quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Viver habitualmente

Esta expressão anda por aqui a martelar-me na cabeça desde que veio ricocheteando da polémica instalada entre o Pulido Valente e o Sousa Tavares. Nem é preciso mencionar a quem é atribuída: a origem histórico-política é, para o caso, absolutamente irrelevante.
Muito se poderá dizer sobre ela, o que parece certo é que, enquanto parte das pessoas lutam para agarrar e manter, quando lhes é proporcionada, a oportunidade de viver tranquila e regularmente, as restantes debatem-se para lhe fugir. Mesmo que, em qualquer dos casos, não saibam exactamente porquê.
A mim, o conceito, ou talvez o paradoxo associado, desassossega-me a alma. O que não constitui novidade nenhuma já que, em volta das pequenas ilhas de serenidade que despontam aqui e ali, permanece, incomensurável, o oceano de angústia. As vagas arremetendo contra a praia.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Outros consolos

Stendhal terá dito que "as mulheres muitíssimo belas surpreendem menos no dia seguinte".

sábado, 26 de janeiro de 2008

Ben & Jerry's Chocolate Fudge Brownie

Aqui está.
Usar de parcimónia no consumo. Não resolve nada, mas consola um bocadinho.
Eu compro no supermercado do Corte Inglês.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Do beijo

Segundo li, Ingrid Bergman terá dito que "o beijo é um truque adorável concebido pela natureza para se deixar de falar quando as palavras se tornam supérfluas!"
É verdade que, quando esse beijo não acontece no momento em que seria desejável, temos tendência para nos embrulharmos em palavras tanto mais inúteis quanto repetitivas. É que as palavras, por mais sentidas que sejam, não substituem um beijo bem dado - e o cinema tem sabido usar (e abusar) desse princípio básico da sedução.
Acho que, tal como no cinema, ninguém deveria passar pela vida sem, pelo menos uma vez, receber aquele beijo inesperado e arrebatador que interrompe todas as palavras.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A perfeita inutilidade das palavras


Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Atitude

No passado havia momentos em que era invadida por uma angústia inexplicável. Hoje em dia há momentos em que sou inundada por uma serenidade inusitada. Que, do mesmo modo, vem não sei de onde, nasce não sei porquê. Suponho que o que realmente mudou foi a atitude. A atitude muda tudo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O 100º

Este é o meu centésimo post. Pensei que deveria conter uma reflexão profunda e iluminada, mas só me ocorre o seguinte: sou, já o diziam os meus professores do ensino primário (e escreviam aos meus pais a queixar-se) uma bavarde - ou tagarela, em português.
Mas sempre e somente com a colega do lado, ou seja, sem pertinência alguma para o assunto em discussão.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Em dia

Nas últimas semanas, não sei por que artes mágicas, consegui desbastar seriamente as pilhas de livros que tinham crescido perigosamente na minha mesa de cabeceira ao longo dos últimos anos. Perigosamente, já se vê, porque algum dos meus filhos estava sujeito a levar com eles em cima, nas habituais brincadeiras matinais. São três as pilhas: uma dos livros por abrir, outra dos livros em curso e a terceira dos livros que estão à espera de transitar para a estante da sala - seja porque estiveram tempo a mais na fila dos "em curso", o que não é raro acontecer, seja porque já foram lidos. Parece que, ao fim de mais de quatro anos (i.e. desde que nasceu o primogénito) consegui voltar a atingir a velocidade de cruzeiro e reintroduzir alguma movimentação nas referidas pilhas. Até ver.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Concordo ou talvez não

«A literatura, a quem muito, sofregamente lê, dá isto: comparações para tudo, referências imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve ou foram inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa, de todos os dias e que se infiltra no sangue, ferve na memória sem que a gente dê por isso. Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver, antes a figurar-se. Permite, talvez, uma certa coerência (interior). Não é importante, afinal - mas que será importante, afinal?»

Luiz Pacheco (1925-2008)
Citado no jornal Público de hoje (extraído do livro "Comunidade").

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

2007

Gostaria de ter escrito o balanço do ano que acabou. É quase uma frase feita dizer que não gosto destas tradições com dia e hora marcados (a alegria no Natal, o balanço no fim-do-ano, a festa no dia do aniversário), mas pensei usar o pretexto. Balanços faço eu quase todas as noites, mas não os escrevo, e aí reside toda a diferença. O acto de escrever permitiria separar o trigo do joio, que é como quem diz, ignorar as parvoíces, cortar as lamechices e retirar tudo o que é supérfluo. Restaria, então, o essencial do meu ano de 2007 que, apesar de pouco excitante, foi muitíssimo denso.
A começar pelo nascimento deste blog. Que me toma um tempo inimaginável, que, sejamos francos, serve apenas a mim (se bem que tenho esta ideia de que um dia a sua carcaça servirá aos meus filhos), mas que, como muitas das coisas realizadas neste conjunto de circunstâncias, me dá um gozo especial.
Não tive cabeça, nem tempo, para escrever o balanço. Anda sempre a viajar, a cabeça, e o tempo (também por isso) escorre por entre os dedos. Essencialmente tive preguiça, que é uns dos meus defeitos mais marcados. E agora já o pretexto se foi.

Pensando bem, não há que escrevê-lo. Basta ler por aqui abaixo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Dos homens

Faustino Manso é o Pai em "As Mulheres do Meu Pai", afamado músico dos anos 60 que deixou filhos espalhados por todo o continente africano. Conforme a filha caçula vai descobrindo, errando pelo mesmo continente em busca das suas memórias, ele era um homem que gostava muito de mulheres. Diz-se dele que "gostava tanto de mulheres que nenhuma mulher podia deixar de gostar dele".
Só as mulheres alcançam verdadeiramente a profundidade desta afirmação. Pois se é verdade que um parte significativa dos homens gosta de mulheres, no sentido em que são heterossexuais (suponho que, estatisticamente, assim seja) e muitos se apaixonam imensamente por algumas delas, apenas um número restrito é capaz de gostar das mulheres com aquele deslumbramento único, que só as próprias sabem apreciar. Paixão incondicional, que se traduz em pequenos gestos e profundos olhares, prendendo-se (e perdendo-se) nos detalhes do universo feminino que, como ninguém, sabem apreciar: o ondular do cabelo, a curva da perna, a perfeição do joelho, o brilho na pele, o quase imperceptível gesto de afastar o cabelo da face. Não é que os restantes homens, quando apaixonados, não estejam especialmente atentos aos detalhes, mas estes fazem-no incondicionalmente, generosamente, com verdadeira arte e genuína devoção - e isso é que os torna únicos. Únicos e, regra geral, mais do que bem sucedidos junto das mulheres que, como não poderia deixar de ser, se perdem por eles. Como Faustino Manso, são homens que dificilmente se prendem a uma só mulher, pois que lhes está na natureza gostar de todas elas, mas compensam esta "falha" (é caso para se dizer que não é defeito, é feitio) sendo amantes verdadeiramente excepcionais.
São raros, mas existem e não só nos livros ou nos suaves delírios femininos.