segunda-feira, 30 de abril de 2007

La ville rouge

Parto amanhã cedo para Marraquexe. O tempo escasseou para fazer os trabalhos de casa, parece-me portanto que vou na versão "à descoberta". Não sei se vou conseguir "postar" de lá, depois se verá.
Até breve.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

E anda !

A minha filha começou a andar na passada sexta-feira. Mesmo para quem já viveu a experiência com um primeiro filho, este é um daqueles momentos extraordinários na vida de uma mãe (e pai). É quase indescritível a magia do momento em que eles, recusando qualquer apoio, num rasgo de autonomia e sustentados por nada mais do que uma surpreendente bravura e confiança, se aventuram nos primeiros passinhos. No caso dela, passámos o último mês na expectativa do grande acontecimento. Quando finalmente se produziu o fenómeno, não pude impedir-me de suster a respiração, muda e incrédula perante o gesto e, uma vez concluido o feito homérico dos primeiros quatro ou cinco passos, dar vivas de euforia, numa união perfeita de sentimentos entre ambas: o orgulho de mãe só superado pela alegria da filhota que não cabia em si de contente por tamanha conquista. E é assim mesmo que a coisa se passa: um belo dia levantam-se e andam.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Insomnia

Tenho insónias desde que me lembro. Lembro-me distintamente de ficar acordada na cama (de grades), olhando para o tecto e sentido a presença da minha irmã que dormia na cama do outro lado do quarto, quarto de uma casa que deixámos quando eu tinha 4 anos. A medida do tempo é uma coisa bastante imprecisa para uma criança de três anos, de tal forma que não posso ter a certeza da extensão das minhas primeiras insónias. Podiam ser apenas breves momentos antes de adormecer, mas deixaram uma recordação importante: terão sido o despontar infantil de uma infinitude de reflexões noctívagas ao longo da minha vida. O que acontece é que esse tempo que medeia entre o pousar a cabeça na almofada e deixar-me dormir pode durar uma, duas, três horas, ou até de madrugada. Tudo depende do meu nível de ansiedade, das ideias que ando a ruminar ou, simplesmente, da coincidência de surgir um pensamento que me distrai logo no início da noite. Uma vez engrenado o mecanismo da ruminação cogitativa, parece que ganha vida própria e é muito difícil de travar. Como tenho um medo irracional dos comprimidos, nunca tratei quimicamente as minhas insónias. Surpreendentemente, o advento da maternidade, numa primeira fase e ao contrário da experiência geral, revelou-se a mais eficaz panaceia, pois quando se passam semanas a dormir em ciclos de hora e meia (e com sorte se completam 3 ciclos por noite), a passagem da vigília ao sono profundo dá-se em questão de segundos e em quaisquer condições. É uma questão de sobrevivência. Cheguei pois à conclusão que é tudo matemática: as minhas cogitações não permitem mais do que uma medida certa de horas de sono por semana, o que muito me aborrece porque, paradoxalmente, eu adoro dormir. Gosto sobretudo do sono da manhã, aquele em que sonhos e realidade se tocam suavemente. É certo que as longas manhãs de sono preguiçoso nos fins-de-semana de solteira voltavam para me castigar em penosa vigília nocturna durante a semana. Agora que já não há manhãs de preguiça, sou recompensada com um cansaço endémico que me limita a resistência meditabunda. Não quer isto dizer que esteja curada: ainda ontem tive uma noite difícil, o que, bem vistas as coisas, não é assim tão mau. De outra forma já não saberia quem sou.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Calmaria


Estou a contemplar a absoluta serenidade do Oceano Indico, em Krabi, no sul da Tailândia. No horizonte, a ténue sombra (imperceptível na foto) das ilhas Phi-Phi. Foram os primeiros dias do mês de Dezembro de 2004, apenas uma vintena deles antes do Tsunami que arrasou com tudo. Deu-me o que pensar.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Destinos

A propósito de viagens e de culturas diferentes (vide comentários a "To Escape"), não concordar com a realidade de um país pode ser um motivo perfeitamente legítimo para não o visitar, mas o contrário também é de considerar. Há quem defenda que fazer turismo num lugar onde as liberdades fundamentais são cerceadas é de alguma forma pactuar com o status quo e, no caso dos regimes totalitários, abonar os cofres dos seus dirigentes. Há, por exemplo, um movimento que defende o bloqueio do turismo a Myanmar, antiga Birmânia, onde uma junta militar gere os destinos do país e a dirigente do partido da oposição (Liga Nacional para a Democracia) Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz, vive em prisão domiciliária. Apesar da LND ter vencido nas urnas, o regime militar nunca reconheceu os resultados das eleições legislativas.
Tudo isto para dizer que, não concordando com o bloqueio turistico, já que me parece que isolar uma população inteira de todo e qualquer contacto com o mundo em geral não ajuda em nada, visitei Myanmar em 2004, era ainda Yangon a capital. Foi uma viagem muito especial.
O budismo é a religião prevalecente e Myanmar é um dos países com maior população de monges budistas. É interessante que uma parte significativa dos jovens dedica alguns anos da sua vida à religão, ingressando num mosteiro, para depois seguir o curso da vida cá fora.

Fica aqui uma foto de um grupo de monjas com que me cruzei em Mandalay. Uma vez por dia, pela hora do almoço, vão de casa em casa para receber alimentos, já que a religião não permite que os adquiram ou armazenem. Os monges e monjas são muito respeitados e a comunidade provê às suas necessidades básicas. Com uma dignidade impressionante.


quarta-feira, 11 de abril de 2007

O alcance da vida - a década dos vinte

Entre os 20 e os 30 anos aconteceram-me muitas coisas. Devo dizer que as vivências dessa década excederam em muito as mais ambiciosas expectativas da minha pacata adolescência. Foi como se de repente tivesse metido por um desvio da estrada e penetrado um deslumbrante mundo novo. Explorei, explorei muito, não fosse um dia arrepender-me do que deixei de fazer.
Foi a época da descoberta – do Eu e do Outro e depois de mim através do outro. A minha bagagem aumentou substancialmente e, como todos nós, transformei-me na soma de muitas coisas: partindo da reconhecida herança genética e dos dados adquiridos desde a mais tenra infância (por adesão ou por rejeição), acrescentei ao longo desses anos o produto intenso de todas as minhas vivências: encontros e desencontros, alegrias e sofrimentos, certezas e angústias, interrogações, sonhos e descobertas, deslumbramentos, paixões e enamoramentos, mágoas e desilusões, enfim, a memória de muitos e muitos momentos que fazem a vivência única de cada ser humano. Tive sorte, tive muita sorte. Ainda que sem dar por isso, uma e outra vez encontrei a pessoa certa no momento certo, ou a errada no momento próprio, o livro que semeou a dúvida e me manteve atenta e aquele que abriu novos horizontes quando esgotei os velhos, a janela aberta quando se fechava a porta e os sinais claros do caminho a não tomar. Acima de tudo, um instinto que sempre me orientou o percurso.
Foi então que percebi que a soma de tudo isto não equivalia, qual fórmula matemáticamente demonstrável, a mim. Ainda que pudesse indentificar as manias que herdara e as características do meu grupo, os conceitos, os medos, as dúvidas e as certezas adquiridas ao longo do caminho, Eu era mais, muito mais: um conjunto de valores que formam a minha identidade e não reconheço em quem me formou, um punhado de convicções nascidas não sei bem de onde, uma mão cheia de intuições, algumas certezas inexplicáveis, pequenos momentos de intensa luz.
Coisas que, ao observador mais céptico, arrancariam um rol de explicações palpáveis ou talvez um mero encolher dos ombros.

Cá por mim, algures entre os 16 e os 20 e poucos anos percebi (ou escolhi acreditar) que o Eu não se traduz afinal na redutora soma do corpo e da mente, antes contém em si mesmo algo de muito mais fundamental, que transcende a mera existência biológica, é transversal ao tempo e ao espaço, existe antes da vida e para além dela segue vivendo. Dá pelo nome de alma.
Esta é a descoberta que abre todas as possibilidades...

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O alcance da vida - os anos "teens"

Quando tinha 16 anos, achava, sem qualquer hesitação, que a vida se resumia àquilo que é dado ver, sentir e pensar, ou seja, nada mais do que Eu e o mundo à minha volta: o Eu sendo a soma do corpo físico e da mente e a mente, por sua vez, o produto de vivências, traduzidas em ideias, condensadas em impulsos eléctricos circulando por entre as células cerebrais. Uma visão perfeitamente positivista da realidade. A morte significava o simples desligar do interruptor, o cessar das funções biológicas e, logo, de todo e qualquer pensamento, um puuuuffff... seguido da escuridão total, o vazio, a inexistência. A morte do cérebro acarretando o termo do seu produto, ou seja, de toda e qualquer ideia ou pensamento; hoje estou aqui e sou, cogito ergo sum, mas amanhã acabou-se, restando somente a possibilidade da memória de mim entre os vivos. A procura de explicações transcendentais parecia-me inútil, uma negação vã do fim de tudo.
Depois cresci mais um bocadinho...