domingo, 22 de julho de 2007

pára; recomeça

Os anos, para mim, sempre se pautaram pelo calendário escolar e, mais tarde, calhou também ser pelo correspondente calendário judicial. Considero que nesta época termina mais um ano, sendo as férias de verão o tempo off, da transição, para dar à corda e recomeçar.
Ao longo dos últimos anos, imersa na rotina diária de crianças/trabalho/casa (concretamente, neste que acaba: casa/escola/escritório/casa/escritório/escola/casa), sinto por vezes que nada de verdadeiramente extraordinário me acontece. A vida encheu-se de rotinas, de horários e tarefas a cumprir e não parece sobrar tempo nem energia para acontecimentos novos e excitantes. Em termos gerais, é disso que me tenho queixado nos últimos tempos.
Olhando agora com olhos de ver, reparo que estou a tomar a parte pelo todo. Estive embrenhada nas árvores e não vi a floresta. Observando à devida distância, concluo que o meu ano que começou em Setembro foi, afinal, extraordináriamente preenchido. De coisas boas, de coisas más, de coisas subtis mas importantes, que se desenvolveram sem bem delas me aperceber - como acontece com tantas coisas fundamentais. Tenho cá a impressão que este ano que acaba vai ser para recordar.
Sinto que em Setembro inauguro uma nova página. Para começar, a minha rotina vai-se complicar ainda mais, com o possível benefício (?) de uma mudança de ares. Quanto ao resto, estamos cá para (vi)ver.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Um português

Os trágicos acidentes que acontecem pelo mundo fora atingem-nos, suponho eu, em função dos laços que nos possam unir às circunstâncias, ao lugar, aos intervenientes. Extrapolando, imagino que um desastre de avião como o que aconteceu em São Paulo atinge o comum dos cidadãos portugueses na justa medida de um "que horror!", seguido de uns instantes em que nos imaginamos naquelas terríveis circunstâncias - nós ou alguém que nos seja próximo.
Todo viajamos de avião e nessa medida todos - por um momento - nos deixamos impressionar por estas mortes trágicas.
Nos três anos e meio que vivi em São Paulo, várias vezes aterrei no aeroporto de Congonhas, aquele que serve os voos domésticos de e para a grande cidade e que, aliás, se situa dentro dela. Várias vezes o fiz nos aviões da TAM. Nessa medida, talvez a minha exclamação de horror tenha sido mais sentida e os pensamentos associados mais duradouros, ilustrados, que foram, por imagens muito precisas do lugar - desde o terminal do aeroporto até à Av. Washington Luís. Por brevissimos instantes imaginei que poderia conhecer algum dos passageiros, o que, afinal e pensando bem, naquele universo de milhões seria altamente improvável.
Adiante.
Hoje de manhã, na praia (sim, em férias!), encontrei a mãe de uma colega minha dos últimos anos do ensino secundário. Conversa para cá, conversa para lá e de repente a senhora, regressando de junto da sua toalha, diz que acabou de falar com a filha que estava muito abalada pois tinha acabado de saber que o português que morreu no acidente em São Paulo, era, afinal, um nosso colega de turma, dos ditos anos.
Desde essa hora a cara do Pedro não me sai dos olhos. Afinal a minha ligação com as circunstâncias e o lugar revelaram-se perfeitamente irrelevantes (o facto de ele se encontrar em São Paulo foi meramente circunstancial), para dar lugar ao que verdadeiramente importa.
Aqueles anos de escola foram substancialmente importantes para mim. Porque mudei de escola e assim me dei a mim própria a oportunidade de começar um página em branco. Porque formámos um grupo muito unido, dentro e fora da escola. Porque tenho muitas, muitas e importantes recordações associadas àquele grupo de pessoas.
O Pedro tinha agora 37 anos e foi meu colega, meu companheiro de turma, de brincadeiras na sala de aulas, de conversas nos intervalos, de cafés nos cafés da rua, de tardes em casa uns dos outros.
Foi só um pouco mais tarde que me ocorreu: o Pedro foi também o primeiro rapaz que me beijou. Um par de beijos roubados numa dessas tardes, também eles meramente circunstanciais. Não marcaram em nada os três anos de convivência cerrada, nem marcam as minhas recordações dele, mas constituiram, bem vistas as coisas, um marco na minha vida. Mais de vinte anos depois, consigo perfeitamente reproduzir a memória - a memória de um breve momento secreto de que sou agora única e fiel depositária.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Falar de cor

A propósito do poema de Jacques Prévert, que publiquei na semana passada, veio-me à memória o nó no estômago quando me calhava a vez de perfilar-me no estrado, de costas para o quadro (verde, não negro), em dia de recitation. Esta prática arreigada no ensino francês, aplicada desde a mais tenra infância, fez bastante pela minha capacidade de memória (ainda hoje quantos poemas sei de cor), mas muito pouco pelo meu à vontade para falar em público.
Recordação puxa recordação e segue-se a do frio na barriga enquanto palmilhava os corredores da faculdade à espera que fosse pronunciado o meu nome à porta da sala onde, publicamente, seria questionada sobre o alcançe da minha sabedoria. Os resultados supreendentemente positivos, com excepção de um par de momentos de humilhação extrema (que em muito contribuiram para a experiência como um todo), proporcionaram, a final, alguma satisfação interna mas pouco acrescentaram ao meu (não) à vontade para falar em público.
O caminho faz-se andando e foi ao longo da minha construção profissional que ganhou substância a percepção de que tão preto, respeitável e indiciador de sabedoria era o meu hábito quanto o dos meus pares e que, no final das contas, não é ele que faz o monge. No culminar de uma série de "espera aí, mas afinal?", e de "eh pá, mas este tipo não sabe o que diz", pronunciados internamente, num rasgo final de compreensão, percebi que, na maior parte dos casos, a malta apenas aprendeu a disfarçar melhor ou pior a sua própria pusilanimidade e que infelizmente, em muitos desses casos, não fez os trabalhos de casa.
É triste dizê-lo, mas isto sim fez maravilhas pelo meu à vontade em expressar-me perante os meus interlocutores.