, apesar de tudo, as pessoas continuam a casar. Eu respondi-lhe que, quanto ao amor, o melhor que se pode desejar está contido no verso de Vinicius de Moraes: que seja infinito enquanto dure.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Aqui está

Here Comes the Sun é uma canção dos Beatles, composta por George Harrison e lançada no álbum Abbey Road de 1969 (sorry, não encontrei video "oficial").

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Julho

É Julho, mas aquela música até me faz esquecer a minha zanga com o mês de Julho: é que já me levaram três amigos, os meses de Julho.

Here comes the sun

Esta música faz-me pensar em coisas boas, luminosas, coloridas, felizes, cheias de riso e esperança, alegria e serenidade, descobertas, surpresas, deslumbramentos. Balões vermelhos e mesas com toalhas bordadas na expectativa dos amiguinhos a chegar, a alegria eufórica do último dia de aulas que precedia a incomensurável liberdade das férias grandes, a excitação da saída para mais uma aventura marítima de longos dias, a promessa do encontro dos amigos de Verão, os enamoramentos estivais, a magia dos primeiros beijos, inevitáveis, puros, encantados, carregados de contido deslumbre e promessas de futuro. Esta música é a contínua esperança de que haverá sempre um futuro pejados de momentos assim.
Todas as manhãs a tenho ido ouvir ao Controversa Maresia.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Still Alive

Uma das (poucas) desvantagens da idade é a perda gradual da capacidade de nos supreendermos. Quando alguém, ou algum evento, consegue ultrapassar a camada de dormência que se vai instalando, a maior surpresa é descobrirmos que, não só ainda existe quem nos surpreenda, como ainda somos capazes de nos surpreendermos a nós próprios.

domingo, 28 de junho de 2009

LFCL

Toda a noite foi música dos anos 80, presumivelmente em homenagem aos anciens, e enquanto dançava com os namoradinhos dos três, quatro e cinco anos pensava que o tempo é uma bolha e que ainda não percebi se conforme avança ela se expande ou contrai. Dentro da bolha circulavam frases perdidas: carvalhô-rôsa, assez de bavardage, je te mets en exil, exclamava a M.me Rocha com o seu gorro de lã, e logo entrava a admoestração quase diária do M. DiMarco: la ponctualité c'est la politesse des rois, enquanto fazia pontaria com tiros de giz aos conversadores lá de trás e a professora de Sciences Physiques (não me lembro o nome) repetia loucamente: dégagement de CO2 e já passara o M. Costa que insistia em chamar-me de Andrée e em dar aulas de educação sexual en classe de 9 eme para grande aflição das mães das criancinhas de 9 anos, e então chegava a hora da ginástica em que eu só exercitava a solidão e desse exercício não me libertei até hoje, mas antes, muito antes de tudo isso, alguém no Jardin d'Enfants ordenava: allez les enfants e logo um deles aparecia para me dar a mão en queue-leu-leu, aliás, deux-par-deux.
Essa bolha, no seu movimento de expansão ou contracção, verte por vezes pedaços de passado, que se misturam com o presente em novas realidades surpreendentes e cheias de encanto.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

We are the world

Foi a primeira coisa que ouvi no rádio logo de manhã. O de cinco anos perguntou lá de trás: porque é que a mamã fez "aaaaaahhh!" ? Era um tipo esquisito, repugnante no seu rosto desfigurado e fantasias de Peter Pan. Marcou o panorama musical dos anos 80, o que é o mesmo que dizer que foi um ícone da minha geração. Há três décadas que era um dado adquirido: com ou sem repugnância, sem nunca lhe ter comprado um disco ou visto um concerto, marcou-me também a mim, que faço parte do meu tempo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Fraquinhos desmedidos ou como usar oitenta e dois euros e trinta cêntimos em cinco minutos

Tenho um fraquinho por escritores lusófonos porque gosto do português em todos os estilos, cores, densidades e sotaques. Sou ecléctica em muitas coisas e também na literatura: gosto de conhecer os escritores que pensam, escrevem e vivem em português, sem olhar a Nóbeis ou pedantismos intelectuais. Prefiro ser eu a decidir se gosto ou não gosto, sendo certo que há os bons, os legíveis e os que se largam ao fim do primeiro capítulo. Munida deste fraquinho e a contra-relógio, entrei na Bulhosa das Amoreiras e agarrei o novo do Chico Buarque, logo seguido, é claro, do Agualusa. Foi então que reparei no Nuno Júdice cuja prosa queria conhecer. Contornando a mesa, deparei-me com o David Lodge, lado a lado com o Martin Amis. Ora eu tenho um fraquinho por um conjunto de escritores ingleses. Precipitei-me para o balcão com o leite derramado, o barroco tropical, os passos da cruz, a vida em surdina e o london fields, decidida a evitar outras tentações saídas do forno, e sorri estoicamente quando a senhora pronunciou oitenta e dois euros e trinta cêntimos, pensando nos descontos da Fnac e nos outros tantos por inaugurar na mesa de cabeceira.
Mas tenho uma boa desculpa: as férias estão à porta.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Prémio!

Agradeço à Luísa o simpático prémio (se bem que desconfio que "fofa" não é epíteto que me seja adequado, ainda bem que a Luísa não o reproduziu), que traz água no bico, sob a forma de inquérito:

Mania: a da provocação
Pecado capital: o da preguiça
Melhor cheiro do mundo: são dois, os dos meus dois filhos
Se dinheiro não fosse problema, eu: vivia no campo, com muito espaço
Caso de infância: "eu também vou"
Habilidade como dona de casa: mandar
O que não gosto de fazer em casa: discutir (hélàs, sempre o fiz e ainda faço)
Frase: por isso é que o mundo não se vira (não estamos todos do mesmo lado)
Passeio para o corpo: nadar no mar
Passeio para a alma: sonhar (a dormir ou acordada)
O que me irrita: a estupidez (alheia e minha)
Frase ou palavra que uso muito: exactamente
Palavrão mais usado: merda!
Desço do salto e subo o morro quando: me tomam por parva
Perfume que uso no momento: Blue, de Ralph Lauren (esta já sabiam)
Elogio favorito: gosto de ti
Talento oculto: não revelo a estranhos
Não importa que seja moda, não usaria nem no meu enterro: nessa matéria nunca digo desta água não beberei
Queria ter nascido sabendo: que não importa o que os outros pensam de mim

E o derradeiro segredo: não tenho 5 amigas, a corrente morre aqui.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Monstro

Há uns dias ouvi-me dizer que isto do blogue é uma escravatura, um monstro imperioso que me persegue nas vestes do permanente e cruel receio de perder a inspiração, o nível, o bom gosto, a gramática, os leitores e tal.
Que afirmação tão absurdamente blasé. E irrealista, to begin with.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Aragem

Eu aqui sentada no teu lugar, os copos vazios, as borras de café, a janela aberta sobre a cidade, a aragem redentora, enfim, a chegar. Queria ver-nos outra vez enfiados no carro a caminho do Algarve, em passeios de mota para a marina, jogando cartadas pela noite dentro, pingue-pongue pela tarde fora, espalhados pelo sofá a ler, comendo pão quente de madrugada, a mergulhar no mar, na piscina, na praia, no barco, a embirrar como irmãos, a conversar como amigos, a sonhar feitos cúmplices e a rir, a rir, a rir, a rir.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Castas senhoras

A Visão traz um daqueles inquéritos patetas, irritantes e pouco científicos, mas tratando-se de sexo, há que admiti-lo, é praticamente inevitável passar os olhos pelos resultados. Não saberia dizer até que ponto as pessoas inquiridas são honestas nas suas respostas. No que respeita às mulheres portuguesas, das duas uma: ou são chocantemente conservadoras ou tolamente pudicas na admissão anónima dos seus hábitos sexuais. Há uma terceira hipótese, que me custa a engolir: a anormal sou eu. Senão vejamos (e passo a patetice):
  • 52,4% dizem que só tiveram um parceiro sexual, a somar a outras 20% que só tiveram dois;
  • 63,4% dizem que nunca se masturbam;
  • cerca de 65% dizem nunca ter praticado sexo oral (concretamente, 64,2% nunca deram e 69,3% nunca receberam);
  • 12,2% dizem que nunca pensam em sexo, 18,3% apenas algumas vezes por ano, i.e., menos do que uma vez por mês e ainda 16,6% um máximo de duas vezes por semana. (adenda: os dados referentes a esta pergunta são afinal e aparentemente masculinos e não femininos)

Já os resultados respeitantes à frequência das relações sexuais não me chocam, estando equilibradamente distribuídos numa curva entre os extremos, de algumas vezes por ano a mais do que 4 vezes por semana, com epicentro não muito pronunciado em 1 ou 2 vezes por semana. Mas temo que isto se deva ao facto de, neste caso, já intervir a equipa masculina, não se distinguindo o género.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Postura da semana


Supta Virasana, para desenferrujar após uns dias de praia.

Sampa

De quem, para quem conheceu e aprendeu a amar.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nostalgias

De repente vem a saudade de me sentar na esplanada morna, tomando um chope e comendo uma comidinha boa, pasteis, bolinhos de arroz, quibes, e ficar olhando aquela gente alegre e quente, desfilando desfiando o seu riso a sua música. De repente, não mais que de repente, quando ouço o Prelúdio n.º 2 do Heitor Villa-Lobos.