terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

So many movies, so little time

Nas Nuvens vê-se muito bem, tem óptimos gags, mas o resto é um bocadinho psicologia de pacotilha, não? Confesso que não vi os últimos 10 mn com a devida atenção porque entraram uns sms a dizer que o de 6 anos estava com uma fortíssima dor de ouvido: se calhar a epifania não me atingiu com a devida força.
*
p.s.: eu gostava do canastrão do Clooney era no E.R., que acabou de acabar, após 15 anos de excelente televisão - 15 anos, é inacreditável, ainda ontem o primeiro episódio e o Carter com a sua bata engomadinha.

Une belle histoire

Há anos que não ouvia isto.

Petição pela liberdade

Vão lá assinar, vá.

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Blogue

Um blogue intimista é uma coisa terrivelmente narcisista. É inevitável fartarmo-nos do seu autor, depois de lhe conhecermos e reconhecermos os pequenos hábitos até à exaustão. Se ler um blogue todos os dias é um bocadinho como casarmo-nos com o seu autor, imagine-se casarmo-nos connosco.

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Crónicas

Alguém pode dizer ao Lobo Antunes que o báu das crónicas em que escreve sobre estar sentado a escrever as crónicas há muito se esgotou?

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

O circo e o carnaval

Pode não parecer, considerando o post anterior, mas cresci com aversão a duas coisas: circo e carnaval. Talvez por infuência da minha mãe, infinitamente preocupada com tudo aquilo que pudesse chamar a atenção, cultivava-se em casa o apreço pela discrição nos modos e controlo nas exuberâncias. Pouquíssimas foram as vezes em que me terei mascarado em criança, e recordo com horror um Carnaval em Loulé, onde fomos levados não sei por quem (nunca por nunca pela minha mãe), que não era mais do que um ajuntamento insano de pessoas, apitos e martelinhos, numa alegria forçada que me pareceu inteiramente despropositada e totalmente desprovida de sentido. Tinha, em criança, verdeiro horror aos sacos de água e de farinha, aos fulminantes, estalinhos e bombinhas, para não falar nos ovos que, felizmente, parecem ter caído em desuso. É pois com algum sacrifício, bem disfarçado, que, ano após ano, colaboro na tarefa de fantasiar os meus filhos, sempre e somente a pedido dos próprios, engolindo a velha aversão - ou não me propusesse eu, todos os dias, não os influenciar com os meus preconceitos, manias, traumas e aversões.

sábado, 30 de Janeiro de 2010

O Carnaval no Rio - 2002

Um amigo querido reenviou-me ontem este email que eu enviara a alguns familiares e amigos há oito anos atrás, relatando a minha experiência no Carnaval do Rio, em 2002, que eu não me lembrava - de todo - de ter escrito. É um simples email, daqueles em que me alongava e tornava a alongar para suprir a distância geográfica e despejar as palavras, na falta, então, de outro suporte.
Transcrevo-o tal como o escrevi e enviei em 2002, sem bem o reler, para não o sujeitar ao que suspeito seria uma feroz edição e revisão, que lhe retiraria toda a autenticidade.
Confirmo que, oito anos passados, esta permanece uma daquelas experiências de antologia.
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-----Original Message-----

From: Andrea Carvalho Rosa
Sent: quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2002 19:06
Subject: O Carnaval no Rio
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Parto do princípio que ninguém teve paciência de esperar até às duas e tal da manhã, hora local de Lisboa, para assistir ao desfile da Unidos da Tijuca. Mas comecemos pelo principio:
Recebemos as fantasias no próprio dia, umas horas antes de partirmos para o sambódromo... e ainda bem! Imagino que não dormiria se a tivesse recebido de véspera, tal a dimensão, complexidade e principalmente, peso da coisa. Foram-nos entregues 13 fantasias (éramos um grupo dessa ordem), que enchiam completamente uma van, a típica "pão-de-forma" cá do Brasil. Demorámos uns bons momentos para compreender como aquilo se vestia, e tivemos que recorrer à ajuda do rapaz que as entregou. A dita fantasia era unisexo e composta por umas ridículas calças de lycra amarelo fluorescente, uma espécie de saia de veludo azul cheia de bordados, atada atrás com uns cordões e umas bolas vermelhas penduradas, e em cima (com um intervalo para a barriga de fora, quer para os homens, quer para as mulheres) uma estrutura rígida constituída por uma ombreiras muito largas do mesmo veludo azul, que chegavam abaixo do peito, com duas asas douradas a sair dos ombros, plumas vermelhas e, para arrematar, uma estrutura de metal que se prendia na parte de trás das ombreiras e de onde saiam umas enormes labaredas feitas de esponja que se elevavam acima da cabeça para depois caírem a arrastar pelo chão. Finalmente, um capacete tipo elmo prateado de onde partia a cabeça de pássaro. Ah, e mais umas braçadeiras amarelo fluorescente e umas sapatilhas do mesmo tecido e cor. Assim era o "Fénix da Malaca" da "Unidos da Tijuca".
O rapaz da escola insistiu muito para que não vestíssemos nada que se visse por baixo, aconselhando as senhoras a usar um soutien azul escuro, ou, melhor ainda, nada! Visto que os ombros eram pesadíssimos e tínhamos que sair fantasiados de casa porque depois não haveria onde deixar as roupas, fomos a correr a uma feira do bairro e conseguimos comprar uns tops curtos azuis escuros, que nos permitiram sair de casa sem ter que levar vestida a estrutura das ombreiras com as asas e as chamas. Ora imaginem lá a figura de 13 tugas, femininos e masculinos, a sair de casa em Ipanema, de calças de lycra meio transparentes amarelo fluorescente (estava muito calor para vestir desde logo as saias de veludo), sapatilhas da mesma cor, os homens de tronco nu e as mulheres quase. Metemo-nos todos, mais os acessórios, dentro de duas vans e lá fomos, com o samba-enredo aos altos berros, enquanto tentávamos decorar pelo menos o refrão.
Deixaram-nos no lugar onde a escola se preparava, às portas do sambódromo, duas horas antes da hora prevista. Na primeira meia hora estivemos a tentar perceber e colocar os restantes acessórios das fantasias e depois, debaixo de chuva ocasional, mais duas horas à espera da grande hora, com aquele coisa toda vestida e montada. Felizmente o bom humor não faltava, falava-se e comentavam-se os vizinhos e tiravam-se fotografias.
Quando finalmente chegou a nossa vez e as 4.500 pessoas que, em cortejo, compunham a escola, começaram a avançar para as portas do sambódromo conduzidas por um punhado de coordenadores, a impaciência já era muita, os pés ávidos de samba mas já cansados de tantas horas em pé. Os coordenadores gritavam, antes de entrarmos: - cantem e dancem, cantem e dancem! O samba enredo invadiu o ar, uma e outra vez, recomeçando assim que acabava. A entrada no sambódromo é um momento cheio de expectativa, seguido da surpresa de descobrir o público tão perto, não havendo aquela sensação de se estar no meio de um estádio, ou num verdadeiro palco. Estávamos numa ponta, de forma que o público das primeiras filas estendendo os braços poderia tocar-nos. Observados por milhares de olhos, mas nem por isso nos sentindo como estrelas, sabemos que temos que dar o máximo, dançar e cantar o quando pudermos e soubermos (ou pelo menos fingir que cantamos, nas partes que não sabemos de cor). É fascinante olhar para aqueles milhares de pessoas, de todas as idades, raças e estratos sociais. Bonitas, feias, magras e gordas, elegantes ou pavorosas, passamos pelos camarotes, pelas frisas, pela geral, pelas bancadas inundadas de gente e em todos eles a mesma energia, tudo a dançar, a cantar e a vibrar.
Encaixados entre dois gigantescos carros alegóricos, não temos a noção da evolução da escola, de tal forma que, pelo menos comigo, deu-se uma inversão de papéis: senti que eu era o público e que o verdadeiro espectáculo decorria nas bancadas. Pela Marquês de Sapucaí abaixo, era um desfile de público e eu ia pensando: "Aquelas sabem a letra toda. Olha aquele a tirar-nos uma fotografia. Aquela miúda ali em cima, como samba! Aquele é o camarote da Bhrama, deve ser onde está a Bush. Mas onde raio estará o júri? Deixa-me ver se o resto da malta está a aguentar este ritmo. Espero que ninguém repare que não sei sambar. Tantas caras, não vou conseguir distinguir ninguém. Raios, partiu-se-me uma asa! Será que isto penaliza a escola? Mas como é que esta gente tem energia para dançar e cantar e saudar 10 escolas por noite, se nem o meu próprio samba-enredo consegui decorar?" E por entre encontrões das asas, muito agitar de braços e algum ritmo, lá fomos desfilando... e desfilando... e desfilando. Olhávamos uns para os outros e riamos das nossas figuras, enquanto nos encorajávamos a continuar. Tinham-nos dito que passava num instante mas lembro-me de a meio do desfile, com a língua de fora e o sorriso já quase colado à cara, pensar: Céus, devemos estar mesmo a chegar - e com desespero espreitar para a frente para descobrir que ainda íamos a meio. Felizmente a energia do público dá-nos forças para prosseguir. E embora sem compreender bem o significado de tudo aquilo - porque a verdade é que, não sendo brasileiros, há qualquer coisa que nos impede de entrar plenamente naquele estado de euforia colectiva - lá vamos sambando avenida abaixo.
Passámos momentos difíceis quando, sem saber porquê (depois viemos a saber que um dos carros encravou) ficámos 15 minutos parados, a meio da avenida. Quinze longos minutos a ter que dançar em frente das mesmas pessoas, a verdade sobre a nossa real incapacidade de sambar posta a nu - é que enquanto se avança é mais fácil de improvisar! Uma longa hora depois, com as fantasias tortas e meio partidas, cobertos de suor e com as energias esgotadas, lá fomos chegando à praça da apoteose, onde tudo acaba. No final já ninguém dança, apressando-se e espremendo-se em direcção à saída.
Transpostos os portões do sambódromo, descobrimos uma montanha colorida de vários metros de altura: era o cemitério de fantasias, para onde os passistas se desembaraçavam do seu peso, das suas plumas, da sua cor e alegria. Assim nos aliviámos também, regressando aos trajos menores, as ditas calças amarelo fluorescente, agarradas às pernas de tanto suor, os troncos nus ou semi-nus, transpirados e cansados, o capacete debaixo do braço como recordação e, por entre uma agitação pacífica, fomo-nos retirando, compreendendo afinal porque é que Carnaval é a festa de todos, não distinguindo condição social, raça ou credo - e nem nacionalidade.
É uma experiência que se vai revivendo ao longo dos dias seguintes, juntamente com o samba-enredo que não sai da cabeça. No momento em que desfilamos é difícil de abarcar tanta confusão e a partir de certo momento só pensamos em não desiludir o público e conseguir chegar ao fim. Só mais tarde se revive os detalhes, se saboreia verdadeiramente a excepcionalidade da ocasião. Esta é a matéria de que são feitas as grandes recordações.
A.

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Blackbird


Blackbird, uma história fortíssima do dramaturgo escocês David Harrower, envolve-nos no tema incómodo do abuso sexual de menores, e fá-lo de uma forma simultâneamente brutal e muito humana, tão humana que quase nos faz esquecer a torpeza do acto, para logo a seguir, com a violência de um coice, voltar a lembrar-nos. Miguel Guilherme e Isabel Abreu fazem um belo trabalho, se bem que nunca nos permitam esquecer que ali estão dois actores a dizer um texto. Para mim, o teatro é sempre um bocadinho isto e talvez seja por isso que, antes de tudo o mais, vale o texto. Neste caso, um texto brilhante e perturbador.

Em exibição na sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II.

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

... do mundo.

E na paixão feita alheamento beberam a vida, e do tanto que puderam e do tudo que quiseram a vida cobrou o seu preço, o da realidade concreta, brutal e consequente, o do paraíso perdido - onde tudo acaba, mas tudo começa.

... ao fim ...

Seguiram o caminho de mãos dadas, como se até ao fim do mundo, tornaram a beijar-se na esquina, e no passeio a seguir, deslumbrados e livres de pecado, mergulhados na sintonia do momento, alheados da serpente, da árvore e da maçã.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Até ...

Beijaram-se à porta do cemitério, ía alta a madrugada, as mãos dele subindo-lhe pelo vestido curto, sentiam-se vivos, encantados, inteiros no seu atrevimento, inocentes perante os mortos e os vivos.

Fragmentos

O regresso do sol coincidiu com a possibilidade do meu retorno à actividade física. Feliz coincidência que ontem pela tardinha me permitiu sentir o sol na cara enquanto corria ao longo do rio espelhado de azul. São esses pequenos momentos que nos permitem sentir vivos, aqui, agora. Pequenos fragmentos que nem sempre abundam nas nossas vidas.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Insónia

Como é que se desliga a cabeça? é a pergunta de uma vida inteira de insónias.

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Energia vital

Há uns bons anos atrás, alguém, que percebe muito de psicologia, disse-me isto mesmo. Não tornei, até hoje, a ouvir esta teoria que faz todo o sentido. Divulgar um ideia em fermentação, publicitar uma intenção, esmiuçar perante terceiros uma vontade, esgota, pelo menos em parte, a energia necessária à sua concretização. Quem não conhece aquelas pessoas que falam permanentemente de projectos que nunca levam a cabo? Isto vale também para as decisões que precisam de ser remoídas e sofridas antes de ser comunicadas, cumprindo-se o tempo de maturação em silêncio, sob pena de se volatilizarem quando expostas à luz. Talvez por isso, tantas vezes, as decisões mais radicais na vida das pessoas são solitárias, apanhando os que as rodeiam de surpresa. Ou não chegam a ser decisões, esgotando-se em desabafos pontuais que aliviam e simultâneamente dissipam o poder regenerador. Talvez também por isso, em caso de sofrimento emocional, não resistimos, mais cedo ou mais tarde, a partilhá-lo com alguém, de forma a libertar um pouco da energia transformada em dor.
Não é que devêssemos guardar toda a energia, seja ela positiva ou negativa. Deveríamos, isso sim, canalizá-la de forma útil e produtiva, ou seja, para as acções em vez das palavras. Falar é bom? Muitas vezes, mas nem sempre.

sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Crónica

Não pude evitar a lágrima furtiva ao pequeno almoço, os olhos marejando-se-me enquanto lia a crónica de José Luís Peixoto, na Visão de ontem. O relato não tem, nem pretende ter, grandes predicados literários, senão o de abordar de forma simples e corriqueira o coisa mais simples, corriqueira e comovente que existe: o amor parental. Sou um alvo muito fácil no que respeita a este tema.
É curioso perceber que quem escreveu "Uma Casa na Escuridão", um romance que contém as descrições mais tétricas que alguma vez li, tenha uma vivência simultaneamente tão normal. É talvez isto o de ser escritor.
*
Adenda: ocorreu-me de repente, entre dois sonhos, que "parental" fosse referente a parente e não a pai e mãe. Não cheguei ao ponto de me levantar para verificar (quem sabe, ando a perder qualidades), mas entretanto já sosseguei: a primeira acepção, no meu dicionário, é relativo a pai ou mãe. O instinto inicial é quase sempre o mais correcto.

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

A gota de água

Mudando de assunto (já é tempo), uma pequena passagem da crónica de Inês Pedrosa na Única de 9 de Janeiro captou a minha atenção:
Para o melhor e para o pior, a gota de água importa. A gota de água pode ser uma frase lançada em forma de faca. Uma frase que, mesmo inadvertidamente, corta. Todos temos um historial de gotas de água que nos transformaram.
É bem verdade, e esse historial existe tanto na forma passiva como activa, ou seja, tanto somos quem ouviu como quem disse. Há coisas que depois de proferidas não têm retorno. Pode haver perdão, mas o que foi dito continuará a existir, ressoará para todo o sempre na camada atmosférica e far-se-á presente uma e outra vez, assim o convoquemos.
Um destes dias alguém que me conhece há vinte anos, e que muito respeito, comentou que sou capaz de uma grande violência verbal. Foi mesmo este o termo que usou: violência verbal. Não existe expressão mais adequada. Sou. Não é algo de que me orgulhe: que meia dúzia de palavras impulsivas possam ter sido, ou venham a ser, a gota de água de alguém.

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

O poder de escolha

In casu, resume-se a escolher entre a dor sem analgésicos e a dor com embotamento mental produzido pelo excesso de analgésicos. Em qualquer dos casos, trabalhar é uma tarefa árdua mas necessária, tanto mais que todos os magistrados do país decidiram iniciar o ano de 2010 proferindo, agendando, mandando notificar, dando andamento aos processos eternizados e emperrados. É nestas ocasiões que o profissional liberal sonha com um emprego, no qual a baixa médica seja um direito protegido e exequível.

sábado, 9 de Janeiro de 2010

Cervicobraquialgia

Regresso paulatinamente ao universo terreno. Uma visitinha ao inferno relativiza os problemas mundanos: a dor é o lugar mais ermo que existe.

segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

A seguir

Comecei o ano a tentar ignorar a dor nas costas, mas parece que ela veio para demonstrar que neste ano de 2010 não vale tentar descartar os problemas, ignorando-os. Já não consigo ajudar os miúdos seja no que for, nem conduzir, e nem ficar sentada em frente ao computador, o que, en bref, significa que neste estado não sirvo para grande coisa. A medicina tradicional descartou-se com uma radiografia benigna e duas horas de poderosos analgésicos por via intravenosa. Resta-me, pois, entregar-me a alguém que não se limite a estudar e conhecer o sistema músculo-esquelético, mas também tenha aprendido a dominá-lo com as próprias mãos.

sábado, 2 de Janeiro de 2010

Nas calendas de 2010 (*)

No 1º de Janeiro deste ano que começa li, de ponta a ponta, um livro que andava pela minha mesa de cabeceira desde Setembro do ano passado, e que trouxe comigo para o habitual retiro algarvio. É, quem sabe (e diz a Luísa) um bom prenúncio. É certo que para além disso, e tratando-se de 339 páginas, não fiz mais do que o habitual: cuidar e beijocar os meus filhos; sonhar acordada.
Escrevo este post já na madrugada do segundo dia, depois da costumeira voltinha pela blogosfera - não sei se conta.

quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Esperando por 2010

Alegoria

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.


Nuno Júdice

domingo, 27 de Dezembro de 2009

Work in progress

Nasci com a década. A cada nova década, não posso evitar de pensar que é uma nova etapa que começa, uma troço novinho em folha da auto-estrada, o alcatrão lisinho e preto, sem sulcos nem relevés que influenciem a direcção. Sou eu, os meu passageiros e o porta-bagagens, meio cheio.
2009 fecha mais uma década. Portas a fecharem-se, janelas a abrirem-se, quartos bafientos a arejar, salas espanejadas, tudo em plena (des)arrumação. Este fim-de-ano não há balanços. O balanço é da década e ainda não fechei as contas à década.

sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Tobias

Numa das bed-time-stories preferidas dos miúdos, o Tobias diz, a páginas tantas: "sinto-me estranho por dentro". O sentimento dele é de impotência e, como miúdo que é, não o sabe expressar. Mas tem muita razão: o sentimento de impotência é dos mais estranhos que existem.

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

All I want for Xmas...

Neste Natal apenas gostaria de dar um abraço apertado às três ou quatro pessoas que já sei que nem sequer vou ter a oportunidade de ver.

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Da culpa

Todos já levámos e levaremos a cabo comportamentos censuráveis. Se tivermos alguma espécie de formação ou estrutura ética (prefiro a ética à moral), somos os primeiros a viver a culpa associada ao acto. A avaliação da culpa, sem querer entrar em conceitos jurídicos (embora a tendência seja grande), depende do grau de leviandade com que foi praticado a acto. A leviandade pura e inconsequente é um estado de espírito que me custa muito a engolir - e correponde sempre à mais dura das auto-avaliações. Se nos vamos arriscar a magoar alguém, que sejamos suficientemente honestos para o fazermos com a plena consciência dessa possibilidade, ainda que não seja essa a nossa intenção directa. Se nos arriscamos a causar dano a outro, que o façamos porque os nossos actos correspondem, naquele momento, a uma verdade/motivação dentro de nós, e convictamente escolhemos agir de acordo com ela. E que cá estaremos, se se der o caso, para sofrer a culpa e as devidas consequências.

domingo, 20 de Dezembro de 2009

Nowhere Fast

É realmente muito simples: uma noite inteira a dançar vale por vários dias de férias, horas de conversa, caixas de ansiolíticos, noites de sono reparador, inumeras sessões de yoga, noitadas de copos, bunjie jumping ou qualquer outro método de descompressão ao alcance de um gajo. É assim desde os meus 15 anos, e espero que continue pelos quarenta adentro. E que esta continue a ser, sempre, indiscutivelmente, a melhor música para o efeito.


sábado, 19 de Dezembro de 2009

Uma questão de perspectiva

Parece que tenho esta característica exacerbadamente alfacinha na forma de falar: falo para dentro, como vogais, às vezes sílabas inteiras. No Brasil a comunicação era muito difícil, até que decidi deixar-me de pseudo superioridades culturais e passei a falar com sotaque brasileiro. Resultou de tal forma que as caixas do supermercado e empregadas de loja (eu tinha muito tempo livre no Brasil) largaram o incontornável "ôi?" e passaram a perguntar-me, verdadeiramente intrigadas com a minha cantoria: "você é de ooonde?". Uma das incontáveis vezes em que esclareci a minha origem, a moça achou graça: "mas fala tão bem o português!"
Os objectivos haviam sido claramente atingidos.
Lembrei-me disto porque às vezes os problemas de comunicação resumem-se a diferentes perspectivas sobre uma mesma realidade.

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

A perfeição da estupidez

A perfeição da estupidez, citada abaixo, é uma expressão que não me sai da cabeça: a estupidez na sua forma perfeita; perfeitamente estúpida; estupidamente perfeita; inusitadamente estúpida; absolutamente perfeita na sua estupidez; estúpida de uma forma única e insuperável.
Uma estupidez genial, portanto.

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Alfa Pendular ou a chocolateira

A enxurrada dissolveu o enguiço tecnológico - no entretanto, benditos serviços complementares dos hotéis modernos - e o portátil voltou a funcionar às 00h10, quando de regresso ao hotel me preparava para usufruir dos confortos de uma cama XXXXL e perder-me entre os invólucros brancos de penugens. Não houve tremor de terra que despertasse a cidade do Porto e acordei para um dia inesperadamente luminoso e tranquilo, tornando pouco credível as quatro viagens ontem realizadas entre a Boavista e a Rua Conde do Alto Mearim, em Matosinhos (worth mentioning porque o nome da rua soou como um mistério para três taxistas e encerra possivelmente uma coincidência que reacções futuras poderão confirmar), debaixo do maior dilúvio dos últimos tempos - que me transportou directamente para São Paulo, quando ansiávamos pelas Chuvas de Verão que limpavam a atmosfera e nos permitiam respirar um ar mais livre de fumos, gases e poluição em geral, atenuando o cheiro agridoce da grande cidade, que jamais abandonará as minhas narinas sob a forma de memória olfactiva. Não há chuva como as chuvas brasileiras de verão e sorrio sempre perante a frustração do turista incauto que foge do Inverno europeu em busca do Verão no hemisfério sul - mal sabendo que as regras de cá não se aplicam lá.
A dissolução do enguiço permite-me agora, no regresso, navegar dentro desta chocolateira, cujos abanões em nada se assemelham ao movimento de um pêndulo, e recuperar do trauma da ida ao ver os meus companheiros de carruagem colados aos monitores, sendando, replyando, forwardando, ccando, bccando e, pior, reply-allando, numa teia de comunicações que invade as caixas de email de todos os colaboradores que, no sossego dos seus gabinetes, tentam, talvez, desenvolver algum trabalho, nos intervalos dos acessos colectivos de reúnite aguda.
Eu por mim só ansiava por condições mínimas para blogar e interpelar os amigos, que isto de fugir à rotina diária sob pretexto de uma deslocação profissional é, para mim, uma festa. Agora regresso ao meu livro, Santa Apolónia não tardará.

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Chove, chove, chove, chove, chove, no Porto


segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

4

Nasceste, alegria mágica, doce e encantada
e milagrosamente fomos duas,
de uma.

(à princesa mágica que completa hoje quatro anos)

Visão de futuro

Enquanto alternávamos os pés a bater no chão para enxotar o frio da noite de sexta-feira no bairro alto, tentando decidir onde beber um copo, a jovem de 30 anos, politicamente activa na esquerda moderada, bonita, sexy e presumivelmente inteligente, discorria acaloradamente sobre Salazar, atribuindo-lhe a suprema tacanhice da nossa história, verdadeiramente preocupada - eu diria traumatizada, não fosse o incontornável facto de ter nascido circa 1980 - com as repercussões da gestão financeira do estadista na miséria nossa de antanho e de hoje.
Foi, só vos digo, uma experiência altamente perturbadora.

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Paris Review

Acabei as "Entrevistas da Paris Review", seleccionadas e traduzidas por Carlos Vaz Marques e editadas pela Tinta da China. Como bem referiu um comentador atento deste blogue, que me deu a preciosa dica, são entrevistas realizadas para a mencionada revista, entre 1953 e 1968, a dez gigantes da literatura do século XX (E.M Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrenve Durell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges e Jack Kerouac) e constituem uma extraordinária abordagem ao fenómeno literário do século. Sendo impossível escolher a melhor, tal o nível de interesse de cada uma delas, destaco a de Jorge Luis Borges, aos 68 anos, que me deixou absolutamente deliciada, pela pertinência, a inteligência, bom senso, grandeza e acessibilidade do escritor por detrás do autor, temperadas por um magnífico sentido de humor:
Recordo-me de uma piada de Oscar Wilde: um amigo dele tinha uma gravata com as cores amarela, vermelha e por aí adiante, e Wilde disse-lhe: oh, meu caro amigo, só um surdo poderia usar uma gravata assim. (...) Lembro-me de ter contado esta história a uma senhora que não a percebeu de todo. Disse-me ela: claro, deve ser porque, sendo surdo, ele não podia ouvir o que as pessoas diziam da gravata dele. Oscar Wilde havia de achar isto divertido, não lhe parece? (...) Nunca ouvi falar de um tão perfeito mal-entendido. A perfeição da estupidez.
A partir da metáfora da cor berrante (loud colour), Borges extrapola em seguida:
Quando eu era jovem andava sempre à caça de novas metáforas. Descobri então que as metáforas verdadeiramente boas são sempre as mesmas. Quer dizer, compara-se o tempo com uma estrada, a morte com o sono, a vida com um sonho, e são essas as grandes metáfora da literatura porque correspondem a algo de essencial. Se inventarmos metáforas, elas são capazes de surpreender durante uma fracção de segundo, mas não provocam qualquer tipo de emoção profunda. Se pensarmos na vida como um sonho, isso é uma reflexão, uma reflexão que é real, ou pelo menos uma reflexão que a maioria das pessoas é levada a fazer, não é? "Quão frequentemente pensado, mas nunca tão brilhantemente expresso" ("What oft was thought, but ne'er so well expressed" citação de Alexander Pope). Acho isto melhor do que a ideia de chocar as pessoas, do que procurar ligações entre coisas que nunca antes tiveram qualquer ligação entre si, porque não há uma ligação real, portanto tudo não passa de uma espécie de malabarismo.
- Um malabarismo apenas de palavras?
De palavras, apenas.
Fica-me a vontade de oferecer este livro a todas as pessoas de quem gosto e que imagino que poderão apreciá-lo tanto quanto eu.

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

O princípio de Peter

Nunca percebi a excitação à volta dos romances de Paul Auster. A mim, sempre me exasperaram e ao fim de dois ou três arquivei o assunto decidindo que devia ser coisa de gajo, que me passava ao lado (pois eram sempre eles a discorrer deslumbradamente sobre a ironia, o desencantamento, o cepticismo e por aí fora). Aparentemente não era. Este homem arrasa com tudo - e, en passant, faz umas inesperadas referências a Saramago.

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Do método

Leitura metódica: é coisa que venho tentando todos estes anos e já levo muitos com resultados sofríveis. Anualmente, são tantos os livros que abandono (não a meio mas logo no princípio, que eu não sou persistente, sou teimosa, o que não é a mesma coisa, não servindo a segunda característica para este propósito), quantos os que levo até ao fim. Para 2010 proponho-me, como todos os anos, ler mais alguns clássicos, desta feita preencher lacunas na língua inglesa: Faulkner, Conrad e alguns outros. Tenho o Ulisses na minha mesa de cabeceira. Em seguida, inevitavelmente, regressar aos franceses. Penso: porquê perder tempo com isto, se ainda não li aquilo? A justificação toma facilmente a forma de dois seres humanos pequenos, absorventes, esgotantes, associados a um aparelho rectangular e luminoso que me permite, em seguida, viajar mentalmente com um mínimo de esforço; ou de livros que se lêem ao correr dos olhos e se apagam logo de seguida. Ora, nesta matéria, como em tantas outras, o esforço bem orientado gera grandes compensações. É essencialmente uma questão de disponibilidade mental, que produz vontade, determinação, tempo e, a final, satisfação - que por sua vez gera mais vontade, and so on. Parece-me um bom plano.

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Memory Lane: Don't Stop Believing

Passei pela nova série "hit" entre os adolescentes nos E.U. mesmo a tempo de me deparar com isto - e viajar até à adolescência. Quem se lembra dos "Journey"?
(façam click no link para o youtube)

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Nocturno

O cérebro prega partidas, recompõe o mosaico, 610 pedaços de cerâmica guardados por cores, brilhos e texturas, explorados e remexidos e no final colados na parede da memória. Há peças que sobressaem, como a palavra perfeita no momento exacto, a resposta que só caberia nos sonhos, o gesto espontâneo e irrepetível, o primeiro impulso, esperado, inesperado, ansiado ou repentino que é sempre, sempre, aquele que fica. São as coisas mais simples que perduram: a caminhada nocturna de descoberta e redescoberta, a travessia alucinada na cumplicidade subtil, reminiscência infantil, de duas mãos dadas. Tudo o que foi suave e o que foi firme, doce ou ofegante, o proferido e o indizível, o subentendido, o mal entendido, as regras não escritas, os excessos que nunca foram demais, as contenções, prisões, aquilo que é e nunca poderia ser: passado longínquo e presente amalgamados, perfazendo uma soma acertada mas fora do tempo, uma equação clara mas não resolvida. No sonho, repetia a pergunta, a única que se permitia.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Espera

Estou sempre a dizer ao de seis anos para não ser impaciente, que crescer é saber esperar. Mas sou um pobre exemplo nessa matéria.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Recorde pessoal

Este mês bati o recorde absoluto (bem sei, recorde absoluto é, nas presentes circunstâncias, uma redundância, mas serve para reforçar a ideia) do número de posts por mês. Isto, meus amigos, não é uma coisa boa: é a simples ausência de coisas melhores para fazer (assim de repente, ocorrem-me três ou quatro ou cinco).
É como diz aqui a Sofia.

sábado, 28 de Novembro de 2009

Manhã

Ao amanhecer as nuvens roçavam as janelas viradas a sul e este, brancas, densas, impenetráveis. O sol -las recuar e concentrou-as sobre o rio, como se um caudal branco e flutuante abraçasse a cidade e não houvesse margem de lá, apenas mais céu vertendo nuvens. Não fosse o topo da construção geométrica e avermelhada emergindo do algodão, julgaríamos que o mundo acabava aqui.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

ORWELL: Diaries

O meu olhar foi imediatamente atraído para o título do volume grosso no escaparate logo à entrada da Bulhosa das Amoreiras: ORWELL Diaries. Nem precisava de ler a badana para me certificar que as minhas teorias da treta - in casu, a exposta nos comentários ao post infra "Notas para um Post" - são tantas vezes infundadas. Mas confirmei: George Orwell was an inveterate keeper of diaries. Ora toma.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Regina Spektor - Fidelity

Esta música a certa altura ficou no ar e só agora a reencontrei.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Yes Sir

  • que a melhor série da actualidade é Mad Men.
  • que Seinfeld foi, é e será, imbatível.

About Mad Men e os loucos anos 60: Para além disto tudo, episódio atrás de episódio, temos todos os clichés que esperamos ver. Fuma-se nos hospitais, no elevador, nas carruagens de metro, as mulheres grávidas bebem martinis, o lixo é deitado no chão, mesmo em Parques Nacionais, a secretária espera ser beliscada no rabo pelo chefe e não acha mal, as crianças não são bem pessoas e um estalo ocasional é muito natural para toda a gente. No meio disto e de tanto estilo e estética a série podia ser uma fotografia e não um filme.

(às sextas-feiras na RTP 2)

Notas para um post

- nunca mantive um diário, sempre achei uma coisa assim meio pateta, coisa de menina.
- a certa altura tive um "caderno de anotar a vida" que não passou das 15 ou 20 primeiras páginas: achei-o piegas e inútil.
- como se explica então isto?
- porque é que os homens assumiram sem preconceitos, logo à partida, a versão electrónica dos diários (não me refiro aos que se resumem ao comentário politico e da actualidade, mas aos de que o Pacheco Pereira não gosta, i.e., os intimistas)?
- como é que os conceitos de esfera pública / esfera intima ou confessional se misturam?
- como é que isso pode ser relacionado com a psicologia masculina / feminina?
- huuuummmmmmm.............

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Ainda a caligrafia

Isto da caligrafia tem o que se lhe diga, e talvez não seja totalmente desprovida de sentido a professada relação com a personalidade do escrevedor. A minha mudou radicalmente ao longo dos anos, desde a busca da perfeição nos cadernos clairefontaine (são escassas as evidências, são sobretudo as imagens que guardo), passando pela indefinição insegura da adolescência, que redundou na incessante procura da forma que me corresponda. Está agora algures entre os gatafunhos de médico e umas figuras longilíneas e equilibradas, é conforme os dias. Psychoanalyze away.
O suporte físico desta observação resume-se quase exclusivamente aos livros onde fui apondo as três palavras que compõem parte do meu nome. Não há diários (nem nunca os houve, sublinho, enquanto reservo espaço mental para um post sobre o assunto), não sobram cadernos de escola, nem apontamentos de faculdade. Tenho reparado que não sou nada, mas mesmo nada, agarrada às recordações em forma de objectos. São-me perfeitamente inúteis e desprovidos de sentido, tão indiferentes que tanto calha deitá-los fora como não, e quando o faço é sem qualquer critério, primariamente motivada pela necessidade de arranjar espaço. Não guardo bilhetes nem bilhetinhos, cadernetas de notas ou desenhos, caixinhas da infância, bonecos, presentes ou lembrancinhas de qualquer espécie, tal como não passo os olhos pelos carimbos dos passaportes. No campo das lembranças corpóreas, tenho três excepções: (1) uma caixa da música que me deu uma família a que pertenci em tempos, (2) fotografias e (3) cartas de amor ou amizade, a que hoje correspondem alguns emails. As restantes coisas que às vezes emergem das gavetas são meros acasos à espera de um acesso de arrumação. Tudo isto, presumo, porque me agarro irredutivelmente às memórias emocionais e recordações mentais.
Podia ser também:

"Temos mantido em segredo as nossas mortes para tornar nossa vida possível."

As pequenas mortes que vamos acumulando até à morte derradeira, a final.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Heart

O recorte da margem sul do mar da palha é feito de pontinhos de luz amarela pulsante. Está uma noite limpa à janela do costume, tão escura quanto o vinho no meu copo ou o sangue injectado nas câmaras do meu coração remendado, que regurgita um bocadinho a cada batidela - não o suficiente para lhe prejudicar a funcionalidade, apenas o necessário para lembrar a imensidão da tarefa que lhe está confiada.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Caligrafia

Ontem, pela tardinha, num assomo de urgência inspirativa, deu-me para rabiscar, à mão, a primeira versão de umas alegações de direito que andavam a compor-se cá dentro. Hoje vejo-me em trabalhos para decifrar os rabiscos: é isto o que as novas tecnologias são capazes de fazer a uma caligrafia severamente formatada na infância. Imagine-se o que não farão pela das novas gerações.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Crónica da gripe A: dia 5

A mãe de uma coleguinha da de três anos garante-me, ao telefone, que a pediatra da filha dela lhe garantiu, ao telefone, que aquela febrinha com tosse que a filha e mais uma série de coleguinhas tiveram durante o fim-de-semana era gripe A, donde que aquela febre com muita tosse que a minha própria filha teve, de sexta a segunda-feira, não pode ter sido outra coisa senão gripe A, daí que aquela febre sem tosse nem mais nada que o de seis anos teve, domingo e segunda-feira, foi com toda a certeza gripe A, portanto esta febre baixinha com muitos espirros que tenho agora soa ser gripe A. Os meus filhos foram visitar o pediatra, que por acaso é aqui mesmo no prédio ao lado o que dá imenso jeito mas isso agora nem vem ao caso, que não lhes atestou na testa (passo o aparente pleonasmo) "gripe A",
SENDO CERTO QUE
a mãe da coleguinha da de três anos falou com a pediatra dela pelo telefone, o que, nesta realidade paralela em que vivemos hoje, pode constituir, sim senhora, informação muito mais relevante do que a minha. Fico portanto ansiosamente à espera do resultado da análise que a mãe da coleguinha de três anos da de três anos vai levá-la a fazer, amanhã. Entretanto se me encontrarem na rua (as crias já não estão doentes por isso a máquina já está em andamento), em vez de me espetarem um beijo ou dois passem-se discretamente para o passeio do outro lado. Um breve aceno me bastará.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Carne Trémula


O meu ciclo caseiro do cinema de Almodóvar reconduziu-me agora a "Carne Trémula" - e deixou-me com um sabor amargo. É, para mim, um filme triste, na medida em que retrata, nos casais que gravitam em torno do pólo Victor-Elena, o tema das relações desequilibradas, em que as partes persistem até concluírem, às vezes tão tarde, que aquela não era a melhor expressão/combinação possível de amor. Como na carta final de David a Elena, em que ele reconhece, olhando para trás, que nunca lhe vira um riso de pura alegria.