sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Lobo Antunes

António Lobo Antunes é sem dúvida duro de roer - como, aliás, são os seus livros.
Há algum tempo que exerce sobre mim um certo fascínio. Fascínio, não no sentido de deslumbramento, mas de quase incredulidade, num jogo de atracção/repulsa. Não me interessa particularmente a vida do homem, mas antes as aparentes contradições da personalidade que dá a conhecer, por meio das entrevistas que concede. Nunca vi tamanha arrogância de braço dado com a candura poética de que é exemplarmente capaz. Ainda esta semana (na Visão) produziu as seguintes afirmações:
"Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde"
Mas, logo a seguir:
"Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava."
Terá dito, a páginas tantas (já não me lembro onde nem quais os termos exactos), que quem gosta muito dos seus livros de crónicas mas é incapaz de ler os romances é assim meio atrasado mental. Não sei se foi isto que disse ou não, mas talvez seja por me enquadrar perfeitamente nesta definição (devorei os três livros de crónicas) que não consigo atingir a sua genialidade. Tenho vindo a verificar que, como eu, há muitos mais, de tal forma que começo a perguntar-me se o extenso universo dos seus leitores não será em parte constituído por um bando de atrasados mentais que vão insistindo em comprar o mais recente romance, na esperança de que sejam finalmente iluminados pela capacidade, motivação e resiliência necessárias para o ler de fio a pavio.
Não é que isso importe muito. Afinal ele está "a trabalhar para daqui a quinhentos anos." Mas eu confesso que, contemplando a fileira de livros na minha estante, guardo a secreta esperança de, antes disso, conseguir entrar nesse clube selecto dos que verdadeiramente compreendem e apreciam a sua obra monumental.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Ó gente da minha terra

Aceitámos um simpático convite para ir ver a Mariza no CCB.
Tal como eu, imagino que grande parte dos presentes nunca tinha visto a Mariza ao vivo, quem sabe não tem em casa um só album para amostra. Tal como eu, para além da motivação subjacente ao convite, terão ido movidos pela oportunidade irrecusável de verificar, afinal, o que é que ali se passa.
E passa-se muito. Mariza, com muita graça, versatilidade e talento, uma presença imensa, de mansinho mas decisivamente, soube conquistar como ninguém este público talvez improvável, pondo o Grande Auditório em peso (e se estava cheio!) a cantar em rendição incondicional. Com muito encanto e paixão.
De como se rejuvenesce o fado, transfigurando-o para o oferecer na sua pureza original.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Profissão de Fé

É curioso que tanta gente que foi educada pela via católica, em especial aqueles que estudaram em colégios religiosos, apregoem depois, adultos feitos, o afastamento da Igreja e a concomitante libertação de todas as crenças religiosas e até espirituais. Compreendo perfeitamente, em certos contextos, o dito afastamento das instituições religiosas e não posso deixar de sentir que foi uma sorte não ter tido que lutar contra esse tipo de imposições enquanto jovem em busca de respostas.
A renuncia à fé parece ser nestes casos encarada como uma evolução da mente, um amadurecimento do ser, uma descoberta da verdade escondida atrás de anos e anos de pregações, como a criança que, na crescente percepção do mundo que a rodeia, vê confirmadas as suas suspeitas de que o Pai Natal não existe.
Em alguns casos estas declarações de agnosticismo (no mínimo), vêm acompanhadas de uns laivos de superioridade intelectual em face daqueles que, a contrario, parecem depender de "muletas" espirituais para explicar a vida e encarar o mundo. Como se a descrença fosse o ponto de chegada lógico, o corolário do raciocínio informado, lúcido, inteligente e, sobretudo, não influenciado.
Compreendo perfeitamente, repito. Mas, para além de me parecer um bocado vazia e limitada esta ideia incrédula da vida, não deveriam a dúvida e a descrença ser o ponto de partida para o conhecimento, seja de que natureza for, e não, e nunca, o ponto de chegada? Não será a tábua rasa a base a partir da qual partimos para a exploração de todas as possibilidades, com o entusiasmo próprio de quem acredita poder chegar muito mais além?

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Mais uma vez o hino nacional

A propósito da capacidade lusitana para cantar com sentimento o hino nacional, que muitos julgavam perdida (leia-se o post abaixo "Euforias"), vejam AQUI mais um magnífico exemplo de que nem tudo está perdido, a propósito da selecção nacional de râguebi, num excelente post do "A Terceira Noite".

Confesso que às vezes me envergonho desta minha inclinação para dizer mal do nosso povo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

"Sofrer os tormentos das lembranças felizes"

Esta frase é atribuida a Henry James por David Lodge em "Autor, Autor" e por essa via se atravessou no meu caminho - muito a propósito da viagem ao passado empreendida recentemente por um grupo de amigos (pergunto-me se já me qualifico para usar a expressão "velhos" amigos), companheiros do final da adolescência, reunidos em torno da morte de um dos nossos.
Não participei desses encontros, por motivos muito prosaicos, mas chegou-me com força imensa o eco dessa recordação colectiva que, entre presentes e ausentes, a todos reuniu. A impressão foi muito forte, sem dúvida porque se reporta a essa altura da vida de tão grande efervescência, mas talvez também porque isto nos atingiu num momento em que começamos a olhar para o percurso feito e a perguntarmo-nos se alcançámos ou estaremos porventura em vias de alcançar os nossos sonhos de então.
Parece que as lembranças felizes que carregamos têm esta dupla faceta de nos preencher, acalentar e fazer sorrir e, quando o momento é propício, atormentar. Oportuno é sem dúvida o momento do confronto entre quem éramos e quem somos agora e, inevitavelmente, o que (e quem) deixámos pelo caminho. O veridicto que realmente conta é aquele pronunciado no silêncio interno de cada um de nós.
A frase citada vem na verdade a propósito de muito mais. Afinal somos a soma das nossas lembranças, mas acontece que alguns de nós teimam em lembrar-se mais intensamente do que os outros.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Quem corre por gosto...

Quando nos propomos fazer uma coisa que não passaria pela cabeça da maior parte das pessoas estamos condenados a ouvir comentários insidiosos tipo: o problema vai ser quando...; isso vai ser mau porque...; nem sabes no que te estás a meter; ou o pior de todos: não vais aguentar muito tempo.
Acho que esta é uma atitude tipicamente portuguesa. Reconheço, no entanto, que é um vício muito meu classificar todas as atitudes negativas, pobres de espírito e, suspeito eu, invejosas, como tipicamente lusas. É que teimo na esperança de que por esse mundo fora as pessoas sejam um bocadinho menos derrotistas.
Mas afinal qual é o problema de nos sujeitarmos a incómodos quando o fazemos voluntariamente e por uma causa em que acreditamos firmemente? É preciso não esquecer que o inferno de uns é o paraíso de outros e vice-versa e portanto a medida do incómodo e a do beneficio podem situar-se em escalas muito distintas.
Certo é que, de uma forma geral, cada uma das pessoas à minha volta reagiu mais ou menos como eu esperava, como sempre têm reagido ao longo da minha vida. Nada de muito novo, mas é sempre muito bom quando, aqui e acolá, obtemos reacções refrescantes que nos recordam porque é que nos sentimos muito mais próximos de uns do que dos outros. Por vezes é simplesmente comovente ouvir um sincero "good for you!"

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Guincho

No Sábado esteve uma daquelas manhãs de Guincho que só acontecem um par de vezes por ano. Um privilégio. Para o aproveitar há que chegar bem cedo e sair quando os restantes 90%, acordando para a realidade, começam a chegar.
Quando o Guincho é bom, é magnífico. E um banho naquele mar devolve um gajo à vida.