terça-feira, 29 de abril de 2008

Acordo ótimo?

Resposta ao Nuno Boavida:

Tenho grandes dúvidas sobre as vantagens do acordo ortográfico para preservação/divulgação da língua portuguesa no Mundo. A língua é uma coisa viva, circula livremente entre as pessoas e vai-se modificando sob a influência das culturas com que contacta. O português do Brasil (ou de qualquer outro país lusófono, acontece que o do Brasil conheço eu muito bem) é nesse aspecto mais rico do que o português de Portugal - e não é menos legítimo nem menos correcto. Mas é diferente porque teve a sua própria evolução e não vejo grandes vantagens nesta unificação formal, imposta de fora para dentro - não me parece que língua nenhuma beneficie com isso. Mais, não me parece que seja possível alterar impositivamente uma língua e não sei porquê tenho a sensação de que estamos todos mais uma vez (ainda me lembro de o fazer quando tinha vinte anos) a discutir um acordo que vai continuar na gaveta. Veremos.
Os argumentos a favor ou contra o acordo são só argumentos e quase parecem criados por um "debate club" (por exemplo, não é verdade que o inglês tenha uma ortografia única no mundo inteiro mas ainda assim proliferam os jornalistas sérios que continuam a usar o argumento, como se, tendo aderido a esse lado do debate, não pudessem exprimir dúvidas nem fazer concessões à outra parte). Tenho lido os argumentos a favor: não estou convencida. Talvez porque fico arrepiada só de pensar em escrever ótimo em vez de óptimo. Reconheço que ficar arrepiada não é argumento sério, mas significa pelo menos que só argumentos muito sérios e válidos me vão convencer a engolir a repulsa automática, que me surge das entranhas. Espero com isto não configurar o tipo velho do restelo (usando a tua terminologia) ou reaccionário. É coisa a que tenho horror.
Não tenho nada contra a expansão oficial da língua portuguesa por forma a abranger outras terminologias ou ortografias: antes pelo contrario, isso é o natural, na medida em que significa oficializar a realidade de cada país, respeitar a riqueza e individualidade de cada cultura. O que considero contra natura é espartilhar a língua à força, em prol de uma pseudo-unificação: por exemplo, abolir as ditas consoantes mudas não traduz a realidade cultural do nosso país. Elas estão ali, quanto mais não seja por razões etimológicas (que são, do meu ponto de vista, razões mais do que suficientes) e ainda que não sejam pronunciadas, em alguns casos alteram a fonética, noutros a inflexão das palavras. Seja como for, parece-me que ainda não estamos preparados para prescindir delas à força e esse é que é para mim o grande argumento. Eu, pelo menos, não estou.
Suspeito que quem beneficia deste acordo são alguns grupos económicos - parece-me, como em quase tudo, que são os interesses económicos que prevalecem sobre os interesses culturais. Podes dizer-me que a divulgação dos livros e afins é essencial para a preservação da língua e cultura e para o desenvolvimento cultural/educativo dos países da CPLP. Em teoria, sim. Mas não me parece que o acordo ortográfico vá alterar o estado das coisas. Desconfio que não seja esse o fim último do acordo.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

The Kiss

Norah Jones disse que teve que beijar Jude Law mais de 90 vezes para fazer a cena do beijo roubado no filme My Blueberry Nights.
Se é para fazer mais de 90 vezes, não consigo imaginar coisa melhor do que beijar Jude Law.

sábado, 26 de abril de 2008

A solidão é um estado de espírito

Aquele estado em que caímos quando não temos distracções que mantenham a ilusão contrária.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A casa

Cá estou na casa algarvia de há 27 anos. Impressiona-me pensar o que estas paredes brancas sabem, que viram tantos instantes a moldarem quem sou. A porta por onde entrou a minha paixão dos 13 anos, a dos 16, a dos 19, dos 24, dos 26, dos 27, a dos 28 (nem que por uma só vez), as que rechearam o entremeio e mais as que só cá entraram cá dentro. Posso calendarizar a minha vida de acordo com as minhas paixões, que coisa esta, que sempre me fascinaram os homens, todos guardados em memórias que não passam, como não morrem os afectos. Durmo no quarto de sempre, neste que me guardou tantas noites em claro, os grilos estridentes lá fora, eu sonhando de olhos abertos à escuta. E as noites suspensas da rede no jardim, as estrelas, as voltas e reviravoltas cá dentro e ainda, e sempre, os grilos.
A casa e eu dentro da casa, eu a casa da gente dentro de mim.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Liberdade

Delicio-me com a libertação que advém da conclusão de um trabalho laborioso (passo o pleonasmo). Reconheço que há poucas coisas na vida que me dêm prazer igual ao da sensação de liberdade: saboreio até as mais pequenas impressões.
Numa nota mais positiva, rumo ao sul.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Fantasmas

Todos temos os nossos fantasmas. Uns mais sombrios do que outros.
Alguns serão mesmo inimagináveis.

Quem me leva os meus fantasmas

terça-feira, 15 de abril de 2008

segunda-feira, 14 de abril de 2008

40

No primor dos seus 33/34 anos, José Luís Peixoto escreveu na Visão da semana passada uma crónica sobre "os 40", num retrato preenchido do que, à primeira vista, parece um chorrilho de lugares-comuns. José Luís Peixoto não tem nada de comum no estilo literário. Muito pelo contrário, nas obras que conheço dele, conduz a criatividade muito além dos limites do imaginável. Ora, considerando a aproximação vertiginosa que faço aos 40 e a avaliar pelos questionamentos, dúvidas e ansiedades que esta fase parece vir produzindo na minha vida, receio bem que a célebre crise dos 40 se venha a revelar isso mesmo: um terrível lugar-comum.
Terá sido isto que ele quis retratar.

sábado, 12 de abril de 2008

Silently


Oh, sweet creature / I know exactly how you feel / Your clock is ticking, tick tack tick tack / Your heart is beating, tum tum tum tum tum.

Quinta-feira foi um dia algo estranho.
De manhã, tive a oportunidade inesperada de partilhar um par de confidências. Ora, eu não sou pessoa de confidências. Nunca fui. Como afirmou recentemente a minha própria irmã, sempre fui muito misteriosa. Seria muito provavelmente capaz de contar pelos dedos de uma só mão as oportunidades que agarrei na vida de confidenciar assim a minha intimidade (e, pensando bem, com menos dedos ainda contava os destinatários dessas confidências). Constato a verdade que permanentemente esqueço: faz bem à alma.
À tarde, encontrei um velho amigo que não via há mais de uma década. Seguimos pela vida indangando porque raio deixámos de cruzar caminho com certas pessoas e de repente ali estamos, ali coincidimos fisicamente por um breve momento no tempo e no espaço. Dizer que acontece quando menos se espera é mera redundância.
Quando chegou o fim do dia, o computador de bordo indicava 3 horas e 30 minutos atrás do volante. Há dias assim, mas o que tornou tudo ainda mais estranho foi ter sido acometida de uma inesperada compulsão musical, que me ancorou à faixa 6 do album 23 dos Blonde Redhead, todo o tempo em que fui conduzindo. É que deu para muitos e muitos rewinds.

Não há versão youtube minimamente apresentável, mas pode-se ir aqui ouvir.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Prova em contrário

Outra coisa que consegue abalar a minha crença arreigada de que ainda agora nasci, é a fotografia tipo passe que acabei de tirar.

Estilos

Consigo estar triste ou zangada, ficar em fúria, saltar-me a tampa; estar devastada, arrasada, humilhada ou desesperada; fico irritada, aborrecida, magoada, de coração partido, estilhaçado; sei chorar, gritar, berrar, dar pontapés nas portas, rasgar coisas, atirar com objectos, partir o que estiver à mão; chamar nomes, dizer palavrões, ser maldosa, produzir afirmações refinadamente cruéis; embora não seja o meu estilo, já tentei ficar amuada (não durou mais do que uns minutos) e certa vez preguei com um valente estalo. Tudo isto já fiz. Mas o que não consigo, não consigo nunca, é ficar fria. Distanciada. O que nunca sou capaz é de ficar calada.
Dana-me que haja quem o consiga tão bem.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

The Matrix ou a vida virtual

No Sábado parei no sofá o tempo suficiente para (re)ver a primeira parte do "The Matrix". Às tantas, Morpheus pergunta ao herói, Neo, se ao longo da vida não sentira sempre que alguma coisa não batia certo, que havia algo de deslocado naquela realidade que lhe era dada viver: que além daquilo, para além de tudo aquilo, teria que haver mais.
Percebo-o bem. Transpondo para a minha realidade, é como se muito cedo, tão cedo que nem me apercebo quando, tivesse tomado o caminho ligeiramente ao lado. Ligeiramente apenas: não tanto que me sentisse inteiramente perdida, mas o suficiente para não mais encontrar o lugar exacto para onde me encaminhava quando parti, perambulando pelo mundo com uma eterna sensação de deslocamento, na permanente angústia de que não será bem isto.
No fundo, no fundo, ainda vivo na esperança de que, tal como Neo foi resgatado do seu casulo, um dia alguém puxe pelo fio que me liga à tomada da realidade virtual e ao desligá-la me reconduza à vida real.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Vidas

Olho para os homens feitos. Leio os escritores, os cronistas, os bloguitas, os intelectuais, tão cheios de experiência, inundados de cultura, de verdade e segurança. Repletos de mundo. Vejo os secretários de estado, os vereadores e os deputados, aqueles que foram meus colegas de curso, sentados ao meu lado pelos anfiteatros abaixo, na versão masculina e na versão feminina: eles com a falsa segurança tão típica da idade, elas com os estojos de lata cheios de canetas de cores. Na versão queque, na versão saloia, na versão radical, tertuliana ou associativa, na versão geniozinho ou simplesmente intelectual, porque ali havia de tudo. As meias de leite ao pequeno almoço no bar da faculdade, as cervejas pelo final da tarde na esplanada e os charros nas catacumbas desertas, no entremeio. Vejo-os agora a todos, nos telejornais, nos jornais, por vezes até nas revistas de cabeleireiro: a meia dúzia que conheci e os muitos que não conheci. Duas coisas lhes distingo em comum: que se tornaram gente, gente que opina, que decide, que manda, gente que, presumivelmente, importa; e que são apenas tão velhos ou - pasme-se - mais novos do que eu.
Enervam-me. Fazem-me espécie. Quase não me permitem acreditar que sou, que sempre fui e sempre serei uma simples miúda. Sem grandes contas a deitar à vida.