terça-feira, 30 de dezembro de 2008

2008

O melhor e o pior de 2008. Quando todos parecem dedicar-se ao tema, de repente não soube apontar nada no meu ano de 2008 que merecesse integrar qualquer uma das duas colunas. Cheguei aqui e fiz um scroll down dos 140 posts deste ano, tentando reavivar a memória. O meu ano em 140 entradas e um punhado de entrelinhas.
Baaah. Fraco. Muito fraco.
Melhor dizendo: fraca. Muito fraca.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

À mesa

Passei uns bons cinco Natais sem conseguir sentar-me à mesa porque, ora um, ora outro, precisava de atenção. Era um jogo de senta-levanta que não me permitia saborear o cortejo de coisas boas, eu que gosto tanto das iguarias do Natal.
Senti-me subitamente emancipada quando consegui permanecer sentada durante ambos os repastos e - imagine-se - conversar. Sim, conversar. Ninguém valoriza mais a oportunidade de ficar sentada à mesa a conversar do que uma mãe de filhos pequenos. Que, enfim, vão crescendo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

And to all a Merry Christmas

Andei todo este tempo a tentar ignorar que o Natal está a chegar e agora há que encarar a realidade: vou às compras.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A felicidade

A felicidade é isso, estar quieto nos limites em que se está a dizer que não ao que está para além. Ser-se todo onde se é e não onde não (...)

in Para Sempre, Vergílio Ferreira.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Nos detalhes

Hoje, no café, um sujeito (odeio a expressão sujeito) respondeu, ao ser perguntado, que eram nove-menos-um-quarto. No fim-de-semana passado, numa já rara ocasião em que bebi uns copos (longe vão os tempos) afirmei peremptoriamente, perante um velho colega de escola que se revelava proprietário de um Porsche (as coisas que as pessoas dizem e eu agora que não me aguento), que nunca sairia com um gajo que tivesse um Porsche, pelo que isso revelava sobre si próprio. Tal como uma amiga minha afirmou, há uma década atrás, que não foi capaz de tornar a sair com um tipo que no primeiro encontro pediu ao empregado do restaurante que lhe trouxesse um bocado de pão, afirmo eu agora com igual peremptoriedade que nunca sairia com um gajo (um tipo, um sujeito, um homem, sei lá) que dissesse nove-menos-um-quarto ou sete-menos-vinte. É que, segundo venho observando nos dez anos que decorreram desde a chocante mas avisada afirmação da minha amiga, às vezes perdem-se meses ou, pior, anos de vida, e para quê se há evidências que saltam logo à vista?
O essencial, todos acabamos por compreender um dia, está nos detalhes.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Quod erat demonstrandum

E eis que chego ao ponto de agradecer aquela pequena crueldade que veio afinal demonstrar que, contra todas as evidências, ainda não estava inteiramente morta, indiferente e incapaz de chorar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

3

Ontem circulava lá por casa, por entre uma dezena de crianças e muitos pares de pernas adultas, o aroma da feijoada à brasileira e o bolo-de-anos cor-de-rosa (há já um mês, de dedo em riste avisara: mamã, eu quero um bolo co-co-osa) um anjo de alegria, de asas de sininho, cara de riso encantado e sorriso cristalino. Irradiando a alegria generosa de quem não cuida em distinguir se dá ou recebe, desbaratando risos, abraços e afectos, derramando o prazer de viver dos que nasceram cheios de luz e propensão para a felicidade. O anjo feito minha filha que fez 3 anos e me vem ensinando com mestria como se combinam a segurança e determinação próprias de quem sabe exactamente o que quer e a generosidade alegre e afectuosa de quem carrega a fonte inesgotável da felicidade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

George: sobre as características essenciais femininas

Por esta e tantas outras é que sou fã incondicional.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Instantes (7)

Acordou aquele acordar confuso e estremunhado do sono a meio do dia, o cansaço acumulado de noites insones, como sempre acontece quando viaja. Soergueu-se e olhou em frente: para lá das portadas de vidro o verde e, mais ao fundo, o azul. E ele. Nem chegou a surpreender-se com a presença inesperada do outro lado do vidro, embora não soubesse então o que demorou algum tempo a compreender: que ele aparecia, apareceria sempre e somente quando não esperado. Saiu da cama, num gesto automático, alheia aos trajes íntimos que não deixavam adivinhar a familiaridade incipiente mas estranhamente natural. Foi como se acordasse para uma outra realidade, leve e livre de constrangimentos, tão livre que nem tomou então consciência da extraordinária ausência de reservas. Abriu-lhe a porta para que entrasse e se acomodasse junto de si na cama, em cima da cama, com a naturalidade de uma vida inteira de cumplicidades por forjar, como se a ordem real das coisas ficasse agora fechada do outro lado das portadas de vidro. Eles do lado de dentro. Conversaram longamente, ela de olhos inchados, meio despida, ele de olhar atento e gestos meigos. Não saberia reproduzir o teor da conversa, as palavras encadeadas que brotavam e fluíam em corrente morna e tranquila, tecidas de encanto. Entretanto, anoiteceu.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Ler

Tem graça: António Barahona (o poeta) na entrevista que concede à revista Ler deste mês, partilha sem tirar nem pôr (e ao mesmo tempo) a opinião que expressei no post abaixo - dos livros - no que respeita a Saramago e Lobo Antunes. Mais, também ele conclui, depois de afirmar que ler os livros do Lobo Antunes não dá: "Não dá porque, repare, a leitura tem de ser um prazer. A pessoa não se pode obrigar a ler."
Uma entrevista muito interessante, mais ainda para quem tenha particular interesse na poesia portuguesa do séc. XX.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Das mulheres

Não gosto particularmente da Laurinda Alves. O feminismo militante provoca-me, em geral, uma certa dose de irritação: para mim nunca fez muito sentido proclamar tiradas em defesa das mulheres, porque não encaro o ser mulher como uma cruz que carregamos ao alto, às costas ou arrastando pesadamente atrás de nós. É claro que tenho consciência de que beneficio, hoje, da luta de muitas mulheres pelos nossos direitos e nessa medida o meu feminismo consistiu, desde muito nova, em acreditar que podia fazer tudo aquilo que os meus irmão rapazes faziam. E em fazê-lo efectivamente, sem que nunca me sentisse particularmente discriminada - antes pelo contrário, desde cedo tomei consciência de que exercia o privilégio de beneficiar do melhor dos dois mundos.
Este é um tema que dá pano para mangas, mas por hoje e voltando à Laurinda Alves, só queira dizer que a sua crónica no Público (feminismo lamechas incluído) me levou às lágrimas, que disfarcei por entre dois goles de café.