terça-feira, 30 de setembro de 2008

Caffè Latte

O advento do Starbucks tem motivado os mais diversos comentários, a maior parte dos quais recheados daquela snobeira pseudo-europeísta-anti-imperialista-americana, tipicamente portuguesa: o café não presta, não tem aroma, é muito aguado e por aí fora, dizem os defensores da tradicional e lusitana bica. Ora, tudo depende, a meu ver, dos termos comparáveis: estamos a falar do cafezinho de balão servido no Gambrinus, quem sabe daquele raríssimo espresso tirado com todos os preceitos - que são muitos - cujo gosto e aroma perduram agradavelmente pela tarde fora ou, pelo contrário, devemos considerar a bica queimada, amarga e sem espuma, tragada com um valente copo de água logo de seguida?
Há alguns anos que não faço parte do clube dos consumidores de bica. Limito-me a beber café com leite, a maior parte das vezes descafeinado. Um por dia ao pequeno almoço, que se tornou, no último par de anos, um dos meus rituais preferidos. Uma meia de leite, uma torrada e um jornal, no sossego pós largada dos miúdos na escola. O local pode ser um de três, consoante o percurso do dia. Com base nesta amostragem, analisemos pois os riscos associados à elaboração de um café com leite:
- escuro e aguado (parece um contra-senso, mas no caso do café com leite não é): 40%; e de nada serve pedir que seja claro porque então vemos aumentado o risco de sair:
- morno (arghh!): 20%;
- queimado, com sabor metálico e desagradável: 10%;
- deslavado, sem espuma e nada apetitoso: 30%;
Tudo somando um risco consideravelmente elevado de sair prejudicado o prazer do ritual matinal. Assim se compreende as vantagens de podermos estabelecer os parâmetros exactos que vão definir a composição do nosso café com leite ideal: tamanho, índices de café e de leite, tipo de leite, com ou sem espuma, etc. Li algures que, no Starbuks, a elaboração das bebidas de café não tem intervenção humana, obedecendo a um simples comando computorizado. Eis pois que, uma vez eleito o modelo (que poderá ter uma denominação com até três substantivos) podemos saboreá-lo em qualquer dia, a qualquer hora, com plena isenção dos riscos associados à sua preparação.
Sirvam-me um capuccino numa piazza italiana e estarei pronta a desdenhar o caffè latte do Strabucks.

Butch Cassidy and The Sundance Kid

Pelos 12 anos apercebi-me de que os homens podiam vir em invólucros muito atractivos. Lembro-me distintamente quando esta parelha excepcional me despertou para o assunto, e recordo particularmente esta cena.
Paul Newman 1925-2008

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Chá e outras questões fundamentais

Isto fez-me lembrar a longa conversa, do foro técnico, que tive na semana passada com o inspector do gás, que a páginas tantas me explicou que o fornecimento de electricidade é gerido por um centro de controlo que canaliza a energia para as diferentes cidades nos diferentes horários, onde, quando e na medida do necessário, de forma a que não aconteçam sobrecargas nem falhas eléctricas. Deu o exemplo do Reino Unido, onde uns senhores - não computadores -instalados no dito centro de controle seguem atentamente o jogo de futebol e, cinco minutos antes do final, aumentam o caudal eléctrico (passo a expressão) para fazer face ao exponencial aumento do consumo que se vai gerar nos minutos seguintes, no momento em que os telespectadores britânicos, erguendo-se dos sofás num movimento sincronizado, se dirigem às cozinhas e ligam as chaleiras eléctricas afim de preparem o chá.
Assim possamos nós canalizar as nossas energias para o que é fundamental.
(As coisas que se aprende quando nos dispomos a conversar com as pessoas.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Something's got to give

É praticamente impossível manter um ritmo constante de produção, interacção e entrega em todas as dimensões das nossas vidas, que são cada vez mais numerosas e abrangentes. Ele é a vida familiar (que pode subdividir-se em conjugal, familiar descendente e familiar ascendente), a vida profissional, a vida cultural, a vida social e, nos tempos que correm, a componente electrónica das últimas, que é passada on-line. Ao fim de algum tempo, something's got to give - e cada um saberá o que é que entrega em troca do quê.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sécurité Routière

C'est génial, c'est marrant et ça peut vous sauver la vie.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Escola

De mochila às costas, lá foi ela para o seu primeiro dia de aulas. Na mochila miniatural levava a fraldinha e o urso cor-de-rosa, para a sesta. Entrou no sistema: não os entrego antes dos 3 anos (no caso dela, 2 anos e 9 meses, vá). Suspeito, esperançosa, que não se deixará submergir por ele.

domingo, 7 de setembro de 2008

Liberdade


Quando Rose (Juliette Binoche) declara que é a primeira vez na sua vida que ninguém que a conheça faz ideia de onde ela está, e Félix (Jean Reno) parece compreender inteiramente aquela sensação tão específica e única de libertação (Décalage Horaire, 2002), deu-se, também em mim, um daqueles preciosos momentos de reconhecimento e identificação.
Lembro-me distintamente da euforia tranquila que senti quando, aos 26 anos, levantei voo na Portela rumo ao Maputo. Naquele meu caso, não se tratava de ninguém saber para onde me dirigia, mas sim de não haver, do outro lado, quem me acorrentasse aos papéis que desempenhara até então, nem, do lado de cá, quem pudesse sequer imaginar o que seriam os meus dias e noites do lado de lá.
Mais tarde e no período em que vivi sozinha, aprimorei esta sensação quase indizível por meio do exercício esporádico de pequenas viagens anónimas e não divulgadas (que útil o telemóvel que evita preocupações sem nada revelar), que me proporcionavam essa sensação ímpar da mais completa e refinada liberdade, cumprindo o primeiro e mais pungente dos meus anseios, aquele que me persegue desde que me lembro de existir.

sábado, 6 de setembro de 2008

Do carácter

O carácter é das tais coisas: uns têm, outros não. Bem podemos passar anos a ignorar ou tentar não ver a ausência de carácter de alguém que nos é próximo que, inevitavelmente, ela se nos exibe, evidente, enorme, gritante, inultrapassável, contrastando dramaticamente com atitudes com que outros, quase estranhos, nos surpreendem.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Calor

Num desses dias de muito calor, o sol ainda queimava e já passava das sete da tarde, eu acabada de correr sentada no meu banco de cimento, sem arrefecer, fui sentar-me mais atrás, no limiar da relva, à sombra benevolente de uma árvore. Indo mais longe descalçei os ténis e depois as meias, e logo o tão esperado alívio e um surpreendente bem-estar. Ali fiquei, as pernas nuas e estendidas, as unhas vermelhas dos pés contrastando com o branco da calçada. À minha direita, um rapaz, quase um homem, lia um livro à sombra da árvore seguinte. À minha esquerda, o bebedouro era paragem obrigatória a quem por ali se expunha ao calor. O rio estava parado, o tempo juntou-se-lhe enquanto para ali fiquei a contemplar quem passava e não passava, sentindo o fresco da sombra, o refrescante toque das pedras na planta dos pés.
Foi em Junho e foi um dos melhores instantes deste ano.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Amores de Verão

Quando era miúda, tínhamos os amigos de Verão, os de todos os Verões, os que, por definição, não eram os mesmos do resto do ano. Ainda que vivêssemos quase todos em Lisboa, os do Verão eram os do Verão e, chegado Setembro, só nos tornaríamos a ver, com sorte, lá para a Páscoa.
De repente apercebo-me que, aos poucos, retomei esse velho hábito muito salutar, que vale agora também para os meus filhos. Quebrar rotinas é também mudar de caras, de conversas, de guiões. E guardar, ao longo do ano, a expectativa do feliz reencontro.
Definitivamente, não percebo a lógica dos que se deslocam em manada.

Re

É o regresso, o retorno, o recomeço, a rentrée. Tónica no re.
E a insónia recorrente, desperdiçando a derradeira oportunidade de recuperar o sono em atraso. Há coisas que não mudam: passear-me pela escuridão silenciosa da casa às 4 da manhã é uma delas. Não há férias que me valham.
Welcome back.