segunda-feira, 31 de março de 2008

sexta-feira, 28 de março de 2008

Insistindo

Mário de Carvalho dá uma entrevista ao Público (Ípsilon, 28 de Março) a propósito do seu novo livro A Sala Magenta - que dá-se o acaso de eu estar a ler :
É importante que se diga isto porque há muita confusão por aí: não escrevemos sobre nós, escrevemos sobre os outros. (...) As vidas das pessoas não têm assim um interesse muito grande. As vidas das personagens têm.
E depois:
Paul Valéry dizia que um livro nunca está pronto: é abandonado. Esta obsessão com as palavras e com a construção das frases, torna-se insuportável. Então é que o livro é abandonado e entregue.

Portishead - Roads - este é para a filipa

quinta-feira, 27 de março de 2008

Psicadélico

De repente apercebo-me que deve estar a ficar na moda ter os blogues em tons berrantes. Até aqui era o fundo branco clean, sem compromissos nem risco de parecer qualquer coisa menos do que um ponto de encontro entre intelectuais. Agora um grupinho de blogues aderiu à tendência psicadélica. Pergunto-me se isto se irá generalizar: é que não me parece que seja bom para a vista.

segunda-feira, 24 de março de 2008

A capacidade para se estar nas tintas ou "frankly my dear I don't give a damn"

Li no outro dia uma referência ao que disse o dramaturgo inglês Tom Stoppard:
"What people tend to underestimate is my capacity for not bothering, not caring, not minding, not being that interested."

Para mim, mais do que "a capacidade de não estar interessado", esta postura traduz a capacidade para se estar nas tintas.
A capacidade para se estar nas tintas é uma faculdade que só aprendi a dominar tarde na vida, pelos meus 25 anos, no final de uma longuíssima adolescência de preocupação sobre o que os outros poderiam pensar das minhas acções, das minhas ideias, das minhas escolhas, acerca de tudo e mais alguma coisa que me dissesse respeito. A esta preocupação somava-se uma outra, que lhe está intimamente ligada, de agradar, de ser correcta, de fazer o que está certo para todos. Foi um longo e tortuoso caminho, que ainda se vai construindo. Este percurso sofrido, repleto de tentativas e semeado de desilusões, de pequenas e grandes conquistas, desembocou na capacidade (ainda em desenvolvimento) de fazer uso da dita faculdade.
A acção de se estar nas tintas (que vai muito além do mero uso da expressão "estou-me nas tintas!"), quando adequadamente empregue, corresponde à afirmação da individualidade sobre a imposição da verdade alheia, sobre a vontade e as expectativas daqueles que nos rodeiam. As expectativas alheias, que inundam qualquer pessoa desde que nasce para o mundo, podem tornar-se no mais perverso elemento paralisador da capacidade de cada um para agir de acordo com a sua verdade. A possibilidade de ignorar essas expectativas, que vem com o pacote da capacidade para se estar nas tintas, é o elemento redentor, proporcionando uma sensação única de liberdade, confiança e auto-estima - a sensação que se tem quando se age dentro de certos parâmetros de autonomia.
Mas também é verdade que, no limite, a capacidade para se estar nas tintas pode conduzir a um certo estado de euforia e, nessa medida, tornar-se viciante. É importante, por isso, aprendermos a fazer uso adequado dela - ou corremos sérios risco de nos tornarmos uns miseráveis egoístas.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Lx

Ficámos em Lisboa esta Páscoa.
Durante toda a minha infância e juventude (já o disse) éramos os primeiros a sair e os últimos a voltar. E assim tenho continuado como posso, esticando ao máximo o privilégio de não ter férias contadas dia a dia. Lembro-me, há muitos anos, de ter vindo a Lisboa um par de vezes a meio do Verão e de ter achado a cidade estranhissima. Nunca reconheci esta Lisboa esvaziada de gente, de trânsito, de barulho. Talvez por isso, ainda hoje me sinto estranha quando aqui fico, como que deixada para trás. Compreendo as imensas possibilidades de permanecer e tranquilamente poder usufruir dela. Compreendo, mas é mais forte do que eu: não gosto. Nunca me vou habituar. Sinto sempre que estou a perder alguma coisa. Agora, que também os miúdos perdem a oportunidade de espaço e liberdade. A cidade não é para as crianças. A minha cidade é também cada vez menos para mim.

quarta-feira, 19 de março de 2008

segunda-feira, 17 de março de 2008

A propósito de escrita criativa

Gonçalo M. Tavares disse em entrevista ao poeta mineiro Wilmar Silva (in Público, 13 de Março) :
Não identifico a literatura com reflexos apaixonados e batimentos cardíacos. Não me parece obrigatório que, na poesia, se escrevam autobiografias ou descrições de estados sentimentais individuais. O problema é que esses estados não são partilháveis. A ideia de que uma pessoa para escrever sobre um estado sentimental tem de estar nesse estado sentimental é bastante contestável.
Gonçalo M. Tavares empenha-se em derrubar a cisão entre cerebralidade e emoção.
Concordo que a emoção pode ser essencialmente gerada pelo cérebro. Já se falou sobre isso aqui. Qualquer detentor de um cérebro hiperactivo sabe como, partindo de uma coisa de nada, o pensamento compulsivo pode conduzir a uma sequência de emoções devastadoras.
Posso portanto conceber a hipótese de se recriarem emoções que nunca se sentiram, fazendo-o de uma forma exclusivamente cerebral. Mas para mim isto é ainda uma mera hipótese. Permaneço demasiadamente ligada às experiências de vida.

Wilmar Silva tem em mãos a tarefa de compilar o máximo de poetas vivos da língua portuguesa numa só obra, a publicar em três volumes, juntando poetas de Portugal, Minas Gerais, Cabo Verde e Guiné-Bissau, no primeiro, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe, no segundo e Macau, Goa e Timor-Leste no terceiro. A ideia é que esse emaranhado revele a língua portuguesa na unidade das suas diferenças.
Coisa para a qual nunca foi preciso qualquer acordo ortográfico.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Um

Este blog comemora hoje um ano de idade.
De um par de conversas à mesa do café (um pequeno mas valioso empurrão, que agradeço reconhecidamente a quem de direito) para o susto de uma página em branco, que acinzentei para disfarçar. Temi que se me esgotasse a vontade ou o assunto mas, entre altos e baixos, entusiasmos e arrefecimentos, roubando tempo aqui e ali (tempo que eu nem sabia que tinha), foi saindo assim. Não sei quando nem onde vou parar. Talvez nunca.
Lembro-me que, quando me embrenhei na fotografia, há uns anos atrás, passei a ver o mundo através de uma lente, aguçando o sentido estético, a sensibilidade à luz, a atenção ao detalhe. Agora olho para o dia a dia pensado em escrevê-lo, na perspectiva de um post que redijo mentalmente enquanto olho para as coisas, para as pessoas e, sobretudo, para dentro de mim. Carrego um caderninho (quando não se queda abandonado na mesa de cabeceira) mas continuo fundamentalmente a preferir a cabeça como ardósia onde escrevo e apago, altero e corrijo. Tornei-me também na feroz editora de mim mesma: alguns textos passam por várias versões antes de os pendurar na parede cinzenta, ou não saem de todo, talvez demasiadamente consciente de que fica escrito na pedra - aquela que ofereço aos meus filhos para que um dia possam espreitar o outro lado da mãe. Esta foi, afinal, a motivação profunda que demorei algum tempo a apreender.
Acima de tudo, dedico a celebração deste pequeno marco temporal ao meu punhado de leitores, que são poucos mas de pedra e cal, como se querem os amigos. Não podem supor o contentamento e incentivo gerado por um simples comentário vosso - e isto vale igualmente para os silenciosos, que não deixam de se interessar e comentar por fora e cuja presença, às vezes, apenas adivinho.
Sempre tem sido que, através dos outros, ganho percepção de mim própria - quanto mais não seja porque, nessa interacção, recebo o reflexo de mim mesma.

quarta-feira, 12 de março de 2008

18 versus 36

O Público comemorou 18 anos na semana passada e consagrou o P2 a esse tema. Entre outras coisas, publicou um breve estudo comparativo entre as duas seguintes gerações: a dos que têm hoje a idade do jornal (18 anos) e a imediatamente anterior, daqueles que tinham essa mesma idade no ano do lançamento (1990). Eu tinha 20 anos em 1990, o que vem a dar no mesmo e talvez por isso achei os resultados deveras interessantes.
A reportagem começa por concluir que não existem diferenças muito significativas entre estas duas gerações, ao nível dos valores e atitudes sociais o que, ainda que me custe um bocadinho, tenho que reconhecer. A verdade é que, embora tenha nascido antes do 25 de Abril, a faixa dos 35/37 anos representa a primeira geração que cresceu em democracia e isso parece fazer toda a diferença em relação àqueles que adquiriram consciência política antes da Revolução. Nesse sentido conclui-se que parece existir um maior distanciamento, a esse nível, entre os que têm hoje 35-36 anos e os que têm mais 10 anos, do que entre aqueles e os que têm menos 18 anos. O gap é muito mais real no primeiro caso - e essa é uma realidade que tantas vezes tenho sentido na pele. Não surpreende verificar que, uma vez estabelecidas as liberdades fundamentais, as preocupações são outras, de cariz não tão marcadamente teorico-político. Isto está claramente espelhado no facto de estas duas gerações "da democracia" se situarem, numa escala de 0 a 10 (sendo 0 a posição mais à esquerda e 10 a mais à direita) numa média de cinco vírgula quase nada em ambos os casos. A dicotomia esquerda/direita parece estar diluída no que alguns poderão qualificar de "cinzentismo". E isto independentemente da minha geração em particular ter, regra geral, pais muito politizados: parecemos saír mais à nossa época do que propriamente aos nossos pais. Na teoria e em ambas as gerações analisadas, a maioria não parece querer demarcar-se daqueles conceitos estabelecidos e largamente reconhecidos que são hoje tidos como politicamente correctos (a expressão não podia ser mais adequada). Tudo muito moderado: responsabilidade individual e consciência social caminhando de braço dado. Ou pode também ser que os dois grupos inquiridos se refugiem no meio porque simplesmente já não querem perder muito tempo a pensar nisso. Para o bem e para o mal.
Seja como fôr, qualquer destas razões (digo eu) justifica o facto de os grandes partidos políticos estarem hoje em dia mais ou menos equiparados a clubes de futebol: não se sabe já muito bem justificar porque é que se é adepto de um ou do outro. Talvez seja simplesmente porque sempre se foi, porque o pai ou a mãe já o eram e alguma coisa passou, ou porque os amigos também são. Mas o Público não iria tão longe nas suas ilações.
O estudo desenvolve-se noutras áreas de cariz não político. Numa nota mais prosaica, não me surpreendeu verificar que o computador e o telemóvel foram votados, em ambas as gerações, como a inovação tecnológica com maior impacto na vida de cada um (31/32% e 32/30%, respectivamente, para os 18/36 anos), nem que a internet o tenha sido, no grupo dos 35-37 anos, para 29 % deles (eu estou com estes). O que me deixou deveras surpreendida foi verificar que o leitor de MP3 surge como a inovação tecnológica mais importante das suas vidas para 9% do grupo dos 18 anos (nove-por-cento) - opção que nem sequer existe na geração dos 35-37 anos. Como diria um amigo, pouco mais velho do que eu: O quê? O walkman?
É caso para se dizer: Daaaaaaaaaaa.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Língua universal

A minha filha de dois anos, que começou a compor frases completas há pouco mais de um mês, de pé em cima de um livro, entrando eu em casa:
- Mamã, é uma pancha.
E logo a seguir, com expressão de triunfo:
- Mamã, é uma body bode.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Escrita criativa

A pergunta que fica no ar, na leitura de um blogue de perfil intimista, é a de saber qual o grau de correspondência entre aquilo que lá consta e a realidade. Nalguns casos, essa ligação directa é evidente e assumida. Noutros, não será tanto assim. A questão torna-se mais relevante quando quem lê tem uma ligação pessoal com quem escreve. Poderá então tentar imaginar-se do que ou de quem estará a pessoa em questão a falar.
Suponho que seja uma curiosidade natural essa de querer saber onde pára a realidade e começa a ficção, indagando o leitor se as situações e emoções narradas são o fiel retrato do dia-a-dia de quem as descreve, passam-se no presente, aconteceram no passado, ou não são mais do que um produto criativo. E, sendo este o caso, fica ainda por saber que parte da criação assentará numa qualquer realidade, transmutada em ficção. Regra geral, assumimos, ou pelo menos desconfiamos, que as pessoas tendem a escrever sobre aquilo que conhecem.
Este é um mistério que faz parte do encanto da leitura de uma maneira geral, na medida em que possibilita uma via de intimidade e identificação entre quem lê e quem escreve. É que há emoções e situações que, sendo únicas e pessoais, nem por isso deixam de ser universais, no sentido em que se reproduzem, em diferentes coordenadas, noutros lugares, noutros tempos, noutras pessoas. Simultaneamente, essa hipótese é também uma salvaguarda para a intimidade de quem escreve, permitindo-lhe ao mesmo tempo expor-se e esconder-se atrás das personagens que cria. Assim, é bom que o leitor possa reconhecer naquela situação/emoção o espelho de si próprio mas é bom também que possa apenas imaginar se foi vivido pela pessoa real.
É que há mistérios que não devem deixar de o ser, sob pena de perderem todo o encanto.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Sonho

Acordou da intensidade do sonho. Com o abrir dos olhos soube que aquele seria outro daqueles dias. Ele estava ali, invadira-a enquanto dormia e juntos seguiriam, pelo dia fora: na água quente do chuveiro; no gesto automático de escovar os dentes e não se ver ao espelho; na dentada da torrada, no gole da meia-de-leite no café; no som do computador a ser ligado e logo no clique para os emails; na esperança vaga de lhe ver surgir o nome. Ele estava ali, dentro de si. Ele, e aquela vontade crescente de lhe falar. Não que não pudesse: sim, podia, mas sabia que não num dia assim. Com ele tão presente, assim por dentro de si. O seu nome a passar-lhe, para cima e para baixo, na lista de contactos do telemóvel. Todas as iniciais a conduzirem à sua. O postal revisitado no fundo da gaveta. E depois, sabia-o bem, a vontade de lhe falar desembocando na vontade de o ver. E esta, inevitavelmente, na de o abraçar, tudo culminando na de ser abraçada. O pico mais doloroso na hora de pegar no carro e voltar para casa, quando tudo o que queria era seguir em frente e ir bater-lhe à porta. Dizer-lhe: aqui estou. Que a abraçasse.
O carro depositou-a em casa: na sua, não na dele. No silêncio das paredes vazias, deitou-se e sonhou. Sonhou o abraço, tal como o recordava: aquele instante mágico em que encontrava o seu lugar no mundo. Sonhou também o beijo que a acordou para um outro dia.