segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Ano Novo

Acho que vou entrar o novo ano a ler. Não consigo largar "As Mulheres do Meu Pai". Em parte (mas só em parte) porque lá dentro reencontrei mais do que um velho conhecido: somam-se um técnico de som, um fotógrafo, um poeta, um - não - dois escritores. Estranhíssimo, repito. E, a propósito de passagens do ano, foi no Polana que vivi uma - inteiramente falsa. Talvez seja, afinal, um ciclo que se completa. Fechemos, pois, o círculo.
Bom ano.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Moçambicando

Em "As Mulheres do Meu Pai" de José Eduardo Agualusa, deparo, às tantas, com o nome do operador de som da equipa de Moçambique. Estranho. Não impossível, pensando bem, já que a história parece alternar entre ficção e realidade, percorrendo territórios africanos. O mesmo nome e apelido, o mesmo país, a mesma profissão, não pode deixar de ser a pessoa real. Viajo, no acto, para o mês moçambicano, há 11 anos atrás - quase outra encarnação. Mais meia noite sem dormir.
Lembro-me, entre tantas caras, do produtor local. Fugindo à confusão diária, levava-me a almoçar. No Maputo movia pessoas e projectos, onde fossemos era saudado pelo nome. Enquanto me apresentava as iguarias locais desfiava os segredos da profissão e os mexericos da equipa - os complicados enredos pessoais que controlava ao pormenor. Tinha uma teoria sobre os homens negros e as mulheres brancas e cedo se tornou evidente que queria mais do que levar-me a almoçar. Foi explícito, como é hábito no seu meio e cultura, mas ainda assim delicado. E delicadamente aceitou ficar-se pelos almoços. Como tantos homens inteligentes que conheci, nem por isso deixou de querer almoçar. Conversámos bastante. Escreveu: "A., sê como a árvore de sândalo, que perfuma o machado que a fere". Não sei se alguma vez soube sê-lo.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ordem

Não são second thoughts. É só a consideração hipotética (e universal) do que faria(mos) se pudesse(mos) alterar a lei mais inflexível do universo: um dia após o outro, um ano após o outro, só nos sendo permitido fugir para a frente, nunca para trás.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Typex

Reli o que escrevi abaixo e fiquei a pensar: como seria bom, algumas vezes, poder voltar atrás e desfazer, refazer ou acrescentar, uma frase, um gesto ou uma atitude, numa dada situação do passado. Corrigir o que não foi exacto, ou exactamente como queriamos que tivesse sido. Em absoluto desrespeito pelas regras do universo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Afinal somos todos iguais

«Esta era uma das coisas que fazia desde pequeno, que tinha descoberto por acaso e que imaginava ser eu a única pessoa a fazer no mundo. Fechava os olhos e via. Via o que se vê com os olhos fechados. Via o negro dentro de mim e via os pontos de luz que o quebram, as vagas de luz, as figuras abstractas de luz, os vultos de luz, as sombras de luz dentro da luz do negro dentro de mim. Isto é o que se vê quando fechamos os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que a habitam. E não se consegue olhar fixamente nem para o negro, nem para a luz. Os pontos ou as linhas ou as figuras de luz fogem da atenção. O negro é tão absoluto, tão profundo e tão infinito que o olhar avança por ele sem encontrar um lugar onde possa deter-se.»

José Luís Peixoto - Uma Casa na Escuridão

Ano após ano

Como todos os anos, depois de ter comprado os presentes para todos os meus 11 sobrinhos e mais os meus filhos, descubro à última da hora que ainda faltam os presentes para os filhos dos amigos mais chegados e mais os presentes que, inevitavelmente à última da hora, os avós nos encarregam de comprar;
Como todos os anos, ainda não faço ideia do que vou oferecer aos graúdos ainda que, de ano para ano e por múto acordo, tenham vindo a ser eliminados da lista dos presentes - entenda-se, os graúdos felizmente permanecem, só que nem todos recebem presente;
Como todos os anos, tenho imensa gente para ver e imensa gente a quem quero telefonar e já sei, de antemão, que não vou conseguir realizar metade daquilo a que me proponho;
Como todos os anos, pedem-me favores de última hora que eu tenho que encaixar num calendário já impossível;
Como todo os anos, já estou desejando que o Natal passe depressa por causa do trânsito, das filas, das pessoas e das pessoas e das pessoas.
Mas, com tudo isto e ao contrário dos anos anteriores, ainda não me stressei. E, bem vistas as coisas, este ano não estou (por ora) assim tão desejosa de que o Natal já tivesse sido. Estou, reconheço com agrado, numa verdadeira atitude zen - e nesta atitude não me reconheço.
Talvez sejam os efeitos, resumidos e condensados, de uma paulatina mudança de atitude nos últimos anos.
Ou talvez seja simplesmente esta constipação que não me larga e me mantém em estado de suspensão, um metro acima do solo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Submersão

Aparentemente permaneço envolta em brumas, o que equivale a dizer, afinal, em doenças sucessivas lá em casa. E depois há esta coisa do Natal. Não há, humanamente, tempo para comparecer em todas as celebrações, comprar todas as prendas, andar perdida em filas de trânsito, esperar na bicha dos embrulhos e manter um espírito natalício. Estranhamente este ano o stress (ainda) não invadiu a quadra, talvez porque tenho mais com que me preocupar.
Não é uma época maravilhosa?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Fog

Olho pela janela e a ponte é somente o ângulo de um triângulo de luz suspenso no ar. O castelo sumiu-se, o rio afundou-se. Há 24 horas que o céu deixou cair o manto branco.
O nevoeiro desorienta-me. Logo hoje, passei o dia a guiar, em suspensão láctea. A cabeça a andar à roda.
Lembro-me de épocas inteiras da minha vida em que andava assim.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Dezembro - o Natal está a chegar

Há dois natais atrás comprei a minha primeira árvore de natal. Para compensar os dez anos anteriores sem árvore e me penitenciar por ter privado o meu filho mais velho da incontornável tradição (enquanto pude acreditar que ele nem reparava) excedi-me no tamanho. A árvore é excessivamente ambiciosa: excessivamente grande, excessivamente frondosa, ainda que, felizmente, diga com o tamanho do meu hall. O problema é que, montá-la, custa mais de uma hora de trabalho árduo e mãos arranhadas - sem incluir a decoração. Desde o fim-de-semana passado jazem dois caixotes gigantescos no lugar que lhe é destinado. Alguém se oferece para ajudar? Servimos refrescos.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um-dó-li-tá...

Na minha secretária repousaram durante duas semanas cinco envelopes pequenos, dentro de cinco envelopes maiores, dentro de um envelope grande, todos à espera dos cinco votos nos cinco orgãos da minha Ordem. A minha caixa de email entupida de propaganda eleitoral que eu não li, para só no termo do prazo me lembrar que a abstenção está sujeita a multa. Foi assim que, em cinco minutos apenas, cumpri o meu dever deontológico: o tempo que demora a dizer um-dó-li-tá-cara-de-a-men-do-á...... cinco vezes.
Suponho que não me fica muito bem dizer isto. Vá lá, não foi bem assim. Mas quase.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Nip / Tuck - a disturbingly perfect drama

Certa noite estava a fazer zapping e atravessou-se-me à frente um episódio da série Nip/Tuck (Fox Life, segunda-feira 21.50), já ía então pelo menos na segunda temporada. Não estando avisada da polémica instalada, protestos retumbantes e audiências desvairadas que, conforme vim a descobrir, soavam alto na terra de origem, fui inesperadamente confrontada com cenas assaz perturbadoras. Não mudei de canal e confesso que a ele tenho voltado desde então, constatando que a série vive de duas temáticas distintas - cirurgia estética e sexo - que nos são intrincadamente apresentadas, de forma crua e chocante, através de:
- uma profusão de imagens explícitas do acto cirúrgico propriamente dito, incluindo cortes, esfolamentos e, a que mais me impressiona, uma e outra vez já que parece ser a grande favorita: a realização da técnica da lipoaspiração, que se inicia com a introdução de uma espécie de vara de arames na área sub-cutânea, com a qual o cirurgião realiza uma série de movimentos energéticos (violentos, diria eu) por forma a dissolver as gorduras acumuladas - altamente desaconselhado a quem queira candidatar-se ao acto;
- uma profusão de cenas sexuais, também elas explícitas e que na sua maioria traduzem situações sórdidas ou de moral pelo menos questionável. Abstenho-me de descrições pormenorizadas, apenas posso adiantar que utilizam diversas combinações de actos e de parceiros sexuais (em género e número) - altamente desaconselhado o visionamento por filhos pequenos (e grandes) ou na presença de qualquer pessoa com quem não exista um confortável grau de intimidade;
Uma combinação bombástica, portanto, a que não é alheia a complexidade das personagens e do seu inter-relacionamento; a existência, até à série que recentemente terminou, de um maníaco, personagem-mistério, que violava e desfigurava as sua vítimas; e a temática subjacente, respeitante aos limites a que pode aspirar o culto da beleza.
Não fosse a vertente da técnica cirúrgica, até poderia parecer uma telenovela mexicana, mas a questão é mesmo essa: é que não é.
As cenas sexuais, em toda a sua crueza e nitidez, acabam por não ser propriamente pornográficas: traduzem apenas a complexa realidade das personagens envolvidas - totalmente fucked up, é verdade - mas ainda assim reais.
Usando uma frase quase histórica: primeiro estranha-se; depois, entranha-se.

A ver o que a temporada que agora se iniciou (a 4ª) nos reserva. É que aquilo não cessa de perturbar, de forma surpreendente. Ou de surpreender de forma perturbante.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Outras margens


Vista do almoço de Domingo, sobre outro rio: o Mondego da temática Inesiana.

Até ao fim do Mundo


Era pedra e sobre essa pedra
Ergueu-se o templo do amor atroz.
Ele de fogo, ela a cordeira
Toda cordura chamando o algoz.

Songram as tubas: Inês é morta!
Em meigo muito transmuta-a o pranto
Do ermo amante que erra sozinho
No seu deserto de diamante.

Nem ar sangrento buscam seus olhos
Do corpo amado desfeitas pérolas;
E como fera coro os ossos
Da formosura que ao alto o espera

E em desatino da paixão lusa,
Perdida a alma que em Inês tinha,
O fim do mundo ficou esperando
Aos pés da morta, suo rainha.

Natália Correia - Até ao fim do Mundo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Inconfidência

E agora confesso: quantas vezes vou aos posts já publicados e altero aquela palavra que não era a exacta. Será isto um desrespeito pelas regras não escritas do universo bloguista?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sempre a palavra

Quer-me parecer que paulatinamente tenho vindo a desenvolver a obsessão pela palavra exacta, pela busca do termo que preencha na perfeição o que quero transmitir - a procura do mot juste - expressão a que se referem alguns escritores. Quantas vezes não consigo concluir uma frase sem encontrar o vocábulo que sei que existe mas que demora a chegar, demora o tempo de pensar obstinadamente, quem sabe distrair-me e voltar ao tema tantas vezes quantas necessárias até que ela - a palavra - se manifeste.
Não posso deixa de concluir que este exercício é, com toda a certeza, um dos prazeres fundamentais da escrita, ainda que, como qualquer outra manifestação de perfeccionismo, quando desajustada em relação aos objectivos (leia-se profissionais) pode prejudicar a eficiência.
Pequenos indícios do desenvolvimento desta mania: o prazer que me deu a aquisição, recente, de um dicionário de sinónimos e o gozo que me tem dado este precioso auxiliar de memória; o júbilo com que leio e releio uma frase perfeita a páginas tantas de um livro; o agrado com que li a afirmação de José Luís Peixoto, citada abaixo.
Este exercício está relacionado, embora com ele não se confunda, com um outro, que é o da depuração. Admiro quem escreve assim, usando cada palavra com o respeito e parcimónia proporcionais à riqueza do seu conteúdo, não pondo a mais nem a menos, ora reunindo numa simples frase todo um universo de significados, ora transmitindo apenas aquele, unívoco, que ambiciona. Com clareza, suavidade e aparente naturalidade. Como se cada frase já existisse antes de ter sido formulada - sem traduzir o esforço para a alcançar.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Suave Novembro

Esta foi a vista do meu almoço de ontem. Almoçar no Cais da Ribeira, em Novembro, a céu aberto sobre o Douro, sem o desconforto de um casaco, é obra.
Não fazia calor nem frio, a luz estava perfeita, como perfeitas as ameijoas à Bulhão Pato, a vitela à moda de Lafões e o leite-creme. Altamente recomendáveis.
O trabalho também serve de pretexto para coisas muito boas.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

As palavras

Diz José Luís Peixoto, entrevistado a propósito do seu novo livro "Cal":
«Podemos ter muitas palavras para dizer uma coisa que aparentemente é a mesma, mas a verdade é que cada uma diz de uma forma diferente.»

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Back to basics: os afectos

Há 14 anos desisti de comparecer no meu próprio casamento um mês antes da data marcada. Detalhes práticos à parte, por essa altura já a família do meu ex-futuro-marido se tornara também a minha própria e assim, de uma só assentada, perdi uma família inteira - de quem sinto a falta até hoje.
Muito recentemente, por motivos relacionados com os meus filhos e reunindo toda a coragem que consegui encontrar, retomei o contacto com o meu ex-futuro-sogro. Quatorze anos volvidos, o desconforto do primeiro encontro foi prontamente anulado quando ele, olhando-me de frente com a tranquilidade e segurança próprias de uma vida inteira de vivência genuina, verbalizou o que eu trazia na alma estes anos todos:
As relações podem alterar-se mas os afectos mantêm-se, disse.
Bem haja.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ainda sobre o "Lost in Translation"

Para além da questão romântica, este filme impressionou-me muito, por razões diversas, algumas das quais inconfessáveis. Desde logo fiquei estarrecida, nos primeiros vinte minutos, ao ver expressas no ecrã, pela pena da argumentista, a visão da realizadora e a interpretação da actriz, as exactas emoções que senti nos infindáveis momentos das imensas semanas que passei, só, num quarto de hotel, numa outra cidade de dezenas de milhões, quando a única outra pessoa que conhecia saía para trabalhar.
Talvez a magia do cinema, quando é bom, se traduza nessa transposição de vivências e emoções entre o espectador e as personagens. Ou talvez aconteça simplesmente que a Sofia Coppola tenha, também ela, vivido aquela mesmíssima situação.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Not Lost

De muito nova carrego a angústia de vir a perder, com o passar dos anos, o romantismo, a capacidade de me emocionar, de me maravilhar, de me perturbar com a vida. É verdade que os mais velhos sempre me pareceram demasiadamente refreados nas suas emoções e, de certo modo, é isso mesmo que se espera que aconteça com o amadurecimento - mas como tudo na vida, só é bom na dose certa. Não há nada mais triste do que a amargura, o azedume, o enfado e o cinismo típicos de quem sente que já viu o que tinha a ver.
Um destes dias pensei que há muito, talvez há demasiado tempo, não tinha um ataque de choro a sério, daqueles de encharcar a almofada e gastar uma caixa de kleenex. E embora isso revele coisas muito positivas sobre o meu equilibrio emocional, angustiei-me mais um bocadinho ao pensar nesse estado potencialmente vegetativo de certas emoções.
Poucos dias depois, ao ver (pela segunda vez) o Lost in Translation da Sofia Coppola, dei por mim a chorar que nem uma madalena na cena final (e perfeita) em que o Bill Murray sai do carro para concretizar o abraço e o beijo que (nos) tinham sido negados durante todo o filme, e imensamente comovida pelas palavras docemente murmuradas no ouvido da Scarlett Johansson. Palavras hipoteticamente imaginadas.
Foi a sublime confirmação do que eu suspeitava: sou uma incurável romântica.

Para rever, aqui em baixo:

Lost In Translation

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Vidas

Depois de intensa troca de emails no âmbito de um "mailing list", em preparação para um jantar (mais um) de outra gente que não se vê há que tempos (o incontornável ciclo dos 20 anos), alguém me perguntou:
- És a mesma A.? O que te aconteceu? Pareces muito diferente.
Poderia simplesmente responder:
- A vida.
E ficava tudo dito.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Evocar o passado

«Il est ainsi de notre passé. C'est peine perdue que nous cherchions a l'évoquer, tous les efforts de notre intelligence sont inutiles. Il est caché hors de son domaine et de sa portée, en quelque object matériel (en la sensation que nous donnerait cet object matériel) que nous ne soupçonnnons pas. Cet object, il dépend du hasard que nous le rencontrions avant de mourir, ou que nous le rencontrions pas.»

Marcel Proust - Du côté de chez Swann

Esse objecto, constato, é tantas vezes uma música, um odor, uma imagem, um riso. E está - estão - em todo o lado, carregados de memórias, pequenas máquinas do tempo que subitamente nos (re)conduzem a esse universo paralelo que, sorrateiro, nos escolta a vida.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Razão versus Emoção

«A ideia de que devemos ter "bons pensamentos" surge nas mais variadas sociedades e religiões como um ensinamento básico para crianças, porque é uma forma fácil de explicar que os pensamentos induzem ou retiram qualidade de vida (emocional) ou, se quisermos, felicidade ao ser humano. (...) Este é um exercício de análise e não de controlo da nossa mente, pois com o tempo e o treino cria-se um estado de alerta mental natural que permite, sem esforço, redireccionar o pensamento para o que é construtivo ou positivo. Com este treino de encaminhamento os pensamentos destrutivos não desaparecem, mas previne-se o seu reforço e a criação da correspondente emoção que gera sofrimento. »

N.B. dixit, que ainda que inadvertidamente está sempre a agitar ideias.

Isso é tudo muito inteligente e verdadeiro. Mas nós não somos máquinas que só pensam aquilo que lhes é útil pensar, do ponto de vista da busca da felicidade. Falo por mim, que me foge o pensamento para tantas coisas que não interessam nada, no sentido que não me fazem mais feliz. Se bem que fui aprendendo a controlar pensamentos negativos (que constituem um desperdício de energia) e essa capacidade aumentou substancialmente o meu nível de felicidade, também aprendi a importância de nos permitirmos, sem culpabilização, ser idiossincráticos, ser emotivos, ser humanos. E pensarmos parvoíces e sonharmos com coisas que não estão ao nosso alcance ou que não são necessariamente boas para nós, e irritarmo-nos e frustrarmo-nos e perdermo-nos e fazermos asneiras e figura de parvos e só depois, com sorte, recuperarmos o equilibrio.
É a espuma da vida.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Silêncio

Mais forte do que o das palavras é o poder do silêncio.
No silêncio cabe tudo: a maior raiva, a profunda mágoa e o mais sublime amor; a ausência de desígnios ou intenções e a vontade mais resolvida; a distância, a indiferença, a secura de sentimentos e um coração a transbordar.
É o prenuncio das grandes coisas ou o presságio de terríveis calamidades.
Tudo se pode retirar do silêncio. O silêncio pode enlouquecer.
Quando escutado, nele se ouvem as maiores verdades.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Liceu Francês

Não sei se foi coincidência, ou justamente a comprovação de que completamos ciclos na vida. Recuando mais ainda os ponteiros do tempo, reunimo-nos os colegas de década e meia de vida nessa instituição onde juntos nos tornámos gente. A adesão foi espontânea e inspirada; o resultado, um serão encantado (confira-se o retrato do conjunto).
Foi retomar o fio à meada, como se nada fosse. E o nada vinte anos de entremeio - que nos tornaram muito mais gente.

Farol

Recordo sobretudo a luz do farol, que varria as paredes do quarto e nos embalava o adormecer.

Mas temi que fosse um sonho, ou uma fantasia de criança. Não foi. A luz vigiava-nos a noite. Assim me asseguraram os meus irmãos, aqueles que guardam como foi.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O meu amigo N.B. publicou esta fotografia do farol do Cabo Espichel, que imediatamente me fez recuar à infância. As recordações em sopetão vieram assim:
O meu avô tinha uma quinta na Azoia, junto ao Cabo Espichel. Lembro-me, muito miúda, das alvoradas que precediam a caminhada até ao limite da quinta e do que parecia o mundo, onde, junto à arriba, nos instalávamos numa minúscula praia de areia trazida ali para o alto, pelo meu avô, com o único propósito de bem instalados melhor podermos saborear o piquenique, olhando a infinitude do mar. Recordo os serões à luz do petróleo, ao calor da lareira, quando não chegava o fio eléctrico mas o som da rádio e do "quando o telefone toca". Evoco o cheiro do pão a sair do forno e o derreter da manteiga distribuida em doses generosas pela minha tia.
E esta é só a ponta do icebergue. Parece que as imagens, também elas, têm o condão de fazer despontar as memórias mais inesperadas.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Busy Bee

É frustrante quando circulo por aí com vários posts na cabeça e sem tempo para os redigir. Ainda para mais quando o meu trabalho nos últimos dias se tem resumido a escrever, escrever, escrever. Corro o risco de se me esgotarem as palavras.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sonho feito realidade

(ou quando uma imagem vale por mil palavras)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Humildade

"Thank you," the old man said. He was too simple to wonder when he had attained humility. But he knew he had attained it and he knew it was not disgraceful and it carried no loss of true pride.

E. Hemingway - The Old Man and the Sea

Integridade

"I told the boy I was a strange old man", he said. "Now is when I must prove it."
The thousand times that he had proved it meant nothing. Now he was proving it again. Each time was a new time and he never thought about the past when he was doing it.

E. Hemingway - The Old Man and the Sea

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Myanmar não é apenas um ponto algures no mapa.

Rua em Yangon

Hora do almoço no mais populoso mosteiro da Asia, perto de Mandalay

Vista sobre a planície de Bagan, com os seus mais de 2000 templos

Relembro AQUI o que escrevi abaixo.

Have a break

Os fins-de-semana compridos, quando encarados como uma espécie de mini-mini-férias, são muito agradáveis. E o Algarve, nesta época, está no seu melhor.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Vaidades

Acho graça ao que o Pedro Mexia escreve no Estado Civil. Como não há lugar para comentários, no outro dia enviei-lhe um email para o endereço postal (chamemos-lhe assim) do blog. Claro que não me respondeu, nem o meu comentário pedia resposta. O que é certo é que, enquanto me deliciava a ler os seus mais recentes posts, hoje dei por mim a arranjar-lhe pequenos defeitos. É esta coisa da vaidade humana.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Lobo Antunes

António Lobo Antunes é sem dúvida duro de roer - como, aliás, são os seus livros.
Há algum tempo que exerce sobre mim um certo fascínio. Fascínio, não no sentido de deslumbramento, mas de quase incredulidade, num jogo de atracção/repulsa. Não me interessa particularmente a vida do homem, mas antes as aparentes contradições da personalidade que dá a conhecer, por meio das entrevistas que concede. Nunca vi tamanha arrogância de braço dado com a candura poética de que é exemplarmente capaz. Ainda esta semana (na Visão) produziu as seguintes afirmações:
"Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde"
Mas, logo a seguir:
"Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava."
Terá dito, a páginas tantas (já não me lembro onde nem quais os termos exactos), que quem gosta muito dos seus livros de crónicas mas é incapaz de ler os romances é assim meio atrasado mental. Não sei se foi isto que disse ou não, mas talvez seja por me enquadrar perfeitamente nesta definição (devorei os três livros de crónicas) que não consigo atingir a sua genialidade. Tenho vindo a verificar que, como eu, há muitos mais, de tal forma que começo a perguntar-me se o extenso universo dos seus leitores não será em parte constituído por um bando de atrasados mentais que vão insistindo em comprar o mais recente romance, na esperança de que sejam finalmente iluminados pela capacidade, motivação e resiliência necessárias para o ler de fio a pavio.
Não é que isso importe muito. Afinal ele está "a trabalhar para daqui a quinhentos anos." Mas eu confesso que, contemplando a fileira de livros na minha estante, guardo a secreta esperança de, antes disso, conseguir entrar nesse clube selecto dos que verdadeiramente compreendem e apreciam a sua obra monumental.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Ó gente da minha terra

Aceitámos um simpático convite para ir ver a Mariza no CCB.
Tal como eu, imagino que grande parte dos presentes nunca tinha visto a Mariza ao vivo, quem sabe não tem em casa um só album para amostra. Tal como eu, para além da motivação subjacente ao convite, terão ido movidos pela oportunidade irrecusável de verificar, afinal, o que é que ali se passa.
E passa-se muito. Mariza, com muita graça, versatilidade e talento, uma presença imensa, de mansinho mas decisivamente, soube conquistar como ninguém este público talvez improvável, pondo o Grande Auditório em peso (e se estava cheio!) a cantar em rendição incondicional. Com muito encanto e paixão.
De como se rejuvenesce o fado, transfigurando-o para o oferecer na sua pureza original.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Profissão de Fé

É curioso que tanta gente que foi educada pela via católica, em especial aqueles que estudaram em colégios religiosos, apregoem depois, adultos feitos, o afastamento da Igreja e a concomitante libertação de todas as crenças religiosas e até espirituais. Compreendo perfeitamente, em certos contextos, o dito afastamento das instituições religiosas e não posso deixar de sentir que foi uma sorte não ter tido que lutar contra esse tipo de imposições enquanto jovem em busca de respostas.
A renuncia à fé parece ser nestes casos encarada como uma evolução da mente, um amadurecimento do ser, uma descoberta da verdade escondida atrás de anos e anos de pregações, como a criança que, na crescente percepção do mundo que a rodeia, vê confirmadas as suas suspeitas de que o Pai Natal não existe.
Em alguns casos estas declarações de agnosticismo (no mínimo), vêm acompanhadas de uns laivos de superioridade intelectual em face daqueles que, a contrario, parecem depender de "muletas" espirituais para explicar a vida e encarar o mundo. Como se a descrença fosse o ponto de chegada lógico, o corolário do raciocínio informado, lúcido, inteligente e, sobretudo, não influenciado.
Compreendo perfeitamente, repito. Mas, para além de me parecer um bocado vazia e limitada esta ideia incrédula da vida, não deveriam a dúvida e a descrença ser o ponto de partida para o conhecimento, seja de que natureza for, e não, e nunca, o ponto de chegada? Não será a tábua rasa a base a partir da qual partimos para a exploração de todas as possibilidades, com o entusiasmo próprio de quem acredita poder chegar muito mais além?

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Mais uma vez o hino nacional

A propósito da capacidade lusitana para cantar com sentimento o hino nacional, que muitos julgavam perdida (leia-se o post abaixo "Euforias"), vejam AQUI mais um magnífico exemplo de que nem tudo está perdido, a propósito da selecção nacional de râguebi, num excelente post do "A Terceira Noite".

Confesso que às vezes me envergonho desta minha inclinação para dizer mal do nosso povo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

"Sofrer os tormentos das lembranças felizes"

Esta frase é atribuida a Henry James por David Lodge em "Autor, Autor" e por essa via se atravessou no meu caminho - muito a propósito da viagem ao passado empreendida recentemente por um grupo de amigos (pergunto-me se já me qualifico para usar a expressão "velhos" amigos), companheiros do final da adolescência, reunidos em torno da morte de um dos nossos.
Não participei desses encontros, por motivos muito prosaicos, mas chegou-me com força imensa o eco dessa recordação colectiva que, entre presentes e ausentes, a todos reuniu. A impressão foi muito forte, sem dúvida porque se reporta a essa altura da vida de tão grande efervescência, mas talvez também porque isto nos atingiu num momento em que começamos a olhar para o percurso feito e a perguntarmo-nos se alcançámos ou estaremos porventura em vias de alcançar os nossos sonhos de então.
Parece que as lembranças felizes que carregamos têm esta dupla faceta de nos preencher, acalentar e fazer sorrir e, quando o momento é propício, atormentar. Oportuno é sem dúvida o momento do confronto entre quem éramos e quem somos agora e, inevitavelmente, o que (e quem) deixámos pelo caminho. O veridicto que realmente conta é aquele pronunciado no silêncio interno de cada um de nós.
A frase citada vem na verdade a propósito de muito mais. Afinal somos a soma das nossas lembranças, mas acontece que alguns de nós teimam em lembrar-se mais intensamente do que os outros.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Quem corre por gosto...

Quando nos propomos fazer uma coisa que não passaria pela cabeça da maior parte das pessoas estamos condenados a ouvir comentários insidiosos tipo: o problema vai ser quando...; isso vai ser mau porque...; nem sabes no que te estás a meter; ou o pior de todos: não vais aguentar muito tempo.
Acho que esta é uma atitude tipicamente portuguesa. Reconheço, no entanto, que é um vício muito meu classificar todas as atitudes negativas, pobres de espírito e, suspeito eu, invejosas, como tipicamente lusas. É que teimo na esperança de que por esse mundo fora as pessoas sejam um bocadinho menos derrotistas.
Mas afinal qual é o problema de nos sujeitarmos a incómodos quando o fazemos voluntariamente e por uma causa em que acreditamos firmemente? É preciso não esquecer que o inferno de uns é o paraíso de outros e vice-versa e portanto a medida do incómodo e a do beneficio podem situar-se em escalas muito distintas.
Certo é que, de uma forma geral, cada uma das pessoas à minha volta reagiu mais ou menos como eu esperava, como sempre têm reagido ao longo da minha vida. Nada de muito novo, mas é sempre muito bom quando, aqui e acolá, obtemos reacções refrescantes que nos recordam porque é que nos sentimos muito mais próximos de uns do que dos outros. Por vezes é simplesmente comovente ouvir um sincero "good for you!"

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Guincho

No Sábado esteve uma daquelas manhãs de Guincho que só acontecem um par de vezes por ano. Um privilégio. Para o aproveitar há que chegar bem cedo e sair quando os restantes 90%, acordando para a realidade, começam a chegar.
Quando o Guincho é bom, é magnífico. E um banho naquele mar devolve um gajo à vida.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Diversão

Puro divertimento é dançar até de madrugada.
Este ano tive duas oportunidades bem aproveitadas. Foram poucas, talvez, mas foram muito boas.

Sentidos

O sentido que melhor desperta em mim memórias escondidas nas pregas do tempo é o olfacto. Logo a seguir é a música. Qualquer uma das inúmeras amarradas a um momento que é inexorávelmente seu.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O alcance da vida - a década dos trinta (I)

Chega uma época na vida da maioria das pessoas em que aparentemente foi ultrapassada a grande linha divisória: a que divide a idade da aprendizagem, da descoberta, das estradas em aberto, em suma, da formação da personalidade e a do "sou assim e já não mudo, quem quiser que me ature". Posso compreender esta atitude e concordar até, numa certa medida, com ela. Na justa medida em que é desejável que cheguemos ao ponto de não perdermos muito tempo a pensar sobre o que pensam de nós.
A década dos trinta pode assim ser vista como a grande época da sedimentação: das características, das atitudes, das graças, dos humores, dos pequenos vícios e dos defeitos, tudo por forma a entrarmos nos quarenta seguros das nossas capacidades e limitações. Até porque nesta época, muitos de nós estão já preocupados com a formação dos descendentes, aplicados na tarefa hercúlea de fazer deles pessoas melhores do que nós. Connosco já pouco ou nada haverá a fazer.... Será assim?
Prefiro acreditar que não. Parece-me desejável que até ao último instante da minha vida me seja permitido crescer e, se for o caso, mudar. Mudar-me a mim, entenda-se, que isso de mudar os outros é pura fantasia. Afinal não iremos sempre a tempo de corrigir um defeito (ele há tantos), limar uma aresta, compor uma atitude? Sobretudo, não iremos sempre a tempo de nos maravilharmos com o que a vida ainda pode fazer por nós (e nós por ela)?
Nesse sentido a década dos trinta será uma boa época para reflectir sobre o que é que vale a pena guardar, alterar e, ainda e sempre, construir. Fazermos de nós próprios pessoas melhores, se acaso for esse um dos motores que nos move.
A bagagem que carregamos na aproximação aos temiveis quarenta já vai sendo pesada e há que seleccionar o que queremos levar connosco neste eterno princípio do resto das nossas vidas. Tarefa nada nada fácil.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O alcance da vida - a década dos trinta (ou o princípio da conclusão do tríptico)

De todas as virtudes cuja importância tenho vindo a descobrir e que, nesta década da minha vida, tenho-me esforçado por compreender e trabalhar, julgo que a fundamental, a que encima todas as outras e nos permite aflorar a plenitude humana é o perdão. Sim, o perdão, ou a capacidade de perdoar. É também, como não poderia deixar de ser, a mais dificil de atingir.
A capacidade de perdoar permite-nos ser pura e plenamente livres. E não, não faz de nós palermas ou trouxas, mas simplesmente pessoas maiores.
Não será em vão que é o cerne da Paixão de Cristo.

Poemário

Bem sei que aquele poema está ali há muito tempo, mas sempre que penso em colocar um novo não me apetece tirar este. Cada dia leio nele algo de novo e assim se mantém vivo e com significado. Me gusta.
(referência ao poema de E. A. "Pela manhã de junho...")

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Time Out

Por breves instantes ou grande pedaços seria bom poder gritar alto e pára o baile, aqui me apeio, vou ali comprar cigarros e não sei quando volto, prossigam sem mim.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Tribute

I hadn´t seen Pedro for almost two decades, ever since we finished highschool together. He was not, however, someone anyone could ever forget. His face, his voice, his joy and especially his keen interest in people have been very present to me this past month, and I am very glad to have been his friend. I will be still remembering him in another two decades and am sure that his spirit will go on living within his family and friends.

August 19, 2007

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Evasão

Dizem que trabalhar em Lisboa em Agosto é bestial. As vantagens são claras, nem vale a pena enunciá-las. Mas, bolas, no fundo é cá uma depressão estar fechada na cidade deserta, com duas crianças entre quatro paredes, quando o resto do país está a banhos! O Jardim da Estrela não tem graça nenhuma comparado com os castelos na areia e as ondas a rebentarem por cima - e a consciência do sacrificio assim imposto à prole não me permite usufruir das sabidas vantagens. Percebo o privilégio da minha infância e juventude com Verões de três meses seguidos de sol, mar e pura diversão.
Amanhã evadir-nos-emos (novamente)! Até mais ver, Lisboa.

domingo, 22 de julho de 2007

pára; recomeça

Os anos, para mim, sempre se pautaram pelo calendário escolar e, mais tarde, calhou também ser pelo correspondente calendário judicial. Considero que nesta época termina mais um ano, sendo as férias de verão o tempo off, da transição, para dar à corda e recomeçar.
Ao longo dos últimos anos, imersa na rotina diária de crianças/trabalho/casa (concretamente, neste que acaba: casa/escola/escritório/casa/escritório/escola/casa), sinto por vezes que nada de verdadeiramente extraordinário me acontece. A vida encheu-se de rotinas, de horários e tarefas a cumprir e não parece sobrar tempo nem energia para acontecimentos novos e excitantes. Em termos gerais, é disso que me tenho queixado nos últimos tempos.
Olhando agora com olhos de ver, reparo que estou a tomar a parte pelo todo. Estive embrenhada nas árvores e não vi a floresta. Observando à devida distância, concluo que o meu ano que começou em Setembro foi, afinal, extraordináriamente preenchido. De coisas boas, de coisas más, de coisas subtis mas importantes, que se desenvolveram sem bem delas me aperceber - como acontece com tantas coisas fundamentais. Tenho cá a impressão que este ano que acaba vai ser para recordar.
Sinto que em Setembro inauguro uma nova página. Para começar, a minha rotina vai-se complicar ainda mais, com o possível benefício (?) de uma mudança de ares. Quanto ao resto, estamos cá para (vi)ver.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Um português

Os trágicos acidentes que acontecem pelo mundo fora atingem-nos, suponho eu, em função dos laços que nos possam unir às circunstâncias, ao lugar, aos intervenientes. Extrapolando, imagino que um desastre de avião como o que aconteceu em São Paulo atinge o comum dos cidadãos portugueses na justa medida de um "que horror!", seguido de uns instantes em que nos imaginamos naquelas terríveis circunstâncias - nós ou alguém que nos seja próximo.
Todo viajamos de avião e nessa medida todos - por um momento - nos deixamos impressionar por estas mortes trágicas.
Nos três anos e meio que vivi em São Paulo, várias vezes aterrei no aeroporto de Congonhas, aquele que serve os voos domésticos de e para a grande cidade e que, aliás, se situa dentro dela. Várias vezes o fiz nos aviões da TAM. Nessa medida, talvez a minha exclamação de horror tenha sido mais sentida e os pensamentos associados mais duradouros, ilustrados, que foram, por imagens muito precisas do lugar - desde o terminal do aeroporto até à Av. Washington Luís. Por brevissimos instantes imaginei que poderia conhecer algum dos passageiros, o que, afinal e pensando bem, naquele universo de milhões seria altamente improvável.
Adiante.
Hoje de manhã, na praia (sim, em férias!), encontrei a mãe de uma colega minha dos últimos anos do ensino secundário. Conversa para cá, conversa para lá e de repente a senhora, regressando de junto da sua toalha, diz que acabou de falar com a filha que estava muito abalada pois tinha acabado de saber que o português que morreu no acidente em São Paulo, era, afinal, um nosso colega de turma, dos ditos anos.
Desde essa hora a cara do Pedro não me sai dos olhos. Afinal a minha ligação com as circunstâncias e o lugar revelaram-se perfeitamente irrelevantes (o facto de ele se encontrar em São Paulo foi meramente circunstancial), para dar lugar ao que verdadeiramente importa.
Aqueles anos de escola foram substancialmente importantes para mim. Porque mudei de escola e assim me dei a mim própria a oportunidade de começar um página em branco. Porque formámos um grupo muito unido, dentro e fora da escola. Porque tenho muitas, muitas e importantes recordações associadas àquele grupo de pessoas.
O Pedro tinha agora 37 anos e foi meu colega, meu companheiro de turma, de brincadeiras na sala de aulas, de conversas nos intervalos, de cafés nos cafés da rua, de tardes em casa uns dos outros.
Foi só um pouco mais tarde que me ocorreu: o Pedro foi também o primeiro rapaz que me beijou. Um par de beijos roubados numa dessas tardes, também eles meramente circunstanciais. Não marcaram em nada os três anos de convivência cerrada, nem marcam as minhas recordações dele, mas constituiram, bem vistas as coisas, um marco na minha vida. Mais de vinte anos depois, consigo perfeitamente reproduzir a memória - a memória de um breve momento secreto de que sou agora única e fiel depositária.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Falar de cor

A propósito do poema de Jacques Prévert, que publiquei na semana passada, veio-me à memória o nó no estômago quando me calhava a vez de perfilar-me no estrado, de costas para o quadro (verde, não negro), em dia de recitation. Esta prática arreigada no ensino francês, aplicada desde a mais tenra infância, fez bastante pela minha capacidade de memória (ainda hoje quantos poemas sei de cor), mas muito pouco pelo meu à vontade para falar em público.
Recordação puxa recordação e segue-se a do frio na barriga enquanto palmilhava os corredores da faculdade à espera que fosse pronunciado o meu nome à porta da sala onde, publicamente, seria questionada sobre o alcançe da minha sabedoria. Os resultados supreendentemente positivos, com excepção de um par de momentos de humilhação extrema (que em muito contribuiram para a experiência como um todo), proporcionaram, a final, alguma satisfação interna mas pouco acrescentaram ao meu (não) à vontade para falar em público.
O caminho faz-se andando e foi ao longo da minha construção profissional que ganhou substância a percepção de que tão preto, respeitável e indiciador de sabedoria era o meu hábito quanto o dos meus pares e que, no final das contas, não é ele que faz o monge. No culminar de uma série de "espera aí, mas afinal?", e de "eh pá, mas este tipo não sabe o que diz", pronunciados internamente, num rasgo final de compreensão, percebi que, na maior parte dos casos, a malta apenas aprendeu a disfarçar melhor ou pior a sua própria pusilanimidade e que infelizmente, em muitos desses casos, não fez os trabalhos de casa.
É triste dizê-lo, mas isto sim fez maravilhas pelo meu à vontade em expressar-me perante os meus interlocutores.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Euforias

Achei graça à seguinte afirmação, feita por Isabel Stilwell na edição de hoje do diário gatuito com maior tiragem nacional (que, como é política do próprio, me veio parar às mãos num breve interlúdio), a propósito do protagonismo súbito da figura que anda nas bocas - gratuitas ou não - do país:
" ... conclui-se que os portugueses sofrem todos de doença bipolar: só conhecem a depressão ou a euforia incontroláveis."
Parece-me um diágnostico acertado e lembra-me um episódio que se passou nos tempos idos da Expo 98, vinha eu num autocarro do circuito interno em direcção à saída norte, apinhado de jovens numa madrugada quando acabavam de encerrar os bares na zona sul (lembram-se do Bugix?): de súbito e numa explosão de espontaneidade inusitada, a malta, inebriada por uma noite de copos mas sobretudo pelo clima de euforia e orgulho nacional que se vivia a propósito da exibição portuguesa, larga a cantar o hino nacional, em uníssono, alto e bom som.
Mais, cantam-no do princípio ao fim, sem arrepiarem caminho em envergonhado complexo lusitano, nem rirem de si próprios e dos semelhantes, provando erradas várias teorias, entre as quais a que defende que os nossos jovens já nem sabem o hino de cor.
Surto maníaco só comparável ao que se viveu mais tarde no Euro 2004.
Infelizmente e como é próprio da doença (digo eu que sou absolutamente leiga na matéria), uma euforia perfeitamente insustentável e insubsistente.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Galo!

Distraída que sou, só agora descobri que a Aimee Mann vai estar no Coliseu de Lisboa no dia 25 de Julho...... e eu vou estar fora, em férias !

terça-feira, 26 de junho de 2007

Noite de São João


Grande folia! Porto rules.

(haja tempo para rabiscar uma reportagem)

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Incoerências

Acho extraordinário que na linguagem corrente o oposto de "maior" seja "mais pequeno". "Mais pequeno" é um "mais grande" que teve o privilégio do beneplácito cultural, e esta discriminação não tem compreensão possível. Não admira que as crianças fiquem confundidas.
Neste aspecto, os brasileiros é que sabem: dizer "mais pequeno" em vez de "menor" constitui uma gafe inqualificável (igualável, para nós, a dizermos "mais grande") - e eu só percebi isso um bom tempo depois de lá estar.

Solstício de Verão

Hoje acontece o Solstício, momento em que o Sol, durante o seu movimento aparente na esfera celeste, atinge o maior afastamento, em latitude, da linha do equador (in Wikipédia). Trocado em miúdos, aqui no Hemisfério Norte significa que o Sol fica a pino e que este é o maior dia do ano (e, em reverso, a menor noite). Aproveitem-no bem!

terça-feira, 19 de junho de 2007

As portas do Verão

Há alguns anos que nem uma sardinha assada na época dos Santos Populares. Tenho saudades do convívio das mesas garridas em equilíbrio instável nas calçadas de Alfama, memórias intrínsecas ao imaginário de qualquer lisboeta que se preze. O ar morno sobre a Lisboa das esplanadas em degraus até ao rio. Concluo que ando muito nostálgica, talvez seja este tempo que não ata nem desata e nunca mais soa a partida para a soltura do Verão. A propósito, recordo uma celebração do solstício, embebida em branco e partilhando vistas no Adamastor, o espírito aberto à abundância das possibilidades estivais.
Mas vem aí o S. João e eis o inesperado convite para celebrá-lo... no Porto. Melhor, a navegar no Douro, com vista sobre o Porto e em boa companhia. Eis o meu prenúncio de Verão para este ano. E tenho para mim, apesar de estreante, que não faltarão as sardinhas.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Magnolia

São Paulo, ano 2000. Um filme surpreendente, avassalador. Uma banda sonora extraordinária. Vantagens de se viver numa cidade cosmopolita: no dia seguinte fui à mega FNAC e comprei a banda sonora, quase exclusivamente da Aimee Mann. Tinha absolutamente que a ouvir e não fiz outra coisa nas semanas seguintes, uma e outra e outra vez em longos serões solitários naquela cidade de 16 milhões + 2. Oiço-a até hoje.
Foi editado em Portugal, alguns anos mais tarde, um CD da Aimee Mann que cá fez chegar as mesmíssimas músicas. Quem terá estabelecido a relação com o filme? Para mim serão sempre indissociáveis e absolutamente memoráveis, ao ponto de não ter tido (ainda) a coragem de tornar a ver o filme.
Aqui fica a sequência dele extraída. Uma das muitas que se me cravaram na memória.
A vida é uma colecção de momentos marcantes.

Magnolia - Wise Up

segunda-feira, 4 de junho de 2007

sexta-feira, 1 de junho de 2007


Em busca de jacarandás no deserto de Marrocos?

quarta-feira, 30 de maio de 2007

A Vida é Bela

Este ano tenho vindo a reparar nos jacarandás em flor que sarapintam as ruas de Lisboa. Talvez motivada pelo contraste, pouco habitual, com o cinzento do tempo, ou porque entre duas primaveras quase me esqueço da sua surpreendente beleza. Aqui perto, lembro-me agora, ano após ano é-me dado a apreciar o grupo dos que ladeiam o Parque Eduardo VII. Mas esta manhã detive-me em admiração (pelos breves instantes de um sinal vermelho) da mancha de côr florida ao fundo da D. João V, quase a desembocar no Largo do Rato.
A ver se consigo reproduzi-la em fotografia.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

sexta-feira, 25 de maio de 2007

A propósito do preconceito

Se há coisa que me tem dado gozo na vida é ir largando, um a um, o amontoar de preconceitos que adquiri desde a mais tenra infância. Nesta era da informação e da comunicação, toda a gente emite opiniões sobre todas as coisas e torna-se inevitável que formemos ideias que derivam de outras ideias e não do conhecimento próprio. Por outro lado, se é certo que a memória e, consequentemente, o conhecimento acumulado, é que nos tornam seres inteligentes, seria bom não caírmos na tentação de ficarmos agarrados às ideias que formámos num dado momento, sem reparar que as situações raramente se repetem - e nem as pessoas.
Trocar os conceitos já embalados pelas ideias cozinhadas no forno lento da experiência e conhecimento sempre renovados não se afigura tarefa fácil. O segredo para olhar os outros com olhos de ver está na receita: sobre uma tábua rasa de expectativas, juntar uma grande porção de interesse com outra, igualmente farta, de boa vontade, um punhado de observação e uma pitada de humildade. Misturar energicamente e deixar fermentar longas horas, permitindo assim que se apurem as matérias primas. O resultado pode ser surpreendente ou terrivelmente decepcionante, dependendo da relação entre o sabor final e o nosso paladar. O melhor de tudo é descobrir as complexidades da combinação de sabores.
Neste caminho de descobrimento, vezes sem conta tive que me conter, que me corrigir, olhar outra vez e melhor, repensar, querer saber mais, arriscar, surpreender-me e decepcionar-me, arrepender-me, pedir desculpa e sobretudo gastar o tempo suficiente para olhar para as pessoas. A maior parte da vezes não foi tempo perdido. Talvez por isso mesmo levo um bocado a mal quando os outros me avaliam pelo que aparento ser, o que, com maior frequência do que aquela que eu gostaria, os induz em erro. Não é que eu ande por aí a querer parecer o que não sou, acontece é que nunca percebi muito bem como ajustar o exterior ao que contenho dentro. Parece-me sempre que não há guarda roupa que chegue para o que me vai na alma, nem estilo que possa conter o essencial de mim, nem postura que me sirva como luva. Suponho que a maioria das pessoas acaba por se fixar numa imagem com que se identifica, quer seja porque se sente bem com ela, quer seja porque é a que quer aparentar. Eu hesito, altero, tiro e ponho, mostro e disfarço, falo ou fico calada (principalmente fico calada) e falho tantas vezes em transpôr-me para o exterior. Falha-me o comentário pertinente no momento oportuno, fica-me o gesto suspenso no ar. E porque sou assim, vou-me esforçando sempre e cada vez mais por não avaliar o outro pela figura que apresenta ou representa e por vezes o esconde.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Do preconceito

O preconceito está em todo o lado. Existe aquela ideia (pré concebida) que as pessoas de um certo estrato social, mais conservador e de direita, digamos assim, são tendencialmente mais preconceituosas, e que aqueles que se apresentam como liberais, ou tendencialmente mais de esquerda, seriam isso mesmo: mais libertos de preconceitos e tolerantes para com as diferenças. Os anos de vida e sobretudo o facto de, ao longo desses anos ter tido a sorte e sobretudo o interesse inesgotável de me relacionar com gente de todos os estratos sociais, políticos e profissionais, levaram-me a concluir que esta ideia é um mito ou, pelo menos, um erro crasso.
De membros do Partido Comunista a adeptos ferrenhos do CDS-PP, de betinhos a artistas da teatro e cinema, de dondocas a professores universitários, de yuppies a gente de modesta profissão, de advogados a pintores, de activistas políticos a malta que só quer gozar a vida, de gente muito rica a gente remediada, em Portugal ou no estrangeiro onde vivi, brancos, negros ou mestiços, todas as pessoas que conheci com intimidade suficiente para poder avaliar desta questão dividem-se, transversalmente (e muito grosso modo) em dois grandes grupos: os preconceituosos, facciosos, sectários, intolerantes e os que não o são. Uns como os outros encontram-se em todos os meios, lugares e estilos.
Este é um tema que dá pano para mangas e que me tem dado o que pensar nos últimos tempos.
Divaguemos um pouco sobre o assunto...

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Crónica de uma viagem a Marrocos (III): a experiência do Hammam

Os Marroquinos têm a tradição dos banhos públicos, a que dão o nome de Hammam, espaço onde se deslocam regularmente (as mulheres durante o dia e os homens à noite) para limpeza e purificação do corpo. Trata-se de uma espécie de banhos turcos, onde o vapor e as águas se combinam com o uso de óleos essenciais e técnicas de exfoliação e massagem do corpo. Tivemos a sorte de poder viver esta experiência, a dois, pelas mãos de um dos mais reputados mestres na terapia antiga de tkisscla, Abdel Kader. Esta foi uma daquelas experiências únicas e marcantes, que perdura na memória para ser recordada e contada uma e outra vez.
O mestre Abdel Kader dirige um pequeno Hammam composto por 3 câmaras sumptuosas de mosaicos antigos e mármores síros. Na primeira sala, moderadamente quente, um tecto abobadado, formado sobre uma série de colunas, abriga uma pequena piscina central em pedra, retratada na foto abaixo. Ali somos convidados a despirmo-nos (integralmente ou ficando em traje de banho, dependendo do grau de pudor de cada um) e, em absoluto desconhecimento do que está para vir, já que sobre a experiência é mantida uma certa áurea de mistério, aguardamos breves segundos. O mestre Abdul, homem robusto de impressionante figura, faz então a sua aparição e convida-nos a entrar na segunda sala, só paredes e chão num espaço razoavelmente grande para, logo em seguida e numa progressão de calor, atravessando pesadas portas de madeira, penetrarmos na terceira câmara, igualmente despida. Aqui, do chão de laje preta e molhada desprende-se um calor intenso e envolvente. A expectativa transforma-se em quase espanto quando somos convidados a deitarmo-nos no chão despojado, entregando o corpo aos elementos primordiais: pedra, água e calor. Ali somos abandonados por alguns minutos afim de relaxarmos corpo e mente, para depois o mestre voltar à nossa presença, de balde de borracha preto na mão, que enche na imensa torneira de onde, com estretor, faz jorrar água límpida e abundante. É então que, num gesto cadenciado e sem pré-aviso, despeja o balde por sobre aquele de entre os dois que é automáticamente escolhido como o primeiro - o membro masculino do casal. É-me assim permitido observar, boquiaberta, enquanto o mestre Abdel baldeia o corpo estendido no chão a meu lado e depois, pegando numa pasta viscosa côr de azeitona (sabão de azeite, segundo julgo entender) ajoelha-se a seu lado e procede à lavagem, em gestos vigorosos, separando braços e pernas e depois pedindo-lhe que se vire de bruços. Terminado o ensaboamento, segue nova baldeação. Chega agora a minha vez de receber, de um só folego, o jorro de água que ainda assim me supreende pela temperatura que quase queima sem chegar a fazê-lo. O homem, ajoelhando-se agora a meu lado, ensaboa-me com vigor e sem falsos pudores, qual mãe zelosa que energicamente se atarefa no banho do filho. Novo balde de água em cima do corpo para, em seguida, pegar numa grande luva preta com a qual procede à exfoliação completa de cada um dos nossos corpos estendidos. Fá-lo com redobrado vigor, de forma a deixar a pele lisa e liberta das várias camadas de pele morta, que jaz no final em minúsculos montinhos espalhados pelos braços e pernas e que ele, quase triunfante, faz questão de apontar.
Um depois do outro, faz-nos então soerguer e, sentados no chão, baldeia-nos mais um par de vezes, permitindo-nos, assim, enxaguar os restos mortais da pele. É então que, puxando suave mas firmemente por braços e pernas, realiza uma série de alongamentos em todo a musculatura do corpo, com mestria e aparente domínio absoluto da técnica ancestral. E é precisamente a confiança o elemento vital quando, através de uma série de movimentos que não consigo descrever nem já bem recordar, me vejo alongada, presa pelas pernas, de cabeça para baixo, sobre as suas costas em arco. Pedindo-me agora para segurar firmemente os seus tornozelos, num só impulso surpreende-me com um movimento estilo flic-flac em que transfere para si todo o peso do meu corpo e provoca o mais intenso estiramento a que os meus músculos e esqueleto (em tempos sujeitos à prática regular do yoga) jamais foram sujeitos. Neste brevíssimo instante de pânico, angústia e dor, não posso impedir-me de soltar um grito para, dois segundos depois e já de pé no chão, rir em gargalhadas tão soltas quanto o estado da minha estrutura músculo-esquelética.
Dali seguimos para a sala da piscina onde um rápido mergulho na água fria conclui o processo de libertação de toda a tensão. Leves e bem dispostos, retornamos então à sala do meio, onde observamos, curiosos, enquanto o mestre, pegando em duas imensas laranja de um cesto a seus pés, as descasca com as mãos para em seguida, fazendo uso das mesmas, espremer-nos o sumo doce e aromático pelo pescoço abaixo. Em jeito de conclusão, deposita generosa dose de champô nas nossas mãos estendidas em concha, dando o mote final para procedermos à lavagem do cabelo, que depois enxaguamos num nicho de pedra, debaixo de duche quente e abundante. Num derradeiro gesto de atenção, ajuda-nos a vestir os roupões e despede-se com aperto de mão amável e fraterno.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

24

Para gáudio desta fã, a 6ª série do 24 estreou na Quarta-feira (22.40 na RTP2). Jack Bauer é o ultimate heroe e cumpre todos os requisitos do meu homem ideal: macho, inteligente, bonito, complexo, com valores éticos inquestionáveis, fiel às suas convicções, apaixonado. Sob a capa de durão sanguinário, adivinha-se-lhe uma enorme sensibilidade. Absolutamente irresistível.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Rectificando

Quem passou por aqui mais cedo poderá ter reparado que substitui o título dos post referentes à viagem a Marrocos. Antes falei em arábias, não no sentido geográfico, mas figurativo, da expressão das arábias, que significa lugar exótico, terra desconhecida. Se é certo que o povo autóctone - denominado de berbere - foi conquistado pelo povo árabe (presentemente a população é 60% árabe e 40% berbere, sendo que os últimos vivem fundamentalmente no campo e nas montanhas) e a língua oficial do país é o árabe clássico - o que me levou a considerar a expressão adequada - o país, bem o sabemos, é situado no norte de Africa. Corrigi-me para evitar imprecisões. Ainda que tenha plena consciência de que provavelmente não seria a primeira a constar deste blog.

Crónica de uma viagem a Marrocos (II) : a Medina

Marraquexe não é uma cidade bonita, e nem pretende sê-lo. A cultura tradicional reprova as exibições públicas de riqueza o que, em termos de arquitectura, se traduz em casas viradas para dentro, cujas paredes exteriores - sempre no tom rosa avermelhado do adobe - não são mais do que muros altos e pouco cuidados que escondem da vista alheia a intimidade familiar. A isto chamam eles l'architecture aveugle. A medina desenvolve-se em labirintos estreitos de paredes altas, onde se distribuem, de forma mais ou menos organizada, miniaturais oficinas de todos os tipos de artes tradicionais, cujo produto é depois vendido em pequenas lojas, os famosos souks, formando um conjunto de ruelas transbordantes de côr e de vida, fervilhantes de actividade.
No desembocar da viela mais estreita parece sempre esconder-se o mais fabuloso riad, casas de um certo luxo elaboradas em volta de pátios interiores, permanentemente frescos pela sombra, vegetação e fontes de água. Estes riads vêm sendo recuperados e transformados em pequenos hoteis, sendo certo que a cidade vive presentemente do turismo. Nesse mesmo sentido o municipio tem realizado un esforço louvável de limpeza e saneamento, com a pavimentação de toda a medina, pondo cobro à sujidade, à lama e à poeira.
O trânsito está mais ou menos vedado aos carros, mas ocasionalmente somos obrigados a fundirmo-nos com as paredes para deixarmos passar algum veículo de transporte - a motor ou puxado por um burro. O turista mais incauto corre ainda sérios riscos de ser atropelado pelas pequenas motas que circulam desvairadamente em todos os sentidos.
Claro que os turistas - essa praga na qual não deixamos de nos incluir - chegam a todo o lado, criando em volta as mais variadas ofertas de serviços e bric-à-bracs. Apesar disso, ainda é possível deambular pela cidade velha sem nos deixarmos perturbar, bastando para tanto munirmo-nos de um sorriso franco e um leve sacudir da cabeça: non, merci. Sem insistências.
Pelas ruelas menos turísticas encontram-se pequenos mercados de carne e peixe, legumes e frutas, amontoados pelo chão em tapetes de cores e aromas intensos onde, pela manhã, mulheres com crianças pequenas pela mão se atarefam nas compras domésticas. Esta é a hora ideal para nos atardarmos pelas ruas e becos da medina, à margem do burburinho de curiosos. Afinal, os marrakchi, ou naturais de Marraquexe, habitam e vivem plenamente o labirinto urbano onde, com a devida calma e contemplação, nos deparamos com uma vivência ainda autêntica.








segunda-feira, 7 de maio de 2007

Crónica de uma viagem a Marrocos (I)

Não há nada melhor para apreciar alguma coisa do que não criar demasiadas expectativas sobre ela. Alguns comentários feitos neste blog arrefeceram-me um pouco os entusiasmos em relação à cidade de Marraquexe. Por outro lado, existe esta coisa muito portuguesa de empolar as maravilhas das viagens, numa atitude um pouco infantil, acho eu, de causar inveja aos que por cá ficaram. Vacinada contra tal fenómeno, tento sempre partir com a mente aberta e despida de preconceitos, preparada para o melhor e o pior. Assim fiz e alegro-me de poder dizer que o balanço da viagem a Marrocos é muito positivo.
Foi o meu primeiro contacto real com o mundo muçulmano e essa foi sem dúvida a experiência mais marcante. Marrocos é um verdadeiro choque de cultura. Toda a realidade está impregnada pela cultura do povo árabe e berbere: para além da língua e da prática religiosa, há os rostos e as roupas, há as casas, há as comidas, os cheiros e os sabores. Uma incursão pelas ruelas estreitas da medina conduz-nos para bem longe do universo moderno e ocidentalizado a que estamos habituados. Não fossem os turistas, poderiamos crer ter entrado noutra dimensão, noutro tempo.
Impressionou-me particularmente no povo marroquino um certo estado de espírito, que poderei definir como uma serenidade, uma calma interior, que se adivinham no gesto cortês e no sorriso gentil. E depois no olhar. Foi muito fácil esquecer-me da pressa e das solicitações de uma vida ocupada para mergulhar nesse universo em que o tempo tem outra dimensão. Parece haver vagar para tudo, desde as cinco orações diárias à confecção do prato tradicional, a tagine, espécie de guisado em fogo lento, que permite a conservação dos sucos e dos aromas. E sobra ainda e sempre tempo para apreciar o chá de menta adocicado, oferecido em gesto de boas vindas ou no culminar de voluptuosa refeição.
Apesar (ou não) do imenso gap cultural, senti-me bem, muito bem. Posso dizer que, com toda a naturalidade e todo o vagar, me impregnei da almejada serenidade.

sábado, 5 de maio de 2007

Marrakech-Lisboa via Casablanca ou introdução à crónica de uma viagem a Marrocos

A minha viagem ja esta a terminar e so agora consigo postar! O MAC do hotel não serviu os meus propositos: incompatibilidades de teclados, so agora percebi que estava a digitar mal o codigo. Eis-me pois em Casablanca, em transito para casa, com algum tempo para gastar e um teclado AZERT sem acento grave. Bof, pas grave.
Esta foi a minha terceira incursão em Africa, mas uma Africa em tudo diferente da que eu conhecia, porque é afinal árabe: na raça, na lingua e na religião. Nestes tempos conturbados, podemos olhar para o Islão com desconfiança, mas Marrocos faz prova de um Islão aberto e tolerante, como todas as religiões deveriam de ser. Devo alias confessar que ha qualquer coisa de fascinante no chamamento que ecoa por sobre os telhados da cidade muçulmana, quando os muezzins, subindo aos minaretes das mesquitas, convidam à oração. Cinco vezes ao dia, onde quer que estejamos, somos lembrados de onde estamos. Bastaria apenas isto, mas são tambem as cores, os rostos, os cheiros e os sabores. De outro mundo. Um outro mundo que não se resume num post em transito.
Ah, e bendita a bela lingua francesa.
A bientot.
Inch'allah.


segunda-feira, 30 de abril de 2007

La ville rouge

Parto amanhã cedo para Marraquexe. O tempo escasseou para fazer os trabalhos de casa, parece-me portanto que vou na versão "à descoberta". Não sei se vou conseguir "postar" de lá, depois se verá.
Até breve.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

E anda !

A minha filha começou a andar na passada sexta-feira. Mesmo para quem já viveu a experiência com um primeiro filho, este é um daqueles momentos extraordinários na vida de uma mãe (e pai). É quase indescritível a magia do momento em que eles, recusando qualquer apoio, num rasgo de autonomia e sustentados por nada mais do que uma surpreendente bravura e confiança, se aventuram nos primeiros passinhos. No caso dela, passámos o último mês na expectativa do grande acontecimento. Quando finalmente se produziu o fenómeno, não pude impedir-me de suster a respiração, muda e incrédula perante o gesto e, uma vez concluido o feito homérico dos primeiros quatro ou cinco passos, dar vivas de euforia, numa união perfeita de sentimentos entre ambas: o orgulho de mãe só superado pela alegria da filhota que não cabia em si de contente por tamanha conquista. E é assim mesmo que a coisa se passa: um belo dia levantam-se e andam.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Insomnia

Tenho insónias desde que me lembro. Lembro-me distintamente de ficar acordada na cama (de grades), olhando para o tecto e sentido a presença da minha irmã que dormia na cama do outro lado do quarto, quarto de uma casa que deixámos quando eu tinha 4 anos. A medida do tempo é uma coisa bastante imprecisa para uma criança de três anos, de tal forma que não posso ter a certeza da extensão das minhas primeiras insónias. Podiam ser apenas breves momentos antes de adormecer, mas deixaram uma recordação importante: terão sido o despontar infantil de uma infinitude de reflexões noctívagas ao longo da minha vida. O que acontece é que esse tempo que medeia entre o pousar a cabeça na almofada e deixar-me dormir pode durar uma, duas, três horas, ou até de madrugada. Tudo depende do meu nível de ansiedade, das ideias que ando a ruminar ou, simplesmente, da coincidência de surgir um pensamento que me distrai logo no início da noite. Uma vez engrenado o mecanismo da ruminação cogitativa, parece que ganha vida própria e é muito difícil de travar. Como tenho um medo irracional dos comprimidos, nunca tratei quimicamente as minhas insónias. Surpreendentemente, o advento da maternidade, numa primeira fase e ao contrário da experiência geral, revelou-se a mais eficaz panaceia, pois quando se passam semanas a dormir em ciclos de hora e meia (e com sorte se completam 3 ciclos por noite), a passagem da vigília ao sono profundo dá-se em questão de segundos e em quaisquer condições. É uma questão de sobrevivência. Cheguei pois à conclusão que é tudo matemática: as minhas cogitações não permitem mais do que uma medida certa de horas de sono por semana, o que muito me aborrece porque, paradoxalmente, eu adoro dormir. Gosto sobretudo do sono da manhã, aquele em que sonhos e realidade se tocam suavemente. É certo que as longas manhãs de sono preguiçoso nos fins-de-semana de solteira voltavam para me castigar em penosa vigília nocturna durante a semana. Agora que já não há manhãs de preguiça, sou recompensada com um cansaço endémico que me limita a resistência meditabunda. Não quer isto dizer que esteja curada: ainda ontem tive uma noite difícil, o que, bem vistas as coisas, não é assim tão mau. De outra forma já não saberia quem sou.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Calmaria


Estou a contemplar a absoluta serenidade do Oceano Indico, em Krabi, no sul da Tailândia. No horizonte, a ténue sombra (imperceptível na foto) das ilhas Phi-Phi. Foram os primeiros dias do mês de Dezembro de 2004, apenas uma vintena deles antes do Tsunami que arrasou com tudo. Deu-me o que pensar.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Destinos

A propósito de viagens e de culturas diferentes (vide comentários a "To Escape"), não concordar com a realidade de um país pode ser um motivo perfeitamente legítimo para não o visitar, mas o contrário também é de considerar. Há quem defenda que fazer turismo num lugar onde as liberdades fundamentais são cerceadas é de alguma forma pactuar com o status quo e, no caso dos regimes totalitários, abonar os cofres dos seus dirigentes. Há, por exemplo, um movimento que defende o bloqueio do turismo a Myanmar, antiga Birmânia, onde uma junta militar gere os destinos do país e a dirigente do partido da oposição (Liga Nacional para a Democracia) Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz, vive em prisão domiciliária. Apesar da LND ter vencido nas urnas, o regime militar nunca reconheceu os resultados das eleições legislativas.
Tudo isto para dizer que, não concordando com o bloqueio turistico, já que me parece que isolar uma população inteira de todo e qualquer contacto com o mundo em geral não ajuda em nada, visitei Myanmar em 2004, era ainda Yangon a capital. Foi uma viagem muito especial.
O budismo é a religião prevalecente e Myanmar é um dos países com maior população de monges budistas. É interessante que uma parte significativa dos jovens dedica alguns anos da sua vida à religão, ingressando num mosteiro, para depois seguir o curso da vida cá fora.

Fica aqui uma foto de um grupo de monjas com que me cruzei em Mandalay. Uma vez por dia, pela hora do almoço, vão de casa em casa para receber alimentos, já que a religião não permite que os adquiram ou armazenem. Os monges e monjas são muito respeitados e a comunidade provê às suas necessidades básicas. Com uma dignidade impressionante.


quarta-feira, 11 de abril de 2007

O alcance da vida - a década dos vinte

Entre os 20 e os 30 anos aconteceram-me muitas coisas. Devo dizer que as vivências dessa década excederam em muito as mais ambiciosas expectativas da minha pacata adolescência. Foi como se de repente tivesse metido por um desvio da estrada e penetrado um deslumbrante mundo novo. Explorei, explorei muito, não fosse um dia arrepender-me do que deixei de fazer.
Foi a época da descoberta – do Eu e do Outro e depois de mim através do outro. A minha bagagem aumentou substancialmente e, como todos nós, transformei-me na soma de muitas coisas: partindo da reconhecida herança genética e dos dados adquiridos desde a mais tenra infância (por adesão ou por rejeição), acrescentei ao longo desses anos o produto intenso de todas as minhas vivências: encontros e desencontros, alegrias e sofrimentos, certezas e angústias, interrogações, sonhos e descobertas, deslumbramentos, paixões e enamoramentos, mágoas e desilusões, enfim, a memória de muitos e muitos momentos que fazem a vivência única de cada ser humano. Tive sorte, tive muita sorte. Ainda que sem dar por isso, uma e outra vez encontrei a pessoa certa no momento certo, ou a errada no momento próprio, o livro que semeou a dúvida e me manteve atenta e aquele que abriu novos horizontes quando esgotei os velhos, a janela aberta quando se fechava a porta e os sinais claros do caminho a não tomar. Acima de tudo, um instinto que sempre me orientou o percurso.
Foi então que percebi que a soma de tudo isto não equivalia, qual fórmula matemáticamente demonstrável, a mim. Ainda que pudesse indentificar as manias que herdara e as características do meu grupo, os conceitos, os medos, as dúvidas e as certezas adquiridas ao longo do caminho, Eu era mais, muito mais: um conjunto de valores que formam a minha identidade e não reconheço em quem me formou, um punhado de convicções nascidas não sei bem de onde, uma mão cheia de intuições, algumas certezas inexplicáveis, pequenos momentos de intensa luz.
Coisas que, ao observador mais céptico, arrancariam um rol de explicações palpáveis ou talvez um mero encolher dos ombros.

Cá por mim, algures entre os 16 e os 20 e poucos anos percebi (ou escolhi acreditar) que o Eu não se traduz afinal na redutora soma do corpo e da mente, antes contém em si mesmo algo de muito mais fundamental, que transcende a mera existência biológica, é transversal ao tempo e ao espaço, existe antes da vida e para além dela segue vivendo. Dá pelo nome de alma.
Esta é a descoberta que abre todas as possibilidades...

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O alcance da vida - os anos "teens"

Quando tinha 16 anos, achava, sem qualquer hesitação, que a vida se resumia àquilo que é dado ver, sentir e pensar, ou seja, nada mais do que Eu e o mundo à minha volta: o Eu sendo a soma do corpo físico e da mente e a mente, por sua vez, o produto de vivências, traduzidas em ideias, condensadas em impulsos eléctricos circulando por entre as células cerebrais. Uma visão perfeitamente positivista da realidade. A morte significava o simples desligar do interruptor, o cessar das funções biológicas e, logo, de todo e qualquer pensamento, um puuuuffff... seguido da escuridão total, o vazio, a inexistência. A morte do cérebro acarretando o termo do seu produto, ou seja, de toda e qualquer ideia ou pensamento; hoje estou aqui e sou, cogito ergo sum, mas amanhã acabou-se, restando somente a possibilidade da memória de mim entre os vivos. A procura de explicações transcendentais parecia-me inútil, uma negação vã do fim de tudo.
Depois cresci mais um bocadinho...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Rumo...


... ao Sul

quarta-feira, 28 de março de 2007

To escape

A expectativa de uma viagem é uma coisa deliciosa. Com o advento da internet, a exploração das possibilidades é infinita, numa verdadeira antecipação dos prazeres. Não sei se isso é uma coisa realmente boa, já que pode reduzir a espontaneidade e a capacidade de nos surpeendermos, mas acaba por ser, para mim, praticamente incontornável.
O dificil depois é conseguir encaixar em 4 dias todas as tentações: o pôr-do-sol no deserto, seguido de um jantar sob as estrelas; o passeio ao encontro das montanhas do Atlas; a exploração da cidade mágica, à descoberta dos tesouros escondidos, ou a entrega do corpo e da mente à experiência do hammam, entre muitas outras opções. Para não falar na multiplicidade da oferta gastronómica, que Marraquexe é verdadeira cidade cosmopolita.
O conhecimento antecipado e virtual da região que se pretende visitar, ainda que nunca lá se tenha estado, não deve impedir o viajante de improvisar e gozar os prazeres do momento. Go with the flow. Sem stress. Se nos der na telha, até podemos passar o dia inteiro a preguiçar numa sombra acolhedora, quem sabe depois de uma noite das antigas no Pacha de Marraquexe.

terça-feira, 27 de março de 2007

O poder da escolha

Não há nada mais angustiante na vida do que uma escolha dificil. Se aquilo que somos, que conhecemos e em que acreditamos determina as nossas escolhas, não será menos verdadeiro que as escolhas que fazemos determinam quem somos.
O que dizer então das escolhas que fazemos pelos nosso filhos pequenos? Será que determinam quem eles vão ser? Com certeza que condicionam, mas não nos iludamos (nem nos assustemos, caso não venham a revelar-se as mais certas) a pensar que os moldam invariavelmente. Assim espero.

sexta-feira, 23 de março de 2007

New York versus Marrakech

O que é que as duas cidades têm em comum? Suponho que nada, e por isso mesmo troquei uma viagem a N.Y. este fim-de-semana por uma a Marraquexe no mês que vem. Já que logisticamente se afigura impossível fazer tantas viagens quanto gostaria, deixei passar a oportunidade de ir passar uns dias à grande cidade em troca da promessa de uns dias em terras africanas. Nestas coisas sou muitas vezes adepta do lema "mais vale um pássaro na mão...", e Nova Iorque é Nova Iorque, retorna-se sempre que haja oportunidade, mas... as minhas baterias descarregadas clamam por um ambiente que induza a preguiça, com a possibilidade do ocasional mergulho na azáfama da cidade das mil e uma noites. Cumpre-me agora dar forma ao projecto para que não me voe o pássaro. A maior dificuldade é escolher o mais sedutor de todos os lugares onde ficar, preferencialmente a conveniente distância do bulício.

quarta-feira, 21 de março de 2007

A importância do pai

No dia do pai, pela manhã, enquanto estava parada no trânsito em Lisboa, reparei num pai que, tirando o filhote de pouco menos de um ano do carro, o entregava ao que parecia ser a avó da criança. O miudo esticou-se todo, estendendo os bracinhos para o pai em angústia e depois, inconsolável, lá seguiu a chorar ao colo da senhora, para dentro de casa. É sabido e muito evidente para qualquer mãe atenta, que as crianças nesta idade desenvolvem a angústia da separação e por isso, sem me deixar impressionar, fiquei particularmente satisfeita por ver o que parecia ser a demonstração deste fenómeno tão fortemente marcado em relação à figura do pai. Um pequeno exemplo do inquestionável facto de que o papel do pai mudou radicalmente nas últimas duas décadas. Pessoalmente estou rodeada desta nova geração de pais fantásticos, dedicados e intervenientes, que não prescindem dos prazeres nem se furtam às tarefas parentais. Se já se vai tornando mais comum, nem por isso deixa de ser louvável, já que na grande maioria dos casos não foram criados por figuras assim, que possam recriar. Faço muita questão de reconhecer o mérito destes pais, entre os quais, aliás, se inclui o pai dos meus filhos.

Já profissionalmente, porque inevitavelmente lido com pais separados em vias de divórcio, sou muitas vezes confrontada com mães que carregam uma lista interminável de queixas relativamente ao pai dos seus filhos. Se posso compreender as queixas relativamente ao homem (coisas da vida), já me custa, muitas vezes, engolir as queixas relativamente ao pai que, com maior frequência do que seria esperado, é retratado como um tipo horroroso, que, ou não liga nenhuma aos rebentos ou, se o faz, constitui, no entender da mãe, uma influência altamente nefasta para os filhos. Se posso apenas imaginar as dificuldades de ser mãe separada ou divorciada, porque não sou feminista da treta penso muitas vezes quão duro deve ser o papel do pai separado. E dou por mim a dizer para dentro, já que não me compete fazer observações em voz alta: se ele é assim tão mau, porque raio é que o escolheste para pai dos teus filhos?

Faz-me desde logo uma certa impressão que tantas mulheres (sendo o inverso também verdade) tenham tanto mal a dizer sobre um homem com quem partilharam a cama e a vida, numa verdadeira atitude de “cuspir no prato em que comeram”. Tive a minha quota (generosa) de namorados e afins e outra fatia igualmente farta de mágoas, mas, em retrospectiva, orgulho-me de poder dizer, em consciência, que poderia hoje ser amiga de todos e cada um deles. Nalguns casos tenho a felicidade de ser mesmo e o ocasional reencontro com os restantes, quando as voltas da vida nos colocam no mesmo lugar à mesma hora, são sempre motivo de genuina alegria. Porque raio é que eu havia de querer namorar com um tipo horroroso?
O que me custa ainda mais aceitar, são essas mães que não têm nada de bom a dizer sobre o pai dos seus filhos, como se terem tido filhos com eles não tivesse sido uma escolha. Tirando aqueles casos excepcionais em que de facto não foi, estas mulheres escolheram: 1) viver com o homem em questão e, em muitos casos, casar; 2) ter um ou mais filhos em conjunto. Se a primeira escolha pode não ser permanente, já a segunda é com certeza. Sei que não há formulas mágicas para nada na vida e muito menos para saber, de conhecimento certo e de antemão, se um ser humano vai ser um excelente pai ou uma excelente mãe. Nesse campo, já me vi surpreendida, tanto pela positiva (o mais das vezes) como pela negativa, mas, que raio, há indícios. Se a pessoa em questão comunga dos mesmos valores e princípios básicos de vida e tem um bom coração, então podemos ter esperança de que, não obstante as falhas concertas que certamente terá, há-de encontrar o lugar e saber desempenhar o papel que é seu, de direito e de coração, de pai. Assim sendo, o falhanço da primeira escolha não invalida a segunda. Mágoas pessoais à parte.

terça-feira, 20 de março de 2007

Greased Lightning

No Domingo à noite, quando estava pronta para ir dormir, reparei que estava a dar o GREASE. Não resisti a sentar-me e ficar a ver uns 30 mn, até o cansaço vencer.

Foi inacreditável rever parte do primeiro grande filme da minha vida. Afinal o GREASE estreou em 1978, o que significa que eu tinha oito aninhos quando, deslumbrada, saí do cinema Berna naquela tarde longíqua. O John Travolta e a Olivia Newton-John, com os seus 20 e poucos anos a fazerem de 17, em roupas, maquilhagens, poses, diálogos e coreografias impossíveis .... e as músicas. As músicas perduram até hoje no imaginário colectivo e ainda ontem consegui acompanhar parte das letras enquanto assisti a canções como o "Beauty School Drop Out". Não fui a tempo de suspirar com "Summer Nights" ou assitir ao climax de "Tell me more", nem fiquei para a apoteose final de "You're the one that I want", mas foi como se tivesse mais uma vez na mão o disco com a capa verde e o retrato do parzinho, que a minha irmã mais velha tinha comprado e que eu punha a tocar uma e outra e outra vez, as letras religiosamente decoradas (com algumas pequenas aldrabices, por exemplo, só ontem percebi, deliciada, que não era "You Disco Dropa"), e alguns passos ensaiados quando não estava ninguém por perto.

É fácil de compreender o deslumbramento de uma criança de oito anos e, por maioria de razão, dos adolescentes da época. No entanto, ainda que as músicas sobrevivam (ainda no outro dia fui a uma festa onde passaram "Greased Lightning"), imagens como aquelas não resistem ao tempo e tornam-se caricaturais. O que é certo é que, na época, o filme ganhou um Óscar (Best Music - Original Song) e 5 Golden Globes, tendo sido premiado o desempenho de ambos os protagonistas.

Jonh Travolta, depois do sucesso de "Saturday Night Fever" e "Grease" foi votado ao esquecimento durante quase duas décadas, até reaparecer no mundo dos seriamente vivos de Hollywood, em 1994, com "Pulp Fiction". Será que se lembraram dele só por causa da cena do concurso de dança com a Uma? Fosse como fosse, a combinação dos dois, pela mão de Tarantino, foi bombástica. Li algures que, enquanto esteve na mó de baixo, John Travolta disse algo como: "I was never that good, and I'm not this bad".

Traduzido em bom portugês: a vida dá muitas voltas.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Não dever

Utimamente dei por mim a comentar, com maior frequência do que o habitual, a falta de responsabilidade neste país. Parece-me bastante portugesa a ausência de responsabilização pelo trabalho bem feito, pelo rigor técnico e ético, en bref, pelo cumprimento dos deveres profissionais e sociais (nem falemos dos políticos). Isto é ainda mais flagrante quando, por detrás de uma aparência profissional impecável, se esconde uma tremenda incompetência. Exemplos não faltam.
Parece-me a mim que esta falha humana, se assim se pode qualificar, poderia ser atenuada logo à partida através de um sistema de ensino mais evoluído, em que crianças e jovens participassem activamente na própria educação e pudessem finalmente compreender que aprender pode e deve ser uma devoção e não uma obrigação, integrando depois essa noção no que se propuserem realizar pela vida fora. Falo por mim, que tardiamente vislumbrei o conceito.
Posto isto, também me parece que o cumprimento rigoroso e dedicado do que nos propomos fazer não passa necessáriamente por um horário de trabalho inflexível e escrupulosamente vigiado, não sendo incompatível com a ocasional "balda", quando - e aqui é que reside o busílis da questão - sabemos que nos podemos permitir esse pecadilho esporádico e delicioso. Por exemplo, numa sexta-feira como a de hoje.

Para ilustrar esta questão, deixo-vos com aquele que é, para mim, um dos grandes representante do ser português (e isto não vem a propósito do patético concurso que para aí anda):

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação de desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando os versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

quinta-feira, 15 de março de 2007

Orchideae

Quando a minha filha nasceu a avó ofereceu-nos uma orquídea num vaso. Instalei-a na sala num lugar com muita luz e ela, contente, não parou de florir, numa exibição contínua de delicadas formas brancas, de tal modo que durante mais de oito meses nunca esteve despida. Um fenómeno verdadeiramente inusitado. Lá para o final de Agosto largou por fim a última flor. Quando voltei de férias pu-la num canto da varanda e ali passou o Inverno, ao vento, ao frio, ao sol e à chuva, praticamente esquecida. Há quinze dias fui dar com ela no mesmo cantinho, as folhas carnudas já amarelas. Foi quando lhe peguei que vi uns minúsculos botões, amarelecidos e poucos esperançosos. Trouxe-a para dentro, encharquei-lhe as raízes e desejei que não morresse. Na manhã seguinte fui dar com ela, verde de esperança, miraculosamente recuperada. Bastaram alguns dias para começar a florir. Como podem ver e a avaliar pelo número de botões, prepara-se para nos brindar com longa alegria florida. À semelhança, aliás, da minha filha, que não tem cessado de o fazer.
De vez em quando deparamo-nos com seres verdadeiramente fora do comum.

Obcecação

Ontem descobri uma palavra que não conhecia. Os meus dedos atrapalharam-se ao escrever obsessão no teclado e da trapalhada que saiu, logo sublinhada a vermelho, o corrector automático sugeriu obcecação. Se olharmos bem para ela, facilmente verificamos que faz sentido: obcecar, obcecado, obcecante, obcecação. Corri ao Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora) e lá está:
obcecação: acto ou efeito de obcecar; cegueira de espírito; teimosia; persistência no erro. Então e a obsessão? Lá está também, algumas páginas adiante, isoladamente, já que o substantivo, adjectivo e advérbio se escrevem com "c" e não com "s". As duas palavras são sinónimas, embora a segunda tenha um rol de significados muito mais extenso. Usei a palavra nova no meu texto e fiquei satisfeita com a descoberta. Talvez não a volte a usar muitas vezes sob pena de pensarem que ando a inventar.

quarta-feira, 14 de março de 2007

A crise dos 36 e 1/2

Ao fim de mais de três anos embrenhada em fraldas, sopas e passeios ao parque infantil, resolvi que esta era uma boa altura para recuperar o tempo necessário a alguns mimos pessoais. Fui a um SPA fazer um tratamento ao rosto e saí de lá, duas horas passadas, sentido-me fresca e confiante, para entrar em seguida na farmácia, decidida a investir no futuro da minha epiderme. Procurava um creme, da minha marca de eleição, que pudesse começar desde já a trabalhar no combate ao aparecimento das tão temidas rugas. Encontrei uma farmacêutica muito simpática que, prestando atenção às minhas dúvidas e indagações, mas sobretudo à minha cara perfeitamente limpa, passou por cima dos cremes intitulados "para as primeiras rugas", que eu remexia, para me estender um conjunto de cremes que, em subtítulo, diziam "corrige as rugas mesmo as profundas". Protestei, mas não o devia ter feito, porque foi então que ela apontou um dedo acusador a duas linhas (de expressão, julgava eu) na minha testa e outro par de vincos laterais no rosto. Bem sei que os últimos meses foram bastante difíceis, a somar a muitas noites mal dormidas, e que os traços de extremo cansaço se vêm evidenciando na minha cara. Só essa certeza me impediu de sair da farmácia plenamente derrotada, mas apenas com a carteira mais leve, porque mulher prevenida vale por duas. Seja como for, o que eu temia parece ter acontecido sem que sequer desse por isso: passei para o outro lado da colina e já vou a descer.

O mistério mais profundo

Hoje depois de deixar o meu filho na sala de aulas vinha a subir as escadas do Colégio a cantar. Parei para reparar: sinto-me verdadeiramente feliz. Assim uma felicidade interior. E porquê? Ultimamente tenho-me sentido assim em momentos inexplicáveis, só porque está um dia de sol e as ruas de Lisboa estão bonitas, ou porque a senhora no quiosque dos jornais foi simpática, ou porque reparei numa pessoa bonita na rua, ou porque tive uma conversa estimulante com um amigo. E acontece cada vez mais. Fico com um sorriso de orelha a orelha e até parece que tenho 16 anos e acabei de me apaixonar. Mas não é bem assim.
Será que afinal e ao contrário do que eu pensava, a felicidade não é constituída por momentos especiais, por acontecimentos específicos que nos dão grande gozo, que acontecem num dado momento e inevitavelmente passam? Será que a verdadeira felicidade, aquela que todos almejam mas de que só alguns falam, não é realmente motivada por factores externos mas encontra-se na tranquilidade do nosso âmago? Aquela curva com os picos altos de felicidade e baixos de sofrimento, a montanha russa da minha existência passada talvez não represente, afinal, a essência da vida. Esta felicidade que sinto agora poderá simplesmente explicar-se pela ausência de infelicidade ou de dor especificas, não tanto pela ausência de preocupações mas por não me deixar abalar por elas, por não me deter a olhar para o copo meio vazio. Afinal até me queixo de que ando cansada, que não tenho tempo para sair e me divertir, que não viajo há séculos, e outras coisas mais. Tudo coisas que, pelos meus padrões antigos, fariam momentos felizes, e que não vivo no momento. Vivo, sim, outras coisas mais perenes, mais constantes e até rotineiras. A parte do copo que está cheia não é realmente feita de momentos excitantes, mas muito mais essenciais. E assim sou surpreendida por estes assomos de felicidade interior irreprimível. Será que subtilmente fui reservando cada vez menos espaço mental e emocional para as coisas pesadas, deixando emergir a felicidade dos momentos e das coisas simples, a que saboreamos de nós para nós, que não depende dos outros mas só do que nos vai na alma?