sexta-feira, 25 de julho de 2008

Perdi um amigo, um velho e bom amigo, vítima de doença mental. Posso dizê-lo (só agora?) com todas as letras da palavra que aqueles que te rodeavam não ousavam pronunciar: esquizofrenia.
Perdoa-me (sempre me perdoaste) por todas as vezes em que não te dei a atenção que podia ter dado, a que merecias. Perdoa-me ainda (já me perdoaste) por não poder estar presente na última homenagem.
Disseram, do resto das pessoas, que tinham as suas vidas (tínhamos as nossas vidas). Fraco sinónimo para falta de humanidade. Ficaste só. Só morreste.
Fica agora em paz, J.J.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sul

Depois de ter dado o litro - recorrente e obrigatório em vésperas de férias - vou instalar-me mais para Sul.
Até já.

domingo, 13 de julho de 2008

Anos

Lembro-me bem, quando era miúda, era Verão, havia sol e calor e presentes e bolo e parecia que por um dia eu era o centro do mundo porque fazia anos.
Hoje em dia não sei se me custam mais os progressivos telefonemas forçados ou a progressiva ausência deles.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Mundos

Ontem, depois da natação, levei os meus filhotes a lanchar a uma esplanada à beira rio. O lugar era razoavelmente sofisticado e, na mesa ao lado, sentaram-se três homens engravatados, aparentemente cheios de coisas importantes para discutir. O contraste entre as duas mesas era tão acentuado que me perguntei qual dos grupos estaria ali deslocado: se eles, se nós. Depois de alguma ponderação e tentativas inviáveis de fazer baixar o tom de voz aos miúdos, excitados que estavam com aquele programa inesperado, decidi que eram os outros que estavam a mais. Que fossem reunir-se para uma sala construída, decorada e devidamente insonorizada para esse fim. O grupo dos homens lá ia deitando olhares de soslaio perante os protestos de que o leite não estava suficientemente frio, as discussões por causa das cores das palhinhas, os guardanapos de papel a voarem pelo ar, etc, etc, como se não tivessem filhos lá em casa. É inacreditável como, com um par de olhares de través, qualquer um põe em causa anos de cuidados pedagógicos e educacionais.
Na verdade, só depois de ter filhos é que me apercebi que há pessoas que, apesar de os terem, mantêm a estranha capacidade de dividir o realidade em dois mundos - com e sem crianças. Fazem-no com tal rigor e austeridade que têm muita dificuldade em lidar com a intromissão do primeiro (o familiar) no segundo (o profissional), dando mostras do narcisismo e intolerância típicos de quem, por um lado, se leva demasiadamente a sério e, por outro, nunca teve que praticar aquela ginástica física e mental de encaixar os dois mundos numa única sucessão de tarefas diárias: alternando, sobrepondo, misturando e dividindo, levando o trabalho para casa e a casa para o trabalho, interrompendo um raciocínio jurídico para resolver uma desavença entre irmãos, ou atendendo um cliente ao telefone enquanto (por gestos) vai implorando às crianças que não se ponham a gritar no banco de trás. Coisas que, para algumas (e alguns) de nós, são o pão nosso de cada dia e que, se assim nos fôr permitido, não põem em causa a dedicação e seriedade na realização de qualquer uma das tarefas em mão.
Não pude então deixar de sorrir quando os miúdos, que não podem compreender como é que uma torrada demora uma eternidade a materializar-se na mesa à sua frente, decidiram chamar o empregado em coro e ao desafio, pondo toda a esplanada a olhar para eles: SENHOR.... SENHOR .... (SENHOL, na versão da mais pequena) .... TEMOS FOME!
Existe caso mais sério do que um par de miúdos com fome?

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Tratado sobre a amizade em forma de carta ao Amigo Ideal, que começa assim: meu querido Amigo,

Perdoa-me se não exerco a contenção que parece ser social ou emocionalmente correcto exercer, não sei bem, mas de há algum tempo para cá entrei nesta fase parecida com a tua de dizer o que tenho a dizer e pronto, diz-se, fica dito, é a verdade, não há que ler mais do que aquilo que é. Talvez pudessemos ser a excepção à regra nesta coisa de conter os pensamentos e emoções mais íntimos, acredito que podemos se formos claros e verdadeiros um com o outro, como sempre temos sabido ser. Gostava que em todas as ocasiões pudesses estar comigo perfeitamente à vontade, para me procurares se e quando e sempre que tiveres vontade, sem complicações nem obrigações nem contenções de qualquer espécie, enfim, que te sentisses comigo como em tua casa. Na verdade vejo-te como um velho companheiro de muitas vidas que reencontrei nesta para ter com quem debater assuntos que outros têm menor facilidade em compreender. Nesse sentido e se considerarmos que existimos noutra dimensão superior, tu e eu vamos olhando um pelo outro nesta existência aqui, porque somos muito amigos naquela outra. Assim se faz que nos cruzamos e tornamos a cruzar em ocasiões superiormente determinadas, porque temos coisas importantes a perceber um com o outro, em bom rigor a lembrar um ao outro, e para isso não é preciso saírmos a beber copos todas as sextas à noite. E agora já não sei onde queria chegar, perdi-me...
Ah, queria dizer-te o quando estou grata por seres esse amigo desta e daquela outra vida. Por não estares calado e dizeres o que tens a dizer, dares a tua opinião ainda que, e principalmente quando, contrária à minha, quando outros se limitariam a acenar com a cabeça. Por me fazeres ver que não sou a única da minha espécie e me ajudares a relativizar as problemáticas. Por te preocupares, por te interessares verdadeiramente por mim, de uma forma não passiva mas activa, dinâmica, bilateral, no sentido em que sinto sempre que recebo tanto quanto dou e que dou tanto quanto recebo - e isso, acredita, é uma coisa muito, muito rara.
Comoves-me, nem tu sabes o quanto, quando me chamas de irmã, e ainda assim consegues sempre fazer-me sentir como uma mulher.
Olha, pus um poema no meu blog em homenagem à nossa amizade, na verdade em homenagem a ti.

A.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Log off. Restart.

Após anos de inactividade desportiva regular, há três meses que, três vezes por semana, vou até ao rio correr. Detesto ginásios e os seus aglomerados de gente, os encontros sociais, as exibições de vaidades, as televisões que não dão espaço para pensar, as garrafinhas de água e as toalhinhas brancas à volta dos pescoços suados, o ar bafiento, os tectos baixos e a luz artificial (e as máquinas, que horror, as máquinas). Não consigo encontrar nada de relaxante ou agradável num ginásio encafuado, quando apenas anseio por espaço e ar livre e, com toda a honestidade, corpos suados, desnudos, a cheirar a corpos, gosto dos que me pertencem ou com os quais me seja dada a escolha (e o prazer) de partilhar a exiguidade de um espaço.
E é assim que, três vezes por semana, faço esticar o tempo para me entregar a esta actividade egoísta, hedonística, solitária e silenciosa, o céu aberto, a luz verdadeira, o ar não filtrado: um bocadinho de tempo e uma imensidão de espaço só meus - que prazer.
Depois da corrida, sento-me à beira do Tejo num banco de cimento onde a tinta azul e letras garrafais alguém escreveu ÉS A RAZÃO DO MEU VIVER, e ali fico uns bons 15 minutos, de pernas cruzadas a lembrar a posição de lótus, a olhar em frente, para o lado de lá.
A respirar tranquilidade.
Log off.
Restart.