DISCLAIMER: agora vou discorrer sobre uma questão relativamente à qual nunca me alonguei com ninguém, mas que, malgré moi, me acompanha desde que nasci. Podem julgar-me terrivelmente narcisista, mas é como vos disse, uma e outra vez: este blogue serve também para que um dia os meus filhos possam penetrar no universo da mãe, e acontece que sou também, talvez mais do que muitas pessoas, o nome que me foi dado.
Dizem que o nosso nome é uma das pedras basilares da nossa identidade, o que, a ser assim, pode dizer muito da formação do ego de quem tem um nome invulgar - para o bem e para o mal. Por outro lado, há pequenos pormenores que inesperadamente se revelam muitíssimo mais significativas do que pareceriam à primeira vista. Acontece que a pequena nuance introduzida no meu nome próprio cedo se revelou ser uma dessas pequenas enormes coisas, e assim se tem mantido ao longo da minha existência.
Aconteceu, por capricho próprio de mãe, que me foi dado um nome que 99% das pessoas (noventa e nove por cento, eu vos garanto) escreve e pronuncia de forma errada. A alternativa corrente nunca foi alternativa a considerar, antes a rejeitar absolutamente: não deixa de ser irónico que a causadora do desafio nominal tenha sempre sido quem mais se insurgiu contra as suas consequências - ainda que não venha sendo, evidentemente, quem mais as sofre. Não se trata, aqui, de um desafio meramente gráfico ou fonético: são ambas as coisas em conjunto, o que aumenta geometricamente a margem de erro.
Confesso que não houve, que me lembre, dia da minha vida em que alguém (normalmente mais do uma pessoa, mais do que uma vez por dia) não tivesse introduzido o "i" no meu nome, na forma escrita ou falada (geralmente em ambas) e que perdi muitos minutos em cada um desses 365 dias de todos este anos a corrigir as pessoas - regra geral, com resultados próximos do nulo. De tal forma que passei a dividir as pessoas à minha volta em dois grandes grupos: de um lado, aquelas a quem deixo passar, em silêncio (silêncio irritado, confesso, mas o cansaço e o hábito já limaram as arestas) a adulteração do nome: são essas as que não conheço ou conheço mal e que não tenho qualquer perspectiva de, ou interesse em, vir a conhecer; do outro lado, aquelas a quem não posso permitir o engano, que são todos aqueles a quem me dirijo para tratar de questões oficiais, ou em quaisquer outras situações que obriguem ao registo escrito do meu nome. Os primeiros corrijo uma única, primeira vez, o que em 90% dos casos nada resolve (é uma questão nacional, o portugueses não estão habilitados a pronunciar o meu nome) e aos segundos explico, insisto, mostro, até me fazer entender, com resultados muitas vezes duvidosos, como quando passam a chamar-me Ândria (quando lêem - e reconheço que apor um acento no "e" talvez ajudasse) ou André (quando ouvem, por culpa do "a" final quase mudo). Ambas as coisas acontecem, juro, com mais frequência do que possam imaginar, ainda que, na maior parte dos casos, as pessoas se limitem a não perceber e olimpicamente passar por cima, insistindo no indisfarçável "i". E custa-lhes muito, custa-lhes sempre tanto riscar a excrescência depois de escrita, incrédulos perante tamanha minudência.
Aqui faço notar que na última década senti um pequeno alívio nesta problemática, na justa medida em que influências vindas de fora tornaram um pouco menos invulgar a grafia do nome. Antes disso, abençoado Liceu Francês, que na minha infância e adolescência foi o único local de tréguas, fora da família e, já depois de adulta, abençoados os (poucos) anos em que vivi no Brasil.
Mas voltando às pessoas: os amigos constituem um grupo à parte, no qual incluo, para efeitos de classificação, tanto os amigos-meros-conhecidos (amigos na acepção mais lata, tanta vezes enganada, do termo) como os amigos próximos (amigos com "A" grande). Ora aqui é que a coisa começa a ficar interessante. Regra geral, quando conheço pessoas relativamente às quais antevejo a possibilidade de um relacionamento continuado, faço notar, caso não se torne imediatamente perceptível, o modo correcto de me chamarem (não é mania, é que o outro não é o meu nome - mas imagino que só verdadeiramente perceba isto quem já viveu algo semelhante); faço-o notar uma só vez (sempre me pareceu ridículo ter que insistir na questão) e é praticamente inevitável que o falhanço em fazer passar a simples mensagem (ao qual me resigno para todo o sempre, relativamente à pessoa em questão) desqualifique o destinatário como candidato a amigo chegado ou íntimo - e isto, acreditem, não é nenhuma presunção ou sobranceria da minha parte, é antes algo de terrivelmente simples, objecto de quase 40 anos de experimentação: o facto de alguém, depois de informado, não atingir a importância de chamar a outra pelo nome correcto, revela uma de três coisas: (1) falta de inteligência (a mais flagrante e apesar de tudo a mais desculpável); (2) falta de subtileza ou; (3) falta de consideração - nenhuma das quais confere grande credibilidade ou interesse à pessoa em questão - e digo isto sem qualquer pejo, que me desculpem mas são muitos anos disto. Alguns chegam a redimir-se quando, através da convivência, acabam por perceber o erro e o corrigem por si, sem mais comentários. Quanto aos restantes, podem passar 10, 20 anos a insistir no erro, ainda que oiçam o meu nome mil vezes pronunciado e o vejam escrito na forma correcta, e quanto a isso não há nada a fazer: são naturalmente grunhos.
Mas o que eu gosto mesmo - passo o narcisismo - o que realmente me surpreende, é conhecer aquela pessoa que, depois de mo perguntar ou de eu lho oferecer, assimile o nome à primeira, ou tenha a delicadeza de pedir os devidos esclarecimentos; ou aquela que tem a subtileza de, ouvindo alguém próximo chamar-me, imediatamente registar a nuance; e ainda aquela que, através de carta, email ou qualquer outra forma escrita, note a grafia e me responda da mesma forma, logo à primeira.
Esta simples, mas rara, atenção, tornou-se de alguma forma aquela que, à partida, mais desperta o meu interesse e silencioso reconhecimento, e é talvez por isso que, de entre as pessoas que um dia a tiveram, se contam os meus amigos mais chegados, bem como todos os amores da minha vida. Mas não, não acho que seja por causa da correcta percepção do nome. É por causa da inteligência, da subtileza e da consideração. É por causa da atenção. Aquela que aproveito para agradecer a todos aqueles que bem saberão quem são.