sábado, 29 de novembro de 2008

A propósito,

Nem tive vagar para dizer do meu choque pelo encerramento da Byblos.
Não é que tenham sabido cumprir as expectativas: não souberam de todo, embora ache que grande parte do motivo para aquilo estar sempre às moscas foi o mero facto de não existir uma calçada que ligue as Amoreiras ao edifício em questão, aliado à sabida preguiça dos portugueses para andarem 200 metros - mas, e a sumptuosa alcatifa, e os sofás, e o barco dos piratas, e a citação de Borges sobre o Paraíso, e os milhares de títulos e.... a estante robotizada ?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dos livros

V.S. Naipul declara, em entrevista ao P2 do Público, que a sua imagem vem das "demasiadas entrevistas" que as pessoas lêem. Essa imagem, diz, "não vem nos livros. As pessoas não lêem os livros". E, logo: "Os livros são difíceis de ler. As pessoas não gostam muito de ler."
Paternalismos à parte, estará V. S. Naipul a reconhecer que o sucesso de vendas e os prémios (Nobel inclusive) não traduzem o número de leitores? Se sim, vai ao encontro da minha teoria sobre os livros que são comprados, mencionados e citados mas pouco lidos: os livros - como os autores - de referência, as grandes obras de que tantos falam mas poucos leram de fio a pavio.
A instruir a minha teoria, o punhado de António Lobo Antunes que foram parar à estante sem que conseguisse vencer as primeiras páginas; os Saramagos: a Jangada de Pedra (que todos leram) e outros, sendo afinal O Ano da Morte de Ricardo Reis o único que li e apreciei integralmente; as grandes obras vivamente recomendadas que se revelaram fastidiosas; os livros que quero absolutamente ler mas vou reservando para quando tiver mais tempo e sobretudo maior disponibilidade mental; os que jazem na pilha das "leituras e curso" e vão sendo ultrapassados por tantos outros.
Tomemos Rayuela (O Jogo da Vida), de Júlio Cortázar: 600 e tal páginas notória e reconhecidamente difíceis, há seis meses na minha mesa de cabeceira. Venho lendo, já li o suficiente para determinar os personagens, o ambiente, o estilo. Para perceber grosso modo o que (sobretudo que geração) representa. Parei sem chegar a concluir a versão reduzida e quem sabe se o retomarei, por entre dois outros. Mas diria que li o suficiente para participar impunemente em qualquer conversa sobre o tema, se assim desejasse.
Assumo que tenho uma colecção de livros abandonados nos primeiros capítulos - o que revela talvez e tão somente ambição desmedida. Mas é simples a minha ambição: desbravar caminho para a cabeça das outras pessoas, podendo, quem sabe, melhor compreender a minha. Conhecer mais personagens, ver mais mundo, descobrir novas perguntas e vislumbrar outras respostas, procurando construir um sentido para todas as coisas. Decidi, há já muito tempo, que este é um caminho a fazer com gosto e devoção. Quando não me entusiasma, não compreendo, não me revejo, não me eleva, ponho de lado, confiando que, por cada livro abandonado, encontrarei dois apaixonantes - por vezes, até, entre os reconhecidamente grandes.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Pick-Up line of the year

BlankJames Bond para Strawberry Fields em Quantum of Solace, entrando à frente dela no quarto de hotel: "I can't find the ..um... stationary. Can you help me look?"

(Já vi e confirmo: muito interessante esta nova abordagem ao personagem 007.)

Understatement of the year

No Público de hoje, a propósito da situação BPN / Dias Loureiro, um politólogo refere a degradação da imagem da classe política, por via das "frequentes incursões de políticos no sector privado", que dá "uma ideia de promiscuidade que não é boa para o sistema político."
Uma ideia de promiscuidade?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Em Bruges

Finalmente fui ver o Em Bruges: dramático; violento; hilariante (há muito tempo que não ria com tamanho gosto); desconcertante, ou seja, comme il faut.
Este ano o (pouco) cinema tem-me corrido muito bem.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Vale

Fui dar uma voltinha exploratória por blogues que não visito habitualmente. Descobri esta dissertação sobre o tema "O que é um blogue?", uma pérola, no Complexidade e Contradição (02/11), de que passo a transcrever duas pequenas passagens:

No fundo, queremos que os outros olhem para nós, mas para uma versão que nós achamos mais condizente connosco próprios. É como o choque que é vermo-nos na televisão ou em fotografias: aquilo que ali está não sou eu. Nunca é, porque é sempre o resultado de uma observação de fora para dentro, e como nós sabemos a beleza está toda em observar de dentro para fora. O blogue é assim a oportunidade de forjarmos quotidianamente a nossa verdadeira projecção identitária (...).
A questão do narcisismo explica-se pela necessidade que quem escreve tem em estar seguro de que isso vale a pena. Esta busca de uma identidade mais focada é arriscada e até um certo ponto indesejada. (...) Escrever - aqui na versão «escrever um blogue» - é ir fazendo uma purga dessas habilidades sociais que fazem a intermediação entre nós o mundo, com o objectivo de fazer colidir sem almofadas essas duas entidades. Para o fazer temos de acreditar que vale a pena, que alguém - para além de nós - está à espera que o façamos. Acreditar nisso é sempre um pouco irreflectido, e revela o tal narcisismo.

Ao longo destes 20 meses tenho-me feito algumas dessas perguntas: vale a pena? interessa a alguém?
Cheguei à conclusão que a primeira pergunta só pode ter uma resposta: vale a pena quando e enquanto conseguir ser, aqui, a versão mais real de mim mesma - mesmo que para isso recorra, mais ou menos abundantemente, à construção de uma personagem.
A resposta à segunda é delicada e implica uma grande dose de humildade, a que não sei se tenho acesso. Desde logo há que reconhecer que, por mais que escreva para mim, escrevo também, como qualquer outra pessoa, para os outros.
Por causa destas duas perguntas, ou das suas respostas, entretenho-me, nos dias piores, com a ideia de encerrar este blogue. Nos restantes dias, gosto de pensar que tenho conseguido manter uma certa fidelidade a mim própria e que isso interessa a um punhado de amigos. Por agora, vale.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Disse falta de pujança física???

Comentário que fiz a uma crítica ao novo 007 onde, entre outras coisas, se dizia que o personagem perdeu altura e pujança física com Daniel Craig (note-se, ainda não vi o Quantum of Solace, mas vi muito recentemente o Casino Royale):

Discordo quase inteiramente. Não consigo sequer vislumbrar de onde vem essa ideia de perda de pujança fisica - quem é que era pujante, o Roger Moore? É caso para perguntar se não viu o Daniel Craig nu no Casino Royale??? Talvez o ar britânico que refere corresponda, para si, ao ar amaricado do Moore (e aquele antes do Brosnan, de quem não me lembro o nome) - há muito quem ache que um bom inglês tem esse ar; eu não. Concordo que o novo 007 é mais real e mais duro, mas sinceramente já estava um bocado farta dos floreados. E quem é que ainda tem paciência para homens distantes? Apesar de gostar muito de Pierce Brosnan (o homem é tão bonito, seria impossível não gostar), na minha opinião Craig é o "Ultimate Bond" (até porque é aquele que mais se aproxima (ultrapassando?) Sean Connery, o original) e adoro-o assim, t-shirt com camisa meio aberta por cima, cabelo perfeitamente desalinhado, e não a ensaiar malabarismos espectaculares de fato escuro e gravata. Afinal, já ninguém usa fato e gravata, nem mesmo os corretores da bolsa. Enfim, são gostos e os gostos discutem-se, sim, precisamente porque não são todos iguais. Felizmente.
(Nota da Editora: também me arrogo o direito de exibir fotos de gajos bonitos.)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O difícil trabalho das mulheres

Proclama Lajos a Eszter:

Não basta amar alguém. É preciso amar com coragem. É preciso amar de tal modo que nenhum ladrão, ou má intenção, ou lei, lei divina ou deste mundo, possa seja o que for contra esse amor. Não nos amámos com coragem... foi esse o mal. E a culpa é tua, porque a coragem dos homens é ridícula em matéria de amor. É trabalho vosso, o amor... Nisso sois grandes. Foi aí que falhaste e, contigo, falhou tudo o que poderiam ter sido as nossa obrigações, os deveres e sentido da vida. Não é verdade que os homens sejam responsáveis pelo seu amor. Deveis ser vós a amar heroicamente. Mas tu cometeste o erro mais grave que uma mulher pode cometer, ofendeste-te, fugiste.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Verdade e consequência

A novela que estou a ler (de Sandór Márai - A Herança de Eszter) tem como personagem central, para além da narradora, um mentiroso compulsivo, protótipo perfeito de certo tipo de homens. Conheci um par desses homens na minha vida: são indubitavelmente simpáticos e agradáveis, à partida irresistíveis, pois não é senão esse o propósito das suas construções efabulatórias: encantar e seduzir, nunca contrariando nem desiludindo as expectativas alheias. Enquanto dura a ilusão, são verdadeiramente encantadores e, com a indulgência própria do bem-estar, é muito fácil de embarcar nessa viagem hipnótica. É que a verdade é, tantas vezes, desencantatória, áspera, dura e, em consequência, os homens íntegros e sérios podem revelar-se descorteses e inclementes, às vezes quase desumanos.
É sem dúvida ténue a fronteira entre a cortesia e a falsidade.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Saudação ao Sol

Voltei ao Yoga: não sei como pude deixar passar tantos anos - seis - sem praticar. Esqueci-me, entretanto, da existência de certas articulações, a respiração voltou sub-repticiamente ao modo inconsciente e o equilíbrio parece coisa inatingível (quase me esparramei no chão em várias ocasiões). Tudo visto, tenho um longo trabalho pela frente, mas é um preço quase simbólico a pagar pelo bem-estar que proporciona.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Esperança e Coragem

Parte de uma resposta minha, ontem, a um colega bloguista:

Quanto à côr, acho que importa, sim. Importa - e nesse ponto estamos de acordo - pela coragem que revela. Os americanos demonstraram, ontem, grande esperança e coragem, como sempre têm sabido demonstrar ao longo da história. Esperança na capacidade de mudar e coragem para fazer o que que é preciso. Isso é, desde já e mais uma vez, de louvar e celebrar.

E agora, como diz outro ilustre colega, é hora de regressar à realidade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Change


Hoje somos todos um bocadinho americanos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bagagem

Esta mania de avaliar o sucesso de uma viagem pelo volume e qualidade das compras. Estatisticamente, eu diria que é a segunda pergunta mais frequente após o regresso (Então, que tal a viagem? Muitas compras?). Por esse critério, as minhas viagens seriam, sempre, um fracasso retumbante. Há vários anos que me libertei dessa obsessão: quanto aos raids às cidades ditas da moda e do design, a ideia de que lá fora há mais e melhor vai-se tornando obsoleta; no que respeita aos destinos exóticos, nunca fui dada a encher a minha casa de objectos inúteis. Trago sempre, isso sim, um lote importante de impressões, recordações e descobertas - essa é a bagagem que realmente me importa.

Viagem

Viajar está-me no sangue. Desconfio, no entanto, que é uma mera consequência da ânsia de liberdade e, nesse sentido, as deslocações não serão mais do que pequenas fugas à realidade. Como todas as fugas ou distracções, não impedem a permanência da realidade tal como ela é e, inevitavelmente, o regresso.
Pela positiva, faço notar que esse regresso vem, regra geral, acompanhado de ânimo renovado: mesmo que dure só um instante, já valeu a pena. E há distracções que contribuem significativamente para a qualidade de vida - mesmo quando a vida (há que ser justa) já não é nada má.