segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Ano Novo

Acho que vou entrar o novo ano a ler. Não consigo largar "As Mulheres do Meu Pai". Em parte (mas só em parte) porque lá dentro reencontrei mais do que um velho conhecido: somam-se um técnico de som, um fotógrafo, um poeta, um - não - dois escritores. Estranhíssimo, repito. E, a propósito de passagens do ano, foi no Polana que vivi uma - inteiramente falsa. Talvez seja, afinal, um ciclo que se completa. Fechemos, pois, o círculo.
Bom ano.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Moçambicando

Em "As Mulheres do Meu Pai" de José Eduardo Agualusa, deparo, às tantas, com o nome do operador de som da equipa de Moçambique. Estranho. Não impossível, pensando bem, já que a história parece alternar entre ficção e realidade, percorrendo territórios africanos. O mesmo nome e apelido, o mesmo país, a mesma profissão, não pode deixar de ser a pessoa real. Viajo, no acto, para o mês moçambicano, há 11 anos atrás - quase outra encarnação. Mais meia noite sem dormir.
Lembro-me, entre tantas caras, do produtor local. Fugindo à confusão diária, levava-me a almoçar. No Maputo movia pessoas e projectos, onde fossemos era saudado pelo nome. Enquanto me apresentava as iguarias locais desfiava os segredos da profissão e os mexericos da equipa - os complicados enredos pessoais que controlava ao pormenor. Tinha uma teoria sobre os homens negros e as mulheres brancas e cedo se tornou evidente que queria mais do que levar-me a almoçar. Foi explícito, como é hábito no seu meio e cultura, mas ainda assim delicado. E delicadamente aceitou ficar-se pelos almoços. Como tantos homens inteligentes que conheci, nem por isso deixou de querer almoçar. Conversámos bastante. Escreveu: "A., sê como a árvore de sândalo, que perfuma o machado que a fere". Não sei se alguma vez soube sê-lo.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ordem

Não são second thoughts. É só a consideração hipotética (e universal) do que faria(mos) se pudesse(mos) alterar a lei mais inflexível do universo: um dia após o outro, um ano após o outro, só nos sendo permitido fugir para a frente, nunca para trás.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Typex

Reli o que escrevi abaixo e fiquei a pensar: como seria bom, algumas vezes, poder voltar atrás e desfazer, refazer ou acrescentar, uma frase, um gesto ou uma atitude, numa dada situação do passado. Corrigir o que não foi exacto, ou exactamente como queriamos que tivesse sido. Em absoluto desrespeito pelas regras do universo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Afinal somos todos iguais

«Esta era uma das coisas que fazia desde pequeno, que tinha descoberto por acaso e que imaginava ser eu a única pessoa a fazer no mundo. Fechava os olhos e via. Via o que se vê com os olhos fechados. Via o negro dentro de mim e via os pontos de luz que o quebram, as vagas de luz, as figuras abstractas de luz, os vultos de luz, as sombras de luz dentro da luz do negro dentro de mim. Isto é o que se vê quando fechamos os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que a habitam. E não se consegue olhar fixamente nem para o negro, nem para a luz. Os pontos ou as linhas ou as figuras de luz fogem da atenção. O negro é tão absoluto, tão profundo e tão infinito que o olhar avança por ele sem encontrar um lugar onde possa deter-se.»

José Luís Peixoto - Uma Casa na Escuridão

Ano após ano

Como todos os anos, depois de ter comprado os presentes para todos os meus 11 sobrinhos e mais os meus filhos, descubro à última da hora que ainda faltam os presentes para os filhos dos amigos mais chegados e mais os presentes que, inevitavelmente à última da hora, os avós nos encarregam de comprar;
Como todos os anos, ainda não faço ideia do que vou oferecer aos graúdos ainda que, de ano para ano e por múto acordo, tenham vindo a ser eliminados da lista dos presentes - entenda-se, os graúdos felizmente permanecem, só que nem todos recebem presente;
Como todos os anos, tenho imensa gente para ver e imensa gente a quem quero telefonar e já sei, de antemão, que não vou conseguir realizar metade daquilo a que me proponho;
Como todos os anos, pedem-me favores de última hora que eu tenho que encaixar num calendário já impossível;
Como todo os anos, já estou desejando que o Natal passe depressa por causa do trânsito, das filas, das pessoas e das pessoas e das pessoas.
Mas, com tudo isto e ao contrário dos anos anteriores, ainda não me stressei. E, bem vistas as coisas, este ano não estou (por ora) assim tão desejosa de que o Natal já tivesse sido. Estou, reconheço com agrado, numa verdadeira atitude zen - e nesta atitude não me reconheço.
Talvez sejam os efeitos, resumidos e condensados, de uma paulatina mudança de atitude nos últimos anos.
Ou talvez seja simplesmente esta constipação que não me larga e me mantém em estado de suspensão, um metro acima do solo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Submersão

Aparentemente permaneço envolta em brumas, o que equivale a dizer, afinal, em doenças sucessivas lá em casa. E depois há esta coisa do Natal. Não há, humanamente, tempo para comparecer em todas as celebrações, comprar todas as prendas, andar perdida em filas de trânsito, esperar na bicha dos embrulhos e manter um espírito natalício. Estranhamente este ano o stress (ainda) não invadiu a quadra, talvez porque tenho mais com que me preocupar.
Não é uma época maravilhosa?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Fog

Olho pela janela e a ponte é somente o ângulo de um triângulo de luz suspenso no ar. O castelo sumiu-se, o rio afundou-se. Há 24 horas que o céu deixou cair o manto branco.
O nevoeiro desorienta-me. Logo hoje, passei o dia a guiar, em suspensão láctea. A cabeça a andar à roda.
Lembro-me de épocas inteiras da minha vida em que andava assim.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Dezembro - o Natal está a chegar

Há dois natais atrás comprei a minha primeira árvore de natal. Para compensar os dez anos anteriores sem árvore e me penitenciar por ter privado o meu filho mais velho da incontornável tradição (enquanto pude acreditar que ele nem reparava) excedi-me no tamanho. A árvore é excessivamente ambiciosa: excessivamente grande, excessivamente frondosa, ainda que, felizmente, diga com o tamanho do meu hall. O problema é que, montá-la, custa mais de uma hora de trabalho árduo e mãos arranhadas - sem incluir a decoração. Desde o fim-de-semana passado jazem dois caixotes gigantescos no lugar que lhe é destinado. Alguém se oferece para ajudar? Servimos refrescos.