terça-feira, 30 de dezembro de 2008

2008

O melhor e o pior de 2008. Quando todos parecem dedicar-se ao tema, de repente não soube apontar nada no meu ano de 2008 que merecesse integrar qualquer uma das duas colunas. Cheguei aqui e fiz um scroll down dos 140 posts deste ano, tentando reavivar a memória. O meu ano em 140 entradas e um punhado de entrelinhas.
Baaah. Fraco. Muito fraco.
Melhor dizendo: fraca. Muito fraca.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

À mesa

Passei uns bons cinco Natais sem conseguir sentar-me à mesa porque, ora um, ora outro, precisava de atenção. Era um jogo de senta-levanta que não me permitia saborear o cortejo de coisas boas, eu que gosto tanto das iguarias do Natal.
Senti-me subitamente emancipada quando consegui permanecer sentada durante ambos os repastos e - imagine-se - conversar. Sim, conversar. Ninguém valoriza mais a oportunidade de ficar sentada à mesa a conversar do que uma mãe de filhos pequenos. Que, enfim, vão crescendo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

And to all a Merry Christmas

Andei todo este tempo a tentar ignorar que o Natal está a chegar e agora há que encarar a realidade: vou às compras.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A felicidade

A felicidade é isso, estar quieto nos limites em que se está a dizer que não ao que está para além. Ser-se todo onde se é e não onde não (...)

in Para Sempre, Vergílio Ferreira.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Nos detalhes

Hoje, no café, um sujeito (odeio a expressão sujeito) respondeu, ao ser perguntado, que eram nove-menos-um-quarto. No fim-de-semana passado, numa já rara ocasião em que bebi uns copos (longe vão os tempos) afirmei peremptoriamente, perante um velho colega de escola que se revelava proprietário de um Porsche (as coisas que as pessoas dizem e eu agora que não me aguento), que nunca sairia com um gajo que tivesse um Porsche, pelo que isso revelava sobre si próprio. Tal como uma amiga minha afirmou, há uma década atrás, que não foi capaz de tornar a sair com um tipo que no primeiro encontro pediu ao empregado do restaurante que lhe trouxesse um bocado de pão, afirmo eu agora com igual peremptoriedade que nunca sairia com um gajo (um tipo, um sujeito, um homem, sei lá) que dissesse nove-menos-um-quarto ou sete-menos-vinte. É que, segundo venho observando nos dez anos que decorreram desde a chocante mas avisada afirmação da minha amiga, às vezes perdem-se meses ou, pior, anos de vida, e para quê se há evidências que saltam logo à vista?
O essencial, todos acabamos por compreender um dia, está nos detalhes.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Quod erat demonstrandum

E eis que chego ao ponto de agradecer aquela pequena crueldade que veio afinal demonstrar que, contra todas as evidências, ainda não estava inteiramente morta, indiferente e incapaz de chorar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

3

Ontem circulava lá por casa, por entre uma dezena de crianças e muitos pares de pernas adultas, o aroma da feijoada à brasileira e o bolo-de-anos cor-de-rosa (há já um mês, de dedo em riste avisara: mamã, eu quero um bolo co-co-osa) um anjo de alegria, de asas de sininho, cara de riso encantado e sorriso cristalino. Irradiando a alegria generosa de quem não cuida em distinguir se dá ou recebe, desbaratando risos, abraços e afectos, derramando o prazer de viver dos que nasceram cheios de luz e propensão para a felicidade. O anjo feito minha filha que fez 3 anos e me vem ensinando com mestria como se combinam a segurança e determinação próprias de quem sabe exactamente o que quer e a generosidade alegre e afectuosa de quem carrega a fonte inesgotável da felicidade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

George: sobre as características essenciais femininas

Por esta e tantas outras é que sou fã incondicional.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Instantes (7)

Acordou aquele acordar confuso e estremunhado do sono a meio do dia, o cansaço acumulado de noites insones, como sempre acontece quando viaja. Soergueu-se e olhou em frente: para lá das portadas de vidro o verde e, mais ao fundo, o azul. E ele. Nem chegou a surpreender-se com a presença inesperada do outro lado do vidro, embora não soubesse então o que demorou algum tempo a compreender: que ele aparecia, apareceria sempre e somente quando não esperado. Saiu da cama, num gesto automático, alheia aos trajes íntimos que não deixavam adivinhar a familiaridade incipiente mas estranhamente natural. Foi como se acordasse para uma outra realidade, leve e livre de constrangimentos, tão livre que nem tomou então consciência da extraordinária ausência de reservas. Abriu-lhe a porta para que entrasse e se acomodasse junto de si na cama, em cima da cama, com a naturalidade de uma vida inteira de cumplicidades por forjar, como se a ordem real das coisas ficasse agora fechada do outro lado das portadas de vidro. Eles do lado de dentro. Conversaram longamente, ela de olhos inchados, meio despida, ele de olhar atento e gestos meigos. Não saberia reproduzir o teor da conversa, as palavras encadeadas que brotavam e fluíam em corrente morna e tranquila, tecidas de encanto. Entretanto, anoiteceu.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Ler

Tem graça: António Barahona (o poeta) na entrevista que concede à revista Ler deste mês, partilha sem tirar nem pôr (e ao mesmo tempo) a opinião que expressei no post abaixo - dos livros - no que respeita a Saramago e Lobo Antunes. Mais, também ele conclui, depois de afirmar que ler os livros do Lobo Antunes não dá: "Não dá porque, repare, a leitura tem de ser um prazer. A pessoa não se pode obrigar a ler."
Uma entrevista muito interessante, mais ainda para quem tenha particular interesse na poesia portuguesa do séc. XX.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Das mulheres

Não gosto particularmente da Laurinda Alves. O feminismo militante provoca-me, em geral, uma certa dose de irritação: para mim nunca fez muito sentido proclamar tiradas em defesa das mulheres, porque não encaro o ser mulher como uma cruz que carregamos ao alto, às costas ou arrastando pesadamente atrás de nós. É claro que tenho consciência de que beneficio, hoje, da luta de muitas mulheres pelos nossos direitos e nessa medida o meu feminismo consistiu, desde muito nova, em acreditar que podia fazer tudo aquilo que os meus irmão rapazes faziam. E em fazê-lo efectivamente, sem que nunca me sentisse particularmente discriminada - antes pelo contrário, desde cedo tomei consciência de que exercia o privilégio de beneficiar do melhor dos dois mundos.
Este é um tema que dá pano para mangas, mas por hoje e voltando à Laurinda Alves, só queira dizer que a sua crónica no Público (feminismo lamechas incluído) me levou às lágrimas, que disfarcei por entre dois goles de café.

sábado, 29 de novembro de 2008

A propósito,

Nem tive vagar para dizer do meu choque pelo encerramento da Byblos.
Não é que tenham sabido cumprir as expectativas: não souberam de todo, embora ache que grande parte do motivo para aquilo estar sempre às moscas foi o mero facto de não existir uma calçada que ligue as Amoreiras ao edifício em questão, aliado à sabida preguiça dos portugueses para andarem 200 metros - mas, e a sumptuosa alcatifa, e os sofás, e o barco dos piratas, e a citação de Borges sobre o Paraíso, e os milhares de títulos e.... a estante robotizada ?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dos livros

V.S. Naipul declara, em entrevista ao P2 do Público, que a sua imagem vem das "demasiadas entrevistas" que as pessoas lêem. Essa imagem, diz, "não vem nos livros. As pessoas não lêem os livros". E, logo: "Os livros são difíceis de ler. As pessoas não gostam muito de ler."
Paternalismos à parte, estará V. S. Naipul a reconhecer que o sucesso de vendas e os prémios (Nobel inclusive) não traduzem o número de leitores? Se sim, vai ao encontro da minha teoria sobre os livros que são comprados, mencionados e citados mas pouco lidos: os livros - como os autores - de referência, as grandes obras de que tantos falam mas poucos leram de fio a pavio.
A instruir a minha teoria, o punhado de António Lobo Antunes que foram parar à estante sem que conseguisse vencer as primeiras páginas; os Saramagos: a Jangada de Pedra (que todos leram) e outros, sendo afinal O Ano da Morte de Ricardo Reis o único que li e apreciei integralmente; as grandes obras vivamente recomendadas que se revelaram fastidiosas; os livros que quero absolutamente ler mas vou reservando para quando tiver mais tempo e sobretudo maior disponibilidade mental; os que jazem na pilha das "leituras e curso" e vão sendo ultrapassados por tantos outros.
Tomemos Rayuela (O Jogo da Vida), de Júlio Cortázar: 600 e tal páginas notória e reconhecidamente difíceis, há seis meses na minha mesa de cabeceira. Venho lendo, já li o suficiente para determinar os personagens, o ambiente, o estilo. Para perceber grosso modo o que (sobretudo que geração) representa. Parei sem chegar a concluir a versão reduzida e quem sabe se o retomarei, por entre dois outros. Mas diria que li o suficiente para participar impunemente em qualquer conversa sobre o tema, se assim desejasse.
Assumo que tenho uma colecção de livros abandonados nos primeiros capítulos - o que revela talvez e tão somente ambição desmedida. Mas é simples a minha ambição: desbravar caminho para a cabeça das outras pessoas, podendo, quem sabe, melhor compreender a minha. Conhecer mais personagens, ver mais mundo, descobrir novas perguntas e vislumbrar outras respostas, procurando construir um sentido para todas as coisas. Decidi, há já muito tempo, que este é um caminho a fazer com gosto e devoção. Quando não me entusiasma, não compreendo, não me revejo, não me eleva, ponho de lado, confiando que, por cada livro abandonado, encontrarei dois apaixonantes - por vezes, até, entre os reconhecidamente grandes.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Pick-Up line of the year

BlankJames Bond para Strawberry Fields em Quantum of Solace, entrando à frente dela no quarto de hotel: "I can't find the ..um... stationary. Can you help me look?"

(Já vi e confirmo: muito interessante esta nova abordagem ao personagem 007.)

Understatement of the year

No Público de hoje, a propósito da situação BPN / Dias Loureiro, um politólogo refere a degradação da imagem da classe política, por via das "frequentes incursões de políticos no sector privado", que dá "uma ideia de promiscuidade que não é boa para o sistema político."
Uma ideia de promiscuidade?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Em Bruges

Finalmente fui ver o Em Bruges: dramático; violento; hilariante (há muito tempo que não ria com tamanho gosto); desconcertante, ou seja, comme il faut.
Este ano o (pouco) cinema tem-me corrido muito bem.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Vale

Fui dar uma voltinha exploratória por blogues que não visito habitualmente. Descobri esta dissertação sobre o tema "O que é um blogue?", uma pérola, no Complexidade e Contradição (02/11), de que passo a transcrever duas pequenas passagens:

No fundo, queremos que os outros olhem para nós, mas para uma versão que nós achamos mais condizente connosco próprios. É como o choque que é vermo-nos na televisão ou em fotografias: aquilo que ali está não sou eu. Nunca é, porque é sempre o resultado de uma observação de fora para dentro, e como nós sabemos a beleza está toda em observar de dentro para fora. O blogue é assim a oportunidade de forjarmos quotidianamente a nossa verdadeira projecção identitária (...).
A questão do narcisismo explica-se pela necessidade que quem escreve tem em estar seguro de que isso vale a pena. Esta busca de uma identidade mais focada é arriscada e até um certo ponto indesejada. (...) Escrever - aqui na versão «escrever um blogue» - é ir fazendo uma purga dessas habilidades sociais que fazem a intermediação entre nós o mundo, com o objectivo de fazer colidir sem almofadas essas duas entidades. Para o fazer temos de acreditar que vale a pena, que alguém - para além de nós - está à espera que o façamos. Acreditar nisso é sempre um pouco irreflectido, e revela o tal narcisismo.

Ao longo destes 20 meses tenho-me feito algumas dessas perguntas: vale a pena? interessa a alguém?
Cheguei à conclusão que a primeira pergunta só pode ter uma resposta: vale a pena quando e enquanto conseguir ser, aqui, a versão mais real de mim mesma - mesmo que para isso recorra, mais ou menos abundantemente, à construção de uma personagem.
A resposta à segunda é delicada e implica uma grande dose de humildade, a que não sei se tenho acesso. Desde logo há que reconhecer que, por mais que escreva para mim, escrevo também, como qualquer outra pessoa, para os outros.
Por causa destas duas perguntas, ou das suas respostas, entretenho-me, nos dias piores, com a ideia de encerrar este blogue. Nos restantes dias, gosto de pensar que tenho conseguido manter uma certa fidelidade a mim própria e que isso interessa a um punhado de amigos. Por agora, vale.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Disse falta de pujança física???

Comentário que fiz a uma crítica ao novo 007 onde, entre outras coisas, se dizia que o personagem perdeu altura e pujança física com Daniel Craig (note-se, ainda não vi o Quantum of Solace, mas vi muito recentemente o Casino Royale):

Discordo quase inteiramente. Não consigo sequer vislumbrar de onde vem essa ideia de perda de pujança fisica - quem é que era pujante, o Roger Moore? É caso para perguntar se não viu o Daniel Craig nu no Casino Royale??? Talvez o ar britânico que refere corresponda, para si, ao ar amaricado do Moore (e aquele antes do Brosnan, de quem não me lembro o nome) - há muito quem ache que um bom inglês tem esse ar; eu não. Concordo que o novo 007 é mais real e mais duro, mas sinceramente já estava um bocado farta dos floreados. E quem é que ainda tem paciência para homens distantes? Apesar de gostar muito de Pierce Brosnan (o homem é tão bonito, seria impossível não gostar), na minha opinião Craig é o "Ultimate Bond" (até porque é aquele que mais se aproxima (ultrapassando?) Sean Connery, o original) e adoro-o assim, t-shirt com camisa meio aberta por cima, cabelo perfeitamente desalinhado, e não a ensaiar malabarismos espectaculares de fato escuro e gravata. Afinal, já ninguém usa fato e gravata, nem mesmo os corretores da bolsa. Enfim, são gostos e os gostos discutem-se, sim, precisamente porque não são todos iguais. Felizmente.
(Nota da Editora: também me arrogo o direito de exibir fotos de gajos bonitos.)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O difícil trabalho das mulheres

Proclama Lajos a Eszter:

Não basta amar alguém. É preciso amar com coragem. É preciso amar de tal modo que nenhum ladrão, ou má intenção, ou lei, lei divina ou deste mundo, possa seja o que for contra esse amor. Não nos amámos com coragem... foi esse o mal. E a culpa é tua, porque a coragem dos homens é ridícula em matéria de amor. É trabalho vosso, o amor... Nisso sois grandes. Foi aí que falhaste e, contigo, falhou tudo o que poderiam ter sido as nossa obrigações, os deveres e sentido da vida. Não é verdade que os homens sejam responsáveis pelo seu amor. Deveis ser vós a amar heroicamente. Mas tu cometeste o erro mais grave que uma mulher pode cometer, ofendeste-te, fugiste.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Verdade e consequência

A novela que estou a ler (de Sandór Márai - A Herança de Eszter) tem como personagem central, para além da narradora, um mentiroso compulsivo, protótipo perfeito de certo tipo de homens. Conheci um par desses homens na minha vida: são indubitavelmente simpáticos e agradáveis, à partida irresistíveis, pois não é senão esse o propósito das suas construções efabulatórias: encantar e seduzir, nunca contrariando nem desiludindo as expectativas alheias. Enquanto dura a ilusão, são verdadeiramente encantadores e, com a indulgência própria do bem-estar, é muito fácil de embarcar nessa viagem hipnótica. É que a verdade é, tantas vezes, desencantatória, áspera, dura e, em consequência, os homens íntegros e sérios podem revelar-se descorteses e inclementes, às vezes quase desumanos.
É sem dúvida ténue a fronteira entre a cortesia e a falsidade.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Saudação ao Sol

Voltei ao Yoga: não sei como pude deixar passar tantos anos - seis - sem praticar. Esqueci-me, entretanto, da existência de certas articulações, a respiração voltou sub-repticiamente ao modo inconsciente e o equilíbrio parece coisa inatingível (quase me esparramei no chão em várias ocasiões). Tudo visto, tenho um longo trabalho pela frente, mas é um preço quase simbólico a pagar pelo bem-estar que proporciona.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Esperança e Coragem

Parte de uma resposta minha, ontem, a um colega bloguista:

Quanto à côr, acho que importa, sim. Importa - e nesse ponto estamos de acordo - pela coragem que revela. Os americanos demonstraram, ontem, grande esperança e coragem, como sempre têm sabido demonstrar ao longo da história. Esperança na capacidade de mudar e coragem para fazer o que que é preciso. Isso é, desde já e mais uma vez, de louvar e celebrar.

E agora, como diz outro ilustre colega, é hora de regressar à realidade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Change


Hoje somos todos um bocadinho americanos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bagagem

Esta mania de avaliar o sucesso de uma viagem pelo volume e qualidade das compras. Estatisticamente, eu diria que é a segunda pergunta mais frequente após o regresso (Então, que tal a viagem? Muitas compras?). Por esse critério, as minhas viagens seriam, sempre, um fracasso retumbante. Há vários anos que me libertei dessa obsessão: quanto aos raids às cidades ditas da moda e do design, a ideia de que lá fora há mais e melhor vai-se tornando obsoleta; no que respeita aos destinos exóticos, nunca fui dada a encher a minha casa de objectos inúteis. Trago sempre, isso sim, um lote importante de impressões, recordações e descobertas - essa é a bagagem que realmente me importa.

Viagem

Viajar está-me no sangue. Desconfio, no entanto, que é uma mera consequência da ânsia de liberdade e, nesse sentido, as deslocações não serão mais do que pequenas fugas à realidade. Como todas as fugas ou distracções, não impedem a permanência da realidade tal como ela é e, inevitavelmente, o regresso.
Pela positiva, faço notar que esse regresso vem, regra geral, acompanhado de ânimo renovado: mesmo que dure só um instante, já valeu a pena. E há distracções que contribuem significativamente para a qualidade de vida - mesmo quando a vida (há que ser justa) já não é nada má.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

London - UK

Breve escapadela a uma capital europeia (e eu com um resfriado dos diabos)
Até logo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

5

Cinco anos é um número redondo e na minha cabeça passo a poder considerá-lo um rapazinho - ainda que na maior parte das vezes não se comporte como tal. A compreensão, essa, às vezes parece quase a de um adulto. Recordo-me bem da frustração de me julgar uma adulta presa no corpo e nas limitações impostas a uma criança. Sempre quis, mais do que tudo o resto, crescer, porque com o crescimento vinha a liberdade. Julgava eu.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Empatia

Vou repetindo, para mim e para os que às vezes me ouvem, que a rápida aproximação à década seguinte tem trazido sucessivos regressos ao passado, ocasionais e inesperados, que redundam naquilo que passei a apelidar de crise dos quarenta, por ser tão redondamente text book. Reencontros sucessivos que me recordam as andanças de uma vida - a minha - que às vezes até parecem várias outras, de tão distantes se tornaram. Emergem sob a forma de pessoas que reaparecem para me recordar de quem fui, logo, de quem sou, embora por vezes disfarce bem. Interpreto-as como chamadas de atenção, não vá a rotina fazer esquecer o rumo com que iniciei esta longa caminhada, cuja orientação nem sempre consigo distinguir.
Estes últimos dois anos têm sido muitíssimo intensos nessa dimensão de regresso ao passado, ultrapassando largamente a nostalgia própria de quem chega a um ponto de viragem e, num vislumbre, recorda o que ficou para trás. Há também isso, é certo, às vezes não faz sentido que seja mais do que isso mas, muito curiosamente, em alguns casos tenho tido a surpresa e alegria de poder fazer do passado presente, recriando amizades e reinventando novas formas de as integrar no aqui, no agora. Algo que não julgara possível. E quando penso que já revisitei tudo e todos, que já reinventei o que havia a reinventar, surge sempre mais alguém.
Ontem celebrei um reencontro de tempos longínquos e terras distantes. Esta coisa do relacionamento entre duas pessoas passa por várias premissas, mas uma existe que dispensa muitas outras: a empatia. A empatia dispensa permanência, continuidade, pretexto, familiaridade. Passados 11 anos, não houve nem estranheza, nem desconforto, nem silêncios embaraçosos. Houve apenas bem estar, imensa alegria e muito, muito que conversar.
Eis a essência da amizade. Mais, eis essência da vida, tal como importa. Como disse o meu amigo reencontrado: vale maningue.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Poemário

Decidi criar um arquivo online com os textos que, ao longo do tempo, passaram pelo Poemário deste blogue. Foi, desde o início, uma selecção baseada em critérios puramente subjectivos, sem grandes pretensões, reflectindo um gosto muito pessoal pela força, beleza e musicalidade das palavras simples e puras (não é à toa a minha predilecção por Eugénio de Andrade). Até agora, maioritariamente portuguesas, o que revela tão simplesmente a minha devoção à nossa língua.
Os poemas escolhidos foram projectando estados de alma, reflexões, posts publicados, conversas e leituras, e traduzem os resultados de uma procura mansa e continuada por entre os livros de sempre, ou aqueles que vou folheando nas livrarias e fazendo meus.
Tenho a noção de que não constam todos os que já por aqui passaram - alguns ter-se-ão perdido pelo caminho, sem que fossem devidamente arquivados. Todos foram retirados de publicações impressas, tentando assegurar o rigor da reprodução. Se alguma falha existe, é gralha minha que terá sobrevivido às inúmeras revisões.

Podem aceder ao arquivo através do link que introduzi na barra lateral.

Fúrias

Dias há em que acordo com diposição para levar tudo à frente: sobre o primeiro incauto que me apareça com mísera contrariedade, despejo a fúria desmedida. Exaurida mas aliviada, retiro-me para o meu canto, remoendo a culpa que me vai transformar num cordeirinho pelo resto da manhã.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Deserto

Curiosamente e apesar de nunca ter lido a obra, há um excerto do Désert, de Le Clézio, que desde há muitos anos trago profundamente enraízado na memória e que suspeito tenha contribuido, de alguma forma, para o meu absoluto fascínio pelo deserto.
Quem é capaz de marcar assim um leitor desavisado, através de um simples excerto, só pode ser merecedor de reconhecimento universal.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Antes que o diabo saiba que morreste

Fico muito satisfeita quando, nas poucas vezes que consigo ir ao cinema, saio de lá com aquela sensação de ter levado um soco no estômago - no bom sentido, entenda-se.
Um Sidney Lumet em plena forma, um filme muito bom, com um epílogo brutal (over the top, pensei eu a quente, mas à distância julgo que é just right).
Philip Seymour Hoffman no seu melhor, fascinante, ou como ele próprio gostaria de ser qualificado, num trocadilho cheio de humor: muito denso: "A lot of people describe me as chubby, which seems so easy, so first-choice. Or stocky. Fair-skinned. Towheaded. There are so many other choices. How about dense? I mean, I'm a thick kind of guy. But I'm never described in attractive ways. I'm waiting for somebody to say I'm at least cute. But nobody has."
Ora eu diria que, não obstante o excelente desempenho all around, protótipos da beleza como Ethan Hawke ou Marisa Tomey empalidecem ao seu lado: Philip Seymour Hoffman ocupa toda a tela.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Mulher versus Homem ou Lei Universal

Hesito. Desisto. Retomo. Hesito novamente.
Hesito entre tornar-me insistente - detesto ser insistente embora saiba que às vezes sou - e deixar passar. Deixar passar, encolhendo os ombros e pensado que pouco posso já fazer, que haverá melhores dias. Não que a teimosia e a perseverança produzam necessariamente resultados diferentes, eventualmente produzirão piores, mas pelo menos não haverá arrependimentos, nem sombras do que poderia ter sido. Sobretudo não quero ficar-me entre o pouco e coisa nenhuma.
Hesito entre tornar-me patética e conter-me pelo simples medo de me tornar patética – não sei o que é pior. Irrita-me que, na minha insistência, seja patética, coitada. Chateia-me muito que me obrigues a desfiar ladainhas como esta quando não me obrigas a nada, nem tão-pouco pareces esperar coisa alguma. E aí está: não alimentas nada, é verdade, nem sequer me hostilizas, apenas fazes como se não te importasse. Eu posso até acreditar, ou fazer por acreditar, que não te importa, quando a mim me importa e muito e, francamente, acho que sim, que é importante. Faço bem? Não me parece. No fundo, acharás tu que faço bem? Ou estarás apenas a fugir para frente, pretendendo não te caber a ti qualquer palavra?

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Intervalo

Parece contraditório, mas não será: ando a dormir bem como tudo, é só pousar a cabeça na almofada e partir para a terra dos sonhos. Agora, quando acordada, parece que estou vazia - nem sombra dos pensamentos delirantes, dúvidas circulares, questões confundas e os outros mimos do costume. Disse e repito: sem insónia, não me reconheço. Deve ser um intervalo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Voltando ao tema Paul Newman

Meu caro PVM, o que o Mexia queria dizer, no seu (perdoem-me a desfaçatez) infeliz post, era que um homem aparentemente feliz, forte, recto, incontroverso, com um casamento de uma vida inteira, não pode ser muito interessante - nem como homem, nem como actor. Que o sofrimento, a fragilidade, a rebeldia e o lado negro é que tornam os seres humanos verdadeiramente profundos e, logo, apelativos. Que um homem muito bonito, bonito demais, só será irresistível com umas cicatrizes à la Montgomery Clift.
Julgava eu que só as mulheres caíam nessa.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Caffè Latte

O advento do Starbucks tem motivado os mais diversos comentários, a maior parte dos quais recheados daquela snobeira pseudo-europeísta-anti-imperialista-americana, tipicamente portuguesa: o café não presta, não tem aroma, é muito aguado e por aí fora, dizem os defensores da tradicional e lusitana bica. Ora, tudo depende, a meu ver, dos termos comparáveis: estamos a falar do cafezinho de balão servido no Gambrinus, quem sabe daquele raríssimo espresso tirado com todos os preceitos - que são muitos - cujo gosto e aroma perduram agradavelmente pela tarde fora ou, pelo contrário, devemos considerar a bica queimada, amarga e sem espuma, tragada com um valente copo de água logo de seguida?
Há alguns anos que não faço parte do clube dos consumidores de bica. Limito-me a beber café com leite, a maior parte das vezes descafeinado. Um por dia ao pequeno almoço, que se tornou, no último par de anos, um dos meus rituais preferidos. Uma meia de leite, uma torrada e um jornal, no sossego pós largada dos miúdos na escola. O local pode ser um de três, consoante o percurso do dia. Com base nesta amostragem, analisemos pois os riscos associados à elaboração de um café com leite:
- escuro e aguado (parece um contra-senso, mas no caso do café com leite não é): 40%; e de nada serve pedir que seja claro porque então vemos aumentado o risco de sair:
- morno (arghh!): 20%;
- queimado, com sabor metálico e desagradável: 10%;
- deslavado, sem espuma e nada apetitoso: 30%;
Tudo somando um risco consideravelmente elevado de sair prejudicado o prazer do ritual matinal. Assim se compreende as vantagens de podermos estabelecer os parâmetros exactos que vão definir a composição do nosso café com leite ideal: tamanho, índices de café e de leite, tipo de leite, com ou sem espuma, etc. Li algures que, no Starbuks, a elaboração das bebidas de café não tem intervenção humana, obedecendo a um simples comando computorizado. Eis pois que, uma vez eleito o modelo (que poderá ter uma denominação com até três substantivos) podemos saboreá-lo em qualquer dia, a qualquer hora, com plena isenção dos riscos associados à sua preparação.
Sirvam-me um capuccino numa piazza italiana e estarei pronta a desdenhar o caffè latte do Strabucks.

Butch Cassidy and The Sundance Kid

Pelos 12 anos apercebi-me de que os homens podiam vir em invólucros muito atractivos. Lembro-me distintamente quando esta parelha excepcional me despertou para o assunto, e recordo particularmente esta cena.
Paul Newman 1925-2008

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Chá e outras questões fundamentais

Isto fez-me lembrar a longa conversa, do foro técnico, que tive na semana passada com o inspector do gás, que a páginas tantas me explicou que o fornecimento de electricidade é gerido por um centro de controlo que canaliza a energia para as diferentes cidades nos diferentes horários, onde, quando e na medida do necessário, de forma a que não aconteçam sobrecargas nem falhas eléctricas. Deu o exemplo do Reino Unido, onde uns senhores - não computadores -instalados no dito centro de controle seguem atentamente o jogo de futebol e, cinco minutos antes do final, aumentam o caudal eléctrico (passo a expressão) para fazer face ao exponencial aumento do consumo que se vai gerar nos minutos seguintes, no momento em que os telespectadores britânicos, erguendo-se dos sofás num movimento sincronizado, se dirigem às cozinhas e ligam as chaleiras eléctricas afim de preparem o chá.
Assim possamos nós canalizar as nossas energias para o que é fundamental.
(As coisas que se aprende quando nos dispomos a conversar com as pessoas.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Something's got to give

É praticamente impossível manter um ritmo constante de produção, interacção e entrega em todas as dimensões das nossas vidas, que são cada vez mais numerosas e abrangentes. Ele é a vida familiar (que pode subdividir-se em conjugal, familiar descendente e familiar ascendente), a vida profissional, a vida cultural, a vida social e, nos tempos que correm, a componente electrónica das últimas, que é passada on-line. Ao fim de algum tempo, something's got to give - e cada um saberá o que é que entrega em troca do quê.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sécurité Routière

C'est génial, c'est marrant et ça peut vous sauver la vie.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Escola

De mochila às costas, lá foi ela para o seu primeiro dia de aulas. Na mochila miniatural levava a fraldinha e o urso cor-de-rosa, para a sesta. Entrou no sistema: não os entrego antes dos 3 anos (no caso dela, 2 anos e 9 meses, vá). Suspeito, esperançosa, que não se deixará submergir por ele.

domingo, 7 de setembro de 2008

Liberdade


Quando Rose (Juliette Binoche) declara que é a primeira vez na sua vida que ninguém que a conheça faz ideia de onde ela está, e Félix (Jean Reno) parece compreender inteiramente aquela sensação tão específica e única de libertação (Décalage Horaire, 2002), deu-se, também em mim, um daqueles preciosos momentos de reconhecimento e identificação.
Lembro-me distintamente da euforia tranquila que senti quando, aos 26 anos, levantei voo na Portela rumo ao Maputo. Naquele meu caso, não se tratava de ninguém saber para onde me dirigia, mas sim de não haver, do outro lado, quem me acorrentasse aos papéis que desempenhara até então, nem, do lado de cá, quem pudesse sequer imaginar o que seriam os meus dias e noites do lado de lá.
Mais tarde e no período em que vivi sozinha, aprimorei esta sensação quase indizível por meio do exercício esporádico de pequenas viagens anónimas e não divulgadas (que útil o telemóvel que evita preocupações sem nada revelar), que me proporcionavam essa sensação ímpar da mais completa e refinada liberdade, cumprindo o primeiro e mais pungente dos meus anseios, aquele que me persegue desde que me lembro de existir.

sábado, 6 de setembro de 2008

Do carácter

O carácter é das tais coisas: uns têm, outros não. Bem podemos passar anos a ignorar ou tentar não ver a ausência de carácter de alguém que nos é próximo que, inevitavelmente, ela se nos exibe, evidente, enorme, gritante, inultrapassável, contrastando dramaticamente com atitudes com que outros, quase estranhos, nos surpreendem.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Calor

Num desses dias de muito calor, o sol ainda queimava e já passava das sete da tarde, eu acabada de correr sentada no meu banco de cimento, sem arrefecer, fui sentar-me mais atrás, no limiar da relva, à sombra benevolente de uma árvore. Indo mais longe descalçei os ténis e depois as meias, e logo o tão esperado alívio e um surpreendente bem-estar. Ali fiquei, as pernas nuas e estendidas, as unhas vermelhas dos pés contrastando com o branco da calçada. À minha direita, um rapaz, quase um homem, lia um livro à sombra da árvore seguinte. À minha esquerda, o bebedouro era paragem obrigatória a quem por ali se expunha ao calor. O rio estava parado, o tempo juntou-se-lhe enquanto para ali fiquei a contemplar quem passava e não passava, sentindo o fresco da sombra, o refrescante toque das pedras na planta dos pés.
Foi em Junho e foi um dos melhores instantes deste ano.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Amores de Verão

Quando era miúda, tínhamos os amigos de Verão, os de todos os Verões, os que, por definição, não eram os mesmos do resto do ano. Ainda que vivêssemos quase todos em Lisboa, os do Verão eram os do Verão e, chegado Setembro, só nos tornaríamos a ver, com sorte, lá para a Páscoa.
De repente apercebo-me que, aos poucos, retomei esse velho hábito muito salutar, que vale agora também para os meus filhos. Quebrar rotinas é também mudar de caras, de conversas, de guiões. E guardar, ao longo do ano, a expectativa do feliz reencontro.
Definitivamente, não percebo a lógica dos que se deslocam em manada.

Re

É o regresso, o retorno, o recomeço, a rentrée. Tónica no re.
E a insónia recorrente, desperdiçando a derradeira oportunidade de recuperar o sono em atraso. Há coisas que não mudam: passear-me pela escuridão silenciosa da casa às 4 da manhã é uma delas. Não há férias que me valham.
Welcome back.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Férias, férias, férias

Voltei, mas estou já mortinha por me pôr a milhas. Aqui não se passa nada, o telefone não toca, se calhar ainda aproveito uns diazinhos lá no Sul. É quase indecoroso ter tantas férias mas olhem ... é para quem pode. E que bom para os mais pequenos poderem usufruir da liberdade de correr pela praia com a pandilha dos outros miúdos e, depois de um, de vários banhos, lambuzarem-se com uma bola de berlim. Nós de-tes-ta-mos ficar encarcerados em Lisboa. É um facto incontestável.
Até Setembro!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Perdi um amigo, um velho e bom amigo, vítima de doença mental. Posso dizê-lo (só agora?) com todas as letras da palavra que aqueles que te rodeavam não ousavam pronunciar: esquizofrenia.
Perdoa-me (sempre me perdoaste) por todas as vezes em que não te dei a atenção que podia ter dado, a que merecias. Perdoa-me ainda (já me perdoaste) por não poder estar presente na última homenagem.
Disseram, do resto das pessoas, que tinham as suas vidas (tínhamos as nossas vidas). Fraco sinónimo para falta de humanidade. Ficaste só. Só morreste.
Fica agora em paz, J.J.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sul

Depois de ter dado o litro - recorrente e obrigatório em vésperas de férias - vou instalar-me mais para Sul.
Até já.

domingo, 13 de julho de 2008

Anos

Lembro-me bem, quando era miúda, era Verão, havia sol e calor e presentes e bolo e parecia que por um dia eu era o centro do mundo porque fazia anos.
Hoje em dia não sei se me custam mais os progressivos telefonemas forçados ou a progressiva ausência deles.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Mundos

Ontem, depois da natação, levei os meus filhotes a lanchar a uma esplanada à beira rio. O lugar era razoavelmente sofisticado e, na mesa ao lado, sentaram-se três homens engravatados, aparentemente cheios de coisas importantes para discutir. O contraste entre as duas mesas era tão acentuado que me perguntei qual dos grupos estaria ali deslocado: se eles, se nós. Depois de alguma ponderação e tentativas inviáveis de fazer baixar o tom de voz aos miúdos, excitados que estavam com aquele programa inesperado, decidi que eram os outros que estavam a mais. Que fossem reunir-se para uma sala construída, decorada e devidamente insonorizada para esse fim. O grupo dos homens lá ia deitando olhares de soslaio perante os protestos de que o leite não estava suficientemente frio, as discussões por causa das cores das palhinhas, os guardanapos de papel a voarem pelo ar, etc, etc, como se não tivessem filhos lá em casa. É inacreditável como, com um par de olhares de través, qualquer um põe em causa anos de cuidados pedagógicos e educacionais.
Na verdade, só depois de ter filhos é que me apercebi que há pessoas que, apesar de os terem, mantêm a estranha capacidade de dividir o realidade em dois mundos - com e sem crianças. Fazem-no com tal rigor e austeridade que têm muita dificuldade em lidar com a intromissão do primeiro (o familiar) no segundo (o profissional), dando mostras do narcisismo e intolerância típicos de quem, por um lado, se leva demasiadamente a sério e, por outro, nunca teve que praticar aquela ginástica física e mental de encaixar os dois mundos numa única sucessão de tarefas diárias: alternando, sobrepondo, misturando e dividindo, levando o trabalho para casa e a casa para o trabalho, interrompendo um raciocínio jurídico para resolver uma desavença entre irmãos, ou atendendo um cliente ao telefone enquanto (por gestos) vai implorando às crianças que não se ponham a gritar no banco de trás. Coisas que, para algumas (e alguns) de nós, são o pão nosso de cada dia e que, se assim nos fôr permitido, não põem em causa a dedicação e seriedade na realização de qualquer uma das tarefas em mão.
Não pude então deixar de sorrir quando os miúdos, que não podem compreender como é que uma torrada demora uma eternidade a materializar-se na mesa à sua frente, decidiram chamar o empregado em coro e ao desafio, pondo toda a esplanada a olhar para eles: SENHOR.... SENHOR .... (SENHOL, na versão da mais pequena) .... TEMOS FOME!
Existe caso mais sério do que um par de miúdos com fome?

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Tratado sobre a amizade em forma de carta ao Amigo Ideal, que começa assim: meu querido Amigo,

Perdoa-me se não exerco a contenção que parece ser social ou emocionalmente correcto exercer, não sei bem, mas de há algum tempo para cá entrei nesta fase parecida com a tua de dizer o que tenho a dizer e pronto, diz-se, fica dito, é a verdade, não há que ler mais do que aquilo que é. Talvez pudessemos ser a excepção à regra nesta coisa de conter os pensamentos e emoções mais íntimos, acredito que podemos se formos claros e verdadeiros um com o outro, como sempre temos sabido ser. Gostava que em todas as ocasiões pudesses estar comigo perfeitamente à vontade, para me procurares se e quando e sempre que tiveres vontade, sem complicações nem obrigações nem contenções de qualquer espécie, enfim, que te sentisses comigo como em tua casa. Na verdade vejo-te como um velho companheiro de muitas vidas que reencontrei nesta para ter com quem debater assuntos que outros têm menor facilidade em compreender. Nesse sentido e se considerarmos que existimos noutra dimensão superior, tu e eu vamos olhando um pelo outro nesta existência aqui, porque somos muito amigos naquela outra. Assim se faz que nos cruzamos e tornamos a cruzar em ocasiões superiormente determinadas, porque temos coisas importantes a perceber um com o outro, em bom rigor a lembrar um ao outro, e para isso não é preciso saírmos a beber copos todas as sextas à noite. E agora já não sei onde queria chegar, perdi-me...
Ah, queria dizer-te o quando estou grata por seres esse amigo desta e daquela outra vida. Por não estares calado e dizeres o que tens a dizer, dares a tua opinião ainda que, e principalmente quando, contrária à minha, quando outros se limitariam a acenar com a cabeça. Por me fazeres ver que não sou a única da minha espécie e me ajudares a relativizar as problemáticas. Por te preocupares, por te interessares verdadeiramente por mim, de uma forma não passiva mas activa, dinâmica, bilateral, no sentido em que sinto sempre que recebo tanto quanto dou e que dou tanto quanto recebo - e isso, acredita, é uma coisa muito, muito rara.
Comoves-me, nem tu sabes o quanto, quando me chamas de irmã, e ainda assim consegues sempre fazer-me sentir como uma mulher.
Olha, pus um poema no meu blog em homenagem à nossa amizade, na verdade em homenagem a ti.

A.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Log off. Restart.

Após anos de inactividade desportiva regular, há três meses que, três vezes por semana, vou até ao rio correr. Detesto ginásios e os seus aglomerados de gente, os encontros sociais, as exibições de vaidades, as televisões que não dão espaço para pensar, as garrafinhas de água e as toalhinhas brancas à volta dos pescoços suados, o ar bafiento, os tectos baixos e a luz artificial (e as máquinas, que horror, as máquinas). Não consigo encontrar nada de relaxante ou agradável num ginásio encafuado, quando apenas anseio por espaço e ar livre e, com toda a honestidade, corpos suados, desnudos, a cheirar a corpos, gosto dos que me pertencem ou com os quais me seja dada a escolha (e o prazer) de partilhar a exiguidade de um espaço.
E é assim que, três vezes por semana, faço esticar o tempo para me entregar a esta actividade egoísta, hedonística, solitária e silenciosa, o céu aberto, a luz verdadeira, o ar não filtrado: um bocadinho de tempo e uma imensidão de espaço só meus - que prazer.
Depois da corrida, sento-me à beira do Tejo num banco de cimento onde a tinta azul e letras garrafais alguém escreveu ÉS A RAZÃO DO MEU VIVER, e ali fico uns bons 15 minutos, de pernas cruzadas a lembrar a posição de lótus, a olhar em frente, para o lado de lá.
A respirar tranquilidade.
Log off.
Restart.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Amor táctil

Fiquei verdadeiramente impressionada com este post do outro dia da Ana de Amsterdam. De tal forma que demorei a decidir-me a escrever sobre ele. É que eu pensava que este meu amor táctil, repleto de beijos, abraços, agarramentos, mãos nas mão, mãos nos pés, beijos nos pés (o pés, ai os pés), voltas e reviravoltas nos cabelos (cheiram tão bem os cabelos), muito colo e vai mais um abraço e um beijinho, era doentio e um bocadinho vergonhoso. Meus ricos filhos que os sufoco com tanto afecto e sabe-se lá que outros males lhes poderei causar. Tal e qual, Ana.
(e para quê escrever sobre o assunto se ficou tudo dito e tão bem dito?)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Carácter

O carácter não pode ser desenvolvido na calma e tranquilidade. Somente através da experiência de tentativas e sofrimentos a alma consegue o sucesso.

Helen Keller (1880-1968) (citada na revista "Sábado")


quarta-feira, 25 de junho de 2008

Instantes (6)

O conforto do silêncio sucedendo a conversa amena, o suave embalar do vinho do jantar, o calor do lume elevando-se entre as escadas, tudo emprestava à atmosfera uma doçura muito própria enquanto se preparavam para o fio penetrante que se adivinhava lá fora, caindo da serra naquela noite de inverno.
Ele cingiu-lhe o casaco ao corpo, fechando-lhe os botões num gesto de ternura amorosa enquanto a encarava do fundo dos olhos azuis, o lugar onde vivia a alma que, no enlevo daquele olhar, lhe entregava. Ela, instintivamente, soube que aquele era um momento mágico, para sempre relembrado, um fragmento essencial da sua vida, passada, presente e futura.
O tempo deteve-se pelo breve instante de compreensão em que se tornou claro, com a evidência súbita das grandes verdades, que ali, naquele pequeno pedaço de eternidade, se condensava todo o sentido da existência.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Um Capricho da Natureza

Por um euro comprei na semana passada "Um Capricho da Natureza" da sul africana, nobel da literatura, Nadine Gordimer. A edição (e tradução?) é bastante má (gralhas mais gralhas), já vai sendo hábito, mas o livro é bastante bom. Pontos a favor da literatura acessível a todas as bolsas.

Menina e moça

O entregador de pizzas (um sujeito já entradote, está tudo explicado), tratou-me por "menina", assim: boa noite, menina. Quase corei.

sábado, 21 de junho de 2008

Midsummer night: 21h30

A hora da bola - síntese

Foi uma experiência interessante. Ficou provado que, quando nos alheamos de uma situação (ainda que isso obrigue a um permanente exercício de alienação perante a realidade ululante*), conseguimos evitar todo e qualquer envolvimento emocional. Assim sendo, é garantido que nem sombra de sofrimento, nem uma pontinha daquela sensação de ter andado a perder tempo e energia. Felizmente, este nunca foi, e espero que nunca venha a ser, o meu mote para a vida. Vou continuar a gastar carradas de energia emocional noutros departamentos. E continuar a achar que vale a pena.

(* declinação da magnifica expressão "óbvio ululante" de Nelson Rodrigues - que nunca partilharia qualquer exercício de alienação perante o futebol.)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A hora da bola


As docas à hora do Portugal - Alemanha

quarta-feira, 18 de junho de 2008

A hora da bola


A A2 à hora do Portugal-Suiça.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Da amizade

Ninguém duvida que as relações de amizade são, regra geral, mais flexíveis do que as relações amorosas. Exige-se menos, tolera-se mais, aceita-se o outro tal como é, acha-se graça às diferenças, à manias, à taras (!), perdoam-se os atrasos, as não comparências, as ausências, os silêncios, as divergências. A amizade é, em muitos casos, a versão perfeita do relacionamento entre duas pessoas. Sobre a amizade não se conversa nem se discute, apenas se age em conformidade. É mais espontânea e menos formal, não tem data de começo, nem palavras de encerramento. Claro que há amizades mais perfeitas do que outras. Mais ou menos tolerantes, mais ou menos abertas, mais ou menos generosas. Mais e menos fáceis.
A amizade nasce pelos mais variados processos e motivações. Entre o mesmo sexo e entre sexos diferentes. E depois há o amor disfarçado de amizade e até a amizade disfarçada de amor. E um(a) que se transforma na(o) outra(o).
Uma verdadeira relação de amizade amadurece pela vida fora, transforma-se, adapta-se e perdura apesar de todas as coisas. Ou não. O afastamento lento e gradual pode ser um processo natural, mas nem por isso indolor. Às vezes seria útil poder dizer: olha, vamos dar um tempo e assim evitar a consternação das palavras desconfortáveis onde já não há entendimento, dos encontros falhados em homenagem ao que foi e sabe-se lá se voltará a ser. Por vezes temos a alegria de redescobrir a amizade ao fim de longos anos, ou a tristeza de reconhecer que se quebraram todas as pontes.
Como todas as coisas que valem a pena, a amizade dá-nos alegrias e tristezas. Com tónica nas alegrias.

sábado, 14 de junho de 2008

A hora da bola


A praia à hora do Portugal - República Checa

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Clint Eastwood + Diana Krall

Gosto muito de Clint Eastwood - realizador. Só não sabia que ele é também o autor da letra deste magnifico Why Should I Care, interpretado por Diana Krall para a banda sonora do filme True Crime (1999) que acabei de (re)ver na Tv.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Bola

Afinal há mais como eu no que se refere ao Europeu. Bem hajam!
Cá por mim vou fazer como fiz no anterior: aproveitar as horas dos jogos da selecção portuguesa para fazer compras, passear na cidade deserta, ir à praia e viajar entre Lisboa e o Algarve com a auto-estrada só para mim. E, sobretudo, não ligar a televisão.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mitos

Existe aquela ideia que os portugueses são um povo simpático e amável. Pois bem, indo eu hoje em passo de marcha pelas calçadas de Lisboa estatelei-me no chão em frente a um prédio em obras, escorregando miseravelmente no passeio que, segundo vim a apurar, estava cheio de óleo. Magoei-me no joelho e na mão (nada de sério) e, claro, no meu orgulho, tendo demorado uns segundos a pôr-me de pé e outros tantos a avaliar os estragos e sacudir a roupa, de tão desorientada fiquei. Durante esse tempo os dois homens que descarregavam entulho da obra a dois metros de mim não me dirigiram uma palavra, o mesmo acontecendo com algumas pessoas que passavam por ali.
E assim se desfez mais um mito sobre as vantagens de se viver neste país à beira mar plantado (e n.b., desta vez nem o género nem as outras coisas me valeram).

terça-feira, 3 de junho de 2008

Concert list

A propósito de concertos, tentei elaborar rapidamente uma lista mental daqueles que perduram na memória como os mais marcantes, pelos mais diversos motivos: do longínquo Rod Stewart no Estádio do Restelo, em 1983 (porque foi o primeiro, com treze aninhos, pois sim), ao catártico Leonard Cohen no Coliseu dos Recreios em 1988, do inesperado Sérgio Godinho (genial) em 1991 (ou 92 já não sei bem, na Festa do Avante), à descoberta de Marisa Monte na Aula Magna em 1989 ou Massive Attack no Pavilhão Atlântico em 1998, só para enumerar os primeiros que me vêm à cabeça (e de repente lembrei-me de Cesária Évora no teatro São Luiz, nos anos 90, e de, e de ...). Na verdade a lista prolonga-se, é muito eclética, e como com todas as listas é muito dificil de chegar a uma versão final e definitiva, sendo desde logo impossível deixar de fora os grandes como U2, David Bowie, Sting, Rolling Stones, quase todos no velho Estádio de Alvalade (ou Bruce Springsteen em Madrid em 1987, por exemplo) e por aí fora, e mais os incontornáveis brasileiros: Chico, Bethânia e Caetano. Desisti portanto de eleger os mais marcantes: o que gostaria mesmo é de conseguir elaborar a minha concertografia dos últimos 25 anos, para a posteridade, mas as memórias confundem-se, as datas são quase impossíveis de fixar (por exemplo, sei que vi The Cure mas não faço ideia quando nem onde) e em alguns casos já nem sei se estive lá ou apenas desejei estar. Só tenho a lamentar que os últimos anos tenham sido mais pobres nessa matéria (com algumas preciosas excepções) porque o essencial é mesmo ir: ir muito, ir sempre, e continuamente deixarmo-nos surpreender pela magia da comunhão musical. Um hábito a não perder.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Triste palhaçada

Fui só eu a achar patética, absurda, disparatada e inconcebível a pantomima organizada ontem em redor da saída da equipa portuguesa para o campeonato europeu?

domingo, 1 de junho de 2008

sábado, 31 de maio de 2008

Thank God for good old fashioned rock & roll !

Foi verdadeiramente deplorável e embaraçoso o espectáculo com que Amy Whinehouse brindou as 90 mil pessoas ontem presentes no Rock in Rio. Tarde e a más horas, desculpando-se logo à partida (e de forma quase ininteligível) pelo atraso e pela falta de voz, desorientada e desequilibrada no meio do palco, gestos, rosto, voz e palavras totalmente desconexos, patética e tristemente dependente dos seus acompanhantes a quem (via-se) ia implorando por apoio. Deu dó, é verdade, mas foi para ocasiões como esta que se criaram os apupos, que apesar de tudo, pouco se fizeram ouvir, tal era o embaraço geral. O que se ouviu, e bem, foi o silêncio dos 90 mil a preencher o espaço entre as músicas, tão desconfortável que Amy por duas vezes implorou: make some noise ! Por três vezes tentou pegar na guitarra e não conseguiu, outras tantas falhou o gesto simples de colocar o microfone no suporte e por fim lá se estatelou (ou quase), sapatos voando pelo ar e o estrondo do microfone a cair no palco, juntamente com as expectativas desfeitas de um público que ali estava, essencialmente, para a ver a ela.

Mas Lenny Kravitz, superando tudo e todos, chegou para salvar a noite. Perante um público ainda incrédulo pelo que acabara de presenciar, Lenny entrou a matar, numa actuação extraordinária, plena de força, confiança e entrega, em perfeita simbiose com a banda que o acompanhava. Lenny super cool. O público demorou o seu tempo a estar à altura daquele desempenho fabuloso, mas inevitavelmente chegou lá, e ao entrar na segunda hora Lenny Kravitz tinha ganho a noite - e os 90 mil. A mim, teve-me logo no primeiro acorde e foi dançar non-stop durante quase duas horas, como que trocando de lugar com os milhares de adolescentes que me rodeavam, ainda a tentarem perceber o que se estava a passar. Há que dizê-lo: thank God for good old fashioned rock & roll.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Juízo

Olhando para trás, com a objectividade possível, devo dizer que as decisões de que mais me orgulho na vida foram aquelas que temi serem as menos ajuizadas. Já agora, confesso que os melhores momentos também, e aproveito para agradecer a todos aqueles que tiveram a capacidade de me fazer perder o juízo, ou que me acompanharam em alguns desses momentos.
Só não sei bem que ilações tirar disto. Provavelmente, que o meu conceito de juízo é demasiadamente severo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Gostar

O de quatro anos está sempre a perguntar porque é que gostamos daquilo que gostamos: no caso dele, de chocolate, de gelados, de carrinhos Hot Weels, de passear num dia de sol, de correr na rebentação, de um abraço apertado. Se eu lhe pergunto se gosta, ele responde que gosta, mas logo: porquê? Se ele me pergunta se gosto, respondo que gosto e ele: porquê? e eu: porque sabe bem, porque é bonito, porque me faz sentir bem, porque me faz feliz; e ele, logo: mas sabe bem, porquê? faz sentir bem, como? and so on and so on (até chegar à suprema pergunta: feliz é o quê?).
Já tentei explicar-lhe que, às vezes, não sabemos bem porque é que gostamos. Um dia tentarei explicar-lhe que até podemos gostar contra toda a lógica, contra todas as razões; que não nos podemos impedir de gostar - apenas nos podemos impedir de agir em função disso; que isso vale tanto para os chocolates, como para muitas outras coisas, passando pelas drogas e incluindo as pessoas; que crescer significa, afinal, aprender a fazer uso dessa capacidade de contenção; que fazer uso dessa capacidade às vezes faz sentido, outra vezes não; e por aí fora, até chegarmos à única conclusão possível: que a lógica, às vezes, é uma batata.
Suspeito que, na busca incessante da lógica das coisas, própria de quem se esforça por perceber o mundo, ele vai demorar o seu tempo a aceitar isto.

terça-feira, 27 de maio de 2008

It cracks me up

Reconheço que sou dada a obsessões: como ouvir o Slow Show dos The National, non stop de Carcavelos até Lisboa, em hora de ponta.

domingo, 25 de maio de 2008

Falemos pois do tempo

A única vantagem deste inverno que não acaba é que dá assunto de conversa para quem não tenha o que falar. Nesta minha fase de misantropia, em que não encontro plataforma de comunicação possível com a grande maioria das pessoas, dá um certo jeito.

Percepção

A diferença entre perceber e percepcionar pode parecer subtil, mas é na verdade abissal. Podemos levar a vida a tentar perceber, compreender, entender. Mas, no fundo, o que realmente conta é a realidade tal como a percepcionamos - uma das muitas interpretações possíveis daquela que nos rodeia.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Instantes (5)

Se fechasse os olhos, conseguia tornar a subir a calçada que despertava com o cair do sol, sentir o ar morno a confirmar a chegada do Verão que ambos celebravam vestidos de branco, caminhando de braço dado em risos de novas cumplicidades e alegre antecipação do que se adivinhava no ar.

Instantes (4)

Se fechasse os olhos, conseguia tornar a acordar no quarto imerso no verde da floresta tropical, de frente para o mar, sentir o calor húmido na pele, o torpor do corpo no conforto da cama e, naquele breve instante que antecede o abrir dos olhos, distinguir o ruído da água do duche a correr, na casa de banho.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Instantes (3)

Se fechasse os olhos, conseguia voltar ao carro percorrendo a estrada sinuosa, o silêncio carregado das palavras que já não cabiam naquele breve instante, a luz da alvorada para além do mar que tudo preenchia. À porta do aeroporto, receber a mala e um beijo rápido a não permitir grandes cenas e ficar a vê-lo afastar-se, sem olhar para trás, num rompante de voltar as costas que os libertava, a ambos, das promessas desajeitadas que encerrariam os breves dias de idílio quase clandestino.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Às mães que já são e às que virão a ser

Reproduzo aqui um comentário que fiz no Rititi, a propósito da maternidade, alargando-o em função das muitas elaborações mentais sobre o assunto:

Não sendo daquelas pessoas hiperbólicas, que acham que tudo tem que parecer extraordinário para ser importante, afirmo que o amor maternal não é automático e principalmente não é imediato. Quando nasceu o meu primeiro, fiquei, no acto, à espera daquela onda de amor avassalador de que tanto falam - e nada. Senti, naquele momento, um imenso sentido de responsabilidade e um enorme instinto de protecção. Mas também um sentimento de estranheza: quem vinha a ser aquele ser que acabara de produzir? Apesar de o ter carregado durante 9 meses, no momento em que nasceu senti que não fazia ideia de quem ele era e, mais preocupante, o que queria de mim. Durante a gravidez achei que se tinha criado a denominada vinculação, mas logo que o expulsei de mim desenganei-me: o acto de separação física - passámos a ser dois e não um só - foi em si mesmo um choque. Apercebi-me que estava ali um ser humano inteiramente novo, que era meu apenas no sentido genético. O resto, teria que conquistar e fazer por merecer.
Como ser geneticamente programado que também sou (e com muita vontade de ser mãe) engoli as incertezas e desatei a tratar daquela mini-pessoa desconhecida (lembro-me bem, ao sair do hospital, de pensar como era possível que me deixassem levá-lo para casa sem me perguntarem se sabia cuidar dele - não seria necessária uma certificação prévia para o exercício de uma função tão especializada?)
E depois foi assim: o amor - avassalador, sim senhora - despontou na interacção, enquanto cuidava, entre noite insones, mamas doridas, nervos à flor da pele. No fundo é como qualquer outra paixão: ao fim de 3 meses, quando parei para respirar, descobri que estava irremediavelmente, loucamente apaixonada. Com a diferença de que esta paixão não esmorece nunca. É assim que, de uma assentada, desmistifico outra ideia feita: o nascimento do segundo não perde nada em relação ao primeiro; muito pelo contrário, porque o fazemos já conscientes da magnitude do que aí vem.
Afinal, sei-o agora, serem sangue do nosso sangue ou nascerem do nosso ventre é o que menos importa: a maternidade começa realmente quando os levamos para casa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O respeitinho é muito bonito

Não me parece de todo relevante a questão legalista de saber se um avião fretado é um transporte público. Sócrates fumou para cima do grupo de pessoas com quem trabalha e mais alguns convidados, que por conta do privilégio de viajarem com o Grande Chefe, perderam o direito que ele próprio fez questão de garantir ao cidadão comum: o de respirar ar livre de fumo de tabaco. Ainda invocou ignorância da lei (e das boas maneiras), disse que sempre assim tem feito, e saiu-se com a resposta patética e infantil de que não foi o único.
Não restam pois grandes dúvidas que andará em São Bento a fumar para cima daqueles que convidou para (o ajudar a) governar o país, e de todos aqueles que lá trabalham. É que contra o Chefe ninguém reclama - e o nosso P.M., pelos vistos, não tem a noção dos motivos de fundo que levaram à adopção das medidas restritivas quanto ao fumo nos locais de trabalho.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Instantes (2)

Se fechar os olhos, consigo entrar no saco-cama macio um tudo nada mofento, ouvir o bater metálico, ritmado e contínuo, dos brandais no mastro, o chape-chape da água a lamber o casco, o ocasional ranger das obras-mortas, o roncar distante e abafado do motor de uma traineira que sai para a faina, o cheiro a madeira misturado com a maresia, o quase imperceptível embalar que trouxe tantos adormeceres.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Instantes (1)

Se fechar os olhos, consigo entrar numa tarde de verão na sala de aulas: o silêncio dos colegas a trabalhar, o chocalhar das canetas remexidas nos estojos, o remexer dos papéis, o ligeiro arrastar das cadeiras no chão em impaciência de pés e pernas, os outros sons que me invandem pelas janelas abertas daquele segundo andar e complementam o estado de sonolência semi-hipnótica: a quietude do recreio vazio, os pássaros a piar nas árvores, o leve zum-zum dos carros, muito ao fundo, a acelerarem na Joaquim António de Aguiar (de vez em quando lá levavam uma criança à frente) e até, com um pequeno esforço de memória, o batuque das obras a erguerem as torres das Amoreiras. Se fechar bem os olhos, consigo ainda sentir o ar quente e adocicado pelo aroma das folhas dos castanheiros e das amoreiras, misturado com o leve odor a pó de giz, à madeira encerada das carteiras e a trinta pré-adolescentes e um adulto numa tarde de verão na sala de aulas.
Está tudo aqui, um instante guardado ao alcance de um breve cerrar de olhos.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tempo

O tempo parece que anda por aí a gastar-se. Num pulo passaram 3 meses e nada se passou. Apenas os dias, corridos, seguidos, com pequeníssimas, quase imperceptíveis variações (de humor, fundamentalmente). Olho os pequeninos que tanto lhes acontece, mudam e evoluem e três meses são uma eternidade. Mas três meses são apenas todos os dias juntos e quando iguais é quase como um só, longo e anestesiado. A ver o tempo passar. E nada.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

4

O de quatro anos, entrando no carro:
- Mamã, posso ir sem cinto?
- Claro que não.
- Mas eu sou um super-herói !
- Não é nada um super-herói. É um menino.
- Mas com a farda (do colégio) pareço um homem.

Por exemplo

Teto, ato, ação, afeto, perceção, objeto, coletivo, ótimo, exato, estoico, pera (o fruto), pelo (o orgão filiforme).

IRRA !!!!!!!!!!!!!!!!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Manifesto em defesa da língua portuguesa

Quem esteja interessado em engrossar a voz contra o Acordo Ortográfico, pode clicar aqui para assinar a petição que está em curso desde sexta-feira passada.
Existe uma outra (menos pomposa e menos mediática), que no entanto tem exemplos bem elucidativos do absurdo: aqui.
E, já agora, passem os olhos pelo texto do Acordo, aqui.
A minha opinião já conhecem.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Acordo ótimo?

Resposta ao Nuno Boavida:

Tenho grandes dúvidas sobre as vantagens do acordo ortográfico para preservação/divulgação da língua portuguesa no Mundo. A língua é uma coisa viva, circula livremente entre as pessoas e vai-se modificando sob a influência das culturas com que contacta. O português do Brasil (ou de qualquer outro país lusófono, acontece que o do Brasil conheço eu muito bem) é nesse aspecto mais rico do que o português de Portugal - e não é menos legítimo nem menos correcto. Mas é diferente porque teve a sua própria evolução e não vejo grandes vantagens nesta unificação formal, imposta de fora para dentro - não me parece que língua nenhuma beneficie com isso. Mais, não me parece que seja possível alterar impositivamente uma língua e não sei porquê tenho a sensação de que estamos todos mais uma vez (ainda me lembro de o fazer quando tinha vinte anos) a discutir um acordo que vai continuar na gaveta. Veremos.
Os argumentos a favor ou contra o acordo são só argumentos e quase parecem criados por um "debate club" (por exemplo, não é verdade que o inglês tenha uma ortografia única no mundo inteiro mas ainda assim proliferam os jornalistas sérios que continuam a usar o argumento, como se, tendo aderido a esse lado do debate, não pudessem exprimir dúvidas nem fazer concessões à outra parte). Tenho lido os argumentos a favor: não estou convencida. Talvez porque fico arrepiada só de pensar em escrever ótimo em vez de óptimo. Reconheço que ficar arrepiada não é argumento sério, mas significa pelo menos que só argumentos muito sérios e válidos me vão convencer a engolir a repulsa automática, que me surge das entranhas. Espero com isto não configurar o tipo velho do restelo (usando a tua terminologia) ou reaccionário. É coisa a que tenho horror.
Não tenho nada contra a expansão oficial da língua portuguesa por forma a abranger outras terminologias ou ortografias: antes pelo contrario, isso é o natural, na medida em que significa oficializar a realidade de cada país, respeitar a riqueza e individualidade de cada cultura. O que considero contra natura é espartilhar a língua à força, em prol de uma pseudo-unificação: por exemplo, abolir as ditas consoantes mudas não traduz a realidade cultural do nosso país. Elas estão ali, quanto mais não seja por razões etimológicas (que são, do meu ponto de vista, razões mais do que suficientes) e ainda que não sejam pronunciadas, em alguns casos alteram a fonética, noutros a inflexão das palavras. Seja como for, parece-me que ainda não estamos preparados para prescindir delas à força e esse é que é para mim o grande argumento. Eu, pelo menos, não estou.
Suspeito que quem beneficia deste acordo são alguns grupos económicos - parece-me, como em quase tudo, que são os interesses económicos que prevalecem sobre os interesses culturais. Podes dizer-me que a divulgação dos livros e afins é essencial para a preservação da língua e cultura e para o desenvolvimento cultural/educativo dos países da CPLP. Em teoria, sim. Mas não me parece que o acordo ortográfico vá alterar o estado das coisas. Desconfio que não seja esse o fim último do acordo.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

The Kiss

Norah Jones disse que teve que beijar Jude Law mais de 90 vezes para fazer a cena do beijo roubado no filme My Blueberry Nights.
Se é para fazer mais de 90 vezes, não consigo imaginar coisa melhor do que beijar Jude Law.

sábado, 26 de abril de 2008

A solidão é um estado de espírito

Aquele estado em que caímos quando não temos distracções que mantenham a ilusão contrária.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A casa

Cá estou na casa algarvia de há 27 anos. Impressiona-me pensar o que estas paredes brancas sabem, que viram tantos instantes a moldarem quem sou. A porta por onde entrou a minha paixão dos 13 anos, a dos 16, a dos 19, dos 24, dos 26, dos 27, a dos 28 (nem que por uma só vez), as que rechearam o entremeio e mais as que só cá entraram cá dentro. Posso calendarizar a minha vida de acordo com as minhas paixões, que coisa esta, que sempre me fascinaram os homens, todos guardados em memórias que não passam, como não morrem os afectos. Durmo no quarto de sempre, neste que me guardou tantas noites em claro, os grilos estridentes lá fora, eu sonhando de olhos abertos à escuta. E as noites suspensas da rede no jardim, as estrelas, as voltas e reviravoltas cá dentro e ainda, e sempre, os grilos.
A casa e eu dentro da casa, eu a casa da gente dentro de mim.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Liberdade

Delicio-me com a libertação que advém da conclusão de um trabalho laborioso (passo o pleonasmo). Reconheço que há poucas coisas na vida que me dêm prazer igual ao da sensação de liberdade: saboreio até as mais pequenas impressões.
Numa nota mais positiva, rumo ao sul.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Fantasmas

Todos temos os nossos fantasmas. Uns mais sombrios do que outros.
Alguns serão mesmo inimagináveis.

Quem me leva os meus fantasmas

terça-feira, 15 de abril de 2008

segunda-feira, 14 de abril de 2008

40

No primor dos seus 33/34 anos, José Luís Peixoto escreveu na Visão da semana passada uma crónica sobre "os 40", num retrato preenchido do que, à primeira vista, parece um chorrilho de lugares-comuns. José Luís Peixoto não tem nada de comum no estilo literário. Muito pelo contrário, nas obras que conheço dele, conduz a criatividade muito além dos limites do imaginável. Ora, considerando a aproximação vertiginosa que faço aos 40 e a avaliar pelos questionamentos, dúvidas e ansiedades que esta fase parece vir produzindo na minha vida, receio bem que a célebre crise dos 40 se venha a revelar isso mesmo: um terrível lugar-comum.
Terá sido isto que ele quis retratar.

sábado, 12 de abril de 2008

Silently


Oh, sweet creature / I know exactly how you feel / Your clock is ticking, tick tack tick tack / Your heart is beating, tum tum tum tum tum.

Quinta-feira foi um dia algo estranho.
De manhã, tive a oportunidade inesperada de partilhar um par de confidências. Ora, eu não sou pessoa de confidências. Nunca fui. Como afirmou recentemente a minha própria irmã, sempre fui muito misteriosa. Seria muito provavelmente capaz de contar pelos dedos de uma só mão as oportunidades que agarrei na vida de confidenciar assim a minha intimidade (e, pensando bem, com menos dedos ainda contava os destinatários dessas confidências). Constato a verdade que permanentemente esqueço: faz bem à alma.
À tarde, encontrei um velho amigo que não via há mais de uma década. Seguimos pela vida indangando porque raio deixámos de cruzar caminho com certas pessoas e de repente ali estamos, ali coincidimos fisicamente por um breve momento no tempo e no espaço. Dizer que acontece quando menos se espera é mera redundância.
Quando chegou o fim do dia, o computador de bordo indicava 3 horas e 30 minutos atrás do volante. Há dias assim, mas o que tornou tudo ainda mais estranho foi ter sido acometida de uma inesperada compulsão musical, que me ancorou à faixa 6 do album 23 dos Blonde Redhead, todo o tempo em que fui conduzindo. É que deu para muitos e muitos rewinds.

Não há versão youtube minimamente apresentável, mas pode-se ir aqui ouvir.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Prova em contrário

Outra coisa que consegue abalar a minha crença arreigada de que ainda agora nasci, é a fotografia tipo passe que acabei de tirar.

Estilos

Consigo estar triste ou zangada, ficar em fúria, saltar-me a tampa; estar devastada, arrasada, humilhada ou desesperada; fico irritada, aborrecida, magoada, de coração partido, estilhaçado; sei chorar, gritar, berrar, dar pontapés nas portas, rasgar coisas, atirar com objectos, partir o que estiver à mão; chamar nomes, dizer palavrões, ser maldosa, produzir afirmações refinadamente cruéis; embora não seja o meu estilo, já tentei ficar amuada (não durou mais do que uns minutos) e certa vez preguei com um valente estalo. Tudo isto já fiz. Mas o que não consigo, não consigo nunca, é ficar fria. Distanciada. O que nunca sou capaz é de ficar calada.
Dana-me que haja quem o consiga tão bem.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

The Matrix ou a vida virtual

No Sábado parei no sofá o tempo suficiente para (re)ver a primeira parte do "The Matrix". Às tantas, Morpheus pergunta ao herói, Neo, se ao longo da vida não sentira sempre que alguma coisa não batia certo, que havia algo de deslocado naquela realidade que lhe era dada viver: que além daquilo, para além de tudo aquilo, teria que haver mais.
Percebo-o bem. Transpondo para a minha realidade, é como se muito cedo, tão cedo que nem me apercebo quando, tivesse tomado o caminho ligeiramente ao lado. Ligeiramente apenas: não tanto que me sentisse inteiramente perdida, mas o suficiente para não mais encontrar o lugar exacto para onde me encaminhava quando parti, perambulando pelo mundo com uma eterna sensação de deslocamento, na permanente angústia de que não será bem isto.
No fundo, no fundo, ainda vivo na esperança de que, tal como Neo foi resgatado do seu casulo, um dia alguém puxe pelo fio que me liga à tomada da realidade virtual e ao desligá-la me reconduza à vida real.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Vidas

Olho para os homens feitos. Leio os escritores, os cronistas, os bloguitas, os intelectuais, tão cheios de experiência, inundados de cultura, de verdade e segurança. Repletos de mundo. Vejo os secretários de estado, os vereadores e os deputados, aqueles que foram meus colegas de curso, sentados ao meu lado pelos anfiteatros abaixo, na versão masculina e na versão feminina: eles com a falsa segurança tão típica da idade, elas com os estojos de lata cheios de canetas de cores. Na versão queque, na versão saloia, na versão radical, tertuliana ou associativa, na versão geniozinho ou simplesmente intelectual, porque ali havia de tudo. As meias de leite ao pequeno almoço no bar da faculdade, as cervejas pelo final da tarde na esplanada e os charros nas catacumbas desertas, no entremeio. Vejo-os agora a todos, nos telejornais, nos jornais, por vezes até nas revistas de cabeleireiro: a meia dúzia que conheci e os muitos que não conheci. Duas coisas lhes distingo em comum: que se tornaram gente, gente que opina, que decide, que manda, gente que, presumivelmente, importa; e que são apenas tão velhos ou - pasme-se - mais novos do que eu.
Enervam-me. Fazem-me espécie. Quase não me permitem acreditar que sou, que sempre fui e sempre serei uma simples miúda. Sem grandes contas a deitar à vida.

segunda-feira, 31 de março de 2008

sexta-feira, 28 de março de 2008

Insistindo

Mário de Carvalho dá uma entrevista ao Público (Ípsilon, 28 de Março) a propósito do seu novo livro A Sala Magenta - que dá-se o acaso de eu estar a ler :
É importante que se diga isto porque há muita confusão por aí: não escrevemos sobre nós, escrevemos sobre os outros. (...) As vidas das pessoas não têm assim um interesse muito grande. As vidas das personagens têm.
E depois:
Paul Valéry dizia que um livro nunca está pronto: é abandonado. Esta obsessão com as palavras e com a construção das frases, torna-se insuportável. Então é que o livro é abandonado e entregue.

Portishead - Roads - este é para a filipa

quinta-feira, 27 de março de 2008

Psicadélico

De repente apercebo-me que deve estar a ficar na moda ter os blogues em tons berrantes. Até aqui era o fundo branco clean, sem compromissos nem risco de parecer qualquer coisa menos do que um ponto de encontro entre intelectuais. Agora um grupinho de blogues aderiu à tendência psicadélica. Pergunto-me se isto se irá generalizar: é que não me parece que seja bom para a vista.

segunda-feira, 24 de março de 2008

A capacidade para se estar nas tintas ou "frankly my dear I don't give a damn"

Li no outro dia uma referência ao que disse o dramaturgo inglês Tom Stoppard:
"What people tend to underestimate is my capacity for not bothering, not caring, not minding, not being that interested."

Para mim, mais do que "a capacidade de não estar interessado", esta postura traduz a capacidade para se estar nas tintas.
A capacidade para se estar nas tintas é uma faculdade que só aprendi a dominar tarde na vida, pelos meus 25 anos, no final de uma longuíssima adolescência de preocupação sobre o que os outros poderiam pensar das minhas acções, das minhas ideias, das minhas escolhas, acerca de tudo e mais alguma coisa que me dissesse respeito. A esta preocupação somava-se uma outra, que lhe está intimamente ligada, de agradar, de ser correcta, de fazer o que está certo para todos. Foi um longo e tortuoso caminho, que ainda se vai construindo. Este percurso sofrido, repleto de tentativas e semeado de desilusões, de pequenas e grandes conquistas, desembocou na capacidade (ainda em desenvolvimento) de fazer uso da dita faculdade.
A acção de se estar nas tintas (que vai muito além do mero uso da expressão "estou-me nas tintas!"), quando adequadamente empregue, corresponde à afirmação da individualidade sobre a imposição da verdade alheia, sobre a vontade e as expectativas daqueles que nos rodeiam. As expectativas alheias, que inundam qualquer pessoa desde que nasce para o mundo, podem tornar-se no mais perverso elemento paralisador da capacidade de cada um para agir de acordo com a sua verdade. A possibilidade de ignorar essas expectativas, que vem com o pacote da capacidade para se estar nas tintas, é o elemento redentor, proporcionando uma sensação única de liberdade, confiança e auto-estima - a sensação que se tem quando se age dentro de certos parâmetros de autonomia.
Mas também é verdade que, no limite, a capacidade para se estar nas tintas pode conduzir a um certo estado de euforia e, nessa medida, tornar-se viciante. É importante, por isso, aprendermos a fazer uso adequado dela - ou corremos sérios risco de nos tornarmos uns miseráveis egoístas.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Lx

Ficámos em Lisboa esta Páscoa.
Durante toda a minha infância e juventude (já o disse) éramos os primeiros a sair e os últimos a voltar. E assim tenho continuado como posso, esticando ao máximo o privilégio de não ter férias contadas dia a dia. Lembro-me, há muitos anos, de ter vindo a Lisboa um par de vezes a meio do Verão e de ter achado a cidade estranhissima. Nunca reconheci esta Lisboa esvaziada de gente, de trânsito, de barulho. Talvez por isso, ainda hoje me sinto estranha quando aqui fico, como que deixada para trás. Compreendo as imensas possibilidades de permanecer e tranquilamente poder usufruir dela. Compreendo, mas é mais forte do que eu: não gosto. Nunca me vou habituar. Sinto sempre que estou a perder alguma coisa. Agora, que também os miúdos perdem a oportunidade de espaço e liberdade. A cidade não é para as crianças. A minha cidade é também cada vez menos para mim.

quarta-feira, 19 de março de 2008

segunda-feira, 17 de março de 2008

A propósito de escrita criativa

Gonçalo M. Tavares disse em entrevista ao poeta mineiro Wilmar Silva (in Público, 13 de Março) :
Não identifico a literatura com reflexos apaixonados e batimentos cardíacos. Não me parece obrigatório que, na poesia, se escrevam autobiografias ou descrições de estados sentimentais individuais. O problema é que esses estados não são partilháveis. A ideia de que uma pessoa para escrever sobre um estado sentimental tem de estar nesse estado sentimental é bastante contestável.
Gonçalo M. Tavares empenha-se em derrubar a cisão entre cerebralidade e emoção.
Concordo que a emoção pode ser essencialmente gerada pelo cérebro. Já se falou sobre isso aqui. Qualquer detentor de um cérebro hiperactivo sabe como, partindo de uma coisa de nada, o pensamento compulsivo pode conduzir a uma sequência de emoções devastadoras.
Posso portanto conceber a hipótese de se recriarem emoções que nunca se sentiram, fazendo-o de uma forma exclusivamente cerebral. Mas para mim isto é ainda uma mera hipótese. Permaneço demasiadamente ligada às experiências de vida.

Wilmar Silva tem em mãos a tarefa de compilar o máximo de poetas vivos da língua portuguesa numa só obra, a publicar em três volumes, juntando poetas de Portugal, Minas Gerais, Cabo Verde e Guiné-Bissau, no primeiro, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe, no segundo e Macau, Goa e Timor-Leste no terceiro. A ideia é que esse emaranhado revele a língua portuguesa na unidade das suas diferenças.
Coisa para a qual nunca foi preciso qualquer acordo ortográfico.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Um

Este blog comemora hoje um ano de idade.
De um par de conversas à mesa do café (um pequeno mas valioso empurrão, que agradeço reconhecidamente a quem de direito) para o susto de uma página em branco, que acinzentei para disfarçar. Temi que se me esgotasse a vontade ou o assunto mas, entre altos e baixos, entusiasmos e arrefecimentos, roubando tempo aqui e ali (tempo que eu nem sabia que tinha), foi saindo assim. Não sei quando nem onde vou parar. Talvez nunca.
Lembro-me que, quando me embrenhei na fotografia, há uns anos atrás, passei a ver o mundo através de uma lente, aguçando o sentido estético, a sensibilidade à luz, a atenção ao detalhe. Agora olho para o dia a dia pensado em escrevê-lo, na perspectiva de um post que redijo mentalmente enquanto olho para as coisas, para as pessoas e, sobretudo, para dentro de mim. Carrego um caderninho (quando não se queda abandonado na mesa de cabeceira) mas continuo fundamentalmente a preferir a cabeça como ardósia onde escrevo e apago, altero e corrijo. Tornei-me também na feroz editora de mim mesma: alguns textos passam por várias versões antes de os pendurar na parede cinzenta, ou não saem de todo, talvez demasiadamente consciente de que fica escrito na pedra - aquela que ofereço aos meus filhos para que um dia possam espreitar o outro lado da mãe. Esta foi, afinal, a motivação profunda que demorei algum tempo a apreender.
Acima de tudo, dedico a celebração deste pequeno marco temporal ao meu punhado de leitores, que são poucos mas de pedra e cal, como se querem os amigos. Não podem supor o contentamento e incentivo gerado por um simples comentário vosso - e isto vale igualmente para os silenciosos, que não deixam de se interessar e comentar por fora e cuja presença, às vezes, apenas adivinho.
Sempre tem sido que, através dos outros, ganho percepção de mim própria - quanto mais não seja porque, nessa interacção, recebo o reflexo de mim mesma.

quarta-feira, 12 de março de 2008

18 versus 36

O Público comemorou 18 anos na semana passada e consagrou o P2 a esse tema. Entre outras coisas, publicou um breve estudo comparativo entre as duas seguintes gerações: a dos que têm hoje a idade do jornal (18 anos) e a imediatamente anterior, daqueles que tinham essa mesma idade no ano do lançamento (1990). Eu tinha 20 anos em 1990, o que vem a dar no mesmo e talvez por isso achei os resultados deveras interessantes.
A reportagem começa por concluir que não existem diferenças muito significativas entre estas duas gerações, ao nível dos valores e atitudes sociais o que, ainda que me custe um bocadinho, tenho que reconhecer. A verdade é que, embora tenha nascido antes do 25 de Abril, a faixa dos 35/37 anos representa a primeira geração que cresceu em democracia e isso parece fazer toda a diferença em relação àqueles que adquiriram consciência política antes da Revolução. Nesse sentido conclui-se que parece existir um maior distanciamento, a esse nível, entre os que têm hoje 35-36 anos e os que têm mais 10 anos, do que entre aqueles e os que têm menos 18 anos. O gap é muito mais real no primeiro caso - e essa é uma realidade que tantas vezes tenho sentido na pele. Não surpreende verificar que, uma vez estabelecidas as liberdades fundamentais, as preocupações são outras, de cariz não tão marcadamente teorico-político. Isto está claramente espelhado no facto de estas duas gerações "da democracia" se situarem, numa escala de 0 a 10 (sendo 0 a posição mais à esquerda e 10 a mais à direita) numa média de cinco vírgula quase nada em ambos os casos. A dicotomia esquerda/direita parece estar diluída no que alguns poderão qualificar de "cinzentismo". E isto independentemente da minha geração em particular ter, regra geral, pais muito politizados: parecemos saír mais à nossa época do que propriamente aos nossos pais. Na teoria e em ambas as gerações analisadas, a maioria não parece querer demarcar-se daqueles conceitos estabelecidos e largamente reconhecidos que são hoje tidos como politicamente correctos (a expressão não podia ser mais adequada). Tudo muito moderado: responsabilidade individual e consciência social caminhando de braço dado. Ou pode também ser que os dois grupos inquiridos se refugiem no meio porque simplesmente já não querem perder muito tempo a pensar nisso. Para o bem e para o mal.
Seja como fôr, qualquer destas razões (digo eu) justifica o facto de os grandes partidos políticos estarem hoje em dia mais ou menos equiparados a clubes de futebol: não se sabe já muito bem justificar porque é que se é adepto de um ou do outro. Talvez seja simplesmente porque sempre se foi, porque o pai ou a mãe já o eram e alguma coisa passou, ou porque os amigos também são. Mas o Público não iria tão longe nas suas ilações.
O estudo desenvolve-se noutras áreas de cariz não político. Numa nota mais prosaica, não me surpreendeu verificar que o computador e o telemóvel foram votados, em ambas as gerações, como a inovação tecnológica com maior impacto na vida de cada um (31/32% e 32/30%, respectivamente, para os 18/36 anos), nem que a internet o tenha sido, no grupo dos 35-37 anos, para 29 % deles (eu estou com estes). O que me deixou deveras surpreendida foi verificar que o leitor de MP3 surge como a inovação tecnológica mais importante das suas vidas para 9% do grupo dos 18 anos (nove-por-cento) - opção que nem sequer existe na geração dos 35-37 anos. Como diria um amigo, pouco mais velho do que eu: O quê? O walkman?
É caso para se dizer: Daaaaaaaaaaa.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Língua universal

A minha filha de dois anos, que começou a compor frases completas há pouco mais de um mês, de pé em cima de um livro, entrando eu em casa:
- Mamã, é uma pancha.
E logo a seguir, com expressão de triunfo:
- Mamã, é uma body bode.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Escrita criativa

A pergunta que fica no ar, na leitura de um blogue de perfil intimista, é a de saber qual o grau de correspondência entre aquilo que lá consta e a realidade. Nalguns casos, essa ligação directa é evidente e assumida. Noutros, não será tanto assim. A questão torna-se mais relevante quando quem lê tem uma ligação pessoal com quem escreve. Poderá então tentar imaginar-se do que ou de quem estará a pessoa em questão a falar.
Suponho que seja uma curiosidade natural essa de querer saber onde pára a realidade e começa a ficção, indagando o leitor se as situações e emoções narradas são o fiel retrato do dia-a-dia de quem as descreve, passam-se no presente, aconteceram no passado, ou não são mais do que um produto criativo. E, sendo este o caso, fica ainda por saber que parte da criação assentará numa qualquer realidade, transmutada em ficção. Regra geral, assumimos, ou pelo menos desconfiamos, que as pessoas tendem a escrever sobre aquilo que conhecem.
Este é um mistério que faz parte do encanto da leitura de uma maneira geral, na medida em que possibilita uma via de intimidade e identificação entre quem lê e quem escreve. É que há emoções e situações que, sendo únicas e pessoais, nem por isso deixam de ser universais, no sentido em que se reproduzem, em diferentes coordenadas, noutros lugares, noutros tempos, noutras pessoas. Simultaneamente, essa hipótese é também uma salvaguarda para a intimidade de quem escreve, permitindo-lhe ao mesmo tempo expor-se e esconder-se atrás das personagens que cria. Assim, é bom que o leitor possa reconhecer naquela situação/emoção o espelho de si próprio mas é bom também que possa apenas imaginar se foi vivido pela pessoa real.
É que há mistérios que não devem deixar de o ser, sob pena de perderem todo o encanto.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Sonho

Acordou da intensidade do sonho. Com o abrir dos olhos soube que aquele seria outro daqueles dias. Ele estava ali, invadira-a enquanto dormia e juntos seguiriam, pelo dia fora: na água quente do chuveiro; no gesto automático de escovar os dentes e não se ver ao espelho; na dentada da torrada, no gole da meia-de-leite no café; no som do computador a ser ligado e logo no clique para os emails; na esperança vaga de lhe ver surgir o nome. Ele estava ali, dentro de si. Ele, e aquela vontade crescente de lhe falar. Não que não pudesse: sim, podia, mas sabia que não num dia assim. Com ele tão presente, assim por dentro de si. O seu nome a passar-lhe, para cima e para baixo, na lista de contactos do telemóvel. Todas as iniciais a conduzirem à sua. O postal revisitado no fundo da gaveta. E depois, sabia-o bem, a vontade de lhe falar desembocando na vontade de o ver. E esta, inevitavelmente, na de o abraçar, tudo culminando na de ser abraçada. O pico mais doloroso na hora de pegar no carro e voltar para casa, quando tudo o que queria era seguir em frente e ir bater-lhe à porta. Dizer-lhe: aqui estou. Que a abraçasse.
O carro depositou-a em casa: na sua, não na dele. No silêncio das paredes vazias, deitou-se e sonhou. Sonhou o abraço, tal como o recordava: aquele instante mágico em que encontrava o seu lugar no mundo. Sonhou também o beijo que a acordou para um outro dia.