sexta-feira, 30 de março de 2007

Rumo...


... ao Sul

quarta-feira, 28 de março de 2007

To escape

A expectativa de uma viagem é uma coisa deliciosa. Com o advento da internet, a exploração das possibilidades é infinita, numa verdadeira antecipação dos prazeres. Não sei se isso é uma coisa realmente boa, já que pode reduzir a espontaneidade e a capacidade de nos surpeendermos, mas acaba por ser, para mim, praticamente incontornável.
O dificil depois é conseguir encaixar em 4 dias todas as tentações: o pôr-do-sol no deserto, seguido de um jantar sob as estrelas; o passeio ao encontro das montanhas do Atlas; a exploração da cidade mágica, à descoberta dos tesouros escondidos, ou a entrega do corpo e da mente à experiência do hammam, entre muitas outras opções. Para não falar na multiplicidade da oferta gastronómica, que Marraquexe é verdadeira cidade cosmopolita.
O conhecimento antecipado e virtual da região que se pretende visitar, ainda que nunca lá se tenha estado, não deve impedir o viajante de improvisar e gozar os prazeres do momento. Go with the flow. Sem stress. Se nos der na telha, até podemos passar o dia inteiro a preguiçar numa sombra acolhedora, quem sabe depois de uma noite das antigas no Pacha de Marraquexe.

terça-feira, 27 de março de 2007

O poder da escolha

Não há nada mais angustiante na vida do que uma escolha dificil. Se aquilo que somos, que conhecemos e em que acreditamos determina as nossas escolhas, não será menos verdadeiro que as escolhas que fazemos determinam quem somos.
O que dizer então das escolhas que fazemos pelos nosso filhos pequenos? Será que determinam quem eles vão ser? Com certeza que condicionam, mas não nos iludamos (nem nos assustemos, caso não venham a revelar-se as mais certas) a pensar que os moldam invariavelmente. Assim espero.

sexta-feira, 23 de março de 2007

New York versus Marrakech

O que é que as duas cidades têm em comum? Suponho que nada, e por isso mesmo troquei uma viagem a N.Y. este fim-de-semana por uma a Marraquexe no mês que vem. Já que logisticamente se afigura impossível fazer tantas viagens quanto gostaria, deixei passar a oportunidade de ir passar uns dias à grande cidade em troca da promessa de uns dias em terras africanas. Nestas coisas sou muitas vezes adepta do lema "mais vale um pássaro na mão...", e Nova Iorque é Nova Iorque, retorna-se sempre que haja oportunidade, mas... as minhas baterias descarregadas clamam por um ambiente que induza a preguiça, com a possibilidade do ocasional mergulho na azáfama da cidade das mil e uma noites. Cumpre-me agora dar forma ao projecto para que não me voe o pássaro. A maior dificuldade é escolher o mais sedutor de todos os lugares onde ficar, preferencialmente a conveniente distância do bulício.

quarta-feira, 21 de março de 2007

A importância do pai

No dia do pai, pela manhã, enquanto estava parada no trânsito em Lisboa, reparei num pai que, tirando o filhote de pouco menos de um ano do carro, o entregava ao que parecia ser a avó da criança. O miudo esticou-se todo, estendendo os bracinhos para o pai em angústia e depois, inconsolável, lá seguiu a chorar ao colo da senhora, para dentro de casa. É sabido e muito evidente para qualquer mãe atenta, que as crianças nesta idade desenvolvem a angústia da separação e por isso, sem me deixar impressionar, fiquei particularmente satisfeita por ver o que parecia ser a demonstração deste fenómeno tão fortemente marcado em relação à figura do pai. Um pequeno exemplo do inquestionável facto de que o papel do pai mudou radicalmente nas últimas duas décadas. Pessoalmente estou rodeada desta nova geração de pais fantásticos, dedicados e intervenientes, que não prescindem dos prazeres nem se furtam às tarefas parentais. Se já se vai tornando mais comum, nem por isso deixa de ser louvável, já que na grande maioria dos casos não foram criados por figuras assim, que possam recriar. Faço muita questão de reconhecer o mérito destes pais, entre os quais, aliás, se inclui o pai dos meus filhos.

Já profissionalmente, porque inevitavelmente lido com pais separados em vias de divórcio, sou muitas vezes confrontada com mães que carregam uma lista interminável de queixas relativamente ao pai dos seus filhos. Se posso compreender as queixas relativamente ao homem (coisas da vida), já me custa, muitas vezes, engolir as queixas relativamente ao pai que, com maior frequência do que seria esperado, é retratado como um tipo horroroso, que, ou não liga nenhuma aos rebentos ou, se o faz, constitui, no entender da mãe, uma influência altamente nefasta para os filhos. Se posso apenas imaginar as dificuldades de ser mãe separada ou divorciada, porque não sou feminista da treta penso muitas vezes quão duro deve ser o papel do pai separado. E dou por mim a dizer para dentro, já que não me compete fazer observações em voz alta: se ele é assim tão mau, porque raio é que o escolheste para pai dos teus filhos?

Faz-me desde logo uma certa impressão que tantas mulheres (sendo o inverso também verdade) tenham tanto mal a dizer sobre um homem com quem partilharam a cama e a vida, numa verdadeira atitude de “cuspir no prato em que comeram”. Tive a minha quota (generosa) de namorados e afins e outra fatia igualmente farta de mágoas, mas, em retrospectiva, orgulho-me de poder dizer, em consciência, que poderia hoje ser amiga de todos e cada um deles. Nalguns casos tenho a felicidade de ser mesmo e o ocasional reencontro com os restantes, quando as voltas da vida nos colocam no mesmo lugar à mesma hora, são sempre motivo de genuina alegria. Porque raio é que eu havia de querer namorar com um tipo horroroso?
O que me custa ainda mais aceitar, são essas mães que não têm nada de bom a dizer sobre o pai dos seus filhos, como se terem tido filhos com eles não tivesse sido uma escolha. Tirando aqueles casos excepcionais em que de facto não foi, estas mulheres escolheram: 1) viver com o homem em questão e, em muitos casos, casar; 2) ter um ou mais filhos em conjunto. Se a primeira escolha pode não ser permanente, já a segunda é com certeza. Sei que não há formulas mágicas para nada na vida e muito menos para saber, de conhecimento certo e de antemão, se um ser humano vai ser um excelente pai ou uma excelente mãe. Nesse campo, já me vi surpreendida, tanto pela positiva (o mais das vezes) como pela negativa, mas, que raio, há indícios. Se a pessoa em questão comunga dos mesmos valores e princípios básicos de vida e tem um bom coração, então podemos ter esperança de que, não obstante as falhas concertas que certamente terá, há-de encontrar o lugar e saber desempenhar o papel que é seu, de direito e de coração, de pai. Assim sendo, o falhanço da primeira escolha não invalida a segunda. Mágoas pessoais à parte.

terça-feira, 20 de março de 2007

Greased Lightning

No Domingo à noite, quando estava pronta para ir dormir, reparei que estava a dar o GREASE. Não resisti a sentar-me e ficar a ver uns 30 mn, até o cansaço vencer.

Foi inacreditável rever parte do primeiro grande filme da minha vida. Afinal o GREASE estreou em 1978, o que significa que eu tinha oito aninhos quando, deslumbrada, saí do cinema Berna naquela tarde longíqua. O John Travolta e a Olivia Newton-John, com os seus 20 e poucos anos a fazerem de 17, em roupas, maquilhagens, poses, diálogos e coreografias impossíveis .... e as músicas. As músicas perduram até hoje no imaginário colectivo e ainda ontem consegui acompanhar parte das letras enquanto assisti a canções como o "Beauty School Drop Out". Não fui a tempo de suspirar com "Summer Nights" ou assitir ao climax de "Tell me more", nem fiquei para a apoteose final de "You're the one that I want", mas foi como se tivesse mais uma vez na mão o disco com a capa verde e o retrato do parzinho, que a minha irmã mais velha tinha comprado e que eu punha a tocar uma e outra e outra vez, as letras religiosamente decoradas (com algumas pequenas aldrabices, por exemplo, só ontem percebi, deliciada, que não era "You Disco Dropa"), e alguns passos ensaiados quando não estava ninguém por perto.

É fácil de compreender o deslumbramento de uma criança de oito anos e, por maioria de razão, dos adolescentes da época. No entanto, ainda que as músicas sobrevivam (ainda no outro dia fui a uma festa onde passaram "Greased Lightning"), imagens como aquelas não resistem ao tempo e tornam-se caricaturais. O que é certo é que, na época, o filme ganhou um Óscar (Best Music - Original Song) e 5 Golden Globes, tendo sido premiado o desempenho de ambos os protagonistas.

Jonh Travolta, depois do sucesso de "Saturday Night Fever" e "Grease" foi votado ao esquecimento durante quase duas décadas, até reaparecer no mundo dos seriamente vivos de Hollywood, em 1994, com "Pulp Fiction". Será que se lembraram dele só por causa da cena do concurso de dança com a Uma? Fosse como fosse, a combinação dos dois, pela mão de Tarantino, foi bombástica. Li algures que, enquanto esteve na mó de baixo, John Travolta disse algo como: "I was never that good, and I'm not this bad".

Traduzido em bom portugês: a vida dá muitas voltas.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Não dever

Utimamente dei por mim a comentar, com maior frequência do que o habitual, a falta de responsabilidade neste país. Parece-me bastante portugesa a ausência de responsabilização pelo trabalho bem feito, pelo rigor técnico e ético, en bref, pelo cumprimento dos deveres profissionais e sociais (nem falemos dos políticos). Isto é ainda mais flagrante quando, por detrás de uma aparência profissional impecável, se esconde uma tremenda incompetência. Exemplos não faltam.
Parece-me a mim que esta falha humana, se assim se pode qualificar, poderia ser atenuada logo à partida através de um sistema de ensino mais evoluído, em que crianças e jovens participassem activamente na própria educação e pudessem finalmente compreender que aprender pode e deve ser uma devoção e não uma obrigação, integrando depois essa noção no que se propuserem realizar pela vida fora. Falo por mim, que tardiamente vislumbrei o conceito.
Posto isto, também me parece que o cumprimento rigoroso e dedicado do que nos propomos fazer não passa necessáriamente por um horário de trabalho inflexível e escrupulosamente vigiado, não sendo incompatível com a ocasional "balda", quando - e aqui é que reside o busílis da questão - sabemos que nos podemos permitir esse pecadilho esporádico e delicioso. Por exemplo, numa sexta-feira como a de hoje.

Para ilustrar esta questão, deixo-vos com aquele que é, para mim, um dos grandes representante do ser português (e isto não vem a propósito do patético concurso que para aí anda):

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação de desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando os versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

quinta-feira, 15 de março de 2007

Orchideae

Quando a minha filha nasceu a avó ofereceu-nos uma orquídea num vaso. Instalei-a na sala num lugar com muita luz e ela, contente, não parou de florir, numa exibição contínua de delicadas formas brancas, de tal modo que durante mais de oito meses nunca esteve despida. Um fenómeno verdadeiramente inusitado. Lá para o final de Agosto largou por fim a última flor. Quando voltei de férias pu-la num canto da varanda e ali passou o Inverno, ao vento, ao frio, ao sol e à chuva, praticamente esquecida. Há quinze dias fui dar com ela no mesmo cantinho, as folhas carnudas já amarelas. Foi quando lhe peguei que vi uns minúsculos botões, amarelecidos e poucos esperançosos. Trouxe-a para dentro, encharquei-lhe as raízes e desejei que não morresse. Na manhã seguinte fui dar com ela, verde de esperança, miraculosamente recuperada. Bastaram alguns dias para começar a florir. Como podem ver e a avaliar pelo número de botões, prepara-se para nos brindar com longa alegria florida. À semelhança, aliás, da minha filha, que não tem cessado de o fazer.
De vez em quando deparamo-nos com seres verdadeiramente fora do comum.

Obcecação

Ontem descobri uma palavra que não conhecia. Os meus dedos atrapalharam-se ao escrever obsessão no teclado e da trapalhada que saiu, logo sublinhada a vermelho, o corrector automático sugeriu obcecação. Se olharmos bem para ela, facilmente verificamos que faz sentido: obcecar, obcecado, obcecante, obcecação. Corri ao Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora) e lá está:
obcecação: acto ou efeito de obcecar; cegueira de espírito; teimosia; persistência no erro. Então e a obsessão? Lá está também, algumas páginas adiante, isoladamente, já que o substantivo, adjectivo e advérbio se escrevem com "c" e não com "s". As duas palavras são sinónimas, embora a segunda tenha um rol de significados muito mais extenso. Usei a palavra nova no meu texto e fiquei satisfeita com a descoberta. Talvez não a volte a usar muitas vezes sob pena de pensarem que ando a inventar.

quarta-feira, 14 de março de 2007

A crise dos 36 e 1/2

Ao fim de mais de três anos embrenhada em fraldas, sopas e passeios ao parque infantil, resolvi que esta era uma boa altura para recuperar o tempo necessário a alguns mimos pessoais. Fui a um SPA fazer um tratamento ao rosto e saí de lá, duas horas passadas, sentido-me fresca e confiante, para entrar em seguida na farmácia, decidida a investir no futuro da minha epiderme. Procurava um creme, da minha marca de eleição, que pudesse começar desde já a trabalhar no combate ao aparecimento das tão temidas rugas. Encontrei uma farmacêutica muito simpática que, prestando atenção às minhas dúvidas e indagações, mas sobretudo à minha cara perfeitamente limpa, passou por cima dos cremes intitulados "para as primeiras rugas", que eu remexia, para me estender um conjunto de cremes que, em subtítulo, diziam "corrige as rugas mesmo as profundas". Protestei, mas não o devia ter feito, porque foi então que ela apontou um dedo acusador a duas linhas (de expressão, julgava eu) na minha testa e outro par de vincos laterais no rosto. Bem sei que os últimos meses foram bastante difíceis, a somar a muitas noites mal dormidas, e que os traços de extremo cansaço se vêm evidenciando na minha cara. Só essa certeza me impediu de sair da farmácia plenamente derrotada, mas apenas com a carteira mais leve, porque mulher prevenida vale por duas. Seja como for, o que eu temia parece ter acontecido sem que sequer desse por isso: passei para o outro lado da colina e já vou a descer.

O mistério mais profundo

Hoje depois de deixar o meu filho na sala de aulas vinha a subir as escadas do Colégio a cantar. Parei para reparar: sinto-me verdadeiramente feliz. Assim uma felicidade interior. E porquê? Ultimamente tenho-me sentido assim em momentos inexplicáveis, só porque está um dia de sol e as ruas de Lisboa estão bonitas, ou porque a senhora no quiosque dos jornais foi simpática, ou porque reparei numa pessoa bonita na rua, ou porque tive uma conversa estimulante com um amigo. E acontece cada vez mais. Fico com um sorriso de orelha a orelha e até parece que tenho 16 anos e acabei de me apaixonar. Mas não é bem assim.
Será que afinal e ao contrário do que eu pensava, a felicidade não é constituída por momentos especiais, por acontecimentos específicos que nos dão grande gozo, que acontecem num dado momento e inevitavelmente passam? Será que a verdadeira felicidade, aquela que todos almejam mas de que só alguns falam, não é realmente motivada por factores externos mas encontra-se na tranquilidade do nosso âmago? Aquela curva com os picos altos de felicidade e baixos de sofrimento, a montanha russa da minha existência passada talvez não represente, afinal, a essência da vida. Esta felicidade que sinto agora poderá simplesmente explicar-se pela ausência de infelicidade ou de dor especificas, não tanto pela ausência de preocupações mas por não me deixar abalar por elas, por não me deter a olhar para o copo meio vazio. Afinal até me queixo de que ando cansada, que não tenho tempo para sair e me divertir, que não viajo há séculos, e outras coisas mais. Tudo coisas que, pelos meus padrões antigos, fariam momentos felizes, e que não vivo no momento. Vivo, sim, outras coisas mais perenes, mais constantes e até rotineiras. A parte do copo que está cheia não é realmente feita de momentos excitantes, mas muito mais essenciais. E assim sou surpreendida por estes assomos de felicidade interior irreprimível. Será que subtilmente fui reservando cada vez menos espaço mental e emocional para as coisas pesadas, deixando emergir a felicidade dos momentos e das coisas simples, a que saboreamos de nós para nós, que não depende dos outros mas só do que nos vai na alma?

Cá estou

Sou o mais recente membro da blogosfera, em resposta a alguns desafios e para ver no que dá. Não há declaração de intenções pois a minhas intenções são muitas vezes inesperadas, até para mim. Sejam benvindos.

A.