sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um-dó-li-tá...

Na minha secretária repousaram durante duas semanas cinco envelopes pequenos, dentro de cinco envelopes maiores, dentro de um envelope grande, todos à espera dos cinco votos nos cinco orgãos da minha Ordem. A minha caixa de email entupida de propaganda eleitoral que eu não li, para só no termo do prazo me lembrar que a abstenção está sujeita a multa. Foi assim que, em cinco minutos apenas, cumpri o meu dever deontológico: o tempo que demora a dizer um-dó-li-tá-cara-de-a-men-do-á...... cinco vezes.
Suponho que não me fica muito bem dizer isto. Vá lá, não foi bem assim. Mas quase.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Nip / Tuck - a disturbingly perfect drama

Certa noite estava a fazer zapping e atravessou-se-me à frente um episódio da série Nip/Tuck (Fox Life, segunda-feira 21.50), já ía então pelo menos na segunda temporada. Não estando avisada da polémica instalada, protestos retumbantes e audiências desvairadas que, conforme vim a descobrir, soavam alto na terra de origem, fui inesperadamente confrontada com cenas assaz perturbadoras. Não mudei de canal e confesso que a ele tenho voltado desde então, constatando que a série vive de duas temáticas distintas - cirurgia estética e sexo - que nos são intrincadamente apresentadas, de forma crua e chocante, através de:
- uma profusão de imagens explícitas do acto cirúrgico propriamente dito, incluindo cortes, esfolamentos e, a que mais me impressiona, uma e outra vez já que parece ser a grande favorita: a realização da técnica da lipoaspiração, que se inicia com a introdução de uma espécie de vara de arames na área sub-cutânea, com a qual o cirurgião realiza uma série de movimentos energéticos (violentos, diria eu) por forma a dissolver as gorduras acumuladas - altamente desaconselhado a quem queira candidatar-se ao acto;
- uma profusão de cenas sexuais, também elas explícitas e que na sua maioria traduzem situações sórdidas ou de moral pelo menos questionável. Abstenho-me de descrições pormenorizadas, apenas posso adiantar que utilizam diversas combinações de actos e de parceiros sexuais (em género e número) - altamente desaconselhado o visionamento por filhos pequenos (e grandes) ou na presença de qualquer pessoa com quem não exista um confortável grau de intimidade;
Uma combinação bombástica, portanto, a que não é alheia a complexidade das personagens e do seu inter-relacionamento; a existência, até à série que recentemente terminou, de um maníaco, personagem-mistério, que violava e desfigurava as sua vítimas; e a temática subjacente, respeitante aos limites a que pode aspirar o culto da beleza.
Não fosse a vertente da técnica cirúrgica, até poderia parecer uma telenovela mexicana, mas a questão é mesmo essa: é que não é.
As cenas sexuais, em toda a sua crueza e nitidez, acabam por não ser propriamente pornográficas: traduzem apenas a complexa realidade das personagens envolvidas - totalmente fucked up, é verdade - mas ainda assim reais.
Usando uma frase quase histórica: primeiro estranha-se; depois, entranha-se.

A ver o que a temporada que agora se iniciou (a 4ª) nos reserva. É que aquilo não cessa de perturbar, de forma surpreendente. Ou de surpreender de forma perturbante.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Outras margens


Vista do almoço de Domingo, sobre outro rio: o Mondego da temática Inesiana.

Até ao fim do Mundo


Era pedra e sobre essa pedra
Ergueu-se o templo do amor atroz.
Ele de fogo, ela a cordeira
Toda cordura chamando o algoz.

Songram as tubas: Inês é morta!
Em meigo muito transmuta-a o pranto
Do ermo amante que erra sozinho
No seu deserto de diamante.

Nem ar sangrento buscam seus olhos
Do corpo amado desfeitas pérolas;
E como fera coro os ossos
Da formosura que ao alto o espera

E em desatino da paixão lusa,
Perdida a alma que em Inês tinha,
O fim do mundo ficou esperando
Aos pés da morta, suo rainha.

Natália Correia - Até ao fim do Mundo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Inconfidência

E agora confesso: quantas vezes vou aos posts já publicados e altero aquela palavra que não era a exacta. Será isto um desrespeito pelas regras não escritas do universo bloguista?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sempre a palavra

Quer-me parecer que paulatinamente tenho vindo a desenvolver a obsessão pela palavra exacta, pela busca do termo que preencha na perfeição o que quero transmitir - a procura do mot juste - expressão a que se referem alguns escritores. Quantas vezes não consigo concluir uma frase sem encontrar o vocábulo que sei que existe mas que demora a chegar, demora o tempo de pensar obstinadamente, quem sabe distrair-me e voltar ao tema tantas vezes quantas necessárias até que ela - a palavra - se manifeste.
Não posso deixa de concluir que este exercício é, com toda a certeza, um dos prazeres fundamentais da escrita, ainda que, como qualquer outra manifestação de perfeccionismo, quando desajustada em relação aos objectivos (leia-se profissionais) pode prejudicar a eficiência.
Pequenos indícios do desenvolvimento desta mania: o prazer que me deu a aquisição, recente, de um dicionário de sinónimos e o gozo que me tem dado este precioso auxiliar de memória; o júbilo com que leio e releio uma frase perfeita a páginas tantas de um livro; o agrado com que li a afirmação de José Luís Peixoto, citada abaixo.
Este exercício está relacionado, embora com ele não se confunda, com um outro, que é o da depuração. Admiro quem escreve assim, usando cada palavra com o respeito e parcimónia proporcionais à riqueza do seu conteúdo, não pondo a mais nem a menos, ora reunindo numa simples frase todo um universo de significados, ora transmitindo apenas aquele, unívoco, que ambiciona. Com clareza, suavidade e aparente naturalidade. Como se cada frase já existisse antes de ter sido formulada - sem traduzir o esforço para a alcançar.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Suave Novembro

Esta foi a vista do meu almoço de ontem. Almoçar no Cais da Ribeira, em Novembro, a céu aberto sobre o Douro, sem o desconforto de um casaco, é obra.
Não fazia calor nem frio, a luz estava perfeita, como perfeitas as ameijoas à Bulhão Pato, a vitela à moda de Lafões e o leite-creme. Altamente recomendáveis.
O trabalho também serve de pretexto para coisas muito boas.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

As palavras

Diz José Luís Peixoto, entrevistado a propósito do seu novo livro "Cal":
«Podemos ter muitas palavras para dizer uma coisa que aparentemente é a mesma, mas a verdade é que cada uma diz de uma forma diferente.»

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Back to basics: os afectos

Há 14 anos desisti de comparecer no meu próprio casamento um mês antes da data marcada. Detalhes práticos à parte, por essa altura já a família do meu ex-futuro-marido se tornara também a minha própria e assim, de uma só assentada, perdi uma família inteira - de quem sinto a falta até hoje.
Muito recentemente, por motivos relacionados com os meus filhos e reunindo toda a coragem que consegui encontrar, retomei o contacto com o meu ex-futuro-sogro. Quatorze anos volvidos, o desconforto do primeiro encontro foi prontamente anulado quando ele, olhando-me de frente com a tranquilidade e segurança próprias de uma vida inteira de vivência genuina, verbalizou o que eu trazia na alma estes anos todos:
As relações podem alterar-se mas os afectos mantêm-se, disse.
Bem haja.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ainda sobre o "Lost in Translation"

Para além da questão romântica, este filme impressionou-me muito, por razões diversas, algumas das quais inconfessáveis. Desde logo fiquei estarrecida, nos primeiros vinte minutos, ao ver expressas no ecrã, pela pena da argumentista, a visão da realizadora e a interpretação da actriz, as exactas emoções que senti nos infindáveis momentos das imensas semanas que passei, só, num quarto de hotel, numa outra cidade de dezenas de milhões, quando a única outra pessoa que conhecia saía para trabalhar.
Talvez a magia do cinema, quando é bom, se traduza nessa transposição de vivências e emoções entre o espectador e as personagens. Ou talvez aconteça simplesmente que a Sofia Coppola tenha, também ela, vivido aquela mesmíssima situação.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Not Lost

De muito nova carrego a angústia de vir a perder, com o passar dos anos, o romantismo, a capacidade de me emocionar, de me maravilhar, de me perturbar com a vida. É verdade que os mais velhos sempre me pareceram demasiadamente refreados nas suas emoções e, de certo modo, é isso mesmo que se espera que aconteça com o amadurecimento - mas como tudo na vida, só é bom na dose certa. Não há nada mais triste do que a amargura, o azedume, o enfado e o cinismo típicos de quem sente que já viu o que tinha a ver.
Um destes dias pensei que há muito, talvez há demasiado tempo, não tinha um ataque de choro a sério, daqueles de encharcar a almofada e gastar uma caixa de kleenex. E embora isso revele coisas muito positivas sobre o meu equilibrio emocional, angustiei-me mais um bocadinho ao pensar nesse estado potencialmente vegetativo de certas emoções.
Poucos dias depois, ao ver (pela segunda vez) o Lost in Translation da Sofia Coppola, dei por mim a chorar que nem uma madalena na cena final (e perfeita) em que o Bill Murray sai do carro para concretizar o abraço e o beijo que (nos) tinham sido negados durante todo o filme, e imensamente comovida pelas palavras docemente murmuradas no ouvido da Scarlett Johansson. Palavras hipoteticamente imaginadas.
Foi a sublime confirmação do que eu suspeitava: sou uma incurável romântica.

Para rever, aqui em baixo:

Lost In Translation

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Vidas

Depois de intensa troca de emails no âmbito de um "mailing list", em preparação para um jantar (mais um) de outra gente que não se vê há que tempos (o incontornável ciclo dos 20 anos), alguém me perguntou:
- És a mesma A.? O que te aconteceu? Pareces muito diferente.
Poderia simplesmente responder:
- A vida.
E ficava tudo dito.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Evocar o passado

«Il est ainsi de notre passé. C'est peine perdue que nous cherchions a l'évoquer, tous les efforts de notre intelligence sont inutiles. Il est caché hors de son domaine et de sa portée, en quelque object matériel (en la sensation que nous donnerait cet object matériel) que nous ne soupçonnnons pas. Cet object, il dépend du hasard que nous le rencontrions avant de mourir, ou que nous le rencontrions pas.»

Marcel Proust - Du côté de chez Swann

Esse objecto, constato, é tantas vezes uma música, um odor, uma imagem, um riso. E está - estão - em todo o lado, carregados de memórias, pequenas máquinas do tempo que subitamente nos (re)conduzem a esse universo paralelo que, sorrateiro, nos escolta a vida.