sábado, 31 de maio de 2008

Thank God for good old fashioned rock & roll !

Foi verdadeiramente deplorável e embaraçoso o espectáculo com que Amy Whinehouse brindou as 90 mil pessoas ontem presentes no Rock in Rio. Tarde e a más horas, desculpando-se logo à partida (e de forma quase ininteligível) pelo atraso e pela falta de voz, desorientada e desequilibrada no meio do palco, gestos, rosto, voz e palavras totalmente desconexos, patética e tristemente dependente dos seus acompanhantes a quem (via-se) ia implorando por apoio. Deu dó, é verdade, mas foi para ocasiões como esta que se criaram os apupos, que apesar de tudo, pouco se fizeram ouvir, tal era o embaraço geral. O que se ouviu, e bem, foi o silêncio dos 90 mil a preencher o espaço entre as músicas, tão desconfortável que Amy por duas vezes implorou: make some noise ! Por três vezes tentou pegar na guitarra e não conseguiu, outras tantas falhou o gesto simples de colocar o microfone no suporte e por fim lá se estatelou (ou quase), sapatos voando pelo ar e o estrondo do microfone a cair no palco, juntamente com as expectativas desfeitas de um público que ali estava, essencialmente, para a ver a ela.

Mas Lenny Kravitz, superando tudo e todos, chegou para salvar a noite. Perante um público ainda incrédulo pelo que acabara de presenciar, Lenny entrou a matar, numa actuação extraordinária, plena de força, confiança e entrega, em perfeita simbiose com a banda que o acompanhava. Lenny super cool. O público demorou o seu tempo a estar à altura daquele desempenho fabuloso, mas inevitavelmente chegou lá, e ao entrar na segunda hora Lenny Kravitz tinha ganho a noite - e os 90 mil. A mim, teve-me logo no primeiro acorde e foi dançar non-stop durante quase duas horas, como que trocando de lugar com os milhares de adolescentes que me rodeavam, ainda a tentarem perceber o que se estava a passar. Há que dizê-lo: thank God for good old fashioned rock & roll.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Juízo

Olhando para trás, com a objectividade possível, devo dizer que as decisões de que mais me orgulho na vida foram aquelas que temi serem as menos ajuizadas. Já agora, confesso que os melhores momentos também, e aproveito para agradecer a todos aqueles que tiveram a capacidade de me fazer perder o juízo, ou que me acompanharam em alguns desses momentos.
Só não sei bem que ilações tirar disto. Provavelmente, que o meu conceito de juízo é demasiadamente severo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Gostar

O de quatro anos está sempre a perguntar porque é que gostamos daquilo que gostamos: no caso dele, de chocolate, de gelados, de carrinhos Hot Weels, de passear num dia de sol, de correr na rebentação, de um abraço apertado. Se eu lhe pergunto se gosta, ele responde que gosta, mas logo: porquê? Se ele me pergunta se gosto, respondo que gosto e ele: porquê? e eu: porque sabe bem, porque é bonito, porque me faz sentir bem, porque me faz feliz; e ele, logo: mas sabe bem, porquê? faz sentir bem, como? and so on and so on (até chegar à suprema pergunta: feliz é o quê?).
Já tentei explicar-lhe que, às vezes, não sabemos bem porque é que gostamos. Um dia tentarei explicar-lhe que até podemos gostar contra toda a lógica, contra todas as razões; que não nos podemos impedir de gostar - apenas nos podemos impedir de agir em função disso; que isso vale tanto para os chocolates, como para muitas outras coisas, passando pelas drogas e incluindo as pessoas; que crescer significa, afinal, aprender a fazer uso dessa capacidade de contenção; que fazer uso dessa capacidade às vezes faz sentido, outra vezes não; e por aí fora, até chegarmos à única conclusão possível: que a lógica, às vezes, é uma batata.
Suspeito que, na busca incessante da lógica das coisas, própria de quem se esforça por perceber o mundo, ele vai demorar o seu tempo a aceitar isto.

terça-feira, 27 de maio de 2008

It cracks me up

Reconheço que sou dada a obsessões: como ouvir o Slow Show dos The National, non stop de Carcavelos até Lisboa, em hora de ponta.

domingo, 25 de maio de 2008

Falemos pois do tempo

A única vantagem deste inverno que não acaba é que dá assunto de conversa para quem não tenha o que falar. Nesta minha fase de misantropia, em que não encontro plataforma de comunicação possível com a grande maioria das pessoas, dá um certo jeito.

Percepção

A diferença entre perceber e percepcionar pode parecer subtil, mas é na verdade abissal. Podemos levar a vida a tentar perceber, compreender, entender. Mas, no fundo, o que realmente conta é a realidade tal como a percepcionamos - uma das muitas interpretações possíveis daquela que nos rodeia.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Instantes (5)

Se fechasse os olhos, conseguia tornar a subir a calçada que despertava com o cair do sol, sentir o ar morno a confirmar a chegada do Verão que ambos celebravam vestidos de branco, caminhando de braço dado em risos de novas cumplicidades e alegre antecipação do que se adivinhava no ar.

Instantes (4)

Se fechasse os olhos, conseguia tornar a acordar no quarto imerso no verde da floresta tropical, de frente para o mar, sentir o calor húmido na pele, o torpor do corpo no conforto da cama e, naquele breve instante que antecede o abrir dos olhos, distinguir o ruído da água do duche a correr, na casa de banho.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Instantes (3)

Se fechasse os olhos, conseguia voltar ao carro percorrendo a estrada sinuosa, o silêncio carregado das palavras que já não cabiam naquele breve instante, a luz da alvorada para além do mar que tudo preenchia. À porta do aeroporto, receber a mala e um beijo rápido a não permitir grandes cenas e ficar a vê-lo afastar-se, sem olhar para trás, num rompante de voltar as costas que os libertava, a ambos, das promessas desajeitadas que encerrariam os breves dias de idílio quase clandestino.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Às mães que já são e às que virão a ser

Reproduzo aqui um comentário que fiz no Rititi, a propósito da maternidade, alargando-o em função das muitas elaborações mentais sobre o assunto:

Não sendo daquelas pessoas hiperbólicas, que acham que tudo tem que parecer extraordinário para ser importante, afirmo que o amor maternal não é automático e principalmente não é imediato. Quando nasceu o meu primeiro, fiquei, no acto, à espera daquela onda de amor avassalador de que tanto falam - e nada. Senti, naquele momento, um imenso sentido de responsabilidade e um enorme instinto de protecção. Mas também um sentimento de estranheza: quem vinha a ser aquele ser que acabara de produzir? Apesar de o ter carregado durante 9 meses, no momento em que nasceu senti que não fazia ideia de quem ele era e, mais preocupante, o que queria de mim. Durante a gravidez achei que se tinha criado a denominada vinculação, mas logo que o expulsei de mim desenganei-me: o acto de separação física - passámos a ser dois e não um só - foi em si mesmo um choque. Apercebi-me que estava ali um ser humano inteiramente novo, que era meu apenas no sentido genético. O resto, teria que conquistar e fazer por merecer.
Como ser geneticamente programado que também sou (e com muita vontade de ser mãe) engoli as incertezas e desatei a tratar daquela mini-pessoa desconhecida (lembro-me bem, ao sair do hospital, de pensar como era possível que me deixassem levá-lo para casa sem me perguntarem se sabia cuidar dele - não seria necessária uma certificação prévia para o exercício de uma função tão especializada?)
E depois foi assim: o amor - avassalador, sim senhora - despontou na interacção, enquanto cuidava, entre noite insones, mamas doridas, nervos à flor da pele. No fundo é como qualquer outra paixão: ao fim de 3 meses, quando parei para respirar, descobri que estava irremediavelmente, loucamente apaixonada. Com a diferença de que esta paixão não esmorece nunca. É assim que, de uma assentada, desmistifico outra ideia feita: o nascimento do segundo não perde nada em relação ao primeiro; muito pelo contrário, porque o fazemos já conscientes da magnitude do que aí vem.
Afinal, sei-o agora, serem sangue do nosso sangue ou nascerem do nosso ventre é o que menos importa: a maternidade começa realmente quando os levamos para casa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O respeitinho é muito bonito

Não me parece de todo relevante a questão legalista de saber se um avião fretado é um transporte público. Sócrates fumou para cima do grupo de pessoas com quem trabalha e mais alguns convidados, que por conta do privilégio de viajarem com o Grande Chefe, perderam o direito que ele próprio fez questão de garantir ao cidadão comum: o de respirar ar livre de fumo de tabaco. Ainda invocou ignorância da lei (e das boas maneiras), disse que sempre assim tem feito, e saiu-se com a resposta patética e infantil de que não foi o único.
Não restam pois grandes dúvidas que andará em São Bento a fumar para cima daqueles que convidou para (o ajudar a) governar o país, e de todos aqueles que lá trabalham. É que contra o Chefe ninguém reclama - e o nosso P.M., pelos vistos, não tem a noção dos motivos de fundo que levaram à adopção das medidas restritivas quanto ao fumo nos locais de trabalho.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Instantes (2)

Se fechar os olhos, consigo entrar no saco-cama macio um tudo nada mofento, ouvir o bater metálico, ritmado e contínuo, dos brandais no mastro, o chape-chape da água a lamber o casco, o ocasional ranger das obras-mortas, o roncar distante e abafado do motor de uma traineira que sai para a faina, o cheiro a madeira misturado com a maresia, o quase imperceptível embalar que trouxe tantos adormeceres.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Instantes (1)

Se fechar os olhos, consigo entrar numa tarde de verão na sala de aulas: o silêncio dos colegas a trabalhar, o chocalhar das canetas remexidas nos estojos, o remexer dos papéis, o ligeiro arrastar das cadeiras no chão em impaciência de pés e pernas, os outros sons que me invandem pelas janelas abertas daquele segundo andar e complementam o estado de sonolência semi-hipnótica: a quietude do recreio vazio, os pássaros a piar nas árvores, o leve zum-zum dos carros, muito ao fundo, a acelerarem na Joaquim António de Aguiar (de vez em quando lá levavam uma criança à frente) e até, com um pequeno esforço de memória, o batuque das obras a erguerem as torres das Amoreiras. Se fechar bem os olhos, consigo ainda sentir o ar quente e adocicado pelo aroma das folhas dos castanheiros e das amoreiras, misturado com o leve odor a pó de giz, à madeira encerada das carteiras e a trinta pré-adolescentes e um adulto numa tarde de verão na sala de aulas.
Está tudo aqui, um instante guardado ao alcance de um breve cerrar de olhos.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tempo

O tempo parece que anda por aí a gastar-se. Num pulo passaram 3 meses e nada se passou. Apenas os dias, corridos, seguidos, com pequeníssimas, quase imperceptíveis variações (de humor, fundamentalmente). Olho os pequeninos que tanto lhes acontece, mudam e evoluem e três meses são uma eternidade. Mas três meses são apenas todos os dias juntos e quando iguais é quase como um só, longo e anestesiado. A ver o tempo passar. E nada.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

4

O de quatro anos, entrando no carro:
- Mamã, posso ir sem cinto?
- Claro que não.
- Mas eu sou um super-herói !
- Não é nada um super-herói. É um menino.
- Mas com a farda (do colégio) pareço um homem.

Por exemplo

Teto, ato, ação, afeto, perceção, objeto, coletivo, ótimo, exato, estoico, pera (o fruto), pelo (o orgão filiforme).

IRRA !!!!!!!!!!!!!!!!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Manifesto em defesa da língua portuguesa

Quem esteja interessado em engrossar a voz contra o Acordo Ortográfico, pode clicar aqui para assinar a petição que está em curso desde sexta-feira passada.
Existe uma outra (menos pomposa e menos mediática), que no entanto tem exemplos bem elucidativos do absurdo: aqui.
E, já agora, passem os olhos pelo texto do Acordo, aqui.
A minha opinião já conhecem.