quarta-feira, 30 de maio de 2007

A Vida é Bela

Este ano tenho vindo a reparar nos jacarandás em flor que sarapintam as ruas de Lisboa. Talvez motivada pelo contraste, pouco habitual, com o cinzento do tempo, ou porque entre duas primaveras quase me esqueço da sua surpreendente beleza. Aqui perto, lembro-me agora, ano após ano é-me dado a apreciar o grupo dos que ladeiam o Parque Eduardo VII. Mas esta manhã detive-me em admiração (pelos breves instantes de um sinal vermelho) da mancha de côr florida ao fundo da D. João V, quase a desembocar no Largo do Rato.
A ver se consigo reproduzi-la em fotografia.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

sexta-feira, 25 de maio de 2007

A propósito do preconceito

Se há coisa que me tem dado gozo na vida é ir largando, um a um, o amontoar de preconceitos que adquiri desde a mais tenra infância. Nesta era da informação e da comunicação, toda a gente emite opiniões sobre todas as coisas e torna-se inevitável que formemos ideias que derivam de outras ideias e não do conhecimento próprio. Por outro lado, se é certo que a memória e, consequentemente, o conhecimento acumulado, é que nos tornam seres inteligentes, seria bom não caírmos na tentação de ficarmos agarrados às ideias que formámos num dado momento, sem reparar que as situações raramente se repetem - e nem as pessoas.
Trocar os conceitos já embalados pelas ideias cozinhadas no forno lento da experiência e conhecimento sempre renovados não se afigura tarefa fácil. O segredo para olhar os outros com olhos de ver está na receita: sobre uma tábua rasa de expectativas, juntar uma grande porção de interesse com outra, igualmente farta, de boa vontade, um punhado de observação e uma pitada de humildade. Misturar energicamente e deixar fermentar longas horas, permitindo assim que se apurem as matérias primas. O resultado pode ser surpreendente ou terrivelmente decepcionante, dependendo da relação entre o sabor final e o nosso paladar. O melhor de tudo é descobrir as complexidades da combinação de sabores.
Neste caminho de descobrimento, vezes sem conta tive que me conter, que me corrigir, olhar outra vez e melhor, repensar, querer saber mais, arriscar, surpreender-me e decepcionar-me, arrepender-me, pedir desculpa e sobretudo gastar o tempo suficiente para olhar para as pessoas. A maior parte da vezes não foi tempo perdido. Talvez por isso mesmo levo um bocado a mal quando os outros me avaliam pelo que aparento ser, o que, com maior frequência do que aquela que eu gostaria, os induz em erro. Não é que eu ande por aí a querer parecer o que não sou, acontece é que nunca percebi muito bem como ajustar o exterior ao que contenho dentro. Parece-me sempre que não há guarda roupa que chegue para o que me vai na alma, nem estilo que possa conter o essencial de mim, nem postura que me sirva como luva. Suponho que a maioria das pessoas acaba por se fixar numa imagem com que se identifica, quer seja porque se sente bem com ela, quer seja porque é a que quer aparentar. Eu hesito, altero, tiro e ponho, mostro e disfarço, falo ou fico calada (principalmente fico calada) e falho tantas vezes em transpôr-me para o exterior. Falha-me o comentário pertinente no momento oportuno, fica-me o gesto suspenso no ar. E porque sou assim, vou-me esforçando sempre e cada vez mais por não avaliar o outro pela figura que apresenta ou representa e por vezes o esconde.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Do preconceito

O preconceito está em todo o lado. Existe aquela ideia (pré concebida) que as pessoas de um certo estrato social, mais conservador e de direita, digamos assim, são tendencialmente mais preconceituosas, e que aqueles que se apresentam como liberais, ou tendencialmente mais de esquerda, seriam isso mesmo: mais libertos de preconceitos e tolerantes para com as diferenças. Os anos de vida e sobretudo o facto de, ao longo desses anos ter tido a sorte e sobretudo o interesse inesgotável de me relacionar com gente de todos os estratos sociais, políticos e profissionais, levaram-me a concluir que esta ideia é um mito ou, pelo menos, um erro crasso.
De membros do Partido Comunista a adeptos ferrenhos do CDS-PP, de betinhos a artistas da teatro e cinema, de dondocas a professores universitários, de yuppies a gente de modesta profissão, de advogados a pintores, de activistas políticos a malta que só quer gozar a vida, de gente muito rica a gente remediada, em Portugal ou no estrangeiro onde vivi, brancos, negros ou mestiços, todas as pessoas que conheci com intimidade suficiente para poder avaliar desta questão dividem-se, transversalmente (e muito grosso modo) em dois grandes grupos: os preconceituosos, facciosos, sectários, intolerantes e os que não o são. Uns como os outros encontram-se em todos os meios, lugares e estilos.
Este é um tema que dá pano para mangas e que me tem dado o que pensar nos últimos tempos.
Divaguemos um pouco sobre o assunto...

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Crónica de uma viagem a Marrocos (III): a experiência do Hammam

Os Marroquinos têm a tradição dos banhos públicos, a que dão o nome de Hammam, espaço onde se deslocam regularmente (as mulheres durante o dia e os homens à noite) para limpeza e purificação do corpo. Trata-se de uma espécie de banhos turcos, onde o vapor e as águas se combinam com o uso de óleos essenciais e técnicas de exfoliação e massagem do corpo. Tivemos a sorte de poder viver esta experiência, a dois, pelas mãos de um dos mais reputados mestres na terapia antiga de tkisscla, Abdel Kader. Esta foi uma daquelas experiências únicas e marcantes, que perdura na memória para ser recordada e contada uma e outra vez.
O mestre Abdel Kader dirige um pequeno Hammam composto por 3 câmaras sumptuosas de mosaicos antigos e mármores síros. Na primeira sala, moderadamente quente, um tecto abobadado, formado sobre uma série de colunas, abriga uma pequena piscina central em pedra, retratada na foto abaixo. Ali somos convidados a despirmo-nos (integralmente ou ficando em traje de banho, dependendo do grau de pudor de cada um) e, em absoluto desconhecimento do que está para vir, já que sobre a experiência é mantida uma certa áurea de mistério, aguardamos breves segundos. O mestre Abdul, homem robusto de impressionante figura, faz então a sua aparição e convida-nos a entrar na segunda sala, só paredes e chão num espaço razoavelmente grande para, logo em seguida e numa progressão de calor, atravessando pesadas portas de madeira, penetrarmos na terceira câmara, igualmente despida. Aqui, do chão de laje preta e molhada desprende-se um calor intenso e envolvente. A expectativa transforma-se em quase espanto quando somos convidados a deitarmo-nos no chão despojado, entregando o corpo aos elementos primordiais: pedra, água e calor. Ali somos abandonados por alguns minutos afim de relaxarmos corpo e mente, para depois o mestre voltar à nossa presença, de balde de borracha preto na mão, que enche na imensa torneira de onde, com estretor, faz jorrar água límpida e abundante. É então que, num gesto cadenciado e sem pré-aviso, despeja o balde por sobre aquele de entre os dois que é automáticamente escolhido como o primeiro - o membro masculino do casal. É-me assim permitido observar, boquiaberta, enquanto o mestre Abdel baldeia o corpo estendido no chão a meu lado e depois, pegando numa pasta viscosa côr de azeitona (sabão de azeite, segundo julgo entender) ajoelha-se a seu lado e procede à lavagem, em gestos vigorosos, separando braços e pernas e depois pedindo-lhe que se vire de bruços. Terminado o ensaboamento, segue nova baldeação. Chega agora a minha vez de receber, de um só folego, o jorro de água que ainda assim me supreende pela temperatura que quase queima sem chegar a fazê-lo. O homem, ajoelhando-se agora a meu lado, ensaboa-me com vigor e sem falsos pudores, qual mãe zelosa que energicamente se atarefa no banho do filho. Novo balde de água em cima do corpo para, em seguida, pegar numa grande luva preta com a qual procede à exfoliação completa de cada um dos nossos corpos estendidos. Fá-lo com redobrado vigor, de forma a deixar a pele lisa e liberta das várias camadas de pele morta, que jaz no final em minúsculos montinhos espalhados pelos braços e pernas e que ele, quase triunfante, faz questão de apontar.
Um depois do outro, faz-nos então soerguer e, sentados no chão, baldeia-nos mais um par de vezes, permitindo-nos, assim, enxaguar os restos mortais da pele. É então que, puxando suave mas firmemente por braços e pernas, realiza uma série de alongamentos em todo a musculatura do corpo, com mestria e aparente domínio absoluto da técnica ancestral. E é precisamente a confiança o elemento vital quando, através de uma série de movimentos que não consigo descrever nem já bem recordar, me vejo alongada, presa pelas pernas, de cabeça para baixo, sobre as suas costas em arco. Pedindo-me agora para segurar firmemente os seus tornozelos, num só impulso surpreende-me com um movimento estilo flic-flac em que transfere para si todo o peso do meu corpo e provoca o mais intenso estiramento a que os meus músculos e esqueleto (em tempos sujeitos à prática regular do yoga) jamais foram sujeitos. Neste brevíssimo instante de pânico, angústia e dor, não posso impedir-me de soltar um grito para, dois segundos depois e já de pé no chão, rir em gargalhadas tão soltas quanto o estado da minha estrutura músculo-esquelética.
Dali seguimos para a sala da piscina onde um rápido mergulho na água fria conclui o processo de libertação de toda a tensão. Leves e bem dispostos, retornamos então à sala do meio, onde observamos, curiosos, enquanto o mestre, pegando em duas imensas laranja de um cesto a seus pés, as descasca com as mãos para em seguida, fazendo uso das mesmas, espremer-nos o sumo doce e aromático pelo pescoço abaixo. Em jeito de conclusão, deposita generosa dose de champô nas nossas mãos estendidas em concha, dando o mote final para procedermos à lavagem do cabelo, que depois enxaguamos num nicho de pedra, debaixo de duche quente e abundante. Num derradeiro gesto de atenção, ajuda-nos a vestir os roupões e despede-se com aperto de mão amável e fraterno.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

24

Para gáudio desta fã, a 6ª série do 24 estreou na Quarta-feira (22.40 na RTP2). Jack Bauer é o ultimate heroe e cumpre todos os requisitos do meu homem ideal: macho, inteligente, bonito, complexo, com valores éticos inquestionáveis, fiel às suas convicções, apaixonado. Sob a capa de durão sanguinário, adivinha-se-lhe uma enorme sensibilidade. Absolutamente irresistível.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Rectificando

Quem passou por aqui mais cedo poderá ter reparado que substitui o título dos post referentes à viagem a Marrocos. Antes falei em arábias, não no sentido geográfico, mas figurativo, da expressão das arábias, que significa lugar exótico, terra desconhecida. Se é certo que o povo autóctone - denominado de berbere - foi conquistado pelo povo árabe (presentemente a população é 60% árabe e 40% berbere, sendo que os últimos vivem fundamentalmente no campo e nas montanhas) e a língua oficial do país é o árabe clássico - o que me levou a considerar a expressão adequada - o país, bem o sabemos, é situado no norte de Africa. Corrigi-me para evitar imprecisões. Ainda que tenha plena consciência de que provavelmente não seria a primeira a constar deste blog.

Crónica de uma viagem a Marrocos (II) : a Medina

Marraquexe não é uma cidade bonita, e nem pretende sê-lo. A cultura tradicional reprova as exibições públicas de riqueza o que, em termos de arquitectura, se traduz em casas viradas para dentro, cujas paredes exteriores - sempre no tom rosa avermelhado do adobe - não são mais do que muros altos e pouco cuidados que escondem da vista alheia a intimidade familiar. A isto chamam eles l'architecture aveugle. A medina desenvolve-se em labirintos estreitos de paredes altas, onde se distribuem, de forma mais ou menos organizada, miniaturais oficinas de todos os tipos de artes tradicionais, cujo produto é depois vendido em pequenas lojas, os famosos souks, formando um conjunto de ruelas transbordantes de côr e de vida, fervilhantes de actividade.
No desembocar da viela mais estreita parece sempre esconder-se o mais fabuloso riad, casas de um certo luxo elaboradas em volta de pátios interiores, permanentemente frescos pela sombra, vegetação e fontes de água. Estes riads vêm sendo recuperados e transformados em pequenos hoteis, sendo certo que a cidade vive presentemente do turismo. Nesse mesmo sentido o municipio tem realizado un esforço louvável de limpeza e saneamento, com a pavimentação de toda a medina, pondo cobro à sujidade, à lama e à poeira.
O trânsito está mais ou menos vedado aos carros, mas ocasionalmente somos obrigados a fundirmo-nos com as paredes para deixarmos passar algum veículo de transporte - a motor ou puxado por um burro. O turista mais incauto corre ainda sérios riscos de ser atropelado pelas pequenas motas que circulam desvairadamente em todos os sentidos.
Claro que os turistas - essa praga na qual não deixamos de nos incluir - chegam a todo o lado, criando em volta as mais variadas ofertas de serviços e bric-à-bracs. Apesar disso, ainda é possível deambular pela cidade velha sem nos deixarmos perturbar, bastando para tanto munirmo-nos de um sorriso franco e um leve sacudir da cabeça: non, merci. Sem insistências.
Pelas ruelas menos turísticas encontram-se pequenos mercados de carne e peixe, legumes e frutas, amontoados pelo chão em tapetes de cores e aromas intensos onde, pela manhã, mulheres com crianças pequenas pela mão se atarefam nas compras domésticas. Esta é a hora ideal para nos atardarmos pelas ruas e becos da medina, à margem do burburinho de curiosos. Afinal, os marrakchi, ou naturais de Marraquexe, habitam e vivem plenamente o labirinto urbano onde, com a devida calma e contemplação, nos deparamos com uma vivência ainda autêntica.








segunda-feira, 7 de maio de 2007

Crónica de uma viagem a Marrocos (I)

Não há nada melhor para apreciar alguma coisa do que não criar demasiadas expectativas sobre ela. Alguns comentários feitos neste blog arrefeceram-me um pouco os entusiasmos em relação à cidade de Marraquexe. Por outro lado, existe esta coisa muito portuguesa de empolar as maravilhas das viagens, numa atitude um pouco infantil, acho eu, de causar inveja aos que por cá ficaram. Vacinada contra tal fenómeno, tento sempre partir com a mente aberta e despida de preconceitos, preparada para o melhor e o pior. Assim fiz e alegro-me de poder dizer que o balanço da viagem a Marrocos é muito positivo.
Foi o meu primeiro contacto real com o mundo muçulmano e essa foi sem dúvida a experiência mais marcante. Marrocos é um verdadeiro choque de cultura. Toda a realidade está impregnada pela cultura do povo árabe e berbere: para além da língua e da prática religiosa, há os rostos e as roupas, há as casas, há as comidas, os cheiros e os sabores. Uma incursão pelas ruelas estreitas da medina conduz-nos para bem longe do universo moderno e ocidentalizado a que estamos habituados. Não fossem os turistas, poderiamos crer ter entrado noutra dimensão, noutro tempo.
Impressionou-me particularmente no povo marroquino um certo estado de espírito, que poderei definir como uma serenidade, uma calma interior, que se adivinham no gesto cortês e no sorriso gentil. E depois no olhar. Foi muito fácil esquecer-me da pressa e das solicitações de uma vida ocupada para mergulhar nesse universo em que o tempo tem outra dimensão. Parece haver vagar para tudo, desde as cinco orações diárias à confecção do prato tradicional, a tagine, espécie de guisado em fogo lento, que permite a conservação dos sucos e dos aromas. E sobra ainda e sempre tempo para apreciar o chá de menta adocicado, oferecido em gesto de boas vindas ou no culminar de voluptuosa refeição.
Apesar (ou não) do imenso gap cultural, senti-me bem, muito bem. Posso dizer que, com toda a naturalidade e todo o vagar, me impregnei da almejada serenidade.

sábado, 5 de maio de 2007

Marrakech-Lisboa via Casablanca ou introdução à crónica de uma viagem a Marrocos

A minha viagem ja esta a terminar e so agora consigo postar! O MAC do hotel não serviu os meus propositos: incompatibilidades de teclados, so agora percebi que estava a digitar mal o codigo. Eis-me pois em Casablanca, em transito para casa, com algum tempo para gastar e um teclado AZERT sem acento grave. Bof, pas grave.
Esta foi a minha terceira incursão em Africa, mas uma Africa em tudo diferente da que eu conhecia, porque é afinal árabe: na raça, na lingua e na religião. Nestes tempos conturbados, podemos olhar para o Islão com desconfiança, mas Marrocos faz prova de um Islão aberto e tolerante, como todas as religiões deveriam de ser. Devo alias confessar que ha qualquer coisa de fascinante no chamamento que ecoa por sobre os telhados da cidade muçulmana, quando os muezzins, subindo aos minaretes das mesquitas, convidam à oração. Cinco vezes ao dia, onde quer que estejamos, somos lembrados de onde estamos. Bastaria apenas isto, mas são tambem as cores, os rostos, os cheiros e os sabores. De outro mundo. Um outro mundo que não se resume num post em transito.
Ah, e bendita a bela lingua francesa.
A bientot.
Inch'allah.