sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

29 de Fevereiro

O dia 29 de Fevereiro era o dia do aniversário da minha avó Fernanda.
Descobrimos, depois de ela morrer (há 10 anos atrás), a incongruência: o ano em que nascera, não fora ano bissexto. Ficámos, para sempre, sem saber se o erro estaria no dia ou no ano do nascimento. Suponho que nem ela saberia esclarecer este mistério.
Fosse como fosse, o dia 29 de Fevereiro foi e será sempre um dia especial, por ser o dia do aniversário da minha avó Fernanda. É que eu gostava muito dela. E, conforme a vida vai passando, gosto cada vez mais.

Uma história de vida

Há dias estive estacionada no balcão de uma repartição pública (profissão oblige) . À minha esquerda, um homem elegante e bem vestido, falava pelo telemóvel com a secretária nos intervalos do vaivém do funcionário. À minha direita, chegou junto ao balcão um homem com um aspecto modesto, a pele muito curtida pelo sol. De semelhante, apenas lhes adivinhei a idade, pelos quarenta e muitos anos. A minha atenção, algo distraída (aquela que, quando não estou imersa no meu universo paralelo, presto às pessoas que me rodeiam, tentando recolher umas migalhas da sua história de vida), foi pousar-se no segundo. Parecia saber ao que vinha, tinha uma linguagem e um discurso coerentes com a aparente condição social, ou seja, parecia no pleno uso das suas faculdades mentais. O funcionário que o atendeu, em resposta à solicitação, estendeu-lhe um impresso dizendo-lhe que o deveria preencher. O homem retorquiu simplesmente:
- Não sei escrever.
Ao que o funcionário respondeu que o faria por ele, perguntando logo em seguida:
- Sabe assinar?
Na fracção de segundo entalada entre a pergunta e a resposta, tive tempo, à justa, para me surpreender com a pergunta, logo surgindo a resposta, igualmente simples:
- Não sei assinar.
O funcionário pediu-lhe então os documentos. Retirando do bolso do casaco uma carteira, o homem deixou cair sobre o balcão uma fotografia onde sorriam duas crianças, enquanto estendia ao outro o B.I. No lugar da assinatura, distingui o carimbo, igual ao aposto no do meu filho: NÃO SABE ASSINAR.
Quando perguntado, o homem disse a morada da residência: logo ali, uma rua de Lisboa.
O funcionário preencheu então o impresso e procedeu a lê-lo em voz alta, perguntando ao homem se compreendia e concordava com o conteúdo, ao que ele respondeu que sim. E percebia-se claramente que sim. Concluiu aplicando a impressão digital no impresso.
No século XXI, em Lisboa, um homem de cerca de cinquenta anos, no pleno uso das suas faculdades mentais, não sabe escrever.
No século XXI, em Lisboa, um homem de cerca de cinquenta anos, no pleno uso das suas faculdades mentais, não sabe assinar.
Aqui está uma história de vida difícil de imaginar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A fantasia de um encontro ocasional

Um último relance no espelho, pinta os lábios de cor de lábios. Hoje, como tantas vezes, vestiu-se para ele. Para a fantasia de um encontro ocasional numa esquina do dia, no café improvável, no corredor da livraria enquanto folheia poemas de amor. Há dias em que acorda e se veste assim, antecipando um encontro que só cabe na centelha de esperança das probabilidades.
Em dez anos, nunca aconteceu, mas com sonhadora teimosia (é mais forte do que ela) nos dias em que se quer bonita, é para aquele seu olhar ameno. Para o ouvir, quem sabe, dizer:
- Estás bonita...
Ou pelo menos adivinhar-lhe o pensamento na expressão atenta, enquanto lhe lê na alma a saudade, gémea da sua.
Talvez seja apenas, nada mais do que a nostalgia de quem lhe diga assim:
- Estás bonita...
E a olhe com olhos de ver: de ver por fora e de ver por dentro.
Sempre se perguntou porque é que as recorrências da vida lhe atiram para a frente algumas pessoas e nunca, jamais, outras. Caminham na mesma cidade, entram e saem de espaços comuns, mas sempre, continuamente, em dias e horas diferentes.
Mesmo assim, sorri para dentro quando o espelho do elevador lhe devolve o conjunto harmonioso. Está pronta. Quem sabe, hoje, a lei das coincidências lhe seja menos inclemente.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Into the Wild

O post abaixo foi escrito à saída do filme "Into the Wild", num bloco de notas, quase em cima do joelho.
O filme fala sobre liberdade: o que cada um pode fazer com a sua. Sobre escolhas: que não há escolhas sem renúncias.
Que não há, em última análise, liberdade sem dor.

Uma lágrima imaginária

No corredor do supermercado, reparou no homem que examinava atentamente os vinhos expostos nas prateleiras. De mansinho surgiu a mulher e chegou-se a ele, encostando-lhe suavemente o rosto ao ombro do casaco de tweed. A mão dela, ao nível do joelho, procurou a dele, os braços entrelaçaram-se. Ele recebeu-a num breve instante, distraída mas firmemente. Amorosamente. Estariam perto dos cinquenta anos, elegantes e sóbrios: não havia lamechice alguma naquele gesto simples. Ao observá-los, comoveu-se profundamente. Uma lágrima imaginária escorregou-lhe pela face.
Conhecia o exacto momento em que fizera a sua escolha. Sentira-se lúcida. Madura. Sabia (ou julgava que sabia, o que calhava no mesmo) o que era melhor para si. Não queria mais dor.
Lembrava-se também do momento, único, solitário, mas perfeitamente claro, em que hesitara, um gelo súbito no coração. Mas escolhera o seu caminho, escolhera-o por si, para si, e essa capacidade parecera-lhe fundamental. Parecera-lhe, também, que havia um tempo certo para cada coisa e aprendera que não lhe cabia escolher o destino final, mas apenas, em cada momento, o caminho que parecia mais acertado.
Sentira que tinha todo o tempo. Que haveria sempre escolhas. Só não percebera que a liberdade plena, absoluta e egoísta, como só a liberdade sabe ser, lhe seria servida apenas naquela pequena janela, inserida na longa sequência da vida. Que as escolhas continuam a ser possíveis, sim, mas se tornam pesadas pelas responsabilidades. E que o tempo, o tempo vai encolhendo.
E sobretudo sabia, sempre soubera, em fracções de pequenos momentos, em súbitos apertos do coração, que aquilo não era voar - o voo que, um dia, se prometera.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Avanços e recuos

É verdade: tenho esta tendência irreprimível para o drama interior. Para a angústia, para a dúvida, para o questionamento. É uma coisa que me dá, uma espiral ascendente em que me embrenho e vou subindo, subindo, até consumir todo o impulso e de novo aterrar, os pés no chão. E essa viagem (que tantas vezes só acaba quando já nem a mim própria tenho paciência para me aturar o estado de espírito) pode mudar tudo, ou não mudar absolutamente nada.

Concluíndo sobre o silêncio

In human intercourse the tragedy begins, not when there is misunderstanding about words, but when silence is not understood.

Henry David Thoureau (1817-1862)

In a nut shell: era isto que eu queria dizer quando falei no silêncio, mais abaixo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Evasão


Flachau, Austria, 2008.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Saudades

Quando viajo, não costumo ter saudades de casa, ou seja, não tenho saudades do que ou de quem está à minha espera. Tenho é saudades do que ou de quem não está.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

The Great Gatsby

Gatsby believed in the green light, the orgiastic future that year by year recedes before us. It eluded us then, but that's no matter - tomorow we will run faster, stretch out our arms farther... And one fine morning ___
So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.

São os parágrafos finais do The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald.
Remexendo nas prateleiras deparei-me com o livro, edição de bolso, que li há mais de 20 anos nos estudos da língua inglesa. Sentei-me no sofá a ler os primeiros parágrafos, tentando recapturar a história - eram vagas as recordações de um personagem enigmático (a quem associei mentalmente, por meio de imagens muito esbatidas do filme, a figura de Robert Redford) e das grandiosas festas nos relvados de uma mansão em Long Island. Não pude evitar de o levar para a mesa de cabeceira e lê-lo inteiramente.
É um clássico americano e como tantos clássicos não foi bem recebido na época em que foi publicado, corria o ano de 1925. Mas Scott Fitzgerald aborda temáticas fundamentais: entre outras, o American Dream, os loucos anos 20 na América e, no centro de tudo, imenso, inelutável, o amor que perdura, incondicional, alimentando-se a si próprio apesar da distância. Magistral e, sem dúvida, a reler.
Levava eu a leitura a meio quando, por uma daquelas coincidências tão frequentes, tropecei na televisão com o rosto de Robert Redford, muito mais jovem do que eu o imaginara, interpretando Jay Gatsby. Fiquei a ver o filme os dez minutos que demorou a chegar à cena onde me encontrava no livro, momento em que, sem hesitação, desliguei a televisão, optando por prosseguir a leitura. Não queria privar-me desse prazer, antes de mais nada, e depois até hoje não vi uma adaptação cinematográfica que não fosse uma dolorosa desilusão. Desilusão é a palavra rigorosamente adequada, no sentido que o filme vem destruir a ilusão criada pela leitura. Suponho que não haverá duas pessoas que emprestem às personagens de um romance as mesmas qualidades físicas, estéticas, e até emocionais. Cada leitor, à medida que com elas se envolve, constroi a ilusão ao sabor das suas próprias experiências e fantasias. É esse o prazer. Há alguns anos que deixei de permitir que mo estragassem, a posteriori, com adaptações cinematográficas.
Por exemplo, ninguém me irá apanhar a ver o "Expiação".

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ainda em viagem

Esta coisa da hereditariedade: o meu filho de quatro anos (ele sim, com 1/4 de sangue algarvio) resiste a maior parte do caminho acordado e, quando não se lembra de provocar a irmã, vem olhando contemplativamente pela janela, suspeito que com o olhar perdido em lugar nenhum. De quando em quando lá dispara uma pergunta inesperada que nos permite apenas imaginar os caminhos percorridos pela tão jovem mente sonhadora. Quando satisfeito com a resposta, regressa à sua cogitação. Não posso deixar de sorrir interiormente com esta demontração de personalidade. Fico ainda mais satisfeita pela naturalidade com que ele, quando em dúvida, decide interpelar-nos. É que essa nunca foi, para mim, uma escolha natural.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O Alentejo, na volta do caminho

Há 34 anos que venho passando uma parte substancial da minha vida no Algarve. Desde cedo, os meus pais (que não têm gota de sangue algarvio) instalavam-nos aos quatro no banco de trás, às vezes mais um emprestado, e lá rumávamos ao sul em todas as oportunidades que se apresentassem: dois meses, ou mais, no Verão e depois nos feriados que calhassem bem, no Fim do Ano, no Carnaval, na Páscoa, nos feriados que restassem, incluindo os de Junho, e de novo no Verão. E mais uns quantos fins-de-semana pelo meio que, à medida que o tempo corria e a estrada melhorava, se tornaram na maior parte. Íamos na Sexta à noite, voltávamos no Domingo à noite. Sempre para o mesmo lugar e há 27 anos para a mesma casa. Ainda hoje, com os meus filhos: foi de lá, da mesma casa, que ontem viemos.
Grande parte das minhas recordações felizes, de criança, adolescente e mesmo adulta, passam-se ali. Longos dias de ar puro, rua e mar, muito mar.
Sem querer fazer contas, foram sem dúvida muitas e muitas as horas passadas no caminho. Nos primórdios, eram pelo menos quatro horas de viagem para cada lado. A ponte desembocava numa curtíssima via rápida que nos despejava na estrada nacional. A caminho, lembro-me bem, passávamos por Azeitão, em direcção a Setúbal. Não sei porquê, sempre guardei a imagem daquela curva para a esquerda, às portas da vila, passando a casa das famosas tortas e a tabuleta a dizer: Setúbal. Talvez uma outra por baixo a dizer: Algarve. E depois Alcácer do Sal, com a ponte de uma só via sobre o Sado, onde se passava à vez. Assim, de repente, recordo a seguir: Grândola, Castro Verde e, às portas do Algarve, Ourique. Para o final da viagem, a Serra do Caldeirão. Curva após curva após curva. Havia, às tantas, uma barragem.
Nunca dormia no carro, mesmo nas viagens nocturnas (que eram a maior parte). Dormir nunca foi o meu forte e já então gostava imenso do silêncio daquelas horas: a conversa, já se sabe, esmorecia ao fim de meia hora de caminho. Depois, na imobilidade locomovida das horas era só paisagem e muita, muita reflexão. Ocupação de tantas e tantas horas, que me acompanhou o crescimento. Ainda hoje. Ou, deveria dizer, ainda ontem.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Castelos no ar

Do not worry if you have built your castles in the air. They are where they should be. Now put the foundations under them.

Henry David Thoureau (1817-1862)

E o que fazer quando, começando a construir da base para o topo e indo as fundações já avançadas, percebemos que não encaixam lá em cima? Ajustamos os sonhos? Alteramos as fundações, demolindo e reconstruindo onde necessário?